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O Batismo de Sangue e Rosas
O Castelo de Copas nunca esteve tão vibrante, e ao mesmo tempo, tão silencioso. Seis meses haviam se passado desde que a notícia da gravidez de Bridget selara o destino do casal, e Maddox parecia flutuar pelos corredores de mármore. Para ele, cada centímetro que o ventre de Bridget crescia era uma engrenagem a mais que ele ajustava em seu plano de perfeição eterna. Ele não era mais apenas o Chapeleiro da Rainha; ele era o arquiteto de uma linhagem.
Maddox tornou-se onipresente. Ele mesmo testava cada refeição da rainha para garantir que não houvesse nada além dos nutrientes mais puros — e, claro, pequenas doses de ervas que a mantivessem em um estado de docilidade melancólica. Ele desenhou berços que giravam de acordo com a posição das estrelas e costurou roupinhas com fios de seda tão finos que pareciam teias de aranha. Sua obsessão, antes focada apenas em Bridget, agora se expandira para a vida que ela carregava.
— Você precisa comer tudo, minha querida — dizia Maddox, enquanto cortava delicadamente um pedaço de carne para ela durante um jantar privado. — O nosso pequeno tesouro precisa de forças. Você sente como ele se mexe? É o ritmo do meu coração batendo dentro de você.
Bridget olhava para o prato com uma expressão vazia. Seus olhos, que um dia brilharam com a chama da autoridade, agora pareciam duas poças de água parada. Ela se tornara uma espectadora de sua própria existência.
— Sinto, Maddox — respondeu ela, a voz monótona. — Ele nunca para. Parece querer sair logo daqui.
— E quem não quereria? — Maddox riu, um som seco que ecoou pelas paredes. — O mundo lá fora é um caos, mas aqui dentro, sob minha proteção, ele terá tudo. Nós seremos a trindade perfeita.
Mais dois meses se arrastaram sob o calor opressor do País das Maravilhas. Bridget sentia-se um monumento de mármore prestes a rachar. E então, na noite mais vermelha do ano, quando a lua parecia uma ferida aberta no céu, as dores começaram.
O parto foi um evento de agonia e precisão. Maddox não permitiu que nenhum médico homem entrasse no quarto; ele mesmo coordenou as parteiras, agindo como um maestro de uma sinfonia de dor. Quando o primeiro choro ecoou, agudo e desafiador, o Chapeleiro caiu de joelhos. Não por humildade, mas por um êxtase quase religioso.
Era uma menina. Uma pequena criatura de cabelos já levemente avermelhados e olhos que, ao se abrirem pela primeira vez, não mostraram medo, mas uma centelha de fogo.
— Red — sussurrou Maddox, pegando a criança nos braços antes mesmo que Bridget pudesse vê-la. — Seu nome será Red. O nome da cor que governa este mundo. O nome do sangue que nos une.
Bridget, exausta e pálida, estendeu os braços trêmulos.
— Deixe-me... deixe-me segurá-la, Maddox.
Ele hesitou por um segundo, os olhos brilhando com uma possessividade doentia, mas acabou cedendo. Ao colocar a pequena Red nos braços da mãe, ele se inclinou sobre as duas, cercando-as como uma sombra.
— Veja, Bridget. Veja o que nós fizemos. Você ainda tem coragem de dizer que eu te prendo? Eu te dei a imortalidade.
Nas semanas que se seguiram ao nascimento, a dinâmica no castelo atingiu um novo nível de toxicidade. Maddox estava nas nuvens, mas sua dependência emocional agora se manifestava em uma vigilância constante sobre a relação entre mãe e filha. Ele monitorava as amamentações, cronometrava o tempo que Bridget passava com o bebê e interferia em cada pequena interação.
Uma tarde, Bridget estava sentada no jardim de rosas, balançando Red em um berço de ouro. Por um breve momento, ela sentiu uma conexão real, uma vontade de fugir para longe, de levar aquela criança para um lugar onde o tique-taque dos relógios de Maddox não pudesse alcançá-las.
— Ela é tão bonita — murmurou Bridget, tocando a bochecha macia da filha. — Você não vai ser como eu, pequena. Você vai ser livre.
— Livre para quê, Bridget? — A voz de Maddox surgiu de trás de uma sebe de rosas, fazendo a rainha sobressaltar-se.
Ele apareceu com seu habitual sorriso distorcido, segurando um novo protótipo de brinquedo — um carrossel em miniatura cujos cavalos eram soldados de copas.
— Eu estava apenas... conversando com ela — disse Bridget, tentando manter a voz firme.
— Conversando ou plantando ideias perigosas? — Maddox aproximou-se e sentou-se ao lado dela, passando o braço pesadamente pelos ombros da esposa. — Liberdade é um conceito superestimado para quem nasceu para governar. Ela não precisa ser livre, ela precisa ser protegida. Como você.
— Ela precisa de uma mãe, Maddox. Não de um guarda-costas — rebateu Bridget, sentindo a antiga faísca de rebeldia tentar acender-se.
Maddox apertou o ombro dela, os dedos cravando-se levemente na seda do vestido.
— E ela tem uma mãe. Uma rainha que quase a abandonou antes mesmo de nascer. Você se lembra, não é? De como você chorou e disse que não a queria?
— Eu estava confusa! Você me manipulou, você me deu aquela bebida! — Bridget levantou a voz, esquecendo-se por um momento da fragilidade da situação.
Maddox soltou uma gargalhada fria, levantando-se e pegando Red do berço. A bebê começou a choramingar, sentindo a tensão no ar.
