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A Santidade do Carniçal
O refeitório principal do Setor 45 estava mergulhado em um silêncio pesado e claustrofóbico, quebrado apenas pelo burburinho tenso dos soldados rebeldes agrupados nos cantos. O ar parecia carregado de eletricidade estática. O pânico era quase palpável: Juliette e Warner haviam desaparecido.
Ambos haviam sido emboscados e levados no meio da madrugada durante uma patrulha externa aos limites do setor. Sem a força avassaladora de Juliette e sem a mente fria e estratégica de Warner, a base parecia um castelo de cartas à beira de um abismo.
Clara estava sentada à extremidade de uma das longas mesas de metal. Suas mãos macias, acostumadas a passar cremes de lavanda e bordar mantas de berço, seguravam uma caneca de chá morno que ela mal havia tocado. Aos vinte e seis anos, seu corpo ainda guardava a exuberância da maternidade recente; os quadris largos pressionavam as laterais da cadeira de ferro, o vestido cinza — que os rebeldes lhe haviam dado para substituir sua camisola rendada — apertava seu busto cheio de leite.
A poucos passos de distância, encostada em uma pilastra de concreto, uma jovem recruta chamada Lily ninava suavemente a pequena Alice. A menina de quatro meses vestia um macacãozinho de flanela, com os olhinhos cinzentos semicerrados enquanto chupava o próprio punho. Ver a filha nos braços de uma estranha com um coldre preso à coxa fazia o estômago de Clara se revirar em nós apertados.
Clara ainda não conseguira chorar tudo o que tinha para chorar. Sua mente estava dividida entre a dor atroz de acreditar que Paris estava morto e o choque nauseante das coisas hediondas que Juliette e Warner haviam dito a respeito dele. *Ele matou milhares. Ele torturou o próprio filho.* As palavras ecoavam como marteladas em seu crânio, mas contrastavam dolorosamente com a memória das mãos calejadas de Paris acariciando suas bochechas gordinhas, com o sussurro dele dizendo que ela era seu único refúgio na terra.
A porta dupla de ferro do refeitório se abriu com um ranger áspero.
Kenji Kishimoto entrou primeiro, com as olheiras fundas e o colete tático desabotoado pelo cansaço. Logo atrás dele vinha Castle e dois sentinelas armados, escoltando um homem mais velho. O recém-chegado vestia o uniforme cinza-oliva do Restabelecimento, mas estava amarrotado, desprovido de condecorações. O cabelo ralo colava-se à testa suada, e os óculos de armação metálica escorregavam pelo nariz fino.
Era Delalieu.
O velho tenente fora capturado na ala leste do complexo enquanto tentava organizar os arquivos de comunicação restantes após a queda do quartel. Ele tremia tanto que seus joelhos pareciam prestes a ceder.
— Nós não temos tempo para formalidades, Delalieu — disse Kenji, puxando rudemente uma das cadeiras de ferro para que o velho se sentasse. O som do metal arranhando o piso fez os soldados ao redor ficarem em alerta. — Juliette e Warner sumiram. Foram pegos por agentes do Restabelecimento. Você trabalhou trinta anos com o alto comando. Você vai nos dizer agora para onde eles levam prisioneiros dessa magnitude.
— Eu... eu já disse a vocês — gaguejou Delalieu, limpando a testa com a manga do uniforme, a voz fina e estrangulada pelo medo. — Eu era apenas a administração burocrática do setor. Eu cuidava dos suprimentos, dos relatórios civis, dos...
— Não minta para mim! — esbravejou Kenji, batendo as duas mãos espalmadas sobre a mesa de metal, fazendo a caneca de Clara trepidar. — Aquele maldito demônio do Anderson não dava um passo sem que você redigisse as ordens! Ele está morto, ouviu bem? O seu mestre apodreceu no inferno! Não há mais ninguém para você proteger!
Delalieu engoliu em seco, os olhos arregalados de terror. Ele abriu a boca para responder, mas, ao virar o rosto em direção à extremidade da mesa, seu olhar finalmente cruzou com o de Clara.
O ar sumiu instantaneamente dos pulmões do velho tenente.
A cor, já escassa, drenou por completo do rosto de Delalieu, deixando-o com a palidez cadavérica de um defunto. Seus olhos se esbugalharam por trás das lentes grossas. Ele deu dois passos trôpegos para trás, tropeçando na própria bota, até bater com as costas contra a mesa oposta, derrubando uma bandeja de latão com um estrondo ensurdecedor.
— Santo Deus... — sussurrou Delalieu, a voz saindo como um chiado agônico. As mãos dele subiram para a boca, cobrindo-a em choque absoluto.
