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Entre a Teoria e a Prática

O silêncio do corredor do prédio de Ana parecia ensurdecedor após a explosão de sensações que o beijo no carro havia provocado. Fabiano ainda segurava a mão dela, os dedos entrelaçados como se soltá-la pudesse desfazer a realidade daquela noite. Ele a observava sob a luz amarelada do hall, notando como a respiração dela ainda estava levemente descompassada, o batom agora borrado de um jeito que ele considerava muito mais atraente do que a perfeição de antes.

— Você tem certeza de que quer que eu suba? — perguntou Fabiano, a voz mais grave do que o normal. — Porque se eu entrar por aquela porta, Ana, eu não garanto que vou conseguir manter a postura de "apresentador profissional" que você tanto admira.

Ana sorriu, um sorriso lento e carregado de uma audácia que ela raramente se permitia mostrar nos estúdios da Comedy Central. Ela deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles até que a ponta de seus sapatos se tocassem.

— Fabiano, eu passei os últimos seis meses organizando a vida de cinco homens caóticos e gerenciando crises internacionais por causa de um cabo de áudio — ela disse, subindo a mão pelo peito dele até sentir o batimento acelerado sob a camisa social. — Eu acho que consigo gerenciar você.

— Você não tem ideia do problema em que está se metendo — ele murmurou, antes de tomar os lábios dela novamente, desta vez com uma urgência que não pedia licença.

Eles entraram no apartamento de forma quase atrapalhada. Ana mal teve tempo de acender a luz da sala antes de ser prensada suavemente contra a porta fechada. O contraste era fascinante: o homem que passava o dia fazendo o Brasil rir com piadas rápidas e sarcasmo refinado agora estava ali, completamente vulnerável e consumido por um desejo que não tinha nada de engraçado.

As mãos de Fabiano, antes hesitantes, agora mapeavam o corpo dela com uma propriedade nova. Ele sentiu a seda do vestido verde sob seus dedos, a curva da cintura que ele tantas vezes imaginou enquanto fingia prestar atenção nas orientações de câmera.

— Ana... — ele sussurrou entre beijos que desciam pelo pescoço dela, fazendo-a estremecer. — Eu sonhei com isso desde o dia em que você me deu aquela bronca por eu ter chegado cinco minutos atrasado na primeira leitura de pauta.

— Eu não dei bronca — ela rebateu, a voz falhando quando ele encontrou um ponto sensível atrás de sua orelha. — Eu apenas... estabeleci diretrizes de eficiência.

— Pois saiba que suas diretrizes são altamente viciantes — ele disse, voltando a olhar nos olhos dela.

Ele a pegou no colo com uma facilidade que a surpreendeu, e Ana soltou uma risada curta, escondendo o rosto no ombro dele. O trajeto até o quarto foi curto, iluminado apenas pela luz da cidade que entrava pelas grandes janelas da sala. Quando ele a depositou sobre os lençóis, o mundo lá fora — as cobranças da emissora, as piadas do Thiago, os roteiros pendentes — simplesmente deixou de existir.

Naquela noite, não havia cronômetro. Não havia o "gravando" que ditava o ritmo de suas vidas. Havia apenas a pele quente, o som da respiração compartilhada e a descoberta de que a química que todos percebiam no palco era apenas uma fração do que acontecia quando as luzes se apagavam.

Fabiano foi meticuloso, como se estivesse redescobrindo cada centímetro dela. Ele a tratava com uma adoração que desarmava a armadura de gelo que Ana costumava usar para sobreviver ao ambiente televisivo. E Ana, por sua vez, revelou-se uma força da natureza. A timidez que a impedia de dar o primeiro passo no trabalho transformou-se em uma entrega absoluta, uma fome que correspondia à dele em cada toque.

A noite pegou fogo de uma maneira que nenhum roteiro de stand-up seria capaz de descrever. Foi intenso, visceral e, acima de tudo, real.

Horas depois, a penumbra do quarto era quebrada apenas pelos reflexos dos prédios vizinhos. Eles estavam deitados, cobertos apenas por um lençol fino, o calor dos corpos ainda presente. Ana estava com a cabeça apoiada no peito de Fabiano, ouvindo o ritmo agora calmo do coração dele.

— No que você está pensando? — perguntou ele, passando os dedos pelos cabelos dela.

— No fato de que eu vou ter que olhar para você amanhã de manhã e fingir que a minha maior preocupação é se o Rodrigo Marques vai usar a camisa certa para o chroma key — ela confessou, com um tom de diversão na voz.

