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O Sacrifício do Boné e o Gosto de Cachaça
O palco parecia cada vez menor sob o calor dos refletores, e o cheiro de álcool que emanava da mesa já começava a deixar Ana levemente zonza. Ela tentava manter o foco, mas a presença de Afonso ao seu lado, observando cada movimento seu com uma curiosidade renovada, era o maior dos obstáculos. A dinâmica, que deveria ser apenas um momento de descontração entre colegas de profissão, havia se transformado em um tribunal de exceção onde Ana era a única ré.
— Gente, a Ana já virou seis doses! — gritou Fabiano Cambota, rindo enquanto apontava para a fileira de copos vazios à frente da cearense. — Se ela continuar assim, o próximo bloco vai ser ela recitando "Iracema" de trás para frente em grego!
— O problema não é o quanto ela bebe, Cambota — interveio Dihh Lopes, com aquele tom ácido que o público amava —, o problema é o que ela está escondendo para preferir uma cirrose ao vivo a abrir o jogo.
Na plateia, o grupo de amigas de Ana trocou olhares cúmplices. Rafaela, que ainda segurava o celular como se fosse um detonador de uma bomba diplomática, levantou-se novamente. O silêncio no teatro foi instantâneo, a expectativa pairando no ar como uma névoa espessa.
— Ana, meu amor, a gente sabe que você é teimosa — começou Rafaela, com um sorriso que faria um vilão de cinema ter inveja. — Mas a brincadeira subiu de nível. Eu tenho aqui o vídeo, como eu disse. E a Natália tem as fotos da pasta oculta. A gente vai dar uma última chance de você ser honesta com o Brasil.
— Eu já disse que não vou falar da minha vida pessoal aqui! — rebateu Ana, tentando manter a firmeza, embora sua voz estivesse uma oitava acima do normal devido ao nervosismo. — Isso é um especial de comédia, não o "Casos de Família"!
— Justo — disse Natália, pegando o microfone da mão de Rafaela. — Então, vamos mudar o desafio. Se você não quer falar o nome do dono do seu coração... você vai ter que aceitar uma condição para o vídeo não vazar agora mesmo no telão.
— Que condição? — perguntou Rafael Portugal, debruçando-se sobre a mesa, interessado no caos. — Se envolver humilhação pública, eu apoio!
Rafaela olhou para a mesa dos humoristas e seus olhos pararam propositalmente em Afonso Padilha. Afonso, que estava se divertindo com a situação mas já sentia uma pontada de incômodo com o sofrimento visível de Ana, ajeitou o boné, sentindo o peso do olhar da plateia.
— A condição é a seguinte — anunciou Rafaela —: para o vídeo não vazar e a pasta oculta continuar oculta, a Ana vai ter que dar um beijo, de verdade, no Afonso Padilha. Agora. Na frente de todo mundo.
O teatro veio abaixo. O som dos gritos e das palmas foi tão alto que Ana sentiu os ouvidos zumbirem. Ela olhou para Afonso, e o rosto dele era uma mistura de choque e um divertimento perigoso. Ana, por outro lado, sentiu que o chão tinha desaparecido.
— Gente, que isso? — Thiago Ventura interveio, rindo alto. — Vocês querem matar a menina? Olha o estado dela, ela tá mais vermelha que o figurino do Rafael Portugal!
— É o sacrifício, Thiago! — gritou Márcio Donato, batendo na mesa. — É o preço da privacidade!
Ana olhou para Rafaela com um olhar suplicante, mas a amiga apenas apontou para o celular, com o dedo pairando sobre o botão de "compartilhar". O pânico de ter seus sentimentos expostos daquela forma, através de um vídeo gravado em um momento de vulnerabilidade total, era maior do que o medo de beijar o homem por quem era apaixonada. Ou talvez fosse apenas a desculpa perfeita que o álcool lhe dava.
— Eu... eu não... — Ana gaguejou, perdendo completamente a postura de mulher inabalável.
— Relaxa, Ana — disse Afonso, inclinando-se para o microfone dele com um sorriso de canto. — Eu sei que é um fardo pesado. Eu sei que é um sacrifício enorme ter que encostar esses lábios cearenses nesse curitibano sofrido.
— Olha o herói! — debochou Dihh Lopes. — O Afonso vai se sacrificar pela pátria! Alguém traz uma medalha de honra ao mérito pro Padilha, porque encarar a Ana bêbada desse jeito exige coragem!
— É um trabalho sujo, mas alguém tem que fazer — continuou Afonso, levantando-se da cadeira. — Pelo bem do show, pela amizade, e pra Rafaela não trair a confiança da nossa convidada. Ana, você aceita esse sacrifício?
Ana olhou para ele, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enclausurado. Ela sabia que os outros estavam brincando, que para eles aquilo era apenas um "bit" de comédia, uma esquete improvisada. Mas para ela, era o xeque-mate.
