..
O Limite Entre a Dignidade e a Tequila
A ideia começou, como quase todas as piores decisões daquele grupo de amigos, com Lis Uzumaki sentada de pernas para o ar no sofá de Sasuke.
Eram quatro da tarde de sábado. A sala cheirava a café requentado e desolação. Sasuke lia um livro com cara de quem preferia estar enterrado vivo, Naruto tentava equilibrar três canetas no lábio superior deitado no tapete, e Itachi folheava silenciosamente uma revista no chão, servindo de apoio para as costas de Lis.
— Nós estamos desperdiçando a nossa juventude — decretou Lis de repente, deixando o sangue descer para a cabeça enquanto olhava a sala de cabeça para baixo. — Somos jovens, gostosos e temos um fim de semana inteiro pela frente. Por que parece que estamos num retiro de idosos com problemas nas articulações?
— Porque alguns de nós apreciam o silêncio, Lis — rebateu Sasuke, sem tirar os olhos do livro. — E porque você e o meu irmão esgotaram a cota de energia do planeta ontem à noite.
— Ah, para de ser chato, cunhadinho! — Ela deu um chute de leve no ar. — Eu tenho uma proposta irrecusável.
Itachi fechou a revista devagar e olhou para trás, erguendo uma sobrancelha para a namorada. Ele já conhecia aquele tom de voz. Era o tom que geralmente precedia visitas da polícia, vidros quebrados ou despesas altas no cartão de crédito.
— Lis... — começou Itachi, a voz em um aviso prévio e tranquilo.
— Vamos fazer uma festa aqui — ela disparou, sentando-se num pulo e batendo as palmas. — Uma festa de verdade. Não essa palhaçada de três garrafas de cerveja e jogo de tabuleiro. Quero álcool suficiente para fazer o Shikamaru dançar em cima da mesa. Quero ver o Gaara sorrir!
— Nem fudendo — respondeu Sasuke imediatamente. — Meu apartamento não é boate.
— Sasuke, amor da minha vida, dono do meu coração — Naruto se intrometeu, rolando no chão até abraçar as pernas de Sasuke como um cachorro carente. — Só uma socialzinha! A gente nunca dá festa direito!
— Não me toque com essa mão suja de salgadinho, Naruto. E a resposta continua sendo não.
Quarenta minutos, uma votação unânime liderada por Ino que chegou com três fardos de cerveja sem ser convidada, e uma chantagem emocional grotesca de Lis depois, o apartamento havia sido transformado em uma zona de guerra etílica.
Às dez da noite, a dignidade já havia abandonado o recinto fazia tempo.
A música alta ecoava pelas paredes, misturada ao som de risadas histéricas e copos plásticos vermelhos sendo batidos contra as superfícies. O que deveria ser apenas "alguns drinques" rapidamente se transformou em uma olimpíada informal de quem destruía mais o próprio fígado.
Sakura e Hinata dominavam a bancada da cozinha. Sakura já estava na quarta dose de vodca com energético e insistia, aos berros, que conseguia vencer qualquer um no braço de ferro. Hinata, com as bochechas coradas como pimentões e uma tiara de orelhas de gato que ninguém sabia de onde tinha saído, ria descontroladamente de cada movimento da namorada, encostando a cabeça no ombro de Sakura a cada três segundos para sussurrar o quanto ela era linda e forte.
Perto da janela, Shikamaru e Temari estavam travados em um debate acalorado sobre regras de trânsito que ninguém mais estava prestando atenção.
— Eu só estou dizendo — Temari argumentava, gesticulando perigosamente com uma garrafa de cerveja quase vazia — que se o semáforo tá amarelo, você acelera!
— Você é um perigo público — Shikamaru murmurava, com a fala arrastada pelo gin e o cabelo preso num coque torto. — Que problemático... Eu vou esconder a chave do seu carro pelo resto da minha vida.
No canto da sacada, Sai usava um delineador preto de Ino para desenhar bigodes em Rock Lee, que chorava copiosamente, abraçado a uma garrafa de saquê.