Fabiano soltou uma risada vibrante, que ecoou pelo quarto silencioso.

— Vai ser o maior teste de atuação da minha vida. Eu sou um péssimo mentiroso, Ana. Se o Portugal me perguntar por que eu estou com essa cara de quem ganhou na loteria, eu corro o risco de contar para o estúdio inteiro.

— Você não ouse — ela disse, levantando a cabeça para encará-lo com um olhar fingidamente severo. — Se isso vazar antes de eu decidir como gerenciar a narrativa, eu juro que troco seu café por descafeinado pelo resto da temporada.

— Isso é tortura! — ele exclamou, fingindo horror. — Viu só? Você é uma ditadora. Uma ditadora linda e extremamente competente, mas ainda assim uma ditadora.

Ele a puxou para um beijo calmo, um selinho que se estendeu por alguns segundos.

— Mas falando sério — ele continuou, o tom agora mais suave —, eu não quero esconder isso para sempre. Não porque eu queira dar munição para os meninos, mas porque eu tenho muito orgulho de estar com você.

Ana sentiu um aperto doce no peito. Ela sempre fora tão cautelosa, tão preocupada com sua imagem profissional e com a seriedade que o cargo exigia, mas estar ali com Fabiano parecia a coisa mais certa que já fizera.

— Vamos com calma, Cambota — ela pediu, acariciando o rosto dele. — Um passo de cada vez. Primeiro, sobrevivemos à gravação de amanhã. Depois, pensamos no resto.

— Tudo bem, chefe — ele concordou, fechando os olhos e aspirando o perfume dela. — Mas só para constar: eu não pretendo ir embora tão cedo. Nem deste quarto, nem da sua vida.

A manhã seguinte chegou com a crueza da luz do sol e o som insistente do despertador. Ana foi a primeira a se levantar, recuperando sua postura de produtora em tempo recorde, embora o brilho em seus olhos fosse impossível de ocultar. Fabiano a observava da cama, com um sorriso preguiçoso e o cabelo completamente bagunçado.

— Você fica muito bonita mandando no dia antes mesmo de tomar café — comentou ele.

— E você fica muito desorganizado para quem tem uma reunião de pauta às dez — ela rebateu, jogando uma almofada nele. — Vamos, Fabiano. O trânsito de São Paulo não perdoa nem os apaixonados.

O clima nos bastidores do programa naquela manhã era o de sempre: barulhento, caótico e cheio de energia. Quando Ana entrou no estúdio, já estava com o tablet em mãos e o rádio comunicador no cinto. Ela cumprimentou a equipe com a eficiência de sempre, mas sentiu o rosto queimar quando viu os quatro "cavaleiros do apocalipse" — Nando, Rodrigo, Thiago e Rafael — reunidos perto da mesa de som.

— Bom dia, Ana! — gritou Rafael Portugal, com um sorriso que ia de orelha a orelha. — Dormiu bem? Parece... descansada. Radiante, eu diria.

— Bom dia, Rafael. Sim, dormi o necessário — ela respondeu, sem desviar os olhos da tela. — Já revisou suas marcas de palco? O diretor quer testar um ângulo novo hoje.

— Ih, ela está mais profissional do que o normal — cutucou Thiago Ventura, rindo baixo. — Isso é sinal de que aconteceu alguma coisa.

Nesse momento, Fabiano Cambota entrou no set. Ele estava impecável em seu figurino, mas havia algo em seu andar, uma leveza quase imperceptível, que não escapou aos olhos treinados de seus amigos.

— Olha lá o capitão — disse Rodrigo Marques. — Ele está com aquele brilho no olho de quem comeu o doce e não quer contar onde guardou a embalagem.

Cambota caminhou em direção ao centro do palco, passando propositalmente perto de Ana.

— Bom dia, produtora — ele disse, com um tom formal que escondia uma malícia deliciosa. — Alguma instrução especial para o bloco de abertura?

Ana levantou o olhar. Por um breve segundo, o tempo parou. A lembrança da noite anterior, do calor e da entrega, passou como um flash entre eles.

— Mantenha-se no roteiro, Fabiano — ela disse, a voz firme, mas com um brilho divertido. — E tente não se dispersar. Temos muito trabalho hoje.

— Pode deixar — ele piscou para ela, tão rápido que apenas ela viu. — Eu sou um homem de muito foco. Especialmente quando o objetivo vale a pena.

