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O Ritmo dos Hormônios e das Batidas do Coração

O saguão do hotel em Curitiba estava mergulhado naquele silêncio artificial de madrugada, quebrado apenas pelo som baixo das malas de rodinhas deslizando pelo carpete. Ana conferia o check-out do grupo com uma agilidade mecânica, mas, por dentro, sentia como se houvesse uma orquestra de tambores tocando em seu estômago. Ela não treinava jiu-jítsu ou muay thai há exatos dez dias. Para quem usava o tatame como terapia para descarregar o estresse da administração e os fantasmas do passado, aquele hiato era perigoso.

Ela estava elétrica. A perna direita balançava freneticamente enquanto esperava o recepcionista imprimir os comprovantes. Para piorar, o calendário em seu celular não mentia: ela estava no auge do seu período fértil. A combinação de falta de endorfina e hormônios à flor da pele estava transformando sua habitual couraça de gelo em algo muito mais instável e inflamável.

— Ana, você tá bem? Você já conferiu essa lista três vezes e a gente nem saiu do lugar ainda — comentou Dihh Lopes, aproximando-se com uma mochila nas costas e aquele olhar de quem lê pensamentos.

— Estou ótima, Dihh. Só quero garantir que ninguém esqueça nada nos quartos, como o Thiago fez em Porto Alegre — respondeu ela, a voz um tom acima do normal. Ela prendeu o cabelo em um coque, soltou dois segundos depois e começou a morder a ponta da caneta.

— Você tá inquieta, guria — Afonso surgiu ao lado deles, o sotaque paranaense parecendo vibrar mais perto do ouvido de Ana do que o necessário. — Tá parecendo um bicho enjaulado. É o cansaço?

Ana sentiu um arrepio subir pela nuca. O cheiro do perfume de Afonso, uma mistura de madeira com algo cítrico, parecia dez vezes mais forte hoje. Ela desviou o olhar rapidamente, focando em uma mancha inexistente no balcão.

— É só falta de treino, Afonso. Ficar sem lutar me deixa... com muita energia acumulada — explicou ela, tentando manter a postura profissional, embora seus olhos tenham traído sua vontade e descido, por um milésimo de segundo, para os braços dele sob a camiseta de algodão.

— Ih, o perigo aumentou! — Thiago Ventura chegou rindo, acompanhado de Márcio Donato. — A nossa chefa tá querendo dar um mata-leão em alguém. Se eu fosse você, Afonso, tomava cuidado. Ela tá com uma cara de quem vai morder o primeiro que fizer piada.

— Não é pra tanto, Thiago — Márcio provocou, dando um gole em um café aguado. — Mas que ela tá estranha, tá. Esqueceu de pedir meu frigobar ontem, tive que descer pra pegar água. Isso nunca acontece. A Ana é um robô de organização.

Ana sentiu o rosto esquentar. Márcio tinha razão. Ela nunca esquecia nada. Mas, nos últimos dois dias, sua mente parecia um navegador com abas demais abertas, e a maioria delas tinha o rosto de Afonso Padilha como papel de parede.

— Desculpe, Márcio. Eu vou compensar isso. Agora, por favor, todos para a van. Temos um voo em duas horas e eu não vou tolerar atrasos — disse ela, recuperando um pouco da autoridade, embora o gesto de apertar a caneta tenha se tornado quase compulsivo.

Já no aeroporto, enquanto os meninos se distraíam com o celular ou cochilavam nos bancos de espera, Ana se afastou para ligar para uma amiga de infância, a única pessoa com quem se permitia ser vulnerável.

— Mari, eu estou enlouquecendo — sussurrou Ana, escondida atrás de uma pilastra. — Eu estou há dez dias sem treinar, meu corpo parece que vai explodir e, pra ajudar, eu estou naquela fase do mês.

— O período fértil? — a voz de Mari soou divertida do outro lado da linha. — Amiga, isso explica muita coisa. E o "alvo" continua por perto?