— Letícia... escolhe qual tu quer que eu beba, vai — tentou Ana uma última vez, a voz falhando.
— Não tem mais bebida, Aninha! — gritou Nando Viana, rindo e virando a garrafa de cachaça vazia de cabeça para baixo. — Agora é no seco!
Afonso parou na frente dela. Ele era mais alto, e a sombra dele a envolveu. O cheiro do perfume dele se misturou ao cheiro de álcool no ar, criando uma atmosfera que deixava Ana ainda mais tonta.
— Vai, Ana — sussurrou Afonso, longe do microfone, mas perto o suficiente para que ela sentisse o calor da respiração dele. — É só um beijo. A gente salva sua pele e acaba com essa tortura das suas amigas.
— Você não entende... — ela murmurou, os olhos brilhando com uma mistura de lágrimas e desejo reprimido.
— Eu entendo mais do que você imagina — ele respondeu, e por um breve segundo, a máscara de humorista dele também caiu.
A plateia começou um coro rítmico: "Beija! Beija! Beija!". Os outros humoristas batiam na mesa, incentivando o caos. Thiago Ventura fazia sinal de coração com as mãos, enquanto Márcio fingia limpar uma lágrima de emoção.
Ana fechou os olhos e assentiu levemente. Afonso colocou as mãos nas bochechas dela. A pele dele estava fria, um contraste delicioso com o calor que emanava do rosto de Ana.
— Senhores e senhoras — anunciou Cambota —, presenciem o ato de bravura de Afonso Padilha! Ele vai beijar a fera para salvar o reino!
Afonso não esperou mais. Ele reduziu a distância e selou os lábios nos de Ana. No primeiro segundo, foi apenas um toque técnico, algo que ambos já tinham feito em esquetes ou brincadeiras de bastidores. Mas então, o gosto da cachaça nos lábios de Ana e a forma como ela suspirou contra a boca dele mudaram tudo.
Ana, movida por uma coragem que só as seis doses e anos de silêncio poderiam proporcionar, levou as mãos à nuca de Afonso, puxando-o para mais perto. O beijo deixou de ser uma piada. O teatro, que antes explodia em som, pareceu ficar em silêncio na mente de Ana. Ela sentiu a língua dele pedir passagem, e ela cedeu, entregando-se a um beijo que carregava toda a frustração, o carinho e a paixão que ela vinha escondendo sob camadas de sarcasmo.
— Eita, porra! — a voz de Thiago Ventura ecoou, mas soou distante. — Isso aí não foi sacrifício não, hein! O Padilha tá até de olho fechado!
— Alguém separa! — gritou Rafael Portugal. — O Afonso tá aproveitando o feriado! Olha a mão dele na cintura dela!
Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Afonso tinha os olhos levemente arregalados, como se tivesse acabado de levar um choque elétrico. Ana, por sua vez, sentou-se bruscamente, escondendo o rosto entre as mãos, os dedos ainda trêmulos.
— Meu Deus — disse Cambota, recuperando o fôlego de tanto rir. — O Padilha foi tão longe no sacrifício que eu achei que ele ia pedir a Ana em casamento ali mesmo.
— O cara é um profissional! — exclamou Dihh Lopes. — Ele se entrega ao papel! Ana, você tá viva? Ou o beijo do curitibano te deu um choque anafilático?
Ana não conseguia responder. O constrangimento que ela sentia antes era uma gota no oceano perto do que sentia agora. Ela sabia que tinha correspondido com intensidade demais. Ela sabia que Afonso tinha sentido isso.
— Eu... eu acho que o vídeo está salvo — Afonso disse, voltando para o seu lugar com um caminhar ligeiramente incerto. Ele tentava manter o tom de brincadeira, mas a voz saiu mais rouca do que o normal. — Rafaela, por favor, apaga essa prova do crime. Eu já paguei os pecados da Ana por hoje.
— Apagado! — gritou Rafaela, rindo e guardando o celular. — Mas ó, Padilha, se precisar de outro sacrifício desse, a gente tem mais vídeos, viu?
— Não, pelo amor de Deus — Ana finalmente falou, levantando o rosto. As bochechas estavam em um tom de carmesim que nenhum maquiador conseguiria reproduzir. — Já deu de emoção por uma noite.
A gravação continuou, mas o clima no palco tinha mudado. Os humoristas continuavam com as piadas, mas Afonso estava visivelmente mais quieto, lançando olhares furtivos para Ana a cada poucos minutos. Ele percebeu que a reação dela não foi a de quem estava apenas participando de uma brincadeira. O jeito que ela o segurou, o jeito que o beijo se transformou... havia uma verdade ali que ele nunca tinha se permitido ver.