Kenji franziu a testa, estranhando a reação desmedida.
— O que foi agora, velho? Enlouqueceu de vez?
Delalieu não olhava para Kenji. Ele não olhava para as armas apontadas para si, nem para Castle. Ele olhava fixamente para Clara — para o rosto redondo e marcado por lágrimas recentes, para as curvas macias que Paris Anderson mantivera escondidas do universo por sete anos a fio — e depois para a bebê nos braços de Lily.
— Vocês... — Delalieu começou, e o pavor em seu tom era tão visceral que fez até os sentinelas mais endurecidos recuarem um milímetro. — Vocês estão loucos? O que foi que vocês fizeram?
— Nós trouxemos ela da propriedade do Anderson — respondeu Castle, aproximando-se com passos cautelosos. — Ela era mantida lá sem conhecimento da guerra.
— Vocês a trouxeram para cá?! — gritou Delalieu, a voz quebrando em uma nota quase histérica. O homem agarrou os próprios cabelos ralos, tremendo da cabeça aos pés. — Vocês acabaram de assinar a sentença de morte de cada alma nesta base! De cada homem, mulher e criança neste setor! Vocês não entendem nada! Absolutamente nada!
Clara se encolheu na cadeira, o coração disparando contra as costelas.
— Do que você está falando? — perguntou ela, a voz fraca e trêmula. — Você... você conhecia o Paris?
Delalieu olhou para ela como se visse um anjo cercado por cadáveres ambulantes.
— Se eu o conhecia? — O velho soltou uma risada entrecortada, uma gargalhada doentia que beirava o colapso nervoso. Ele virou-se para Kenji, cuspindo as palavras enquanto apontava um dedo acusador para Clara. — Vocês acham que conhecem o Comandante Supremo porque viram as execuções dele? Porque viram os campos de prisioneiros e as câmaras de tortura? Vocês não sabem nada sobre o verdadeiro horror daquele homem!
— Fala direito, Delalieu! — advertiu Kenji, destravando a pistola no coldre, irritado com o tom teatral do prisioneiro.
— Paris Anderson queimaria este continente inteiro por um único fio de cabelo dessa mulher! — berrou Delalieu, as veias de seu pescoço saltando. — Eu vi o Comandante executar três generais com as próprias mãos em um único almoço só porque um deles fez uma piada insinuando que ele mantinha uma amante no campo! Ele não tinha amantes! Ele nunca tocou em outra mulher desde o dia em que a encontrou! Ele a tratava como um deus trata o seu templo secreto!
O silêncio que se seguiu no refeitório foi tão cortante que o choro suave de Alice no colo de Lily soou como um trovão. Clara apertou as próprias coxas por baixo da mesa, o sangue zumbindo em seus ouvidos.
— Ele escondeu a existência dela de todo o Supremo Conselho — continuou Delalieu, o suor pingando de seu queixo enquanto ele despejava tudo, desesperado, como se falar pudesse de alguma forma salvá-lo da maldição que via cair sobre a sala. — Ele fraudava relatórios de abastecimento pessoalmente, há sete anos, enviando as melhores colheitas, carnes frescas e tecidos importados para aquela mansão nos bosques enquanto a população comia ração sintética! Ele me fez falsificar certidões de casamento sob pena de esfolar a minha família viva! Vocês achavam que ele era um carrasco frio? Vocês achavam que Juliette o matou?
Kenji deu um passo à frente, com o cenho franzido.
— Juliette deu um tiro na garganta dele. Nós vimos o corpo cair.
— Ele não morre! — gritou Delalieu, os olhos vidrados de loucura e pavor. — Homens como Paris Anderson não morrem por tiros descuidados de adolescentes! Ele sobreviveu a veneno, sobreviveu a bombardeios, sobreviveu a tudo! E se ele souber que vocês invadiram a casa dele... se ele souber que mãos rebeldes e sujas tocaram na esposa e na filha dele... ele não vai mandar o exército. Ele mesmo virá. Ele vai arrancar a pele de vocês enquanto vocês ainda respiram, ele vai pendurar as tripas de cada soldado rebelde nos postes desta rua, ele vai...
O estrondo que se seguiu não veio de uma bomba do lado de fora.
Veio da porta lateral do refeitório — a porta blindada de aço que levava aos túneis subterrâneos de manutenção. Ela não se abriu; ela simplesmente explodiu para dentro, retorcida pela pressão colossal de uma carga de arrombamento militar.
A poeira cinzenta de concreto e fuligem invadiu o ar em uma nuvem sufocante.