— Ele está a dez metros de mim, Mari. E ele está usando uma calça jeans que... meu Deus, eu nunca tinha notado como ele fica bem de jeans. Eu sou uma profissional, o que está acontecendo comigo? Eu sinto que se ele chegar perto de novo, eu vou ou gritar com ele ou... sei lá, fazer alguma besteira.

— É a biologia, Ana. E o fato de que você está atraída por ele há meses e fingindo que não. Relaxa. Você vai ter uma semana de férias depois desses três shows, lembra? Aguenta firme.

— Uma semana de férias. É meu único mantra — Ana suspirou, desligando o telefone.

Ao se virar, deu de cara com Afonso. Ele segurava dois copos de suco.

— Maracujá. Achei que você estivesse precisando — disse ele, estendendo o copo. — Você parecia estar tendo um colapso nervoso ali com o celular.

Ana aceitou o suco, sentindo o gelo do copo aliviar o calor súbito nas mãos.

— Obrigada, Afonso. De verdade.

Eles ficaram em silêncio por um momento, observando o movimento do portão de embarque. A tensão entre eles era quase palpável, um fio invisível que se esticava a cada segundo. Ana, movida por aquela impulsividade que a falta de muay thai lhe causava, acabou soltando uma pergunta que jamais faria em condições normais.

— Afonso... você, como homem, nota quando as mulheres ao seu redor mudam de comportamento? Tipo... por causa de hormônios, ciclo menstrual, essas coisas?

Afonso arqueou uma sobrancelha, surpreso com a direção da conversa, mas não desviou o olhar. Ele deu um sorriso de canto, aquele que sempre fazia as defesas de Ana desmoronarem.

— Olha, depende do nível de convivência. No palco a gente faz muita piada sobre isso, mas na vida real... a gente percebe quando a pessoa fica mais sensível ou irritada. Por quê? Você acha que eu notei que você está prestes a explodir desde que acordamos?

Ana riu, um som genuíno que raramente escapava.

— É tão óbvio assim?

— Um pouco — ele admitiu, aproximando-se um passo, diminuindo a distância de segurança que ela tanto tentava manter. — Mas não é uma coisa ruim, Ana. Todo mundo tem seus dias de ficar mais "pilhado". Estresse, rotina, biologia... isso faz parte. Mas nada disso muda quem você é. Você continua sendo a pessoa mais competente que eu já conheci. E a mais bonita também, mesmo quando está querendo matar o Thiago.

O elogio caiu como uma bomba silenciosa. Ana sentiu a insegurança do passado — as críticas do ex-noivo sobre como ela ficava "insuportável" e "feia" quando estava tensa — tentar emergir, mas o olhar de Afonso era diferente. Não havia julgamento ali, apenas uma curiosidade genuína e um carinho que ela não sabia como processar.

— Eu não sou de ferro, Afonso — ela disse, a voz quase um sussurro. — Às vezes eu tenho medo de que, se eu baixar a guarda, tudo o que eu construí desmorone.

— Ninguém é de ferro. E se você baixar a guarda, talvez descubra que tem gente disposta a segurar o piano com você — ele respondeu, com uma seriedade que a desarmou completamente.

— Ih, olha lá! — a voz de Thiago ecoou pelo saguão, quebrando o momento. — O Afonso tá fazendo a palestra motivacional dele pra ver se ganha um aumento ou um beijo. Eu aposto no aumento, porque a Ana não cai nesse papinho de paranaense.

Ana se afastou rapidamente, ajeitando a blusa, enquanto Afonso soltava um suspiro de frustração, mas mantinha o sorriso.

— Vai cuidar da sua vida, Thiago! — Afonso gritou de volta, rindo.

Os três shows seguintes foram um borrão de adrenalina. Ana trabalhou no limite, usando cada grama de sua energia para manter a turnê nos trilhos. No entanto, a proximidade com Afonso tornou-se inevitável. Eram toques acidentais nos bastidores, trocas de olhares durante as piadas no palco e conversas curtas, mas profundas, nas vans entre um hotel e outro.

