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O Eco das Cicatrizes e o Peso do Afeto
**Clara**
A luz da manhã em Portugal entrou pelas frestas da persiana como lâminas douradas, cortando a penumbra do quarto. Eu me senti pesada, não apenas pelo sono entorpecido que os resquícios dos remédios ainda impunham ao meu corpo, mas por uma consciência súbita de cada centímetro de gaze que envolvia meus braços, minha barriga e minhas coxas. O silêncio da casa era diferente agora; não era mais aquele vazio ensurdecedor que me levava ao abismo, mas um silêncio preenchido pela respiração rítmica e quente de Bruno às minhas costas.
Ele não tinha saído. Estávamos em "conchinha", e o braço dele, pesado e musculoso, repousava sobre minha cintura com uma possessividade que me fazia sentir, ao mesmo tempo, protegida e perigosamente exposta. Eu me lembrava de flashes da noite anterior: o sangue no azulejo, o gosto amargo do vômito, a dor lancinante da limpeza e, acima de tudo, o olhar verde dele — uma mistura de fúria contida e uma compaixão que eu não achava merecer.
Tentei me mexer devagar, mas um gemido de dor escapou quando o tecido da gaze grudou em um dos cortes mais profundos da minha coxa.
— Não se force — a voz dele soou baixa, rouca pelo sono, vibrando contra a minha nuca. — Fica quieta.
— Eu preciso ir ao banheiro — sussurrei, sentindo a vergonha subir pelo meu pescoço. A imagem dele me carregando ontem, limpando minha sujeira, era um borrão humilhante.
Bruno se afastou o suficiente para que eu pudesse me virar. Ele se sentou na beira da cama, passando as mãos pela cabeça careca e depois pela barba cerrada. Ele estava sem camisa, e a visão de sua estrutura física — os ombros largos, as cicatrizes de combate, a força bruta — sempre me causava aquele frio na barriga. Eu me sentia minúscula perto dele. Uma boneca de porcelana que ele mesmo tinha colado os pedaços.
Eu me sentei na cama, adotando a posição de "perninha de índio", puxando o lençol para cobrir o que as faixas não escondiam. Minha mente começou a acelerar. As vozes, que tinham se calado sob o toque dele na noite anterior, voltaram a cochichar. *Olha para você. Olhe para o que você causou ao seu mestre. Você é um fardo. Ele está aqui por obrigação, por medo de você se matar no turno dele.*
— O que foi? — perguntou ele, virando-se para mim. Ele não estava mais deitado; estava sentado de frente, mas eu ainda mantinha meu corpo meio na diagonal, incapaz de encará-lo totalmente.
— Nada. Só... obrigada. Por ontem.
— Não me agradeça por isso, Clara. — A voz dele era dura, mas não agressiva. — Eu quero explicações. Ontem você estava dopada, em choque. Agora eu quero a verdade. Por que, Clara? Por que agora? Faltam quatro dias para a luta. Você é a minha melhor aposta.
Eu engoli em seco, sentindo o nó na garganta apertar. Finalmente virei meu corpo para ele, ficando de frente, mas ainda encolhida.
— Não é sobre a luta, Bruno. Nunca foi sobre o kickboxing. — Minhas mãos começaram a tremer, e eu as escondi entre as pernas. — É o barulho. Ele não para. Eu me olho no espelho e só vejo falhas. Eu vejo cada grama de gordura, vejo a decepção nos seus olhos quando eu erro um chute... e depois teve o Tiago.
Bruno travou o maxilar ao ouvir o nome do garoto da academia. A história de que eu tinha mandado fotos para ele, tentando me sentir minimamente desejada ou "normal", ainda era uma ferida aberta.
— Eu me expus para ele porque eu queria que alguém me visse sem ser como uma máquina de bater — continuei, as lágrimas começando a transbordar. — Mas ele só riu. Ele mostrou para os outros. Eu me senti um lixo. E ontem... ontem as vozes ficaram altas demais. Elas diziam que se eu sumisse, o peso sairia das minhas costas. E das suas também.
— Do que você está falando? — Ele se aproximou, diminuindo o espaço entre nós na cama. — Você acha que a sua morte seria um alívio para mim?
— Eu sou um problema! — gritei, e o choro desesperado veio como uma avalanche. — Eu luto com isso desde os seis anos! Eu comecei me arranhando porque não sabia como dizer que estava doendo por dentro! Eu não quero ser ajudada porque eu não acho que tenha conserto, Bruno! Eu só quero que o mundo fique preto e silencioso!