— A juventude... ela é tão intensa, Sai! — soluçava Lee, enquanto Gaara, usando óculos escuros dentro de casa e segurando um copo com suco de cranberry com uma serenidade perturbadora, apenas dava tapinhas compassivos nas costas do namorado.
— Ele tem muita água dentro dele — comentou Sai com a costumeira expressão neutra, virando-se para Ino, que dançava sozinha na frente da televisão, segurando uma taça de vinho quase transbordando.
Mas o verdadeiro epicentro do caos era Lis.
Ela não estava apenas bêbada. Ela havia transcendido para um plano astral em que a vergonha alheia não existia mais. Os cabelos pretos e cacheados estavam armados e rebeldes, as raízes vermelhas pareciam ainda mais vivas sob a luz fraca da sala, e ela havia tirado os coturnos em algum momento da noite, andando de meias pretas escorregadias pelo piso de madeira.
— Vira, vira, vira! — berrou Naruto, rindo histericamente enquanto Lis virava um shot inteiro de tequila pura sem piscar.
Ela bateu o copo na mesa, sugou o limão com uma careta demoníaca e jogou a cabeça para trás, soltando uma gargalhada triunfante.
— Fracos! Vocês são todos uns fracos! — gritou Lis, subindo em cima de uma cadeira de madeira no meio da sala.
— Lis, desse jeito você vai quebrar o meu pescoço quando cair daí — avisou Itachi.
Ele era o único no apartamento que mantinha uma postura minimamente humana. Estava sentado no braço do sofá, vestindo uma camisa preta com as mangas arregaçadas até os cotovelos, segurando um copo de uísque com gelo que quase não diminuía. Seus olhos escuros e afiados acompanhavam cada centímetro da namorada, num misto de resignação pacífica e puro divertimento contido.
— Eu não caio! Eu sou uma deusa do equilíbrio! — Lis proclamou, balançando os braços no ar como se estivesse regendo uma orquestra invisível. — Sasuke, seu emo revoltado, põe aquela música da Shakira de novo ou eu vou queimar todas as suas camisas de gola alta!
— Tira ela de cima da cadeira, Itachi — Sasuke implorou, sentado no chão encostado na parede, visivelmente bêbado demais para se levantar, com Naruto jogado atravessado sobre o seu colo como um gato dourado de oitenta quilos. — Se ela quebrar essa cadeira, eu mato os dois.
Itachi apenas suspirou, colocou o copo na mesinha lateral e se levantou com passos lentos e firmes. Ele parou diante da cadeira onde Lis balançava perigosamente ao som da música alta.
— Desce, Lis — disse ele, a voz baixa, calma e aveludada cortando a confusão como sempre fazia.
Lis olhou para baixo, fitando o namorado. Um sorriso torto, incrivelmente sacana e completamente embriagado se espalhou pelo rosto dela.
— Só se você me pegar no colo, Uchiha gostoso — cantarolou ela, piscando os olhos exageradamente.
— Você está pesada de tanta tequila — Itachi comentou, com um quase sorriso no canto da boca, mas já estendendo os braços fortes para segurá-la pela cintura.
No segundo em que ele a puxou para baixo, os pés de Lis escorregaram no chão e ela colidiu de peito aberto contra o corpo dele. Itachi firmou o aperto nas coxas dela com extrema facilidade, mantendo-a suspensa contra seu quadril enquanto Lis jogava os braços ao redor do pescoço dele, colando a boca quente e desajeitada na dele.
O beijo durou tempo demais para uma sala cheia de amigos bêbados. Lis gemia baixinho contra a boca dele, enfiando as mãos no cabelo comprido de Itachi e desmanchando o elástico que o prendia.
— Ei! Ei! Chega de incesto aos olhos do público! — gritou Naruto do chão, apontando um dedo trêmulo para o teto. — Ninguém quer ver meu irmão de consideração engolindo minha irmã de sangue! É contra as leis de Deus e da vila!
— Cala a boca, Naruto, você tava se agarrando com o Sasuke na pia da cozinha há dez minutos! — Ino berrou de volta do outro lado do cômodo, rindo tanto que derrubou um pouco de vinho no tapete.