Dihh, Márcio e Thiago assistiam a tudo como se fosse um reality show de primeira linha.

— Cinquenta reais que ele se declara antes das férias dela — cochichou Márcio para Dihh, enquanto observavam Afonso ajudar Ana com uma caixa pesada de equipamentos.

— Ele não tem coragem — rebateu Dihh. — Ele está com medo dela dar um chute giratório nele. Mas que ele está apaixonado, ele está. Olha o jeito que ele olha pra ela quando ela não está vendo. Parece um Golden Retriever esperando o dono chegar.

No último show daquela etapa, em São Paulo, o clima era de celebração. Após o encerramento, o grupo se reuniu no camarim para um brinde final antes da semana de folga. Ana, finalmente sentindo o peso do cansaço vencer a agitação hormonal, sentou-se em um canto com seu pequeno copo de whisky de baunilha.

Afonso se aproximou, sentando-se no chão ao lado da cadeira dela, sem se importar com a roupa de show.

— Você conseguiu, chefa. Mais uma etapa concluída com sucesso — disse ele, levantando sua garrafa de água em um brinde silencioso.

— Sobrevivi — ela sorriu, sentindo o calor do whisky descer suavemente. — Agora, uma semana de tatame, suco de maracujá e silêncio.

— Você vai sentir falta da gente — provocou ele.

— Vou sentir falta da organização. De vocês... talvez do Dihh — ela brincou, recebendo um olhar de falsa ofensa de Afonso.

— Ah, é? Só do Dihh?

Ana olhou para ele, e por um momento, a barreira não estava lá. Ela viu o homem por trás do humorista, aquele que percebia seus silêncios e respeitava seu espaço.

— Vou sentir falta das suas provocações, Afonso. Elas me mantêm alerta.

— Só das provocações? — Ele inclinou a cabeça, os olhos fixos nos dela.

Ana sentiu o coração disparar. O medo de se machucar ainda estava lá, uma cicatriz que nunca sumiria totalmente, mas a vontade de se permitir sentir algo novo era, pela primeira vez em anos, maior do que o medo.

— Talvez de outras coisas também — ela admitiu, a voz baixa.

Antes que Afonso pudesse responder, Thiago entrou no camarim gritando que a pizza tinha chegado, arrastando o resto do grupo com ele. Mas o estrago — ou o milagre — já estava feito.

Enquanto arrumava suas coisas para ir embora, Ana percebeu que sua agenda, sempre tão cheia de compromissos e estratégias, agora tinha um espaço em branco que ela não sabia como preencher. Ou talvez soubesse, mas ainda estivesse aprendendo a aceitar que nem tudo na vida precisa de um plano de marketing.

Afonso a acompanhou até o carro no estacionamento. O ar da noite paulistana estava fresco.

— Boa semana de treinos, Ana. Tenta não quebrar o pescoço de ninguém pensando em mim — brincou ele, enquanto abria a porta para ela.

— Vou tentar, Afonso. Mas não prometo nada — ela respondeu, entrando no carro.

Ele fechou a porta, mas antes que ela desse a partida, ele bateu levemente no vidro. Ela abaixou.

— Ana?

— Oi?

— Eu não ligo para os hormônios ou para a falta de treino. Eu gosto de você de qualquer jeito. Com agenda ou sem agenda.

Ele não esperou por uma resposta. Apenas deu um tchauzinho e voltou para o teatro, deixando Ana sozinha com o som do motor e um sorriso que, desta vez, chegou finalmente aos seus olhos.

Ela dirigiu para casa sentindo que, embora o passado tivesse deixado marcas, o futuro estava começando a ganhar um sotaque paranaense e um ritmo que nenhuma planilha de Excel seria capaz de prever. A semana de férias seria para treinar o corpo, mas ela sabia que seu coração já tinha perdido aquela luta por nocaute técnico. E, pela primeira vez, ela não se importava nem um pouco em perder.

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