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O Herdeiro das Engrenagens Quebradas
A rotina no Castelo de Copas havia se transformado em uma dança coreografada de aparências e silêncios preenchidos. Bridget, a Rainha, não falava mais em divórcio. As chaves que Maddox trocara agora permaneciam nas fechaduras, mas a porta da alma dela parecia trancada por dentro. Maddox, por outro lado, vivia em um estado de euforia quase febril. Ele caminhava pelos corredores com a postura de um rei consorte que finalmente havia domado a fera, embora soubesse, no fundo de sua mente obcecada, que a fera estava apenas anestesiada pela sua manipulação constante.
Eles agiam como um casal perfeito diante da corte. Maddox a acompanhava em cada banquete, sussurrando elogios ao seu ouvido, tocando sua mão com uma posse que todos confundiam com devoção. E, nas noites que se seguiram, a resistência de Bridget desmoronou completamente. O que começou como uma névoa induzida por substâncias tornou-se uma aceitação resignada. Ela se permitia ser levada por ele, buscando no contato físico uma forma de silenciar as dúvidas que ainda gritavam em sua mente. Maddox estava nas nuvens; para ele, cada toque dela era a validação de que ele era indispensável.
Certa tarde, porém, o relógio perfeitamente ajustado de Maddox sofreu um solavanco. Ele precisara deixar o palácio para supervisionar a manutenção dos Relógios de Ponto no limite do Reino, uma tarefa que ele geralmente delegava, mas que usara como desculpa para buscar novos ingredientes para seus "tônicos".
Enquanto isso, nos aposentos reais, Bridget sentiu o mundo vacilar.
O sol de Copas, sempre de um vermelho intenso, parecia queimar seus olhos. Ela tentou se levantar da escrivaninha, mas uma onda de náusea a atingiu com a força de um maremoto. O cheiro das rosas frescas no vaso — rosas que Maddox insistia em trocar pessoalmente todos os dias — subitamente pareceu insuportável, metálico, sufocante.
— Majestade? — A camareira aproximou-se, vendo a rainha empalidecer. — A senhora está bem?
Bridget não conseguiu responder. Ela correu para o toalete, o corpo curvado em espasmos de enjoo. Quando finalmente conseguiu se recompor, apoiada na frieza do mármore, um pensamento aterrorizante atravessou sua mente. Ela contou os dias. As semanas. A névoa daquela primeira noite e o abandono das precauções nas noites seguintes.
Quando Maddox cruzou os portões do castelo, horas depois, o clima era de urgência. Um guarda o informou que a rainha havia se recolhido e que o médico da corte fora chamado. O Chapeleiro sentiu o sangue gelar. O medo de perdê-la, ou de que ela tivesse recuperado a lucidez e tramado algo em sua ausência, o fez correr pelos corredores, os calcanhares batendo no chão com um ritmo frenético.
Ele escancarou a porta do quarto sem bater.
— Bridget! — exclamou ele, ofegante, jogando o chapéu sobre uma poltrona. — Me disseram que você passou mal. O que aconteceu? Quem tocou em você? Onde está o médico? Eu vou matá-lo se ele tiver dado o diagnóstico errado!
Bridget estava sentada na beira da cama, envolta em um robe de seda branca. Ela parecia pequena, os olhos fixos em um ponto invisível no tapete. Ela não se virou para olhá-lo, o que fez a ansiedade de Maddox escalar.
— Bridget, fale comigo! — Ele se ajoelhou aos pés dela, agarrando suas mãos frias. — Eu estou aqui agora. Nada vai te acontecer. Eu vou consertar o que quer que esteja errado.
— Não há nada para consertar, Maddox — disse ela, a voz desprovida de emoção. Finalmente, ela baixou o olhar para ele. Havia um brilho de pânico contido em suas pupilas. — Eu estou grávida.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Maddox sentiu o coração parar por um segundo, para logo depois disparar em uma batida descompassada de puro triunfo. Um filho. Um herdeiro. O elo definitivo que a acorrentaria a ele para sempre, muito além de qualquer contrato ou manipulação química. Um pedaço dele crescendo dentro dela.
— Um filho... — sussurrou ele, um sorriso largo e quase assustador se espalhando por seu rosto. Ele beijou as mãos dela com fervor. — Bridget, isso é maravilhoso! É a prova de que o nosso amor é sagrado, de que o destino quer que fiquemos juntos!
Bridget puxou as mãos, levantando-se bruscamente. Ela começou a andar de um lado para o outro, os braços cruzados sobre o ventre.
— Maravilhoso? Maddox, olhe para nós! — Ela se virou para ele, a voz subindo de tom. — Há poucos meses eu queria o divórcio. Eu nem sei se o que sinto por você é amor ou apenas... um hábito terrível que você me forçou a ter! Como posso trazer uma criança para este caos? Eu sou a Rainha de Copas, eu tenho um reino para governar, inimigos para decapitar! Eu não posso... eu não quero isso agora!
Maddox levantou-se lentamente, a expressão mudando da alegria para uma seriedade sombria e manipuladora. Ele se aproximou dela com passos predatórios, cercando seu espaço.
— Você não quer? — perguntou ele, a voz suave como veludo, mas carregada de veneno. — Bridget, você está ouvindo o que está dizendo? Você está falando do nosso filho. Do fruto daquela noite em que você se entregou a mim com tanta paixão.
— Você sabe muito bem o que aconteceu naquela noite! — rebateu ela, os olhos marejados.
