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O Peso do Amanhã e o Gosto do Cuidado

**Bruno**

O relógio na parede do quarto marcava quase oito da noite. A penumbra havia engolido os detalhes dos móveis, deixando apenas o contorno da silhueta de Clara contra o lençol claro. Eu não saí do lado dela. Meus dedos, calejados por anos de socos em sacos de areia e pegadas firmes no tatame, agora moviam-se com uma leveza que eu desconhecia, traçando o desenho dos cachos pretos dela que se espalhavam pelo travesseiro.

Ver Clara naquele estado quebrou algo em mim que eu nem sabia que estava inteiro. Eu sempre a vi como a minha melhor atleta: focada, agressiva, técnica. Mas, por trás daquela armadura de kickboxer, havia uma criança de dezesseis anos gritando por socorro há uma década. Dez anos de automutilação. Dez anos se sentindo um monstro.

A raiva que eu senti de Tiago, o garoto para quem ela se expôs, ainda queimava no meu estômago, mas agora era diferente. Eu entendia que não era exibicionismo; era um pedido desesperado para ser notada, para ser amada, para preencher um vazio que a comida — ou a falta dela — não conseguia suprir.

Ela se mexeu, soltando um gemido baixo. Os olhos castanhos se abriram devagar, perdidos por um segundo antes de focarem em mim.

— Bruno? — A voz dela era um sussurro rouco, desprovido de qualquer força.

— Estou aqui, pequena. Não fui a lugar nenhum.

Ajudei-a a se sentar. Ela parecia um pouco mais lúcida, embora a palidez ainda dominasse seu rosto. O tremor nas mãos dela havia diminuído, mas a tensão nos ombros era evidente. Clara puxou as pernas para junto do peito, adotando aquela posição de defesa, "perninha de índio", tentando se ocupar o mínimo de espaço possível.

— Os outros... eles já voltaram? — perguntou ela, olhando para a porta fechada com pavor.

— Ainda não. Mandei uma mensagem no grupo dizendo que você teve uma queda de pressão severa e que eu estava cuidando de você. Ninguém vai entrar aqui sem a minha permissão.

Ela relaxou visivelmente, mas logo baixou a cabeça, escondendo o rosto entre os joelhos.

— Você deve me odiar. Estraguei a viagem, o clima da equipe... e os cortes... eu sou um lixo, não sou?

Eu respirei fundo, sentindo uma pontada de impaciência — não com ela, mas com a doença que a fazia pensar assim. Aproximei-me mais, sentando-me de frente para ela na cama. A diagonal que ela mantinha antes desapareceu quando eu segurei seus tornozelos gentilmente, forçando-a a me encarar.

— Escuta bem o que eu vou te dizer, Clara — comecei, minha voz grave ecoando no quarto silencioso. — Eu não te odeio. Eu nunca poderia te odiar. O que eu sinto agora é uma vontade absurda de te proteger de tudo, inclusive de você mesma.

**Clara**

O olhar dele era verde e profundo, como uma floresta onde eu queria me perder e me esconder do mundo. Quando ele disse que queria me proteger, senti um calor estranho subir pelo meu peito. Eu tinha medo da força dele — ele era um homem de quarenta anos, puro músculo, capaz de me subjugar sem esforço —, mas, ao mesmo tempo, essa mesma força era o que me dava segurança. Eu queria ser frágil nos braços dele. Queria que ele assumisse o controle, já que eu claramente tinha perdido o meu.

— Mas as vozes, Bruno... elas não param — eu disse, sentindo as lágrimas voltarem. — Elas dizem que eu sou gorda. Que cada vez que eu como, eu fico mais nojenta. Que eu nunca vou ganhar esse campeonato porque sou pesada demais.

— Você não vai lutar esse campeonato, Clara.

Aquelas palavras me atingiram como um chute circular no estômago.

— O quê? Mas eu treinei tanto... eu...

— Você não tem condições físicas nem mentais agora — ele interrompeu, sua mão subindo pela minha perna.

Desta vez, ele não parou no joelho. A palma da mão dele, quente e firme, deslizou pela parte interna da minha coxa, subindo mais do que eu esperava, parando perigosamente perto da borda do meu short de treino. Eu prendi a respiração. O toque dele era possessivo, mas carregado de uma empatia que me fazia querer desmoronar.

— O seu peso não é o problema, Clara. O problema é como você se enxerga. Você é uma mulher magnífica, entende? Esses cortes... — ele tocou levemente a gaze na minha coxa com o polegar — ...eles não te fazem menos bonita. Eles mostram o quanto você está sofrendo. E eu não vou deixar você subir num ringue para apanhar de outra pessoa quando você já está se espancando por dentro.

Comecei a soluçar. Era um choro desesperado, um desabafo de anos de silêncio. Meu pescoço deu um estalo brusco para a direita, o tique nervoso voltando com força total conforme a crise de ansiedade escalava.

— Eu só queria sumir! — gritei entre soluços, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu queria que tudo ficasse preto! O silêncio... eu só queria o silêncio!

