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O Sal da Pele e o Azul do Mar

O saguão do hotel cinco estrelas em São Paulo exalava aquele cheiro característico de carpete limpo e aromatizante caro, mas para Ana, o único cheiro que importava era o do mar que ainda parecia impregnado em seus cabelos. Eram quase meia-noite. O silêncio do ambiente só era interrompido pelo som seco dos seus saltos altos contra o mármore polido. Ela caminhava com uma confiança que não possuía dez dias atrás. A viagem com as amigas para o Ceará tinha sido o antídoto perfeito: sol, risadas, algumas doses de whisky de baunilha à beira-mar e, acima de tudo, a reconexão com o espelho.

Ela não era mais a mulher que se escondia atrás de blazers largos e agendas de couro. Naquela noite, ela era a mulher no vestido azul-marinho de seda, curto o suficiente para exibir as pernas bronzeadas e com um decote nas costas que descia perigosamente até a lombar, revelando a pele dourada pelo sol de Fortaleza.

Ao se aproximar dos elevadores, as portas de um deles se abriram. De lá, saíram quatro figuras barulhentas e exaustas, ainda com a adrenalina de quem acabara de descer de um palco. Thiago Ventura foi o primeiro a travar os passos, quase sendo atropelado por Márcio Donato.

— Mas o que é isso? — Thiago exclamou, arregalando os olhos. — Gente, chamem a segurança, tem uma modelo internacional invadindo o nosso hotel!

Ana soltou uma risada leve, jogando o cabelo para o lado. O movimento fez o tecido do vestido deslizar suavemente, e o brilho nos olhos dela era algo que os meninos não viam há muito tempo.

— Menos, Thiago. Bem menos — disse ela, embora o sorriso em seu rosto fosse de pura satisfação.

— Menos nada! — Márcio deu a volta nela, fazendo uma inspeção cômica. — Ana, você foi pro Ceará ou foi fazer uma harmonização na alma? Você tá... radiante, guria. E esse vestido? Se o Afonso vê isso, ele esquece como se fala português.

— Onde ele está? — perguntou Ana, tentando manter a voz casual, embora seu coração tivesse dado um salto ao ouvir o nome dele.

— Ficou lá atrás resolvendo um negócio com o produtor local — respondeu Dihh Lopes, aproximando-se com um sorriso mais contido, mas igualmente surpreso. — Você está ótima, Ana. De verdade. O descanso te fez bem.

— Fez muito bem, Dihh. Eu precisava desse tempo — ela confessou, apertando a alça da pequena bolsa de mão. — Mas agora eu só quero uma cama. Tenho menos de seis horas de sono antes do check-out e da nossa logística de amanhã. A farra acabou, amanhã eu volto a ser a carrasca de vocês.

— Ih, a carrasca voltou de azul — Thiago brincou, dando um passo para o lado para deixá-la passar. — Vai lá, descansa. Mas ó, se prepara, porque o "chefe" ali vai ter um treco quando te encontrar no café da manhã.

Ana acenou para os três e entrou no elevador. Enquanto as portas se fechavam, ela viu Thiago e Márcio começarem a cochichar e rir, provavelmente já planejando as piadas do dia seguinte. Ela suspirou, encostando a cabeça na parede espelhada do elevador. Sua autoestima estava revigorada, mas a ideia de enfrentar Afonso depois daquela despedida no estacionamento ainda a deixava com as mãos levemente trêmulas.

O corredor do décimo andar estava mal iluminado. Ana procurava o cartão do quarto na bolsa quando ouviu o som metálico de uma porta se fechando ao fundo. Ela não precisou se virar para saber quem era. O passo era firme, mas cadenciado.

— Ana? — A voz de Afonso soou rouca, carregada de um cansaço que pareceu evaporar no instante em que ele a viu.

Ela se virou lentamente. Afonso estava parado a poucos metros, vestindo uma camiseta preta básica e com o cabelo levemente bagunçado. Ele parou abruptamente, os olhos percorrendo-a de cima a baixo em um silêncio que pareceu durar uma eternidade. O olhar dele demorou-se nas pernas bronzeadas, subiu pela cintura marcada pelo corte do vestido e, finalmente, encontrou os olhos dela.

