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O Microfone da Discórdia e o Caos da Plateia

O ambiente no Teatro Frei Caneca estava carregado com aquela energia caótica que só um encontro entre "A Culpa é do Cabral" e os "4 Amigos" poderia proporcionar. O palco era uma mistura de testosterona, piadas internas e o cheiro onipresente de cerveja barata que servia de combustível para a dinâmica da noite. Ana, que fora convidada para uma participação especial, tentava se manter nos bastidores o máximo possível. Ela conhecia aquele bando de hienas; sabia que, se desse um centímetro de abertura, eles fariam um especial inteiro às custas da sua vida amorosa — ou da falta dela.

— Ana, você entra agora para a dinâmica das perguntas — avisou um produtor, passando apressado com um rádio no cinto.

— Eu vou, mas avisa ao Cambota que se ele começar com gracinha sobre o Ceará, eu saio do palco — ela brincou, embora o nervosismo fizesse suas mãos suarem.

O problema não era o Cambota. O problema era o homem de boné sentado na extremidade da mesa, rindo de alguma coisa que o Márcio Donato sussurrara. Afonso Padilha tinha esse efeito nela: transformava a comediante de raciocínio rápido em uma adolescente que esquecia como se articulavam frases complexas.

Ela entrou no palco sob aplausos, sentando-se entre Thiago Ventura e Rafael Portugal. A dinâmica era simples: o público enviava perguntas por um QR Code, e quem não respondesse, bebia uma dose de cachaça. O que Ana não sabia era que, na terceira fila, suas "melhores" amigas — Letícia, Natália e Rafaela — estavam armadas com ingressos e segredos.

— Primeira pergunta! — gritou Fabiano Cambota, lendo o tablet. — "Ana, é verdade que você tem uma pasta oculta no celular com fotos de um certo humorista que gosta de usar boné e contar histórias de Curitiba?"

O teatro veio abaixo. Ana sentiu o sangue fugir do rosto e retornar em uma velocidade que a deixou instantaneamente escarlate.

— Bebe! Bebe! Bebe! — a plateia começou a cantar em coro.

Ana não disse uma palavra. Apenas pegou o copinho de shot, virou de uma vez e bateu o vidro na mesa.

— Isso foi um "sim"? — provocou Dihh Lopes, inclinando-se para frente. — Porque o Afonso até ajeitou a postura agora.

— É apenas uma medida preventiva contra a calúnia e a difamação — respondeu Ana, tentando recuperar a voz firme, embora o calor em suas bochechas a entregasse.

A noite seguiu nesse ritmo torturante. A cada cinco perguntas, três eram direcionadas a Ana, e todas pareciam ter sido redigidas por alguém que morava dentro do seu cérebro. Ela já estava na quarta dose quando Thiago Ventura, ao seu lado, começou a ter problemas com o equipamento.

— Ô, produção! Meu microfone tá caindo aqui, tá pegando na gola — reclamou Thiago, tentando ajeitar o transmissor na cintura enquanto segurava o microfone de lapela que insistia em escorregar.

Ana, movida por um instinto de hospitalidade cearense e talvez pela coragem líquida das doses anteriores, resolveu ajudar.

— Deixa que eu ajeito isso, Thiago. Tu é todo atrapalhado — disse ela, levantando-se e aproximando-se dele.

Foi o erro fatal. No momento em que Ana se inclinou sobre Thiago, concentrada em prender o clipe do microfone na gola da camiseta dele, o silêncio no teatro durou exatamente dois segundos antes de explodir em um urro de "Ihhhhhh!".

— Olha lá! — gritou Nando Viana, apontando para os dois. — O amor é lindo e acontece nos bastidores do microfone!

— Que isso, Ana! — Rafael Portugal se levantou, fazendo uma cara de choque exagerada. — Na frente do Padilha? Que falta de consideração com o curitibano!

Ana paralisou com a mão ainda na gola de Thiago. Ela olhou para a plateia e viu Letícia de pé, com o microfone que era passado para o público.

— Ana! — gritou Letícia, rindo tanto que mal conseguia falar. — Já que você está aí toda solícita com o Thiago, responde para a gente: se o teatro estivesse pegando fogo e você só pudesse salvar um humorista de boné para levar para uma ilha deserta, você levaria o da quebrada ou o da Vila Izabel?

O rosto de Ana, que já estava rosado, atingiu um tom de roxo. Ela soltou a gola de Thiago como se tivesse levado um choque elétrico.

— Letícia... escolhe qual tu quer que eu beba, vai — disse Ana, a voz saindo em um fio, enquanto ela se sentava rapidamente e procurava uma garrafa de água.

— Ih, sentiu! — gritou Márcio Donato, batendo na mesa. — Ela não negou! Ela só quer beber para esquecer que o coração dela está dividido entre o Taboão e Curitiba!

