Feel the bass.
Eco de Cordas e Cicatrizes
O zumbido nos ouvidos de Alexander era o único vestígio que restava das cinquenta mil pessoas que, minutos atrás, gritavam seu nome no Madison Square Garden. O silêncio do camarim de luxo era quase agressivo em comparação ao caos do palco. Ele estava sentado no sofá de couro, o cabelo escuro e cacheado grudado na testa pelo suor, as mechas longas descendo como fios de seda negra sobre o peito exposto pela camisa de cetim completamente desabotoada.
Ele girava uma palheta entre os dedos, um tique nervoso que não o abandonava mesmo quando as luzes se apagavam. Alexander sentia cada músculo do corpo protestar. Ele era um masoquista por natureza; adorava a dor que vinha após o esforço extremo, o ardor nas pontas dos dedos e a exaustão que o fazia sentir-se vivo. Mas, acima de tudo, ele sentia a eletricidade estática acumulada que só uma pessoa sabia como descarregar.
A porta se abriu e Isaac entrou. O baixista parecia ter passado por um furacão de adrenalina. Ele jogou a jaqueta em um canto qualquer, os olhos brilhando com aquela intensidade magnética que ele guardava para os momentos em que as câmeras não estavam por perto. Isaac era o movimento, Alexander era a profundidade.
— Você quase quebrou o ritmo na última música, Rio — Isaac disse, a voz rouca, carregada de um sarcasmo que mal escondia o desejo. — Estava tentando me provocar ou só esqueceu como se segura uma Fender?
Alexander levantou os olhos lentamente. A indiferença habitual estava lá, mas havia um brilho perigoso no fundo de suas pupilas escuras.
— Eu não quebrei o ritmo, Moonthorn. Eu estava criando espaço para você respirar. Você parecia prestes a explodir com aquele solo de baixo.
Isaac soltou uma risada curta e se aproximou, parando entre as pernas de Alexander. Ele era um centímetro mais alto, mas ali, com Alexander sentado e olhando de baixo para cima, a dinâmica de poder era um jogo complexo que eles jogavam há anos. Isaac era o "sub top" — ele comandava o ritmo, ele exercia a força física, mas ele pertencia inteiramente à vontade de Alexander. Alexander era o "dom bottom" — ele entregava o corpo, mas cada movimento de Isaac era ditado pelo que Alexander permitia ou exigia.
— Eu estou explodindo — Isaac confessou, a voz baixando para um sussurro. Ele levou a mão ao pescoço de Alexander, sentindo a pulsação acelerada sob a pele pálida. — Essa turnê está me matando. Eu sinto que se eu não fizer algo agora, vou desmoronar.
Alexander inclinou a cabeça para trás, oferecendo mais acesso ao seu pescoço, um convite silencioso e autoritário.
— Então desmorone, Isaac. Mas faça do jeito que eu gosto.
Isaac não precisou de um segundo convite. Ele puxou Alexander pelo colar de couro que o guitarrista usava, forçando-o a se levantar apenas para empurrá-lo contra a parede de espelhos do camarim. O impacto foi seco, mas Alexander apenas sorriu, um sorriso pequeno e cruel.
— Suas mãos estão tremendo — observou Alexander, observando Isaac lutar com o cinto de suas próprias calças. — Onde está aquele baixista confiante que estava flertando com a primeira fila dez minutos atrás?
— Ele ficou no palco — respondeu Isaac, a respiração errática. — Aqui, eu sou só o cara que precisa de você para não enlouquecer.
Isaac ajoelhou-se entre as pernas de Alexander, que permanecia encostado no espelho, a imagem duplicada pela luz fria do ambiente. Alexander observava tudo com uma calma observadora, como se estivesse analisando uma partitura difícil. Ele gostava de ver Isaac assim: vulnerável em sua necessidade de servir, energético em sua tentativa de agradar.
— Use as mãos, Isaac — ordenou Alexander, a voz aveludada e firme. — Quero sentir o quanto você estava ansioso por isso enquanto tocávamos "Veludo Azul".
Isaac obedeceu prontamente. Seus dedos, ágeis e precisos pelas horas de prática no baixo, envolveram a masculinidade de Alexander com uma firmeza que beirava a agressividade. Alexander soltou um suspiro longo, fechando os olhos enquanto sentia o contraste das mãos calejadas de Isaac contra sua pele sensível.
— Mais rápido — murmurou Alexander, os dedos se enterrando nos cabelos loiros e rebeldes de Isaac, puxando-os com força suficiente para fazer o baixista ganir baixo. — Você é tão impaciente... é por isso que suas notas às vezes atropelam as minhas.
— Eu não... estou atropelando nada agora — Isaac rebateu, olhando para cima. Seus olhos estavam nublados, uma mistura de adoração e desespero. Ele aumentou o ritmo, o som da fricção prechendo o silêncio do camarim.
Alexander sentia a tensão subir por suas pernas, uma onda de calor que ameaçava quebrar sua fachada de controle. Ele adorava o fato de que, embora Isaac estivesse fazendo todo o trabalho físico, era ele quem ditava o fim daquela sinfonia.
— Pare — disse Alexander de repente.
Isaac congelou instantaneamente. Ele olhou para Alexander, ofegante, o peito subindo e descendo.
— O que...?
— Você está sendo egoísta, Moonthorn. Está fazendo isso para se livrar do seu estresse, mas esqueceu que eu também preciso de algo. Ajoelhe-se direito. Mãos atrás das costas.
Isaac hesitou por um milésimo de segundo, o sarcasmo morrendo em sua garganta diante do olhar gélido e promissor de Alexander. Ele posicionou as mãos atrás das costas, unindo os pulsos como se estivesse algemado pela própria vontade de obedecer.