— Oi, Afonso — disse ela, mantendo a voz firme, apesar do turbilhão interno. — Acabei de chegar.

Afonso deu dois passos à frente, como se precisasse confirmar que ela era real.

— Você está... — Ele começou, mas a frase morreu no meio do caminho. Ele pigarreou, tentando recuperar a postura. — O Ceará te fez muito bem. Você está diferente. Mais...

— Mais eu mesma? — ela sugeriu, com um pequeno sorriso.

— É. Mais você — ele concordou, a voz baixando um tom. — Eu achei que você só chegaria amanhã de manhã.

— Eu queria adiantar as coisas. Organizar os cronogramas antes de vocês acordarem — ela explicou, voltando a procurar o cartão na bolsa para evitar a intensidade do olhar dele. — Você sabe como eu sou.

— Eu sei como você tenta ser — Afonso deu mais um passo, agora perigosamente perto. — Mas acho que essa Ana que voltou da praia não está tão preocupada com cronogramas agora.

Ana finalmente encontrou o cartão e, ao puxá-lo, acabou deixando cair um pequeno batom que rolou pelo carpete. Antes que ela pudesse se abaixar, Afonso foi mais rápido. Ele recolheu o objeto e, ao se levantar, ficou a poucos centímetros dela. Foi quando ela se virou para pegar o batom que o decote das costas ficou totalmente visível para ele.

Ela ouviu a respiração dele falhar por um segundo.

— Ana... — ele murmurou, a mão que segurava o batom hesitando. — Esse vestido... você quer me matar antes do show de amanhã?

— É só um vestido, Afonso — ela retrucou, mas o sarcasmo habitual estava sendo substituído por uma tensão elétrica. — Eu bebi com as minhas amigas, fui à praia, me senti bonita e resolvi usar algo que não fosse um uniforme de trabalho. Algum problema com a administração?

Afonso deu um sorriso curto, mas não era o sorriso de piada que ele usava no palco. Era algo mais profundo, mais faminto.

— Problema nenhum. Pelo contrário. É o melhor relatório administrativo que eu já vi na vida — ele disse, estendendo o batom para ela, mas sem soltá-lo imediatamente quando ela o tocou. — Eu senti sua falta.

O coração de Ana martelou contra as costelas. A segurança que ela havia construído na praia estava sendo testada ali, naquele corredor silencioso. As palavras do ex-noivo, que costumavam sussurrar que ela não era atraente o suficiente, foram abafadas pelo modo como Afonso a olhava — como se ela fosse a única coisa que importava no mundo.

— Foram só dez dias, Afonso — ela sussurrou, a voz vacilando.

— Foram os dez dias mais longos da turnê — ele rebateu. — O Thiago não parou de falar, o Márcio reclamou de tudo e o Dihh ficou me lembrando a cada cinco minutos de que eu estava com cara de quem perdeu o rumo. E ele tinha razão.

Ele soltou o batom e, com uma coragem que parecia vir da mesma fonte que sua espontaneidade no palco, levou a mão ao rosto dela, afastando uma mecha de cabelo que caía sobre os olhos. O toque da mão dele era quente contra a pele bronzeada de Ana.

— Você está linda, Ana. Não só por causa do vestido ou do bronzeado. Tem algo em você que... eu não sei explicar. Parece que você finalmente se viu do jeito que eu te vejo.

Ana fechou os olhos por um breve segundo, entregando-se à sensação do toque dele.

— Eu tive muito medo, Afonso — ela confessou, a barreira emocional finalmente cedendo um pouco. — Medo de que, se eu mostrasse quem eu realmente sou, ou como eu gosto de me vestir, ou o que eu sinto... as pessoas me olhassem e vissem apenas defeitos.

Afonso aproximou o rosto do dela, o hálito fresco de hortelã misturando-se ao perfume dela.

