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As Cicatrizes que o Olhar Não Apaga
**Clara**
A penumbra do quarto trazia uma paz que eu não conhecia há anos. O calor do corpo do Bruno contra o meu era uma âncora pesada, impedindo que eu flutuasse para aquele abismo cinzento onde as vozes costumavam gritar. Eu sentia o peito dele subindo e descendo contra minhas costas, um ritmo constante que parecia querer ensinar meu próprio coração a bater sem pânico.
Eu queria que o tempo parasse ali. Se o mundo acabasse naquele segundo, eu morreria sentindo, pela primeira vez, que não era um erro anatômico ou uma alma quebrada demais para ser consertada. Mas o sono, embora profundo, foi breve. O entorpecimento dos remédios estava passando, deixando em seu lugar uma consciência dolorosa de cada centímetro de gaze grudado na minha pele.
Acordei com um sobressalto, meu corpo dando um solavanco involuntário.
— Ei, calma. Eu estou aqui — a voz do Bruno soou baixa, um trovão suave perto do meu ouvido.
Ele não se moveu, não me soltou. Senti seus dedos grandes traçarem círculos lentos no meu antebraço, evitando a pressão sobre os cortes frescos, mas mantendo o contato físico. Eu me virei devagar dentro do abraço dele, sentindo-me pesada, desajeitada. Minha mente, antes silenciosa, começou a sussurrar novamente. *Olha para você, toda remendada. Ele está aqui por pena. Ele viu o seu sangue e agora te vê como um animal ferido.*
— Mestre... — minha voz saiu como um lixa.
— Só Bruno, Clara. Aqui dentro, agora, é só Bruno.
Eu me afastei um pouco para conseguir olhar para ele. Ele se sentou na cama, encostando as costas na cabeceira de madeira, e eu fiz o mesmo, mas mantive uma distância segura, sentando-me de lado. Minhas pernas, envoltas em faixas brancas que já mostravam pequenas manchas rosadas de sangue, pareciam troncos estranhos. Eu as puxei para perto do corpo, cruzando-as na posição de índio, tentando esconder a barriga que eu tanto odiava.
— Por que você voltou? — perguntei, encarando minhas próprias mãos, que tremiam levemente. — Você devia estar com os outros. Devia estar cuidando do campeonato. Eu estraguei tudo, não foi?
Bruno soltou um suspiro pesado. Ele estava sem a camisa do treino, apenas de regata preta, e os músculos dos seus ombros pareciam tensos sob a pele morena. Os olhos verdes dele me atravessavam, buscando algo que eu tentava desesperadamente esconder.
— O campeonato não vale nada se eu perder você, Clara — ele disse, e a sinceridade naquelas palavras doeu mais do que a lâmina. — Você acha que eu sou cego? Eu vejo você definhando há semanas. Vejo você treinando até cair, recusando comida, olhando para o espelho como se estivesse vendo um inimigo.
— Eu sou o meu inimigo — confessei, sentindo um nó górdio se formar na garganta. — Eu não aguento mais o barulho, Bruno. É como se tivesse uma rádio ligada no volume máximo dentro da minha cabeça, me dizendo o tempo todo que eu sou gorda, que eu sou insuficiente, que eu sou um lixo por ter me mandado fotos para aquele garoto... Eu só queria o silêncio.
Comecei a chorar de novo. Não era um choro bonito de cinema; era um desespero cru, o rosto ficando vermelho, o nariz escorrendo. E então, o tique voltou. Meu pescoço deu um estalo para o lado, uma, duas vezes. É o sinal físico de que meu sistema nervoso está entrando em colapso.
— Clara, olha para mim. Agora — a voz dele subiu um tom, carregada de uma autoridade que me obrigou a focar.
Ele se inclinou para frente, diminuindo a distância entre nós. Antes que eu pudesse recuar para o meu casulo de autodesprezo, ele estendeu as mãos. Uma delas segurou meu queixo com firmeza, estabilizando minha cabeça e interrompendo o movimento espasmódico do meu pescoço. A outra mão... a outra mão deslizou pela minha perna e parou na parte interna da minha coxa direita, bem acima de onde a gaze terminava, onde a pele estava quente e nua.
O toque foi como um choque elétrico. Era alto, era íntimo, era perigoso. Mas, acima de tudo, era real.
— Respira comigo — ele ordenou, mantendo a mão na minha coxa, os dedos pressionando levemente a carne. — Esquece as vozes. Escuta a minha.
— Eu não consigo... elas dizem que eu sou nojenta por querer que você me toque assim — solucei, fechando os olhos com força.
— Elas mentem — ele sussurrou, e senti o hálito dele perto do meu rosto. — Você não é nojenta. Você é desejada. Você é importante. E você vai lutar contra isso, mas não vai ser no ringue. Vai ser aqui, comigo.
Ele começou a acariciar a parte interna da minha coxa com o polegar. O gesto era carregado de uma tensão sexual que sempre pairou entre nós na academia, mas que agora estava misturada a uma ternura devastadora. Eu me sentia pequena diante da força dele, vulnerável ao extremo, mas pela primeira vez, essa vulnerabilidade não me dava vontade de morrer. Dava vontade de ser salva.