Gritos de alarme ecoaram pela sala. Soldados rebeldes puxaram fuzis, erguendo miras às cegas em meio à fumaça. Kenji girou nos calcanhares, sacando as armas com a agilidade felina que lhe era habitual.
— Posições defensivas! Agora! — berrou Kenji.
Mas antes que qualquer gatilho pudesse ser puxado, uma figura emergiu da fumaça cinzenta.
Passos firmes, pesados, compassados com uma frieza mecânica inumana. O homem vestia uma capa militar preta de gola alta, manchada de fuligem e salpicada de sangue escuro nas bordas. Uma bandagem cirúrgica grossa cobria o lado esquerdo de seu pescoço, onde a carne fora rasgada e queimada por pólvora recente, mas a postura era impecável. E ereta.
Os cabelos prateados estavam cortados rentes. A mandíbula de pedra, tensa. Os olhos cinzentos cortavam o ambiente como lâminas de gelo afiadas.
Paris Anderson.
Ele estava vivo.
Clara sentiu o ar congelar na garganta. Sua xícara de chá caiu no chão de concreto, estilhaçando-se em dezenas de pedaços de cerâmica. Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu — apenas um suspiro quebrado e dilacerado.
Delalieu, ainda no centro do salão, virou-se devagar ao reconhecer a silhueta. As pernas do velho perderam as forças, e ele caiu de joelhos sobre o piso frio.
— Senhor... — murmurou o tenente, com a voz embargada pelo mais absoluto e patético desespero. — Comandante Supremo... eu não contei nada... eu juro por Deus que eu não...
Anderson nem sequer olhou nos olhos do homem.
Com a mão enluvada de couro negro, ele ergueu a pistola pesada que trazia empunhada ao lado do corpo. O movimento foi fluido, desprovido de qualquer esforço ou hesitação, quase entediado.
*BANG.*
O tiro ensurdecedor rasgou o ar confinado do refeitório.
A bala de calibre pesado atingiu a testa de Delalieu em cheio. O impacto arremessou a cabeça do velho para trás, espalhando uma névoa escarlate e fragmentos de osso contra a mesa de metal, antes que o corpo desabasse inerte e pesado sobre o chão, uma poça escura se formando rapidamente ao redor do crânio estraçalhado.
Clara soltou um grito — um som estridente e apavorado, tapando a boca com as duas mãos enquanto seu corpo gordinho tremia descontroladamente.
O silêncio que se seguiu foi sepulcral.
Armas rebeldes estavam apontadas para Anderson de todas as direções, mas ninguém atirou. Havia uma aura de violência tão concentrada ao redor do Comandante Supremo que puxar o gatilho parecia um suicídio coletivo imediato. Ele cheirava a pólvora, a morte e ao mesmo pinho amadeirado que Clara conhecia tão intimamente.
Anderson baixou ligeiramente a arma que ainda fumegava. O rosto dele era uma máscara de pedra esculpida para o abate.
E então, ele ouviu o grito.
Ele não olhou para Kenji, que mantinha duas pistolas miradas em seu peito. Não olhou para os guardas armados que cercavam a sala. Ele virou a cabeça devagar, os olhos cinzentos percorrendo a extensão da mesa até pararem na mulher encolhida no canto.
A máscara de pedra de Paris Anderson simplesmente desmoronou.
A frieza assassina que paralisava o salão dissolveu-se, dando lugar a um desespero urgente e febril. Seus olhos se arregalaram, percorrendo Clara de cima a baixo com uma fome desesperada — os cabelos castanhos desgrenhados, o vestido simples que moldava o corpo macio que ele tantas vezes beijara no escuro, as bochechas coradas e manchadas de lágrimas.
E então ele viu a bebê. Lily estava petrificada a três metros dali, apertando Alice contra o peito enquanto tremia da cabeça aos pés.
— Clara... — A voz de Paris saiu rouca, dilacerada pela bandagem no pescoço, mas carregada de uma doçura aterrorizante que destoava grotescamente do cadáver de Delalieu sangrando a seus pés.
Ele deu um passo em direção a ela.
— Fique onde está, desgraçado! — gritou Kenji, os nós dos dedos brancos de tanta força que aplicava nas coronhas das armas. — Um passo a mais e nós despedaçamos o que sobrou de você!
Anderson nem piscou. Ele não desviou o olhar de Clara por uma fração de segundo. Sua voz desceu a um tom perigosamente calmo, mortal e definitivo.
— Vocês podem me chamar do que quiserem — disse Anderson, e cada palavra ressoou como ferro caindo sobre granito. — Podem me chamar de monstro. De tirano. De demônio que deveria queimar no inferno. Podem inventar as fábulas que quiserem para justificar a insignificância de vocês diante da minha ordem. Mas nunca... *nunca* coloquem as mãos sujas na minha esposa. Nunca se atrevam a insultar o único santuário que eu construí nesta terra imunda.
