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O Veneno Mais Doce do País das Maravilhas
As semanas que se seguiram àquela noite de confronto foram marcadas por uma tensão gélida e sufocante. Bridget, a Rainha de Copas, mantinha Maddox por perto apenas porque a logística de sua saída se tornara um labirinto de chaves trocadas e ameaças veladas. Eles dividiam o mesmo quarto, uma imposição dele que ela aceitara para evitar um escândalo maior perante a corte, mas o enorme leito real era um campo de batalha silencioso.
— Não me toque, Maddox — Bridget dizia todas as noites, de costas para ele, sentindo o calor do corpo dele pairando a poucos centímetros de sua pele. — Você pode ter as chaves das portas, mas não tem as chaves de mim.
Maddox apenas sorria na penumbra, seus olhos brilhando com uma paciência doentia.
— O tempo é uma engrenagem que eu controlo, minha rainha. Eu posso esperar.
Naquela noite de terça-feira, o ar no castelo estava particularmente pesado. Bridget sentia uma exaustão que parecia vir de dentro dos ossos. Sobre a mesa de cabeceira, uma taça de cristal lapidado brilhava sob a luz das velas, cheia de um líquido carmesim espesso.
— O que é isso? — perguntou ela, aproximando-se da mesa enquanto desamarrava as fitas de seu espartilho.
Maddox, que estava sentado em uma poltrona lendo um grimório antigo, nem sequer levantou os olhos, embora um sorriso imperceptível dançasse em seus lábios.
— Apenas o seu tônico de hibisco e frutas silvestres, Bridget. Você tem reclamado de insônia. Pedi aos boticários que preparassem algo para relaxar seus nervos reais.
Bridget hesitou. Ela não confiava nele, mas a sede e o cansaço eram maiores. O cheiro era inebriante, doce e levemente picante. Ela levou a taça aos lábios e bebeu tudo de uma vez. O líquido desceu queimando, mas não era uma queimação desagradável; era como se um rastro de fogo líquido estivesse percorrendo suas veias, despertando partes de seu corpo que ela jurara manter adormecidas.
— Tem um gosto... diferente — murmurou ela, sentindo as bochechas corarem instantaneamente.
— É a receita nova — respondeu Maddox, fechando o livro com um estalo seco. Ele se levantou e caminhou em direção a ela. — Você parece subitamente... radiante, Bridget.
A rainha sentiu o mundo girar levemente. O calor em seu ventre começou a se espalhar, uma pulsação rítmica e exigente que nublava seu julgamento. Ela olhou para Maddox e, pela primeira vez em meses, não viu o manipulador que odiava, mas sim o homem cujas mãos conheciam cada centímetro de suas curvas.
— Maddox... eu me sinto estranha — sussurrou ela, as mãos trêmulas agarrando a borda da mesa.
— Talvez você só precise de carinho — disse ele, a voz baixa e rouca, parando logo atrás dela. Suas mãos subiram pelos ombros de Bridget, e desta vez, ela não se esquivou. Pelo contrário, ela inclinou a cabeça para trás, buscando o toque.
O que se seguiu foi uma névoa de luxúria e descontrole. Bridget, impulsionada pelo afrodisíaco potente que Maddox havia disfarçado de tônico, entregou-se com uma ferocidade que nunca demonstrara. Ela o puxou para a cama, suas mãos arrancando as roupas dele com uma urgência que beirava o desespero. Maddox, por sua vez, saboreava cada gemido, cada vez que ela implorava pelo seu toque, gravando na memória a imagem da rainha altiva totalmente rendida aos seus desejos mais carnais.
A noite foi longa, preenchida pelo som de respirações ofegantes e promessas sussurradas no calor do ato, promessas que Bridget, em seu estado alterado, não percebia que seriam usadas contra ela.
Quando os primeiros raios de sol atravessaram as cortinas vermelhas, a realidade atingiu Bridget como um balde de água gelada. Ela acordou com a cabeça latejando e o corpo dolorido, as lembranças da noite anterior voltando em flashes vergonhosos. Ela olhou para o lado e viu Maddox, apoiado em um cotovelo, observando-a com um olhar que misturava satisfação e uma tristeza fingida.
Bridget sentou-se bruscamente, puxando os lençóis para cobrir o corpo.
— O que... o que aconteceu? — Sua voz estava rouca. — Aquela bebida... o que você colocou nela, Maddox?
Maddox suspirou, passando a mão pelos cabelos bagunçados, fingindo uma mágoa profunda.
— Eu não acredito que você vai fazer isso de novo, Bridget.
— Fazer o quê? Você me drogou! — acusou ela, os olhos faiscando de raiva e medo.
— Te droguei? — Maddox soltou uma risada amarga e se levantou, caminhando nu e sem nenhuma vergonha pelo quarto, pegando a taça vazia. — Eu te trouxe um chá relaxante. Você, por outro lado, parece ter decidido que eu era o seu brinquedo particular. Você me usou a noite toda, Bridget. Você me implorou para não parar. E agora, porque o sol nasceu, você quer me descartar e culpar o que bebeu?
— Eu nunca faria aquilo sem um motivo! — gritou ela. — Aquilo era um afrodisíaco! Eu conheço os sintomas!
Maddox aproximou-se da cama, inclinando-se sobre ela com uma expressão de decepção calculada.
— Talvez o "afrodisíaco" tenha sido apenas o seu desejo reprimido saindo do controle. Você me odeia tanto durante o dia, Bridget, mas à noite... à noite você se agarra a mim como se eu fosse a única coisa que te mantém inteira. É cruel, sabia? Me usar para satisfazer seus instintos e depois me tratar como um criminoso.
