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O Peso da Próxima Dose
O silêncio no apartamento de Ana era um contraste violento com o ruído incessante que habitava a mente de Fabiano Cambota. Eram duas da manhã de uma terça-feira, e ele estava sentado na beira da cama, observando a silhueta dela sob o lençol claro. A luz da lua filtrava-se pelas persianas, desenhando linhas de sombra e prata na pele exposta dos ombros de Ana.
Ele deveria estar exausto. A gravação daquele dia tinha sido uma maratona de sete horas, com convidados difíceis e uma plateia que demorou a engrenar. Mas, em vez de sono, o que Fabiano sentia era uma espécie de eletricidade residual, um formigamento que subia pelos braços sempre que ele lembrava do toque dela.
Ana se mexeu, soltando um suspiro baixo, e abriu os olhos devagar. Ao vê-lo sentado ali, ela estendeu a mão, tocando a base da coluna dele com as pontas dos dedos frios.
— Fabiano? — A voz dela era um sussurro rouco, carregado de sono. — O que foi? O despertador ainda não tocou.
Ele se virou, deixando-se cair de volta nos travesseiros, ficando de lado para encará-la.
— Eu só estava pensando — ele disse, a voz abafada pela proximidade do rosto dela — que eu quero mais.
Ana piscou, tentando processar a frase através da névoa do cansaço.
— Mais o quê? Mais café? Mais tempo de palco? Eu já te disse que o bloco três não pode passar de doze minutos...
Cambota soltou uma risada curta e anasalada, puxando-a para mais perto pela cintura.
— Não, produtora. Esquece o cronômetro por um segundo. Eu quero mais disso aqui. Mais de você. Mais desse "nós" que a gente está fingindo que é só um detalhe nos bastidores.
Ana ficou em silêncio por um longo momento. A seriedade dele a desarmava. No trabalho, ela era o muro; ela era a estrutura que impedia o caos de desmoronar. Mas ali, na penumbra do quarto, sem o tablet, sem o rádio e sem a maquiagem, ela se sentia perigosamente transparente.
— A gente combinou de ir devagar — ela lembrou, embora sua mão estivesse agora traçando o contorno da mandíbula dele. — O programa é a nossa vida, Fabiano. Se a gente acelerar e bater o carro, o estrago não vai ser só no nosso coração. Vai ser no set inteiro.
— Eu sei — ele murmurou, fechando os olhos sob o toque dela. — Mas eu sinto que estou vivendo em câmera lenta enquanto o resto do mundo está em alta velocidade. Eu quero poder te beijar no camarim sem ter que checar se o Nando está dobrando o corredor. Eu quero poder te levar para jantar no lugar mais movimentado de São Paulo e não me importar se alguém tirar uma foto.
Ana suspirou, encostando a testa na dele.
— Você sabe que eles vão nos destruir, não sabe? O Rodrigo e o Ventura não vão ter piedade. Eles vão fazer piada com isso até a décima temporada.
— Deixa eles — disse Fabiano, abrindo os olhos e encontrando os dela com uma intensidade que a fez perder o fôlego. — Eu aguento as piadas. O que eu não estou aguentando é essa sensação de que eu estou te pedindo emprestada para a produção toda noite. Eu quero mais do que sobras de tempo, Ana.
Ela sentiu o peso daquelas palavras. Ana, que sempre foi a mestre do planejamento, não tinha um plano para aquilo. O "slow burn" que eles haviam construído estava atingindo o ponto de ebulição, e a tampa da panela estava prestes a saltar.
— Tudo bem — ela sussurrou, aproximando os lábios dos dele. — Mas amanhã... amanhã a gente tem aquela reunião de pauta com a diretoria da emissora. Promete que vai se comportar?
— Eu prometo — ele disse, com um sorriso travesso que ela conhecia bem — que vou ser o profissional mais focado que você já viu. Pelo menos até as luzes do estúdio apagarem.