— Há quanto tempo, Clara? — ele perguntou, a voz mais suave. — Há quanto tempo você carrega essa lâmina na alma?
— Desde os seis — respondi, minha voz sumindo. — Começou com arranhões. Eu achava que se eu sentisse dor por fora, a dor de dentro faria sentido. Depois vieram os socos na própria cabeça... e as lâminas. Eu tenho dezesseis anos, Bruno, e eu me sinto como se tivesse cem. Eu estou cansada de lutar.
— Você não vai mais lutar sozinha — ele repetiu, e vi que os olhos dele estavam marejados. O grande mestre, o homem de ferro da academia, estava sofrendo por causa dos meus retalhos. — Eu vou cuidar de você. Vou te vigiar, vou te alimentar, vou te segurar toda vez que o mundo parecer demais. Mas você tem que me prometer que vai tentar.
— Eu tenho medo — admiti, virando o rosto para beijar a palma da mão dele que ainda segurava meu queixo. — Tenho medo de que, quando você vir quem eu realmente sou, você vá embora.
— Eu já vi, Clara. Eu vi o sangue no chão do banheiro. Eu vi as cicatrizes velhas e as novas. Eu vi você no seu momento mais sombrio e eu ainda estou aqui. Eu não vou a lugar nenhum.
Ele se moveu para frente, sentando-se de modo que eu ficasse entre suas pernas. Ele me puxou para o seu peito, e eu me desfiz em seus braços. Chorei até não ter mais lágrimas, até meus pulmões arderem. Bruno me balançava devagar, beijando o topo da minha cabeça, murmurando palavras de conforto que eu não conseguia processar totalmente, mas que serviam como um bálsamo.
**Bruno**
Eu a sentia tremer nos meus braços como um passarinho com a asa quebrada. A fúria que eu senti quando entrei naquele banheiro e vi o estrago que ela tinha feito em si mesma tinha se transformado em uma tristeza profunda e em um senso de responsabilidade que eu nunca senti por nenhum outro aluno.
Clara não era apenas uma aluna talentosa. Ela era uma força da natureza que estava sendo sufocada por demônios que ninguém deveria enfrentar sozinho, muito menos uma menina de dezesseis anos. Ver as marcas nas coxas dela, o lugar onde eu tantas vezes foquei durante os treinos de chute, agora cobertas de sangue e gaze, destruiu algo em mim.
Eu sabia que o que eu sentia por ela cruzava linhas profissionais. O toque na coxa dela não foi acidental; foi uma afirmação. Eu queria que ela soubesse que eu a via como mulher, que a beleza dela não era apagada pelas feridas, mas sim que eu estava disposto a amar até os seus pedaços quebrados.
— Você precisa descansar mais — eu disse, sentindo que ela estava ficando sonolenta de novo. O trauma físico e emocional tinha exaurido suas energias.
— Não sai daqui? — ela pediu, a voz quase um sussurro infantil.
— Nunca.
Eu a deitei novamente e me acomodei ao seu lado. Ficamos ali, no silêncio daquela casa em Portugal, enquanto o sol começava a se pôr. Eu continuei a acariciar o braço dela, sentindo a textura da gaze sob meus dedos. Eu sabia que os próximos dias seriam difíceis. O campeonato estava logo ali, e ela não teria condições de lutar. Eu teria que explicar para a equipe, teria que lidar com os pais dela, teria que ser o pilar que ela precisava.
Mas, enquanto eu olhava para o rosto dela, agora calmo no sono, eu sabia que faria qualquer coisa. Eu a ensinaria a lutar contra as vozes da mesma forma que a ensinei a lutar no tatame: com guarda alta e sem desistir.
**Clara**
O sono veio novamente, mas desta vez não foi o apagão químico de antes. Foi um mergulho em águas mornas. Eu sentia a mão do Bruno no meu cabelo, os dedos dele desembaraçando meus cachos com uma paciência infinita.
— Você é minha guerreira, Clara — ouvi ele sussurrar, achando que eu já estava dormindo. — E eu vou te trazer de volta da escuridão, nem que seja a última coisa que eu faça.
Fechei os olhos com força, uma última lágrima escapando e molhando o travesseiro. Pela primeira vez em dez anos, a vontade de sumir não era maior do que a vontade de acordar no dia seguinte e ver o verde daqueles olhos novamente. Eu ainda estava quebrada, ainda estava com medo, mas o peso do mundo parecia um pouco menor porque Bruno estava dividindo o fardo comigo.
— Bruno? — murmurei, já quase no mundo dos sonhos.
— Oi, pequena.
— Obrigada por me encontrar.
Senti o braço dele se apertar ao meu redor, um abraço de urso que prometia segurança.
— Eu sempre vou te encontrar — ele respondeu.
E, no silêncio da tarde, eu finalmente dormi, sabendo que, quando acordasse, o mestre estaria lá para me ensinar a viver de novo.