Sasuke enterrou o rosto nas mãos, desejando a própria morte.
— Foi um momento privado — murmurou o moreno, a voz falhando de vergonha e vodca.
Lis se afastou dos lábios de Itachi apenas o suficiente para respirar, ainda apoiada no peito dele. Seus olhos pretos faiscavam de uma malícia desprovida de qualquer freio inibitório.
— Ele é muito lindo, não é? — perguntou ela para a sala inteira, com a voz tão alta que fez Lee parar de chorar por um segundo. Lis passou a mão pelo rosto de Itachi, apertando as bochechas dele com força exagerada. — Olha essa mandíbula! Esse nariz de quem nunca passou uma humilhação na vida!
— Lis, chega de bebida por hoje — sussurrou Itachi, segurando os pulsos dela para que parasse de esmagar o rosto dele. — Vamos para o quarto beber água.
— Não! Não vou beber água nenhuma! Água é para os peixes! — Ela tentou se soltar, mas Itachi não afrouxou o aperto, apenas a colocou no chão e manteve uma das mãos firmes na cintura dela para evitar que ela tombasse de lado.
Nesse instante, Sakura, cambaleando levemente, se aproximou com uma garrafa de tequila na mão, rindo alto.
— O Itachi é muito paciente com você, Lis. Se fosse eu, já tinha te jogado no chuveiro frio faz meia hora. Ele é um santo. Como você conseguiu esse homem?
Foi a gota d'água para a mente anuviada de álcool e ciúme irracional de Lis Uzumaki.
Ela arregalou os olhos. Olhou para Sakura. Olhou para a sala inteira, que parecia subitamente em silêncio devido a uma pausa entre as faixas da playlist. Depois, olhou para Itachi, que continuava parado ali, impassível, bonito demais para ser real na sua camisa escura entreaberta no peito.
Lis puxou o ar com tanta força que os ombros subiram.
— Ele não é um santo coisa nenhuma! — berrou ela, a voz ecoando em cada centímetro quadrado do apartamento e, com certeza, no prédio inteiro. Ela apontou para a própria virilha com as duas mãos e depois apontou para Itachi: — EU QUE CHUPO ESSE PAU, CARALHO!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Tão denso que se podia ouvir a respiração ofegante de Lee na sacada.
A música parou. Hinata cuspiu o refrigerante que estava tomando, tossindo descontroladamente enquanto Sakura dava tapas desesperados nas costas dela com a boca aberta em choque.
Naruto arregalou os olhos a um nível quase desumano, soltando um grito agudo que parecia de uma criança de cinco anos, tapando os ouvidos com as palmas das mãos e rolando pelo tapete.
— LIS! MEUS OUVIDOS! A MINHA ALMA! EU SOU SEU IRMÃO, PORRA! — berrava o loiro, em pânico total. — SASUKE, CHAMA UMA AMBULÂNCIA, MINHA CABEÇA VAI EXPLODIR!
Sasuke simplesmente encostou a testa no joelho e fechou os olhos, murmurando:
— Eu odeio todos vocês. Eu odeio a minha vida. Eu vou me mudar para outra dimensão amanhã cedo.
Ino caiu na gargalhada, uma risada tão histérica e estridente que ela acabou caindo de joelhos no chão, batendo palmas no carpete enquanto Sai tentava levantar a namorada com um sorriso genuinamente perplexo no rosto.
— Ela não disse isso... meu Deus, ela não disse isso! — engasgava Ino entre lágrimas de riso.
No meio da catástrofe, Itachi permaneceu estátua. Ele não ficou vermelho. Não gritou. Não tentou se esconder.
Apenas fechou os olhos por exatos três segundos, respirando fundo como quem busca a paz interior no centro de um furacão de vergonha. Quando abriu os olhos novamente, encarou Lis, que ainda estava de queixo erguido, com uma expressão triunfante e territorialista, como se tivesse acabado de assinar a declaração de independência de um país.
Um meio sorriso, lento, perigoso e incrivelmente divertido, curvou os lábios de Itachi.