Afonso Padilha, que até então estava apenas observando com um sorriso de canto, soltou uma risada nervosa. Ele ajeitou o próprio boné, visivelmente desconfortável com a atenção súbita, mas seus olhos não saíam de Ana. Ele notou que a reação dela ao ajeitar o microfone de Thiago fora puramente técnica, mas a reação à pergunta de Letícia... aquela fora visceral.

— Gente, coitada da menina — disse Afonso, tentando aliviar, mas sua voz saiu com uma ponta de curiosidade. — Mas agora eu também fiquei na dúvida. Ana, o meu microfone também está meio frouxo, quer conferir?

A plateia foi ao delírio. Ana enterrou o rosto nas mãos, sentindo que sua dignidade estava sendo leiloada em praça pública.

— Eu odeio todos vocês — murmurou ela por entre os dedos. — Eu vim aqui para fazer comédia, não para ser o enredo da novela das nove.

— Mas a novela está ótima! — interveio Rafaela, a outra amiga, levantando-se na plateia. — Ana, se você não responder quem beija melhor, eu vou mandar o vídeo do karaokê para o grupo do WhatsApp do elenco agora mesmo!

— Que vídeo é esse? — perguntou Dihh Lopes, os olhos brilhando de malícia. — É o da Ana cantando "Evidências" e chorando porque o "curitibano não nota ela"?

— Dihh, eu vou te matar! — gritou Ana, perdendo a compostura de vez. — Não tem vídeo nenhum! Elas estão inventando tudo!

— Estão inventando, é? — provocou Thiago Ventura, entrando na brincadeira para provocar Afonso. — Então por que tu tremeu quando encostou no meu microfone, Aninha? Ficou nervosa com a proximidade do "Pai"?

— Thiago, cala a boca! — Ana riu, mas era um riso de puro desespero. — Eu estava tentando ajudar para você não ficar parecendo um rádio com mau contato!

Afonso observava a interação. Ele via como Ana tentava ser firme, mas como o olhar dela fugia para ele a cada poucos segundos, como se buscasse uma aprovação ou uma saída de emergência. Ele começou a perceber que as brincadeiras das amigas de Ana tinham um fundo de verdade que ele nunca se permitira explorar.

— Bom — disse Cambota, retomando o tablet —, a próxima pergunta é para o Afonso. "Padilha, você prefere as mulheres que riem das suas piadas ou as que ficam vermelhas quando você olha para elas?"

Afonso deu um sorriso largo, olhando diretamente para Ana, que tentava se fundir com a cadeira.

— Olha, Cambota — começou Afonso, a voz mais lenta —, eu sempre gostei de quem ri. Mas ultimamente, esse tom de vermelho que o Ceará produz... vou te falar, é muito atraente.

O teatro quase veio abaixo. Ana sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado do teatro. Ela pegou o copo de cachaça de Thiago, que estava cheio, e virou sem nem pensar.

— Eita! — gritou Portugal. — Bebeu o dela e o do vizinho! A sede de esquecer o Afonso está grande!

— Eu só quero que esse bloco acabe — disse Ana, a voz já levemente alterada pelo álcool. — Letícia, Natália, Rafaela... vocês estão desconvidadas do meu aniversário. E de qualquer evento que envolva a minha presença física.

— Não fica brava, amiga! — gritou Natália da plateia. — A gente só quer ver o casal "Anonso" ou "Anago" acontecer!

— "Anonso" é horrível, parece nome de doença — comentou Márcio Donato. — Eu voto em "PadilhAna". Parece nome de churrascaria chique.

Ana já não conseguia mais esconder o riso nervoso. A cada nova participação das amigas, ela percebia que elas tinham planejado aquela emboscada nos mínimos detalhes. Elas sabiam exatamente quais botões apertar para deixá-la vulnerável.

— Vamos para a última rodada antes do intervalo — anunciou Cambota. — Ana, essa aqui é anônima, mas eu acho que eu sei quem mandou. "É verdade que você tem uma playlist no Spotify chamada 'Músicas para pensar no boné que eu queria tirar'?"

Ana não aguentou. Ela soltou uma gargalhada alta, uma mistura de embriaguez e rendição.

— Eu não aguento mais vocês — disse ela, levantando-se. — Eu vou ao banheiro, e se eu não voltar, é porque eu peguei um Uber direto para Fortaleza.

— Nada disso! — Thiago a segurou pelo braço, rindo. — Senta aí, Aninha. O microfone ainda está funcionando, não precisa fugir.

— O microfone está ótimo, Thiago! O que não está funcionando é o meu sistema nervoso! — rebateu ela.

Afonso se inclinou na direção dela, falando baixo o suficiente para que apenas os que estavam na mesa ouvissem, por baixo do barulho da plateia.