— Lá vamos nós de novo com a fantasia do chá — disse ele, balançando a criança com uma força desnecessária. — É impressionante como a sua mente cria vilões para não encarar a própria frieza. Eu salvei essa criança de você, Bridget. Se não fosse pela minha "manipulação", como você chama, você teria cometido um erro do qual nunca se recuperaria. Você deveria estar de joelhos me agradecendo por ter mantido esta família unida.
— Você usa essa criança como uma arma contra mim — acusou Bridget, as lágrimas de frustração voltando aos olhos. — Tudo o que você faz é para me lembrar de que eu sou "instável", de que eu "preciso" de você.
— Porque é a verdade! — gritou Maddox, fazendo Red chorar alto. — Olhe para você! Você não consegue nem manter a calma em um jardim! Como governaria um reino? Como cuidaria de um bebê sem mim para guiar seus passos? Você me usou para ter este herdeiro, para garantir seu trono, e agora quer me pintar como o monstro da história?
— Eu nunca te usei! Eu queria me divorciar!
Maddox aproximou o rosto do dela, o hálito quente e o olhar fixo.
— O divórcio era um capricho. A noite em que Red foi concebida foi a realidade. Você se entregou porque queria ser possuída, queria parar de pensar por um segundo. E agora você tem o que queria. Você tem a sua coroa, tem a sua filha e tem a mim.
Ele entregou o bebê chorando de volta para Bridget com um gesto brusco.
— Acalme-a. Você é a mãe, não é? Prove que você é capaz de fazer algo sem que eu precise consertar depois.
Bridget pegou a filha, aninhando-a contra o peito, tentando abafar o choro da pequena com seus próprios soluços silenciosos. Ela se sentia pequena, esmagada pela lógica circular e doentia de Maddox. Ele sempre vencia. Ele sempre transformava as ações dele em necessidades dela e as fraquezas dela em crimes dele.
— Eu não vou mais me divorciar — sussurrou Bridget, a frase saindo como uma rendição final.
Maddox parou, de costas para ela, e seus ombros relaxaram. Ele se virou lentamente, a expressão agora suavizada para aquela máscara de carinho que era mais assustadora do que sua fúria.
— O que você disse, querida?
— Eu disse que aceito — repetiu ela, olhando para Red, cujos olhos grandes e escuros pareciam observar a alma da mãe. — Não haverá divórcio. Nunca mais. Eu aceito a minha vida com você. Aceito que sou... o que você diz que eu sou.
Maddox caminhou até ela e ajoelhou-se, envolvendo as duas em um abraço protetor e sufocante.
— Viu só? — sussurrou ele no ouvido dela. — Foi preciso que a pequena Red chegasse para você entender que o seu lugar é aqui, no centro do meu mundo. Nós somos perfeitos agora, Bridget. O relógio finalmente parou no momento exato da nossa felicidade.
Bridget não respondeu. Ela apenas continuou a balançar a filha. Naquele momento, ela percebeu que Maddox não era apenas seu marido ou seu manipulador; ele era o arquiteto de uma cela de ouro cujas grades eram feitas de carne e sangue.
— Eu te amo, Bridget — disse Maddox, beijando-lhe a bochecha úmida.
— Eu sei — respondeu ela, a voz oca.
Ele se levantou, radiante, e começou a caminhar em direção ao castelo, cantarolando uma melodia de ninar que soava como uma marcha fúnebre.
— Vou pedir para prepararem um banquete! — exclamou ele. — Hoje celebramos a união eterna da Casa de Copas! E vou trazer aquele chá de hibisco que você tanto gosta, Bridget. Para comemorarmos em paz.
Bridget observou-o partir. Ela olhou para a pequena Red em seus braços. A bebê parara de chorar e agora agarrava o dedo da mãe com uma força surpreendente.
— Ele acha que parou o tempo, Red — sussurrou Bridget para a filha, um brilho perigoso e gelado surgindo no fundo de seus olhos, a primeira centelha da verdadeira Rainha de Copas que Maddox tanto tentara moldar e que agora, finalmente, estava despertando de forma distorcida. — Mas o tempo sempre corre. E um dia, pequena... um dia você vai crescer.
Bridget levantou-se, a postura reta, a cabeça erguida. Ela aceitara a desculpa de Maddox, aceitara a manipulação, aceitara a vida de prisioneira. Mas, pela primeira vez, ela não o fazia por fraqueza. Ela o fazia para sobreviver até que pudesse, finalmente, cortar a cabeça de quem ousara pensar que uma rainha poderia ser domesticada.
No Castelo de Copas, o tique-taque dos relógios continuava. Maddox estava nas nuvens, cego pelo próprio triunfo. Mas no jardim, sob o sol vermelho, Bridget e Red formavam uma nova aliança. Uma aliança de sangue, rosas e uma vingança que levaria anos para amadurecer, mas que seria tão implacável quanto o tempo que Maddox tanto tentava controlar.
— Vamos entrar, Red — disse Bridget, caminhando com firmeza. — O seu pai está nos esperando para o chá. E não podemos deixá-lo esperando... nem por um segundo.
A Rainha de Copas estava de volta. E desta vez, ela usaria a própria loucura de Maddox para construir o cadafalso onde ele, eventualmente, encontraria seu fim. O jogo no País das Maravilhas não havia terminado; ele apenas entrara em sua fase mais sombria e silenciosa. E Maddox, em sua obsessão, não percebera que, ao trancar a porta por fora, ele também se trancara lá dentro com a criatura que mais deveria temer.