Ana, por sua vez, sentia que sua segurança tinha sido completamente drenada. Ela continuava rindo das piadas de Thiago e Nando, mas sua consciência estava totalmente voltada para o homem sentado ao seu lado. O contato físico, embora breve, tinha quebrado a última barreira de sua resistência.
Ao final do especial, quando as luzes baixaram e a plateia começou a sair, o elenco se reuniu nos bastidores para os agradecimentos e as fotos de praxe.
— Mandou bem, Aninha — disse Thiago Ventura, dando um tapinha no ombro dela. — O beijo foi o ponto alto do show. O Twitter vai quebrar amanhã.
— Eu vou me enterrar em um buraco no Ceará e só saio no próximo Carnaval — ela respondeu, tentando recuperar o humor ácido.
— Que isso, foi épico! — comentou Márcio Donato. — Mas ó, o Padilha ficou estranho depois, né? Acho que o sacrifício foi maior do que ele esperava.
Ana sentiu um aperto no peito. Será que ele tinha ficado incomodado? Será que ela tinha deixado óbvio demais?
Ela se afastou do grupo para pegar sua bolsa em um canto do camarim improvisado. Foi quando sentiu uma presença atrás dela.
— Ana.
Ela se virou e deu de cara com Afonso. Ele não estava mais rindo. A expressão era séria, observadora, a mesma que ele usava quando estava prestes a entregar o <i>punchline</i> de uma piada muito boa, mas sem a parte do humor.
— Oi, Afonso. Desculpa por aquilo... as meninas são loucas e eu já tinha bebido demais e...
— Para de se desculpar — ele a interrompeu, dando um passo à frente. — Todo mundo no palco achou que foi um sacrifício. Que eu fiz um favor pra você.
Ana baixou o olhar, sentindo o rosto queimar novamente.
— É, eles são comediantes, Afonso. Eles fazem piada com tudo.
— Pois é — ele disse, aproximando-se ainda mais, até que ela pudesse sentir o calor dele novamente. — Mas eu não sou tão bom ator assim, Ana. E você também não.
Ela levantou os olhos, encontrando o olhar intenso dele.
— O que você quer dizer? — ela sussurrou.
— Quero dizer que aquele vídeo da Rafaela nem precisava vazar — Afonso disse, com um meio sorriso que fez o estômago de Ana dar voltas. — Porque o que eu senti naquele beijo me contou muito mais do que qualquer vídeo bêbada poderia contar.
Ana abriu a boca para responder, para negar, para fazer uma piada rápida que desviasse o assunto, mas as palavras não vieram. O álcool tinha levado sua defesa, e o beijo tinha levado sua dignidade.
— Você está brava? — ela perguntou, a voz pequena.
— Brava? — Afonso riu, uma risada curta e genuína. — Ana, eu passei a noite inteira tentando entender por que você estava bebendo tanto para fugir de perguntas sobre sua vida amorosa. Agora eu entendi. E se aquele beijo foi um sacrifício... eu acho que sou um mártir, porque eu não vejo a hora de me sacrificar de novo.
Ana paralisou. O coração, que já estava acelerado, parecia ter entrado em modo de decolagem.
— Você... você está brincando, né? — ela perguntou, buscando qualquer sinal de deboche.
— Eu sou humorista, Ana, mas eu não brinco com tudo — ele disse, esticando a mão e tirando uma mecha de cabelo do rosto dela. — A gente vai ter que conversar sobre isso. Sem câmeras, sem cachaça e sem o Dihh Lopes gritando no nosso ouvido.
— Eu adoraria — ela confessou, finalmente permitindo-se sorrir de verdade.
— Ótimo — Afonso disse, voltando para a sua postura espontânea de sempre ao ouvir os passos dos outros colegas se aproximando. — Mas se prepare, porque amanhã no grupo do WhatsApp, eu vou dizer que tive que tomar um antídoto depois de beijar você. Minha reputação de "vítima" tem que ser mantida.
Ana soltou uma gargalhada alta, sentindo o peso do mundo sair de seus ombros.
— E eu vou dizer que foi o pior beijo da minha vida e que o Curitiba realmente não tem nada de bom a oferecer.
— É isso aí — Afonso piscou para ela. — Essa é a minha Ana.
Enquanto o elenco se reunia para sair para o jantar de comemoração, a tensão entre os dois permanecia, mas agora era uma tensão elétrica, cheia de possibilidades. Thiago, Nando, Dihh e Cambota continuavam com as brincadeiras, sem saber que o "sacrifício" de Afonso tinha sido, na verdade, o início de algo que nenhum deles conseguiria prever.
O especial terminou deixando no ar a dúvida para o público, mas nos bastidores, entre o cheiro de café e os restos de figurino, um segredo cearense e uma curiosidade curitibana tinham finalmente se encontrado. E, como toda boa comédia, o final era apenas o começo de um novo ato.