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O Sangue dos Esquecidos
O pânico no Setor 45 já não era um sussurro subterrâneo; havia se transformado em uma histeria coletiva, sufocante e palpável como a poeira tóxica que cobria os campos de treinamento.
Se a aparição fantasmagórica de Paris Anderson e a execução sumária de Delalieu haviam abalado as fundações da resistência, a mensagem transmitida ao amanhecer terminara de desmoronar qualquer resquício de coragem.
Não fora uma transmissão secreta. O Comandante Supremo interceptara as frequências de emergência de todos os rádios, alto-falantes e monitores do complexo militar. A voz de Paris ecoara limpa, metálica e implacável em cada dormitório, refeitório e enfermaria. Ele não ameaçara os líderes rebeldes com discursos sobre traição à pátria ou estratégias de guerra. O ultimato fora direcionado diretamente à população e aos soldados comuns.
*“Cada respiração de vocês neste setor depende exclusivamente do bem-estar da minha esposa e da minha filha. Se o suprimento de água quente do alojamento 104 falhar por um único minuto; se a temperatura daquele quarto cair abaixo de vinte e um graus; se a senhora Anderson perder peso por falta de nutrição adequada, ou se o choro da minha filha for provocado por negligência... eu não esperarei o término do prazo. Eu enviarei esquadrões de bombardeio químico. Vocês não verão o sol se pôr. Tratadas como rainhas, vocês sobrevivem. Incomodadas, vocês apodrecem.”*
Agora, o corredor diante do quarto 104 parecia uma terra amaldiçoada. Os soldados rebeldes passavam pela porta com passos apressados, evitando olhar para a madeira cinzenta, como se a mulher ali dentro guardasse uma ogiva nuclear pronta para detonar ao menor toque. Clara deixara de ser uma refugiada ingênua para se tornar a carcereira involuntária de centenas de almas aterrorizadas.
No interior do quarto, Clara apertava as têmporas pulsantes.
A dor de cabeça era uma pontada contínua, agravada pela falta de sono e pelo zumbido elétrico dos aquecedores portáteis que os homens de Castle haviam instalado às pressas para garantir que o quarto estivesse na exata temperatura exigida pelo tirano. Ela se sentia sufocada. A atmosfera estava pesada, densa de vapor e do aroma adocicado das pomadas e unguentos que Paris enviara.
Sentada na beirada da cama de ferro, com Alice sonolenta deitada sobre suas coxas fartas, Clara olhava para o próprio reflexo no pequeno espelho rachado da pia. Seus olhos castanhos estavam fundos, cercados por olheiras arroxeadas. Aos vinte e seis anos, seu corpo ainda guardava as marcas da maternidade — os quadris largos, a curva macia do abdômen que ainda não voltara ao lugar e os seios volumosos, pesados de leite, que manchavam a gola do vestido azul-escuro que lhe haviam entregado naquela manhã.
Ela se sentia um monstro. Não pelas explosões de energia que descobrira ser capaz de expelir, mas pelo peso de saber que homens e mulheres estavam tremendo de terror nos corredores por sua causa. Porque o homem que ela amara por sete anos decidira que a vida de um continente inteiro valia menos do que o conforto de suas bochechas cheias.
Três batidas tímidas, quase hesitantes, soaram contra a porta.
Clara puxou a manta de lã sobre o colo, cobrindo o corpo da filha por puro reflexo protetor.
— Quem é? — perguntou ela, a voz saindo rouca e desgastada.
Houve uma pausa do outro lado. Passos se arrastaram, e então uma voz jovem, firme, mas carregada de uma cautela extrema, respondeu:
— Adam. Adam Kent. Estou com o meu irmão mais novo. Castle nos autorizou a subir.
Clara piscou, confusa. Ela conhecia Kenji, conhecia Castle e a fúria gélida de Aaron Warner, mas o nome Adam Kent não lhe dizia absolutamente nada. Antes que pudesse formular uma negativa, a maçaneta girou devagar e a porta se abriu alguns centímetros.