— Eu sei o que aconteceu — interrompeu ele, segurando-a pelos ombros com firmeza. — O que aconteceu foi que o seu corpo reconheceu o que a sua mente teimosa tentava negar. E agora, o universo selou esse pacto. Você quer descartar essa criança como tentou me descartar? Você quer ser conhecida como a rainha que rejeitou a própria linhagem por puro egoísmo?
— Não é egoísmo, é medo! — gritou ela, as lágrimas finalmente caindo. — Eu não sei ser mãe, Maddox. E com você... com você tudo é tão instável.
Maddox suavizou o toque, puxando-a para um abraço apertado, embora Bridget permanecesse rígida. Ele começou a acariciar o cabelo dela, sua voz soando como um feitiço hipnótico.
— Medo é apenas uma engrenagem fora do lugar, querida. Eu estarei aqui. Eu farei tudo. Eu serei o pai perfeito, o protetor que essa criança precisa. Imagine, Bridget... um herdeiro com a sua beleza e a minha mente. Nós seremos uma dinastia inquebrável. Ninguém ousará contestar o seu trono se você tiver um sucessor.
— Eu me sinto presa, Maddox — soluçou ela contra o peito dele. — Sinto que cada vez que tento respirar, você cria uma nova parede ao meu redor.
— Paredes protegem, Bridget — murmurou ele, sorrindo por cima da cabeça dela. — O mundo lá fora é cruel. Eles ririam de uma rainha solteira e sem herdeiros. Eles veriam fraqueza. Mas com um filho... você se torna intocável. Você se torna a Grande Mãe de Copas. Você não vê? Isso não é uma prisão. É o seu maior triunfo.
Ele a afastou um pouco, apenas o suficiente para olhar em seus olhos, limpando as lágrimas dela com os polegares.
— Pense no que o povo diria se você tentasse se livrar desse bebê. A Rainha de Copas, a mulher que prega a ordem e o controle, incapaz de aceitar o próprio destino. Você perderia o respeito de todos. Você perderia o reino.
Bridget estremeceu. Maddox sabia exatamente onde golpear. O reino era a única coisa que ela sentia que ainda lhe pertencia de verdade.
— E além disso — continuou ele, o tom tornando-se perigosamente baixo —, eu nunca permitiria. Este filho é meu tanto quanto seu. Se você tentar qualquer coisa contra ele, Bridget... se você tentar fugir dessa responsabilidade... eu não terei outra escolha a não ser contar a verdade sobre a sua instabilidade mental ao conselho. Eu diria que a rainha enlouqueceu, que ela é um perigo para si mesma e para o herdeiro.
Bridget arregalou os olhos, o horror estampado em seu rosto.
— Você me trancaria? Você teria coragem de fazer isso comigo?
— Eu faria qualquer coisa para proteger a nossa família — respondeu ele, com uma sinceridade assustadora. — Eu te amo demais para deixar você cometer um erro tão grande. Mas não precisamos chegar a isso, não é? Você vai aceitar este presente. Você vai ser a mãe maravilhosa que eu sei que pode ser. E nós seremos felizes. Eu vou garantir que sejamos felizes, nem que eu precise parar o tempo para isso.
Bridget olhou para Maddox e viu, pela centésima vez, o brilho da loucura em seus olhos disfarçado de devoção. Ela sentia-se exausta, drenada de qualquer vontade de lutar. A gravidez, que deveria ser um momento de esperança, parecia a sentença final de sua liberdade. Mas, diante das ameaças veladas e da promessa de uma proteção sufocante, ela cedeu.
— Tudo bem — sussurrou ela, sentindo o peso do mundo esmagar seus ombros. — Eu vou ter o bebê.
Maddox soltou um suspiro de alívio puro e a beijou com uma intensidade que a deixou sem fôlego.
— Minha rainha. Minha Bridget. Você tomou a decisão certa. Eu vou preparar tudo. Vou mandar buscar as melhores sedas para o berço, os elixires mais puros para a sua saúde... Você não terá que se preocupar com nada. Apenas em crescer o nosso futuro aí dentro.
Ele se ajoelhou novamente e, desta vez, pressionou o ouvido contra o ventre dela, embora ainda fosse cedo demais para ouvir qualquer coisa.
— Você ouviu, pequeno? — sussurrou Maddox para a barriga de Bridget. — O papai está aqui. E eu nunca, nunca vou deixar nada separar a nossa família.
Bridget permaneceu imóvel, as mãos pairando hesitantes sobre a cabeça de Maddox. Ela olhou para a janela, onde as rosas vermelhas balançavam ao vento. Elas eram lindas, mas ela sabia que, por baixo da cor vibrante, havia espinhos que Maddox cultivara com cuidado.
Naquela noite, enquanto Maddox dormia com um sorriso satisfeito, abraçado à sua cintura como se temesse que ela evaporasse, Bridget ficou acordada, observando as sombras no teto. Ela não era mais apenas uma prisioneira em seu castelo; ela era agora uma prisioneira em seu próprio corpo.
— Eu sinto muito — sussurrou ela para o silêncio, sem saber ao certo se pedia desculpas a si mesma ou à vida que começava a pulsar dentro dela.
Maddox, em seu sono, apertou o abraço. Ele vencera. O relógio do destino havia sido forçado a marcar a hora que ele escolhera. E, no País das Maravilhas, a vontade do Chapeleiro era agora a única realidade que a Rainha de Copas tinha permissão para viver. O amor dele era uma doença, sim, mas era uma doença da qual ele nunca permitiria que ela se curasse.