A gravação começou, e o que se seguiu foi um espetáculo de indiretas. O tema do dia era "Segredos de Família", mas os meninos pareciam decididos a transformar tudo em "Segredos do Cambota".

— Porque tem gente — dizia Nando Viana, olhando diretamente para a câmera — que acha que engana a produção. O cara chega, dá bom dia, finge que está lendo a pauta, mas a gente sabe que a pauta dele tem nome, sobrenome e um mestrado em Marketing.

A plateia, embora não entendesse o contexto completo, ria da energia caótica no palco. Cambota tentava manter a compostura, mas era difícil quando Rafael Portugal começou a improvisar uma música sobre "amores de escritório".

— Ana, você está vendo isso? — perguntou o diretor pelo ponto eletrônico. — O clima está ótimo, eles estão rendendo muito.

— Estou vendo, diretor — ela respondeu, apertando o botão do rádio. — Só espero que eles não esqueçam que temos um programa para entregar.

No intervalo entre o segundo e o terceiro bloco, enquanto os maquiadores retocavam o elenco, Ana se aproximou de Fabiano para entregar uma água.

— Eles estão impossíveis hoje — ela sussurrou, aproveitando que os outros estavam distraídos com uma piada do Thiago.

— Eles sentem o cheiro de felicidade, Ana — Fabiano respondeu, pegando a garrafa e deixando seus dedos roçarem nos dela por um segundo a mais do que o necessário. — É um instinto de predador.

— Se o Rafael fizer mais uma rima com "produtora" e "encantadora", eu juro que corto o microfone dele — ela brincou.

— Deixa eles — disse Fabiano, olhando-a com uma intensidade que a fez esquecer onde estava. — Nada do que eles disserem no palco chega perto do que aconteceu ontem à noite.

Ana sentiu um frio na barriga, aquela sensação de "slow burn" que vinha cozinhando há meses e que agora havia explodido em algo incontrolável. Ela sabia que os desafios seriam muitos — manter o profissionalismo, lidar com a exposição e com a curiosidade dos amigos —, mas, olhando para o sorriso de Fabiano, ela percebeu que não queria estar em nenhum outro lugar.

A gravação terminou tarde, e a equipe começou a se dispersar. Os meninos ainda tentaram arrastar Cambota para um bar, mas ele declinou com uma desculpa esfarrapada sobre "precisar estudar o roteiro de amanhã".

— Roteiro, sei — ironizou Rodrigo Marques enquanto saía. — Manda um abraço para o "roteiro", Cambota!

Quando o estúdio finalmente ficou vazio e apenas as luzes de emergência iluminavam o cenário, Ana estava terminando de organizar suas coisas na mesa da produção. Ela ouviu passos lentos se aproximando.

— O roteiro de amanhã é realmente muito complexo? — perguntou ela, sem se virar.

— Exige uma dedicação exclusiva da minha parte — respondeu Fabiano, parando logo atrás dela e envolvendo sua cintura com os braços. — E eu ouvi dizer que a produtora executiva é muito exigente com os resultados.

Ana relaxou nos braços dele, sentindo a paz que aquela proximidade trazia.

— Ela é — admitiu Ana. — Mas ela também sabe reconhecer um bom desempenho quando vê um.

— Então eu acho que mereço um bônus por horas extras — ele murmurou, virando-a para si.

Ali, no meio do cenário que era o palco de suas carreiras, eles se beijaram novamente. O estúdio da Comedy Central já tinha visto muitas piadas, muitas brigas e muito talento, mas raramente tinha sido testemunha de algo tão genuíno.

O romance deles estava apenas começando, e embora o caminho prometesse ser cheio de risadas, provocações e o constante monitoramento dos colegas de elenco, Ana e Fabiano sabiam que tinham encontrado algo raro. Entre um café nos intervalos e um beijo roubado nos bastidores, eles estavam escrevendo sua própria história. E, para a produtora que gostava de ter tudo sob controle, descobrir que o amor era a única coisa que ela não podia (e não queria) gerenciar, era a melhor reviravolta que aquele programa já tinha produzido.

— Vamos para casa? — perguntou ele.

— Vamos — ela respondeu, fechando o tablet. — Mas amanhã, Fabiano... amanhã eu sou a chefe de novo.

— Mal posso esperar — ele sorriu, guiando-a para a saída. — Adoro quando você assume o comando.

As luzes do estúdio se apagaram completamente, deixando para trás o silêncio de um dia de trabalho cumprido e a promessa de que, por trás das câmeras, a vida era muito mais interessante do que qualquer piada de quinta série.