— Então as pessoas são cegas. Porque tudo o que eu vejo é a mulher que carrega esse grupo nas costas, que é inteligente pra caramba e que fica absolutamente perfeita nesse azul.

Ele deslizou a mão do rosto dela para a nuca, os dedos tocando a pele exposta pelo decote das costas. Ana sentiu um calafrio percorrer todo o seu corpo. O desejo, intensificado pelo período fértil e pela liberdade das férias, atingiu o ápice. Ela queria puxá-lo para dentro do quarto, esquecer as seis horas de sono e o profissionalismo.

— Afonso... a gente tem que acordar cedo — ela disse, embora suas mãos tivessem subido para o peito dele, agarrando levemente o tecido da camiseta preta.

— Eu sei — ele murmurou, a boca a milímetros da dela. — Mas eu não acho que vou conseguir dormir agora de qualquer jeito.

Antes que o beijo acontecesse, uma porta se abriu no corredor oposto. Thiago Ventura apareceu usando um pijama de flanela e segurando um balde de gelo vazio.

— Ô, Afonso! O Márcio tá perguntando se você tem... — Thiago parou, olhando para a cena. — Ah, não. De novo? No corredor? Vocês não têm quarto não?

Ana se afastou bruscamente, o rosto queimando de vergonha, enquanto Afonso soltava um suspiro pesado de frustração, jogando a cabeça para trás.

— Thiago, eu juro por tudo o que é mais sagrado, eu vou te demitir do seu próprio grupo — Afonso rosnou, embora houvesse um fundo de riso na sua voz.

— Demitir nada! Eu sou o cupido dessa relação — Thiago riu, balançando o balde de gelo. — Ana, não deixa ele te enrolar com esse papo de paranaense romântico não. Ele só quer que você faça a planilha de gastos dele amanhã.

— Vai pegar seu gelo, Thiago! — Afonso gritou.

Thiago saiu saltitando pelo corredor, rindo alto. A quebra do momento trouxe Ana de volta à realidade. Ela olhou para o cartão em sua mão e depois para Afonso. A tensão ainda estava lá, mas o peso do cansaço e a responsabilidade do dia seguinte começaram a pesar.

— Ele tem razão em uma coisa — disse Ana, tentando recuperar o fôlego. — A gente precisa descansar. Amanhã o dia vai ser longo.

Afonso assentiu, embora seus olhos ainda brilhassem com o que acabara de acontecer.

— Tudo bem. Mas não pense que esse assunto acabou, Ana. A gente ainda vai conversar sobre esse vestido. E sobre o que você quase disse.

— Eu não disse nada, Afonso — ela provocou, recuperando seu tom sarcástico enquanto encostava o cartão na fechadura eletrônica.

— Não precisou — ele piscou para ela. — Seus olhos disseram tudo. Boa noite, chefa.

— Boa noite, Afonso.

Ana entrou no quarto e fechou a porta, encostando as costas na madeira e deixando o corpo escorregar até o chão. Seu coração batia tão forte que ela conseguia ouvi-lo no silêncio do quarto. Ela tocou a própria nuca, onde os dedos dele estiveram segundos antes.

Ela tinha menos de seis horas de sono. Tinha uma turnê para gerenciar, quatro humoristas para controlar e uma autoestima que ainda estava em fase de construção. Mas, enquanto se levantava para tirar o vestido e se preparar para o dia seguinte, Ana sorriu para o próprio reflexo no espelho do banheiro.

A viagem ao Ceará a tinha lembrado de quem ela era. Mas aquele momento no corredor a tinha mostrado quem ela poderia ser. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não estava com medo do que viria a seguir.

No quarto ao lado, Afonso Padilha deitou-se na cama, mas o sono estava longe. Ele só conseguia pensar no azul-marinho, no cheiro de baunilha e na certeza de que, daqui para frente, nada mais seria estritamente profissional. E ele mal podia esperar para ver a cara de Thiago, Márcio e Dihh quando percebessem que, desta vez, as piadas deles tinham finalmente se tornado realidade.