***
A manhã seguinte, no entanto, provou que as promessas de Fabiano Cambota eram tão voláteis quanto o roteiro de um programa de humor.
A sala de reuniões estava cheia. Além dos cinco comediantes, havia o diretor, os roteiristas e dois executivos do canal. Ana estava na cabeceira da mesa, apresentando os números da última semana no telão. Ela usava um blazer cinza estruturado e o cabelo estava preso em um coque impecável. Era a imagem da autoridade.
— Como vocês podem ver — explicava Ana, apontando para um gráfico de audiência —, o engajamento digital subiu 15% durante os clipes de bastidores. O público gosta de ver a interação orgânica entre vocês fora das piadas roteirizadas.
— Viu só? — interrompeu Rafael Portugal, jogando-se para trás na cadeira. — O povo gosta da verdade. Gosta do amor! Não é, Cambota?
Fabiano, que estava bebendo água, engasgou levemente. Ele olhou para Rafael com um aviso silencioso nos olhos, mas o estrago já estava feito.
— O Portugal tem razão — acrescentou Thiago Ventura, com um sorriso diabólico. — A gente devia fazer um quadro novo. "O Capitão e a Comandante". O que você acha, Ana? A audiência ia explodir.
Ana não mudou a expressão. Ela apenas mudou o slide com um clique seco.
— Foco, Thiago. Estamos discutindo o cronograma de viagens para o especial de fim de ano. Se vocês quiserem discutir fanfics, podem fazer isso no grupo de WhatsApp de vocês.
— Uiii! — exclamou Rodrigo Marques, batendo na mesa. — Ela ficou brava! Quando o tom de voz desce meio oitava, é porque o Cambota vai dormir no sofá hoje.
— Gente, por favor — pediu o diretor, tentando conter o riso. — Vamos respeitar a Ana. Ela está tentando trabalhar.
— É — disse Fabiano, finalmente recuperando a voz, embora seus olhos estivessem fixos em Ana com um brilho que dizia tudo, menos "trabalho". — Deixem a moça falar. A organização dela é a única coisa que impede esse programa de virar um circo sem lona.
Ana sentiu o calor subir pelo pescoço, mas manteve o olhar fixo no telão. Ela sabia que Fabiano estava fazendo aquilo de propósito. Ele estava flertando com o perigo, testando os limites da discrição deles em plena luz do dia.
A reunião prosseguiu, mas o ar na sala estava eletrizado. Cada vez que Ana passava por trás da cadeira de Fabiano para ajustar o projetor, o toque acidental de seus braços enviava uma onda de choque por ambos. Cada vez que ele fazia uma pergunta técnica apenas para ouvi-la explicar algo, os outros quatro trocavam olhares e risinhos abafados.
Quando a reunião finalmente terminou, Ana começou a recolher seus pertences. Ela esperou que os executivos saíssem antes de se virar para o grupo.
— Nando, Thiago, Rodrigo e Rafael... fora. Agora. Eu preciso falar com o Fabiano sobre o roteiro do bloco de abertura.
— Ihhh, vai levar bronca! — cantou Nando Viana, saindo da sala enquanto fazia um coração com as mãos.
— Juízo, crianças! — gritou Portugal antes de fechar a porta.
Assim que o clique da porta ecoou, o silêncio caiu sobre a sala. Ana soltou o ar que nem sabia que estava prendendo e se encostou na mesa, cruzando os braços.
— Você é impossível — ela disse, tentando manter a voz severa, mas falhando miseravelmente.
Fabiano levantou-se e caminhou até ela, parando a poucos centímetros. Ele não a tocou, sabendo que as paredes daquela sala eram finas, mas sua presença era esmagadora.
— Eu não fiz nada — ele defendeu-se, com um sorriso inocente. — Eu fui um modelo de decoro.