Alexander se inclinou para frente, o cabelo longo caindo como uma cortina ao redor do rosto de Isaac. Ele pegou uma das palhetas que guardava no bolso e a passou levemente pelo lábio inferior de Isaac, antes de descer o objeto de plástico pela garganta dele, pressionando a ponta contra a pele.
— Você é um artista extraordinário, Isaac. Mas às vezes você esquece quem dá o tom da música.
Alexander voltou a se encostar no espelho e, com uma mão, começou a se tocar, mantendo os olhos fixos nos de Isaac. Era um ato de exibicionismo e controle. Ele queria que Isaac visse o que ele era capaz de sentir, mas queria que Isaac soubesse que ele não tinha permissão para tocar até que Alexander permitisse.
— Olhe para mim — comandou Alexander. — Não desvie o olhar.
Isaac estava em transe. Ver Alexander daquela forma — andrógino, poderoso, entregue ao próprio prazer mas mantendo o domínio da situação — era mais do que ele podia suportar. Ele queria romper a posição, queria agarrar Alexander e mostrar a ele o "gingado" que tanto pregava, mas o respeito e a necessidade de ser o que Alexander precisava o mantinham ancorado ao chão.
Alexander começou a gemer baixo, sons que eram nuances de sua voz de palco, mas muito mais íntimos. Cada movimento de sua mão era calculado para prolongar o tormento de Isaac. Ele era um perfeccionista, afinal.
— Rio... por favor — suplicou Isaac, os pulsos apertados atrás das costas.
— "Por favor" o quê, Isaac? — Alexander perguntou, a voz falhando conforme o ápice se aproximava. — Você quer me tocar? Quer sentir como eu estou quente?
— Quero. Eu quero tudo.
Alexander soltou um riso rouco, a cabeça pendendo para o lado.
— Então venha. Mas não ouse ser gentil. Eu detesto a ordem, lembra?
Como um animal libertado de uma jaula, Isaac avançou. Ele não desfez a união das mãos atrás das costas imediatamente; em vez disso, usou o corpo para prensar Alexander contra o vidro, usando a boca e os dentes para marcar a pele do guitarrista. Alexander arqueou as costas, as unhas cravando-se nos ombros de Isaac.
O equilíbrio entre eles era uma dança perigosa. Isaac era a força bruta, o movimento carismático que envolvia Alexander, mas Alexander era o solo que sustentava tudo, o mestre que permitia que o caos de Isaac florescesse.
— Agora, Isaac! — Alexander comandou, a voz subindo de oitava, perdendo o refinamento público e revelando o "Rio" que só Isaac conhecia.
Isaac finalmente soltou as mãos e envolveu Alexander, unindo seus ritmos em uma cadência frenética. Não havia mais espaço para sarcasmo ou piadas sobre MPB. Havia apenas o som da respiração pesada, o cheiro de suor e sândalo, e a sensação de que o mundo inteiro poderia acabar naquele camarim e eles nem notariam.
Quando o ápice veio, foi como um acorde final de um show épico: estrondoso, avassalador e exaustivo. Alexander desabou contra o peito de Isaac, o corpo tremendo, enquanto Isaac o segurava com uma possessividade que só o medo de perdê-lo justificava.
Minutos se passaram. O silêncio retornou, mas desta vez era um silêncio confortável, como o chiado de um disco de vinil que chegou ao fim.
Alexander se afastou o suficiente para olhar para Isaac. O baixista tinha o rosto corado, o olhar mais calmo, o estresse da turnê momentaneamente dissipado.
— Melhor? — Alexander perguntou, voltando à sua voz aveludada, enquanto ajeitava uma mecha de cabelo de Isaac.
— Muito melhor — Isaac sorriu, o brilho sarcástico retornando aos poucos. — Mas você ainda entrou atravessado no final.
Alexander revirou os olhos e deu um tapa leve no rosto de Isaac antes de se sentar novamente no sofá, descalço, como sempre gostava de ficar.
— Eu não entrei atravessado. Eu estava apenas esperando você me alcançar.
Isaac sentou-se no chão, aos pés de Alexander, encostando a cabeça nos joelhos do guitarrista. Alexander começou a passar os dedos pelos cabelos de Isaac, um gesto de carinho que ele raramente mostrava a qualquer outra pessoa.
— Você é esquisito, Rio. Um masoquista controlador.
— E você é um submisso exibicionista, Moonthorn. Acho que estamos quites.
Alexander olhou para a janela do camarim. Lá fora, a chuva de Nova York começava a cair, lavando as ruas como ele sempre dizia que ela fazia. Ele se sentia limpo. Ele se sentia em casa.
— Sabe — Isaac murmurou, quase pegando no sono ali mesmo —, os Oceans têm razão sobre uma coisa.
— Sobre o quê?
— Ouvir você tocar é como caminhar por uma cidade à noite depois da chuva. É melancólico, é bonito... mas só eu sei como é o gosto da tempestade antes disso.
Alexander sorriu, um sorriso real, desarmado. Ele pegou uma palheta gasta do chão, aquela que Isaac havia deixado cair, e a guardou no bolso.
— Durma um pouco, Isaac. Amanhã temos outro estádio para incendiar.
— Só se você prometer que não vai tentar criar "novas dimensões rítmicas" no meio do meu solo.
— Não prometo nada. O caos é muito mais divertido do que a ordem.
E ali, no refúgio entre as luzes da ribalta e a solidão da estrada, os dois músicos encontraram a única melodia que realmente importava: a que compunham juntos, no escuro, longe de todos os olhos do mundo.