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O Xeque-Mate da Chefa
O sol de São Paulo entrava pelas frestas da cortina do hotel com uma insistência que Ana achava quase ofensiva. Eram sete da manhã. O ritual era o mesmo de sempre: o tablet carregado, a agenda de couro aberta na página do dia e o celular vibrando com notificações de fornecedores. Mas algo estava diferente. O vestido azul-marinho da noite anterior estava pendurado no cabide, um lembrete silencioso de que a "Ana administradora" estava perdendo terreno para uma versão de si mesma que ela mal reconhecia.
Ela se olhou no espelho enquanto prendia o cabelo em um rabo de cavalo firme. A pele ainda tinha o viço do Ceará, mas os olhos denunciavam a falta de sono. O encontro no corredor com Afonso tinha ficado em looping na sua mente, como um vídeo que ela não conseguia parar de assistir. O toque dele na sua nuca ainda parecia queimar.
— Foco, Ana. Hoje é dia de fechamento, logística de transporte para o interior e lidar com quatro marmanjos — sussurrou para si mesma, tentando invocar sua armadura profissional.
Ao descer para o café da manhã, o cenário era o caos habitual. Thiago Ventura estava tentando equilibrar três pães de queijo na mão enquanto discutia com Márcio Donato sobre quem tinha roncado mais alto. Dihh Lopes, como sempre, era o único que parecia funcional, observando a cena com um café preto na mão.
Quando Ana se aproximou da mesa, o silêncio caiu por exatamente dois segundos, antes de Thiago explodir.
— Bom dia, dona do meu contrato! — Thiago gritou, fazendo as pessoas nas mesas vizinhas olharem. — Dormiu bem ou ficou sonhando com o "advogado de defesa" do Paraná?
— Bom dia, Thiago. Vejo que sua maturidade continua no nível pré-escolar — Ana respondeu, sentando-se e servindo-se de um suco de maracujá, ignorando a cadeira vazia ao lado de Afonso, que acabara de chegar com um prato de frutas.
Afonso estava quieto. Ele usava um boné e olhava para Ana com uma intensidade que a fazia querer conferir a agenda dez vezes seguidas.
— Você está bem, Ana? — perguntou Afonso, a voz mais baixa que a dos outros. — Parecia cansada ontem à noite.
— Estou ótima, Afonso. Já resolvi o problema do transfer das dez e a nota fiscal da iluminação já foi emitida — ela disse, sem olhar para ele, focada no tablet.
— Ih, olha lá — Márcio cutucou Dihh. — Ela voltou pro modo robô. O vestido azul foi um delírio coletivo, gente. A carrasca está de volta.
— Não é robô, Márcio — Dihh comentou, com um sorriso de lado. — É tática de defesa. A Ana sabe que se ela der um milímetro de abertura, o Afonso aqui vira um tapete pra ela passar por cima.
Afonso deu um chute por baixo da mesa em Dihh, que apenas riu.
— Deixem a menina tomar o suco dela — Afonso defendeu, mas seus olhos não saíam de Ana. — Ela tem muito o que organizar hoje.
O dia seguiu em um ritmo frenético. Eles pegaram a estrada para uma cidade do interior de São Paulo. Dentro da van, a dinâmica era a de sempre: piadas internas, ensaios de textos novos e provocações constantes. Ana, sentada no banco da frente ao lado do motorista, tentava se concentrar nas planilhas, mas sentia o olhar de Afonso em suas costas pelo retrovisor interno.
Sempre que a van passava por um buraco e os corpos se sacudiam, ela sentia uma eletricidade estranha. A falta de treino de muay thai ainda a deixava com uma energia acumulada que parecia se transformar em desejo puro toda vez que ouvia a risada de Afonso. O período fértil, que ela esperava que tivesse passado, parecia estar em seu último e mais intenso dia.
Ao chegarem ao teatro, a correria dos bastidores começou. Ana corria de um lado para o outro. Ela conferia os microfones, checava o camarim e garantia que o whisky de baunilha — seu pequeno luxo pós-show — estivesse guardado.
Em um momento de pausa, ela entrou no camarim principal para deixar as garrafas de água. Afonso estava lá sozinho, trocando de camiseta. As costas dele estavam expostas, os músculos se movendo enquanto ele puxava a peça de roupa. Ana parou na porta, a respiração travando na garganta.
Ele se virou e, ao vê-la, não se apressou em vestir a camiseta.