Bruno agiu rápido. Ele se ajoelhou na cama e me puxou para um abraço esmagador. Eu tentei me debater no início, o instinto de me ferir ainda latente, mas ele me segurou com uma firmeza inabalável.

— Shhh... eu estou aqui. Eu sou o seu silêncio agora — ele sussurrava contra meu ouvido, enquanto eu enterrava o rosto em seu pescoço, molhando sua pele com minhas lágrimas.

— Por que eu sou assim? — perguntei, a voz abafada. — Por que eu não consigo ser normal como as outras garotas da academia? Por que eu tive que me expor para aquele idiota do Tiago só para me sentir... válida?

Senti o corpo de Bruno retesar ao ouvir o nome do garoto.

— Você não precisa da validação de moleques que não sabem o valor da joia que têm na frente — disse ele, a voz carregada de uma proteção quase feroz. — O que aconteceu com o Tiago foi um erro, mas não define quem você é. Você estava procurando amor no lugar errado porque não conseguia encontrar dentro de si mesma.

Ele se afastou o suficiente para segurar meu queixo com os dedos, obrigando-me a olhar para ele. O tique no meu pescoço ainda acontecia de forma intermitente, mas o toque dele agia como um calmante.

— Olha para mim, Clara. Você é a minha melhor aluna. Você é corajosa, é resiliente. E você é linda. Se eu pudesse, eu tiraria toda essa dor de você e a colocaria em mim.

— Você faria isso? — perguntei, hipnotizada pelo verde dos olhos dele.

— Sem pensar duas vezes.

Ele deslizou a mão do meu queixo para a minha nuca, puxando minha testa contra a dele. Ficamos assim por um tempo, respirando o mesmo ar. Eu me sentia pequena, protegida pela aura de poder que ele emanava. Era uma atração física intensa, sim, mas era algo mais. Era a necessidade de ser cuidada por alguém que não tinha medo da minha escuridão.

— Você precisa comer algo leve — ele disse finalmente, quebrando o transe. — E depois, você vai dormir. Eu vou ficar aqui.

— Não quero comer — respondi automaticamente, a paranoia com as calorias voltando a berrar na minha mente.

— Você vai comer porque eu estou mandando, Clara — ele disse, não com agressividade, mas com a autoridade de quem sabe o que é melhor. — Meio copo de suco e uma fruta. Só isso. Para o seu corpo começar a se recuperar. Por favor. Por mim.

O "por mim" foi o que me venceu. Eu faria qualquer coisa por ele naquele momento.

**Bruno**

Saí do quarto por dez minutos para buscar o que ela precisava. No corredor, encontrei Sofia, uma das colegas de treino, que voltava do mercado.

— Mestre, como a Clara está? — perguntou ela, preocupada.

— Está descansando. Teve um pico de estresse e a pressão caiu. Não deixem ninguém incomodá-la, entenderam? Eu vou cuidar dela pessoalmente.

Sofia assentiu, parecendo convencida. Voltei para o quarto com uma maçã fatiada e um copo de suco de laranja. Clara estava encolhida na cama, olhando para o vazio. A imagem dela, tão vulnerável, contrastava brutalmente com a garota que, há dois dias, estava desferindo chutes potentes no saco de pancadas.

— Aqui. Come devagar.

Eu a observei enquanto ela comia, cada mordida parecendo uma batalha interna. Eu sabia que, para ela, aquilo era um sacrifício. Quando ela terminou, fiz questão de limpar o canto da boca dela com o polegar, um gesto que a fez fechar os olhos e suspirar.

— Agora, deita — ordenei.

Ela obedeceu, e eu me deitei ao lado dela novamente. Ela se aninhou no meu peito, e eu comecei a acariciar seus cabelos.

— Bruno... você não vai me deixar quando voltarmos para Portugal, vai? — ela perguntou, a voz já sumindo pelo cansaço. — Quando eu não for mais a "campeã" da academia, você ainda vai me olhar assim?

— Clara, eu nunca te olhei apenas como uma campeã. Eu sempre vi a garota por trás das luvas. E eu não vou a lugar nenhum. Nós vamos passar por isso juntos. Terapia, acompanhamento... eu vou estar em cada passo.

— Eu te amo, Mestre — ela sussurrou, e eu senti meu coração dar um solavanco.

Eu não respondi com palavras. Não era o momento, e a relação entre nós ainda era um campo minado de ética e idade. Mas eu respondi com o corpo, apertando-a mais contra mim, beijando o topo de sua cabeça com uma promessa silenciosa de que, enquanto eu estivesse vivo, ninguém — nem mesmo ela — voltaria a machucá-la daquela forma.

Fiquei ali, vigiando o sono dela, sentindo o peso da responsabilidade e o calor de um afeto que eu não conseguia mais negar. Clara dormiu profundamente, finalmente em silêncio, enquanto eu permanecia alerta, o guardião de uma alma ferida que estava apenas começando a aprender que não precisava de sangue para provar que estava viva.

O campeonato em Portugal não teria a sua estrela principal no ringue, mas eu sabia, enquanto olhava para ela, que a maior vitória daquela viagem já tinha sido conquistada: Clara ainda estava aqui. E, desta vez, ela não estava sozinha.