Voltar ao resumo

..

O Brilho Fora das Câmeras

A ausência de Ana no estúdio era quase palpável, como se o oxigênio do ambiente tivesse sido reduzido em trinta por cento. Para a equipe técnica, significava apenas que eles teriam que se esforçar um pouco mais para manter o cronograma. Para os outros quatro comediantes, era a oportunidade perfeita para testar os limites da sanidade de seu apresentador. Mas para Fabiano Cambota, o estúdio parecia estranhamente cinza.

Ele tentava se concentrar nas fichas de pauta, mas seus olhos teimavam em buscar a figura esguia, geralmente posicionada perto do monitor principal, com seu tablet e aquele olhar de quem tinha o mundo sob controle. Ana estava de folga. Um merecido descanso após semanas de gravações intensas, mas Cambota sentia que estava operando em modo de emergência.

— O capitão está perdido, olha lá — cochichou Thiago Ventura enquanto o maquiador retocava o pó em seu rosto. — Ele já leu a mesma ficha três vezes e ainda não percebeu que o nome do convidado está de cabeça para baixo.

— É abstinência — Rodrigo Marques completou, rindo. — Ele se viciou na eficiência da Ana. Sem ela, o Fabiano é só um goiano errante em busca de uma planilha de Excel.

Cambota ouviu e, desta vez, nem se deu ao trabalho de retrucar com o sarcasmo habitual. Ele apenas suspirou. Precisava terminar aquela gravação o mais rápido possível. Eles haviam combinado de sair naquela noite — um jantar de verdade, longe dos olhos curiosos da equipe e das piadas de quinta série dos amigos.

A gravação foi, milagrosamente, uma das mais rápidas da temporada. Talvez porque Cambota estivesse correndo com os blocos como se sua vida dependesse disso. Assim que o diretor gritou o último "Corta!", Fabiano não esperou as palmas da plateia cessarem totalmente. Ele agradeceu, fez uma reverência rápida e saiu de cena em uma velocidade que deixou Rafael Portugal confuso.

— Ué, o homem está com pressa? Nem vai ficar para o café? — gritou Rafael, mas Cambota já estava no corredor.

No camarim, o processo de "desmontagem" foi frenético. Ele arrancou o paletó, jogou a gravata sobre o sofá de couro e tentou tirar a maquiagem pesada da TV com uma agilidade quase cômica. Ele queria estar perfeito, mas, acima de tudo, queria estar com ela.

Vinte minutos depois, ele estacionava o carro em frente ao prédio de Ana. O coração, que ele costumava manter em um ritmo estável de stand-up, parecia estar fazendo um solo de bateria de heavy metal. Quando ela finalmente apareceu no hall do prédio, o mundo ao redor de Fabiano simplesmente parou de girar.

Ana não estava com o uniforme tático de produtora. Não havia tablet, nem crachá, nem o cabelo preso em um coque funcional. Ela usava um vestido de seda verde escuro que realçava seu tom de pele, os cabelos soltos caíam em ondas sobre os ombros e ela usava um batom que, para Cambota, deveria ser considerado uma arma proibida.

Ele saiu do carro, sentindo-se como um adolescente no primeiro baile.

— Você está... — Ele começou, mas a voz falhou. Ele limpou a garganta. — Ana, eu trabalho com as palavras e, honestamente, agora eu esqueci todas elas.

Ana deu aquele sorriso que ele tanto amava, mas que agora parecia carregado de uma confiança nova, uma feminilidade que ela costumava esconder sob a casca profissional.

— É apenas um vestido, Fabiano — disse ela, aproximando-se. — Mas admito que é bom não ser "a produtora" por algumas horas.

— Para mim, você é espetacular em qualquer papel — ele respondeu, abrindo a porta do carro para ela. — Mas hoje, eu pretendo ser apenas o cara que tem a sorte de jantar com você.

O jantar foi em um restaurante italiano pequeno e discreto, com luzes baixas e música suave — o oposto exato do caos barulhento do "A Culpa é do Cabral". Durante as duas horas seguintes, Cambota mal conseguiu tocar na sua massa. Ele estava ocupado demais observando a forma como Ana falava sobre seus sonhos, sobre como o mestrado estava sendo desafiador e sobre as pequenas coisas que a faziam rir fora do trabalho.