— Precisa de ajuda com alguma coisa, Ana? — perguntou ele, caminhando em direção a ela com uma confiança que a deixava tonta.
Ana apertou a prancheta contra o peito. A voz do seu ex-noivo, que um dia disse que ela era "tensa demais para ser desejada", tentou surgir, mas foi calada pela forma como Afonso a olhava. Ele não a via como uma administradora ou como um problema a ser resolvido. Ele a via como mulher.
— Eu... eu só vim deixar as águas — ela gaguejou, algo raro para a mestre em Marketing.
Afonso parou a centímetros dela. O calor que emanava do corpo dele era quase insuportável para os sentidos aguçados de Ana.
— Você está fugindo de mim desde o café da manhã — ele afirmou, a voz suave, mas firme. — O que aconteceu no corredor ontem... foi real, Ana. Eu não estava brincando.
— Afonso, a gente trabalha junto. Se isso der errado, o grupo... — ela começou, mas ele a interrompeu, colocando a mão sobre a dela na prancheta.
— O grupo sobrevive. A gente sobrevive. Mas eu não sei se eu sobrevivo mais uma semana vendo você se esconder atrás dessa agenda quando eu sei que você sente o mesmo que eu.
Ana olhou para baixo, para as mãos dele. Ela sentia que estava prestes a explodir. A combinação de estresse, falta de endorfina do tatame e a atração avassaladora por aquele homem a levou ao limite. Ela soltou a prancheta em cima de uma mesa lateral com um baque seco.
— Você não tem ideia do que eu sinto, Afonso — ela disse, a voz agora firme, os olhos brilhando com uma coragem repentina.
— Então me mostra — ele desafiou.
Antes que qualquer coisa acontecesse, a porta se abriu com um estrondo.
— ACHEI! — Thiago Ventura entrou como um furacão. — Achei meu carregador! Ah... oi, gente. Atrapalhei o ensaio de "Romeu e Julieta da Administração"?
Ana se afastou rapidamente, pegando a prancheta de volta.
— Thiago, você quase me matou de susto! — ela exclamou, tentando normalizar a respiração.
— Sei, sei... o susto foi o carregador ou o fato do Afonso estar sem camisa na sua frente? — Thiago riu, pegando o cabo no sofá. — Juízo, hein? O show começa em vinte minutos e eu não quero o Afonso entrando no palco com marca de batom no pescoço. Ia ser difícil de explicar pro público de família.
Thiago saiu rindo, e a tensão se quebrou, mas deixou um rastro de frustração no ar.
O show foi um dos melhores da temporada. A química entre os quatro estava incrível, e as piadas sobre "o paranaense apaixonado" levaram a plateia ao delírio, embora ninguém ali, exceto os quatro, soubesse o quanto de verdade havia naquelas provocações.
Ana assistia dos bastidores, sentada em sua banqueta habitual. Ela bebia um pouco do seu whisky de baunilha direto de um copo de papel para disfarçar. O álcool ajudava a acalmar os nervos, mas a imagem de Afonso sem camisa não saía de sua cabeça.
Quando o show terminou e os aplausos cessaram, o grupo voltou para o camarim exausto. Após as fotos com os fãs e as obrigações contratuais, finalmente ficaram sozinhos.
— Galera, eu vou direto pro hotel — anunciou Márcio. — Tô morto.
— Eu também — concordou Dihh. — Thiago, você vem?
— Vou nada, vou ver se acho algum lugar pra comer um lanche — Thiago disse, olhando de soslaio para Afonso e Ana. — E vocês dois? Vão ficar conferindo o inventário dos cabos de som?
— Eu preciso terminar o relatório de bilheteria — mentiu Ana, sem olhar para ninguém.
— E eu vou ajudar ela — Afonso disse, com uma naturalidade que fez Thiago soltar uma risadinha.
— Aham, ajudar. Sei. Boa sorte com o "relatório", Afonso. Cuidado pra não errar os cálculos — Thiago piscou e saiu com os outros.
O silêncio que se seguiu no camarim era denso. O som distante da equipe de limpeza varrendo o teatro era o único ruído. Ana estava sentada à mesa, o tablet aberto, mas seus dedos não se moviam. Afonso estava encostado na porta, observando-a.
Ele caminhou até ela e colocou a mão no encosto da cadeira.
— O relatório pode esperar, Ana.
Ela se virou para ele. A luz do camarim era amarelada e quente. A barreira que ela levou anos para construir estava em ruínas. A insegurança sobre seu corpo, as críticas do passado, o medo de ser "insuportável"... tudo parecia pequeno perto da necessidade latente que ela sentia agora.