— Isso é mentira! — Bridget sentiu as lágrimas de frustração arderem em seus olhos. — Você planejou isso! Você quer me prender a você!
— Eu? Prender você? — Maddox endireitou as costas, sua voz subindo de tom, carregada de uma manipulação magistral. — Eu sou aquele que fica aqui, Bridget! Eu sou aquele que aguentou seus insultos, seu desprezo, sua tentativa de divórcio ridícula! E depois de uma noite onde fomos um só, onde você me disse que me amava entre suspiros, você acorda e tenta me transformar em um vilão? Quem é o tóxico aqui? Quem está manipulando quem?
Bridget balançou a cabeça, confusa. As memórias da noite eram tão intensas, o prazer fora tão real, que a dúvida começou a se infiltrar em sua mente. E se ele estivesse certo? E se ela tivesse simplesmente perdido o controle e agora estivesse tentando culpar o chá por sua própria fraqueza?
— Eu... eu não disse que te amava — murmurou ela, a voz falhando.
— Disse. Várias vezes — mentiu Maddox com uma convicção assustadora, sentando-se na beira da cama e pegando a mão dela. — Você disse que não conseguia viver sem mim. Que o divórcio era apenas uma forma de testar minha lealdade. Bridget, meu amor... eu estou exausto desse jogo. Você me usa, me joga fora, e depois me puxa de volta para a sua cama quando a solidão aperta. Eu mereço mais do que ser o seu segredo sujo de meia-noite.
— Maddox, eu só... eu não me lembro de tudo com clareza — ela confessou, sentindo o peso da culpa que ele tão habilmente depositara sobre seus ombros.
— Claro que não lembra. É mais fácil esquecer do que admitir que você ainda é louca por mim — disse ele, suavizando o tom, voltando a ser o marido "devoto". — Mas eu lembro. Eu lembro de cada palavra. E dói, Bridget. Dói saber que, em alguns minutos, você vai colocar aquela coroa e fingir que eu não significo nada para você.
Bridget olhou para as mãos dele, as mesmas mãos que a haviam levado ao êxtase poucas horas antes. A confusão mental, o efeito residual da substância e a pressão psicológica de Maddox criaram a tempestade perfeita. Ela estava cansada de lutar. Cansada de odiá-lo durante o dia e sentir falta de algo que ela nem sabia mais o que era durante a noite.
— Talvez... — ela começou, a voz baixa. — Talvez eu tenha sido dura demais.
Maddox sentiu a vitória vibrar em seu peito, mas manteve a fachada de homem ferido.
— Dura? Você foi impiedosa. Me ameaçar com o divórcio depois de tudo o que eu fiz por este reino... por você.
Bridget suspirou profundamente, deixando os ombros caírem. A Rainha de Copas parecia pequena sob o peso da manipulação dele.
— Chega, Maddox. Eu não aguento mais essas discussões. Se o que você diz é verdade... se eu realmente fiz tudo aquilo...
— Você fez — interrompeu ele, apertando a mão dela com firmeza.
— Então não haverá divórcio — declarou ela, embora as palavras soassem amargas em sua boca. — Eu vou cancelar os novos documentos. Vamos continuar como estamos.
Maddox sentiu uma onda de euforia sombria. Ele a tinha de volta. Da maneira mais suja e distorcida possível, mas ela era dele.
— É a decisão mais sensata, minha rainha — disse ele, aproximando-se para beijar a testa dela. — Nós fomos feitos um para o outro. O caos e a ordem. O Chapeleiro e sua Rainha.
Bridget fechou os olhos, sentindo o beijo dele como uma marca de propriedade. No fundo de sua mente, uma pequena parte dela ainda gritava que algo estava errado, que ela estava sendo enredada em uma teia de aranha cuidadosamente tecida. Mas o cansaço era vasto, e a certeza de Maddox era tão absoluta que era mais fácil simplesmente aceitar a mentira do que lutar pela verdade.
— Vá se vestir — ordenou ela, tentando recuperar um pouco de sua autoridade perdida. — Temos um conselho para presidir.
— Sim, minha rainha — respondeu Maddox, com um sorriso triunfante que ela não viu.
Enquanto ele se vestia, Maddox olhou para a taça vazia sobre a mesa. O segredo do tônico morreria com ele. Ele continuaria a ser o marido "vítima", o homem que suportava os caprichos de uma rainha instável, enquanto secretamente puxava cada corda e ajustava cada engrenagem para garantir que Bridget nunca mais pensasse em deixá-lo.
Bridget permaneceu na cama por mais alguns instantes, observando o teto pintado com cenas de glória e conquista. Ela era a mulher mais poderosa do País das Maravilhas, mas sentia que acabara de perder a batalha mais importante de sua vida. E o pior de tudo era que ela não tinha mais certeza de quem era o verdadeiro inimigo: o homem que a manipulava ou o seu próprio coração, que parecia ter se tornado um traidor.
O tique-taque dos relógios no quarto parecia mais alto agora, como se rissem dela. Maddox saiu do banheiro, já devidamente trajado, e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.
— Às seis em ponto, o chá estará pronto, Bridget. Como sempre.
— Como sempre — repetiu ela, aceitando a mão dele e entrando novamente na rotina de sua prisão dourada.
O divórcio fora esquecido, mas a alma de Bridget sentia-se mais fragmentada do que nunca. Maddox, por outro lado, nunca estivera tão inteiro. Ele finalmente consertara o relógio do seu casamento. Não importava se ele precisara quebrar as molas e forçar os ponteiros; o que importava era que, no seu mundo, o tempo agora corria exatamente como ele desejava. E no Reino de Copas, a vontade do Chapeleiro tornara-se a lei invisível que nem mesmo a Rainha conseguia revogar.