Ele estava hipnotizado. Cada gesto dela, a maneira como ela inclinava a cabeça para ouvi-lo, o brilho nos olhos dela quando ele contava uma história de sua infância em Goiás que não era uma piada, mas uma memória real. Ele percebeu que, por mais que tivesse passado meses tentando impressioná-la no estúdio, nada se comparava à simplicidade daquele momento.

— Você está me olhando de um jeito estranho — comentou Ana, rindo baixinho enquanto girava a taça de vinho. — É o batom? Ficou borrado?

— Não — ele disse, a voz ficando subitamente séria. — É que eu passei tanto tempo tentando decifrar o que você sentia por trás daquela postura de executiva, que agora que estamos aqui, eu sinto que poderia ficar apenas te olhando a noite inteira e ainda assim não seria tempo suficiente.

Ana sentiu o rosto esquentar. A timidez que ela sempre tentou esconder aflorou, mas desta vez ela não desviou o olhar.

— Eu também passava muito tempo te observando, Fabiano. Mais do que a produção exigia. Eu só... eu tinha medo de que fosse coisa da minha cabeça. Ou que você fosse assim com todo mundo.

— Com todo mundo? — Ele riu, uma risada curta e sem humor. — Ana, eu perco o roteiro, eu erro a câmera, eu esqueço até como se respira quando você entra no set. O Brasil inteiro já percebeu, menos, aparentemente, a mulher mais inteligente que eu já conheci.

Eles pagaram a conta e saíram para a noite fresca de São Paulo. O caminho de volta para o apartamento dela foi feito em um silêncio confortável, mas carregado de uma eletricidade que tornava o ar dentro do carro denso. Quando ele estacionou, nenhum dos dois fez menção de sair.

— Obrigada pela noite — disse ela, a voz quase um sussurro. — Foi o melhor "não-trabalho" que eu tive em anos.

— Eu não quero que a noite acabe — confessou Cambota, virando-se para ela.

Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza infinita, tocou o rosto dela, afastando uma mecha de cabelo. Ana fechou os olhos ao sentir o toque, inclinando-se levemente em direção à mão dele. Foi o sinal que ele precisava.

Fabiano aproximou-se lentamente, dando a ela todo o tempo do mundo para recuar. Mas ela não recuou. Pelo contrário, ela encurtou a distância final.

O beijo começou calmo, quase uma exploração tímida de algo que ambos desejavam há meses. Tinha o gosto do vinho, da antecipação e de todas as palavras que ficaram presas nas reuniões de pauta e nos intervalos de gravação. Mas rapidamente, o desejo que Cambota vinha acumulando — aquela vontade avassaladora que o fizera "babar" por ela a noite inteira — tomou conta.

Ele a puxou para mais perto, e o beijo se tornou profundo, urgente. Ana envolveu o pescoço dele com os braços, entregando-se àquela sensação de segurança e paixão que só ele conseguia despertar. Naquele momento, não havia produtora, não havia apresentador, não havia plateia. Havia apenas a descoberta de que a realidade era muito melhor do que qualquer roteiro que eles pudessem ter escrito.

Quando finalmente se separaram, ambos estavam sem fôlego. Cambota encostou a testa na dela, mantendo os olhos fechados, tentando processar que aquilo finalmente era real.

— É... — começou ele, com o sarcasmo voltando apenas para disfarçar a emoção. — Eu acho que a qualidade desse "insumo" também foi validada com sucesso.

Ana riu, encostando o nariz no dele.

— Você não consegue ficar sério nem por um minuto, não é?

— Com você, Ana, eu falo sério até demais — ele murmurou, dando um selinho demorado nela. — Mas se prepare. Amanhã, quando a gente chegar no estúdio, o Rafael vai notar esse seu sorriso a quilômetros de distância.

— Deixa eles falarem — disse ela, com uma coragem que só o amor recém-descoberto proporciona. — Amanhã eu sou a produtora executiva de novo. E se eles encherem muito o saco, eu corto o tempo de palco de todo mundo.

Cambota gargalhou, sentindo-se o homem mais sortudo do mundo.

— É por isso que eu te amo. Você é implacável.

Ele a acompanhou até a porta, e enquanto a via subir, Fabiano Cambota soube que, a partir daquele dia, as gravações de "A Culpa é do Cabral" nunca mais seriam as mesmas. O programa continuaria sendo sobre humor, mas a vida dele, finalmente, tinha ganhado um sentido muito mais bonito e real, longe dos refletores e muito perto do coração de Ana.