— Você está bem mesmo? — perguntou ele, e o tom de voz não era de piada. Era um tom de preocupação real, o que a deixou ainda mais desarmada.

— Estou — sussurrou ela, olhando nos olhos dele por um segundo a mais do que o recomendado. — Só quero matar minhas amigas.

— Elas são boas de roteiro, tenho que admitir — Afonso sorriu, e o coração de Ana deu um salto que nenhuma dose de cachaça conseguiria explicar.

No palco, a dinâmica continuou com os outros humoristas, mas o foco da plateia continuava neles. Cada vez que Afonso e Ana trocavam um olhar ou uma palavra sussurrada, um murmúrio corria pelas fileiras. As amigas de Ana, vitoriosas, trocavam "high-fives" na plateia.

Quando o bloco finalmente encerrou para o intervalo, Ana saiu do palco quase correndo. Ela precisava de água, silêncio e, talvez, de um novo nome e uma nova identidade. Ela estava no corredor dos camarins quando ouviu passos atrás dela.

— Ei, Aninha. Espera aí.

Era Afonso. Ele estava sem o microfone agora, as mãos nos bolsos da calça.

— Aquilo tudo lá fora... — começou ele, parando na frente dela. — As meninas pegaram pesado, né?

— Você não tem ideia — disse ela, encostando-se na parede fria. — Elas sabem de coisas que nem eu lembrava que sabia.

— Elas mencionaram uma pasta oculta — Afonso disse, dando um passo à frente, entrando no espaço pessoal dela. — E um vídeo no karaokê. E uma playlist.

Ana sentiu a garganta secar. O efeito do álcool ainda estava lá, deixando-a mais corajosa do que o habitual, mas menos protegida.

— Elas exageram, Afonso. Você sabe como é. Comediante aumenta tudo para a piada funcionar.

— É, eu sei — ele concordou, mas não se afastou. — Mas o jeito que você ficou vermelha quando elas falaram de Curitiba... não pareceu piada. E o jeito que você ajeitou o microfone do Thiago, parecendo que ia ter um colapso porque a plateia ia falar de nós dois...

Ana olhou para os próprios pés, o silêncio do corredor sendo quebrado apenas pelo som abafado da música que tocava no teatro.

— Eu só não queria que as pessoas ficassem criando histórias, Afonso. A nossa amizade é importante para mim. Eu não queria estragar as coisas com... fofoca.

— E se não for fofoca? — perguntou ele, a voz baixa e séria.

Ana levantou o olhar, surpresa. Afonso estava observando-a com uma intensidade que ela nunca vira antes. Não havia deboche, não havia piada pronta.

— O que você está dizendo? — perguntou ela, quase sem voz.

— Estou dizendo que, se você tiver mesmo uma playlist sobre tirar o meu boné, eu adoraria ouvir — ele sorriu, mas era um sorriso diferente, mais suave. — E que, se você quiser ajeitar o meu microfone agora, eu prometo que não vou deixar o Thiago Ventura fazer piada.

Ana sentiu o mundo parar por um segundo. A emboscada das amigas, as doses de cachaça, o constrangimento público... tudo parecia ter valido a pena para chegar àquele momento de clareza no corredor escuro do teatro.

— Eu não tenho a playlist, Afonso — confessou ela, um sorriso surgindo nos lábios. — Mas a pasta oculta... talvez ela exista.

Afonso riu, uma risada curta e aliviada, e aproximou-se ainda mais.

— Então a gente tem muito o que conversar depois que esse show acabar.

— Temos — concordou ela. — Mas agora eu realmente preciso de uma água. E de um plano para assassinar a Letícia.

— Eu te ajudo com o plano — prometeu ele, piscando. — Mas só se você me deixar escolher a trilha sonora.

Eles voltaram para o palco para o bloco final. A plateia notou que algo mudara. Ana ainda ficava vermelha, e Afonso ainda fazia piadas, mas havia uma cumplicidade nova entre eles, um segredo compartilhado que ia além das perguntas comprometedoras.

Thiago Ventura, percebendo a troca de olhares, inclinou-se para o microfone.

— Ô, Cambota! — gritou Thiago. — Acho que o microfone da Ana e do Afonso está com interferência. Eles não param de se olhar!

Afonso apenas sorriu e ajeitou o boné.

— Deixa a interferência, Thiago. Pela primeira vez na noite, o sinal está bem claro.

O especial terminou com a maior audiência da história dos canais de comédia. Mas para Ana e Afonso, o verdadeiro show começou quando as luzes se apagaram e as câmeras pararam de gravar, longe das perguntas da plateia e bem perto da verdade que nenhum deles conseguia mais esconder. As amigas de Ana, observando tudo da saída do teatro, sorriram vitoriosas. A emboscada fora um sucesso absoluto.