— Afonso — ela começou, a voz trêmula.
— Oi?
Ana se levantou. Ela era menor que ele, mas naquele momento, parecia dominar o espaço. Ela deu um passo à frente, fechando a distância. O cheiro de baunilha do whisky em seu hálito misturava-se ao perfume dele.
— Eu passei os últimos dez dias tentando me convencer de que eu não precisava de ninguém. Que o meu trabalho era o suficiente. Que eu era mais segura sozinha — ela disse, os olhos fixos nos dele.
— E você descobriu o quê? — perguntou ele, a voz rouca, as mãos encontrando a cintura dela.
Ana sorriu, um sorriso que não tinha nada de sarcástico e tudo de entrega. Ela se inclinou, sussurrando perto do ouvido dele, a voz carregada de uma urgência que o fez estremecer.
— Descobri que eu sou humana, Afonso. E que eu estou cansada de ser a chefa organizada por hoje.
Ela se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele, a mão subindo pela nuca dele, os dedos se perdendo no cabelo bagunçado.
— Afonso, por favor, me pega hoje vai — ela disse, com uma franqueza que o pegou de surpresa.
Afonso não precisou de um segundo convite. Ele a puxou para um beijo que era a culminação de meses de tensão reprimida, de piadas de bastidores e de olhares roubados. Era um beijo faminto, que carregava toda a vontade que ambos vinham escondendo.
Ele a levantou, sentando-a na mesa de maquiagem, espalhando alguns pincéis e papéis pelo chão. Ana entrelaçou as pernas na cintura dele, puxando-o para mais perto, sentindo a força e a solidez que ele oferecia.
— Você tem certeza? — ele murmurou entre os beijos, a respiração ofegante contra o pescoço dela. — Amanhã a gente ainda tem que trabalhar.
— Amanhã eu volto a ser a administradora — ela respondeu, puxando a camiseta dele para cima. — Mas agora, eu só quero ser sua.
O camarim, que antes era apenas um lugar de trabalho e estresse, tornou-se o palco da maior verdade que Ana já havia permitido a si mesma viver. Ali, entre espelhos iluminados e o resto de maquiagem, ela percebeu que Afonso não a via como alguém a ser consertada. Ele a via como alguém a ser amada, com todas as suas agendas, seus traumas e sua competência absurda.
Algum tempo depois, enquanto o silêncio voltava a reinar no teatro agora vazio, Ana estava encostada no peito de Afonso, que a abraçava por trás enquanto ela tentava, sem muito sucesso, reorganizar o cabelo.
— Sabe que o Thiago vai perceber em cinco segundos amanhã, né? — Afonso comentou, beijando o ombro dela.
— Ele já percebeu há meses, Afonso. A gente é que foi lerdo — ela riu, sentindo uma leveza que não sentia há anos.
— É, mas amanhã ele vai ter provas materiais. Você está com aquela cara de quem finalmente tirou férias.
Ana se virou nos braços dele, passando os braços pelo seu pescoço.
— Deixa ele falar. Pela primeira vez, eu não me importo de ser o motivo da piada.
— Nem eu — Afonso sorriu, selando o momento com um beijo calmo. — Mas ó, amanhã eu ainda quero meu suco de maracujá sem açúcar, viu, chefa?
Ana deu um tapa leve no braço dele, rindo.
— Não abusa, paranaense. A promoção foi só por uma noite. Amanhã, se você se atrasar pro transfer, eu te deixo pra trás.
— Duvido — ele piscou.
Eles saíram do teatro de mãos dadas, caminhando pelo estacionamento deserto. Ana olhou para o céu estrelado do interior e sentiu que, embora a vida não pudesse ser totalmente planejada como uma de suas planilhas, o roteiro que estava vivendo agora era muito melhor do que qualquer um que ela pudesse ter escrito.
O passado ainda estava lá, mas não tinha mais o poder de ditar o seu futuro. Ela era Ana: cearense, administradora, mestre em Marketing, faixa-azul de muay thai e, finalmente, uma mulher que não tinha mais medo de sentir.
E enquanto entravam no carro, ela soube que a turnê dos 4 Amigos nunca mais seria a mesma. Porque agora, nos bastidores, havia algo muito mais forte do que a organização: havia a entrega de dois corações que decidiram, finalmente, jogar a agenda fora e seguir o ritmo um do outro.