O pânico começou a tomar conta. Senti meu sistema nervoso entrar em curto. Meu pescoço deu um solavanco brusco para o lado — o tique que sempre aparecia quando eu perdia o controle. Uma, duas, três vezes. Eu não conseguia parar. Era como se meu corpo estivesse tentando se desconectar da minha cabeça.
— Clara, olha para mim — ele ordenou.
Eu não conseguia. Eu soluçava tanto que o ar não chegava aos pulmões. Eu me sentia imunda, gorda, quebrada e louca.
— Clara! — Ele avançou e segurou meu queixo com uma firmeza inabalável, forçando minha cabeça a ficar reta, interrompendo o movimento do tique. — Respira. Comigo. Agora.
Ele não soltou meu queixo. A mão dele era quente e áspera, uma âncora no meio da minha tempestade. Com a outra mão, ele fez algo que me paralisou: ele a deslizou pela minha coxa, subindo por cima das gazes, até tocar a pele nua e sensível da parte interna, bem perto da virilha. Foi um toque íntimo, carregado de uma eletricidade que não era apenas de cuidado, mas de uma conexão física profunda que sempre evitamos admitir.
— Eu não vejo um problema quando olho para você — ele disse, a voz agora suave, quase um sussurro, enquanto mantinha a mão firme na minha coxa e o polegar acariciando meu queixo. — Eu vejo uma guerreira que está cansada de lutar a guerra errada. Você está há dez anos lutando contra si mesma, Clara. É claro que você está exausta.
— Eu sou feia... essas marcas... — eu balbuciei, tentando recuperar o fôlego.
— Você é a coisa mais linda e dolorosa que eu já tive o privilégio de treinar — ele respondeu, e vi um brilho de emoção nos olhos verdes dele que me desarmou completamente. — E se você acha que eu vou te deixar sumir, você não me conhece. Eu vou ser o seu silêncio, Clara. Quando as vozes gritarem, você escuta a minha. Entendeu?
Eu assenti devagar, sentindo o tique no pescoço desaparecer sob a pressão dos dedos dele. O choro desesperado deu lugar a um cansaço profundo. Eu me inclinei para frente, colando minha testa na dele.
— Por que você se importa tanto? — perguntei. — Eu sou só uma aluna de dezesseis anos. Você tem quarenta, Bruno. Você tem uma vida.
— Você nunca foi "só uma aluna" — ele confessou, e senti a mão dele na minha coxa apertar levemente, um gesto de posse e proteção. — E o fato de eu ter quarenta anos e saber exatamente o perigo que isso representa para mim não muda o que eu sinto quando vejo você sangrar. Eu sinto como se estivessem cortando a mim mesmo.
Ele me puxou para um abraço. Eu me deixei ser pequena. Deixei que ele fosse o forte. O cheiro dele — uma mistura de sabonete neutro e o calor natural da pele dele — era o meu único refúgio.
— Você precisa descansar mais — ele disse, afastando-se um pouco para me olhar. — O campeonato... nós vamos ver o que fazer. Mas agora, sua única competição é conseguir dormir sem querer se machucar.
— Você fica? — pedi, sentindo o entorpecimento voltar.
— Eu não vou a lugar nenhum.
Ele me ajudou a deitar novamente. O trajeto do banheiro de volta para os lençóis parecia uma jornada épica, mas com ele ao meu lado, o chão parecia mais firme. Eu ainda estava zonza pelos remédios que não tinham sido totalmente expelidos, e a dor dos cortes agora era uma ardência constante, uma lembrança física do meu surto.
Bruno deitou-se ao meu lado, voltando para a posição de conchinha. Ele começou a passar a mão pelo meu braço, por cima das faixas, em um carinho lento e hipnótico.
— Bruno? — chamei, já com os olhos fechados.
— Oi.
— As vozes... elas estão mais baixas agora.
— Ótimo. Deixa que eu falo por elas. Dorme, pequena.
Eu senti um beijo suave no topo da minha cabeça. Enquanto ele continuava o carinho rítmico no meu braço, eu finalmente me permiti apagar. Não era o desejo de sumir que me levava desta vez, mas a segurança de saber que, se eu caísse no escuro, haveria um par de mãos fortes e olhos verdes me esperando para me trazer de volta.
Pela primeira vez em dez anos, eu não queria morrer. Eu só queria ser cuidada por ele. E, naquele quarto em Portugal, enquanto o mestre velava meu sono, a realidade finalmente parecia algo suportável.