— Acabou a palhaçada — disse ele, a voz calma, mas carregada de uma determinação inegociável.
Num movimento rápido e sem esforço, Itachi passou um dos braços por baixo das coxas de Lis e o outro pelas costas dela, jogando-a por cima do ombro como se ela fosse um saco de batatas.
— Ei! Me solta, seu brutamontes! Eu estava marcando território! — esperneou Lis, batendo com os punhos na bunda dele, o que produziu um estalo sonoro que arrancou mais berros de Naruto.
— Se alguém perguntar — disse Itachi em voz alta para a sala, virando-se em direção ao corredor dos quartos —, nós fomos dormir. Limpem a bancada antes de desmaiarem.
— Leva ela embora antes que ela descreva a anatomia da família Uchiha no megafone! — gritou Sasuke do tapete, sem erguer a cabeça.
Itachi caminhou com calma pelo corredor escuro, ignorando os protestos incoerentes de Lis, que alternava entre rir histericamente e tentar morder as costas dele através do tecido da camisa. Ele abriu a porta do quarto de hóspedes com o pé, entrou e chutou a porta para trás, trancando-a com o calcanhar.
Ele jogou Lis sem cerimônia no meio da cama de casal macia.
Ela rolou pelo colchão, com os cabelos cobrindo metade do rosto, rindo até faltar o fôlego.
— Você ficou com vergonha, Uchiha? — provocou ela, com a voz arrastada, tentando se sentar e falhando miseravelmente, caindo de costas nos travesseiros de novo. — Fala a verdade. Você adorou.
Itachi não respondeu imediatamente. Ele caminhou até o banheiro anexo, pegou uma toalha pequena, molhou-a na água fria e voltou para a cama. Ele se sentou ao lado dela, puxando o corpo de Lis para que ela ficasse com a cabeça apoiada no colo dele.
Com uma delicadeza quase inacreditável para alguém que tinha acabado de ser humilhado publicamente diante de dez amigos íntimos, Itachi começou a afastar os cachos suados da testa dela e a passar a toalha úmida no rosto quente de Lis.
— Você é um desastre, Lis — murmurou ele, limpando um borrão de rímel abaixo dos olhos dela.
— Mas eu sou o seu desastre — ela rebateu manhosa, fechando os olhos sob o toque fresco da toalha e suspirando de alívio. Ela tateou a camisa dele até encontrar a gola, puxando-o para baixo. — E tudo que eu falei lá fora é a mais pura verdade.
Itachi soltou uma risada rouca, inclinando-se para beijar a ponta do nariz avermelhado dela.
— Eu nunca duvidei disso. Mas da próxima vez, tente não traumatizar o seu irmão. Ele parecia prestes a ter um infarto.
— Ele é dramático. Puxou a mim — Lis murmurou, as pálpebras pesando subitamente à medida que a adrenalina da tequila começava a se dissipar, deixando apenas uma sonolência avassaladora no lugar.
Itachi retirou os acessórios pesados dos dedos dela, um por um, colocando os anéis de prata na mesinha de cabeceira. Tirou a toalha úmida e a cobriu com o edredom grosso, deitando-se ao lado dela e puxando o corpo mole da garota para os seus braços.
Lis se aninhou imediatamente, enterrando o rosto no peito dele, aspirando o cheiro familiar de sabonete e madeira que ele sempre tinha, independentemente do caos do mundo ao redor.
— Itachi? — ela sussurrou, a voz quase inaudível, já entregue ao sono.
— Hm?
— Amanhã eu vou acordar com a cabeça explodindo, não vou?
— Sem dúvida alguma — ele respondeu suavemente, deslizando a mão pelos cabelos dela, acariciando os cachos devagar. — Mas eu vou comprar remédio e fazer o café.
— Você é o melhor namorado do mundo... — ela balbuciou contra o peito dele.
— Eu sei — sussurrou Itachi, depositando um beijo demorado no topo da cabeça de Lis enquanto os sons abafados da sala lá fora finalmente começavam a morrer, anunciando que até o caos daquele grupo tinha limites, mas a paciência dele com ela, felizmente, nunca teria.