— Você passou a reunião inteira me olhando como se eu fosse a última fatia de pizza do mundo — rebateu ela. — E aquele comentário sobre a minha organização? Você quase entregou tudo!
— Eu só disse a verdade — ele sussurrou, inclinando-se um pouco mais. — E sobre querer mais... eu quis dizer cada palavra. Eu não aguento mais essa distância protocolar, Ana.
Ana olhou para a porta e depois de volta para ele. A produtora estratégica em sua cabeça gritava que aquilo era um erro, que o timing era péssimo e que o risco era alto demais. Mas a mulher de vinte e três anos, que estava perdidamente apaixonada pelo homem mais charmoso e irritante que já conhecera, simplesmente não se importava mais.
Ela estendeu a mão e puxou Fabiano pela gravata, trazendo-o para um beijo rápido e urgente. Foi um beijo com gosto de perigo e de café frio, mas foi o suficiente para fazê-los esquecer onde estavam por alguns segundos.
— Ana... — ele murmurou contra os lábios dela quando se separaram.
— Cala a boca, Fabiano — ela disse, ajeitando a gravata dele com mãos trêmulas. — A gente tem uma gravação em trinta minutos. Vai para o camarim, deixa o maquiador esconder essa sua cara de satisfeito e, pelo amor de Deus, não erre as suas falas hoje.
— Eu não prometo nada sobre as falas — ele disse, piscando enquanto caminhava em direção à porta —, mas prometo que vou estar te esperando no estacionamento assim que o último refletor apagar. E hoje, Ana... hoje a gente não vai para a sua casa.
— Não? — ela perguntou, curiosa.
— Não. Hoje eu vou te levar para jantar naquele restaurante que você disse que queria conhecer. Sem disfarces. Sem desculpas.
Ana sentiu um frio na barriga.
— Fabiano, e se virem a gente?
Ele parou na porta e olhou para trás, com um olhar que misturava ternura e uma determinação inabalável.
— Então eles vão ver o homem mais feliz de São Paulo acompanhado da mulher mais incrível da TV brasileira. Eu acho que a gente sobrevive a essa manchete, não acha?
Ele saiu antes que ela pudesse responder, deixando-a sozinha na sala de reuniões. Ana olhou para o telão, onde o gráfico de audiência ainda brilhava. Ela percebeu que, por mais que tentasse planejar cada segundo da sua vida e do programa, as melhores partes eram justamente aquelas que ela não conseguia controlar.
A gravação daquela tarde foi, previsivelmente, um caos. O elenco, sentindo que algo havia mudado definitivamente entre o "capitão" e a "comandante", estava mais afiado do que nunca.
— Sabe o que eu notei? — perguntou Rodrigo Marques no meio de um bloco sobre "Viagens de Casal". — Que o Cambota está com uma pressa hoje... Ele olha para o relógio, olha para a coxia, olha para a produção... Parece que ele tem um encontro com o destino. Ou com a produtora executiva.
A plateia explodiu em gargalhadas. Fabiano, em vez de ficar vermelho como de costume, apenas sorriu e olhou diretamente para o ponto onde Ana estava, atrás das câmeras.
— O destino é um caminho muito bonito, Rodrigo — disse Fabiano, com uma calma que surpreendeu a todos. — E eu recomendo que todo mundo tente chegar lá um dia. Especialmente se o destino tiver olhos castanhos e uma paciência infinita para lidar com idiotas como vocês.
O estúdio ficou em silêncio por um breve segundo, o tipo de silêncio que precede uma grande revelação. Ana, atrás do monitor, sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Não era uma declaração explícita para o público, mas era a declaração mais pública que ele já fizera para ela.
— Eita! — gritou Thiago Ventura, quebrando o gelo. — O capitão assumiu! Chamem os bombeiros que o clima esquentou!