Ele avançou mais dois passos, ignorando solenemente os canos das armas apontados para a sua têmpora. Os rebeldes pareciam intimidados demais para atirar, petrificados pela audácia pura daquele homem que acabara de voltar dos mortos.
— Paris... — soluçou Clara, caindo de joelhos ao lado da cadeira, as lágrimas escorrendo livres pelo queixo. O choque era brutal demais. Ele estava vivo. O homem que ela amava estava vivo. Mas o corpo de Delalieu ainda fumegava no chão a poucos metros de distância, com o crânio aberto pela bala que Paris disparara sem nem pestanejar. — O que... o que você fez? Você o matou... você atirou nele...
Anderson parou diante dela. A arma em sua mão foi abaixada completamente, o cano apontado para o chão. Ele dobrou os próprios joelhos, descendo ao nível dela com uma deferência que nenhum soldado ou comandante jamais sonhara presenciar.
Com a mão esquerda, ele puxou a luva de couro negro, atirando-a de lado. Seus dedos pálidos e fortes, livres da frieza do material bélico, tocaram a bochecha macia e redonda de Clara com uma ternura quase dolorosa. O contraste era horrendo: o sangue fresco de Delalieu ainda salpicava o tecido de sua manga militar, mas o toque na pele dela era suave como uma pluma.
— Não olhe para o chão, meu amor — sussurrou ele, a voz quebrando pela primeira vez, os olhos cinzentos brilhando com uma vulnerabilidade crua. — Olhe para mim. Apenas para mim. Eu disse que voltaria para você. Eu prometi.
— Você mentiu para mim... — balbuciou Clara, o peito subindo e descendo em arfadas descompassadas enquanto ela sentia o calor familiar da palma dele contra sua pele, incapaz de afastar o próprio rosto daquele toque tão conhecido. — Eles disseram... o Aaron disse...
O maxilar de Anderson endureceu ligeiramente à menção do filho, uma faísca de desdém cruzando suas feições por uma fração de segundo, antes de se suavizar novamente ao fitar os lábios trêmulos de sua esposa.
— O mundo é cruel e podre, Clara — murmurou Paris, aproximando o rosto do dela até que sua respiração quente tocasse a testa da mulher. — Eu manchei as minhas mãos de sangue todos os dias para que você nunca precisasse saber o que era o inferno. Para que as suas mãos continuassem puras. Para que a nossa filha nascesse em um mundo onde ela pudesse sorrir.
Ele ergueu os olhos e fitou a recruta que segurava Alice.
— Devolva a minha filha para a mãe dela — ordenou Anderson, a voz voltando à autoridade cortante de um soberano, embora seus olhos continuassem fixos na esposa. — Agora. Antes que eu decida que este prédio inteiro não precisa mais existir.
Lily engoliu em seco, olhando desesperadamente para Kenji. Kenji cerrou os dentes, avaliando a situação com um olhar furioso, mas ciente de que qualquer tiroteio naquele raio curto transformaria Clara e o bebê em alvos colaterais instantâneos.
— Entrega a criança — murmurou Kenji, entredentes, a contragosto. — Entrega logo.
Lily avançou devagar, os braços trêmulos, e depositou a pequena Alice no colo de Clara.
Assim que sentiu o peso macio da filha contra o peito, Clara soltou um soluço convulsivo, apertando a bebê contra si. Alice resmungou, aninhando a cabecinha gordinha no colo da mãe.
Paris estendeu a mão sem luva e acariciou a bochecha minúscula da filha com as costas dos dedos. Por um instante inacreditável, o carrasco mais temido do continente fechou os olhos e respirou fundo, como se aquele contato frágil fosse a única coisa que o mantinha respirando.
— O pesadelo acabou, meu amor — sussurrou Paris, voltando a fitar Clara, levantando-se devagar e estendendo a mão para que ela se apoiasse. — Nós vamos para casa. E qualquer um que tentar nos impedir de cruzar aquela porta... deixará de existir antes que consiga dar o próximo passo.
Clara olhou para a mão estendida de Paris. Uma mão perfeita, nobre, que sabia dedilhar caixas de música e virar páginas de poesia... e que, com a mesma facilidade apavorante, acabara de estourar os sesos de um homem a sangue-frio.
O véu da inocência havia se rasgado para sempre. O monstro existia. Mas, ao olhar nos olhos cinzentos e devotos daquele carniçal, Clara soube, com um aperto gélido no coração, que o monstro a amava mais do que a sua própria salvação.