O resto da gravação passou como um borrão. Quando o diretor finalmente gritou "Valeu, equipe!", a atmosfera no set era de pura celebração. Os meninos cercaram Fabiano, dando tapas em suas costas e fazendo o barulho habitual, mas Ana percebeu que havia um respeito novo ali. Eles finalmente tinham entendido que não era apenas um "rolo" de bastidores; era algo real.
Ana estava terminando de fechar o escritório da produção quando Fabiano apareceu na porta. Ele já tinha trocado de roupa e estava com as chaves do carro na mão.
— Pronta? — perguntou ele.
— Pronta — ela respondeu, pegando sua bolsa.
Enquanto caminhavam pelo corredor silencioso em direção ao estacionamento, eles passaram pelo mural onde ficavam as fotos de toda a equipe. Fabiano parou por um segundo, observando uma foto onde todos apareciam rindo durante uma festa de encerramento de temporada.
— A gente mudou muita coisa aqui, não foi? — ele comentou.
— A gente mudou tudo — disse Ana, segurando a mão dele com firmeza.
Ao saírem para a noite de São Paulo, o ar parecia diferente. O medo da exposição, que antes assombrava Ana, tinha sido substituído por uma sensação de liberdade que ela nunca experimentara.
O restaurante era elegante e movimentado, exatamente como Fabiano prometera. Quando o maître os conduziu a uma mesa central, Ana sentiu alguns olhares curiosos, mas, ao sentir a mão de Fabiano em suas costas, ela simplesmente não se importou.
— Você está bem? — perguntou ele, depois que pediram o vinho.
— Eu estou maravilhosa — ela respondeu, e era verdade. — Eu só estava pensando no que você disse hoje cedo. Sobre querer mais.
— E?
— E que eu também quero, Fabiano. Eu quero as manhãs com despertador, os jantares sem câmeras e até as piadas insuportáveis do Rafael Portugal. Eu quero o pacote completo.
Fabiano sorriu, aquele sorriso que ia até os olhos e que a fazia sentir que tudo era possível.
— O pacote completo inclui um apresentador goiano que às vezes esquece o roteiro, mas que nunca vai esquecer o quanto te ama — ele disse, com a voz baixa e sincera.
— Eu posso lidar com isso — ela brincou, embora seus olhos estivessem úmidos. — Eu sou a produtora executiva, lembra? Eu lido com qualquer imprevisto.
Eles brindaram àquela nova fase, à coragem de serem eles mesmos fora da segurança do estúdio. A noite fluiu com uma leveza que só o amor verdadeiro proporciona. Não havia mais segredos, não havia mais "se" ou "mas". Havia apenas o presente.
Quando voltaram para o carro, Fabiano não ligou o motor imediatamente. Ele se virou para ela, a luz dos postes da rua iluminando seu rosto.
— Você sabe que amanhã tudo vai ser diferente, não sabe? — ele perguntou. — A emissora vai querer saber, os sites de fofoca vão postar...
— Eu sei — disse Ana, aproximando-se dele. — Mas, pela primeira vez na minha vida, eu não tenho um plano de contingência. E quer saber? Eu estou adorando isso.
Fabiano a beijou, um beijo que selava o compromisso que haviam assumido não apenas um com o outro, mas com a própria felicidade.
— Eu te amo, Ana — ele murmurou.
— Eu também te amo, Fabiano — ela respondeu.
Enquanto o carro se afastava do restaurante, mergulhando no mar de luzes de São Paulo, o programa "A Culpa é do Cabral" continuava sendo um sucesso nos monitores de milhares de pessoas. Mas ali, naquele pequeno espaço entre dois corações, o verdadeiro sucesso estava sendo construído em silêncio, um beijo e uma dose a mais de coragem por vez.
Afinal, a vida, assim como o humor, não é sobre seguir o roteiro à risca, mas sobre saber improvisar quando o amor decide entrar em cena sem avisar. E Ana e Fabiano estavam prontos para qualquer improviso que o futuro decidisse lhes apresentar.