O rapaz que colocou a cabeça para dentro não parecia um soldado implacável do Restabelecimento, embora usasse calças de combate e botas pesadas. Tinha cabelos escuros cortados rentes, feições angulosas e impressionantes olhos azuis — límpidos, penetrantes e tristes. Ao lado dele, segurando firmemente a sua mão calejada, estava um menino de cerca de dez anos, com os mesmos cabelos castanhos e olhos grandes e curiosos, vestindo um suéter de lã grande demais para os seus ombros magros.
O menino esticou o pescoço, tentando enxergar por trás do irmão mais velho, seus olhinhos brilhando com uma expectativa inocente que parecia proibida naquele lugar cinzento.
— Nós não queremos assustar você — disse Adam em voz baixa, mantendo o corpo meio fora do quarto, em uma postura de respeito explícito. — Se não for um bom momento, nós podemos voltar mais tarde.
Clara olhou para o garotinho. O contraste entre a infância vulnerável daquela criança e o armamento pesado que ecoava nos pátios lá fora fez algo em seu peito materno se desarmar.
— Não... entrem, por favor — sussurrou Clara, ajeitando Alice nos braços e apoiando as costas na parede fria. — Só... fechem a porta. O vento do corredor é gelado.
Adam assentiu, puxando a porta com cuidado para que o trinco não estalasse com violência. Ele permaneceu de pé perto da entrada, os ombros tensos, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco para demonstrar que não trazia armas. O garotinho, no entanto, soltou a mão do irmão e deu dois passos vacilantes para a frente, parando a um metro da cama.
— Ela é tão pequenininha — murmurou o menino, a voz fina e maravilhada cortando o silêncio tenso. — Adam, olha os pezinhos dela. Cabem na minha mão.
Um sorriso tênue e involuntário tocou os lábios ressecados de Clara.
— O nome dela é Alice — disse ela, a voz suavizando-se pela primeira vez em dias. — Ela tem quatro meses.
— Eu sou o James — respondeu o menino, estufando o peito magro com orgulho infantil. — Eu tenho dez anos. Quase onze. O Adam é meu irmão.
Clara ergueu os olhos para o rapaz mais velho. Adam não se aproximara da cama. Ele olhava para a bebê com uma intensidade dilacerante, os maxilares cerrados, as veias dos braços salientes sob a pele clara. Havia uma tempestade contida naquele olhar azul — dor, ressentimento antigo, incredulidade e, sob todas essas camadas, uma ternura assustada.
— Por que vocês vieram aqui? — perguntou Clara, o medo voltando a esfriar a base de sua nuca. — O seu irmão... ele também quer me interrogar? Eu já disse a Castle que não sei códigos militares. Eu não sei onde o exército dele está acampado.
— Não — cortou Adam, a voz rouca. Ele deu um passo à frente, mas parou imediatamente, temendo invadir o espaço dela. — Nós não viemos por causa do Restabelecimento. Castle não tem nada a ver com isso. Nós viemos... porque o James não parava de me pedir desde ontem à noite.
James olhou para cima, encarando o irmão com admiração pura, e depois voltou a fitar Clara com uma sinceridade desarmante.
— O Adam me contou — disse James, apontando um dedinho para Alice. — Ele disse que o homem mau que matou tantas pessoas... era o pai dele. E que você era casada com ele. Então a bebê... ela é nossa irmãzinha, não é?
O ar congelou nos pulmões de Clara.
O quarto pareceu girar em um turbilhão vertiginoso. Ela olhou para Adam — para a linha forte do queixo, para a postura militar, para a dor muda estampada nas rugas prematuras de sua testa jovem. Aaron Warner era filho de Paris. Mas Adam...
— Irmã? — balbuciou Clara, o sangue fugindo de seu rosto gordinho, deixando-o pálido como cera. — Você... você também é filho do Paris?
Adam fechou os olhos por uma fração de segundo, soltando o ar em um suspiro trêmulo e pesado, como se admitir aquilo em voz alta fosse carregar uma maldição gravada a ferro e fogo em sua carne.
— Sim — respondeu Adam, abrindo os olhos e sustentando o olhar apavorado de Clara. — Ele me teve com a minha mãe muito antes de você nascer, provavelmente. Ela era uma mulher comum, sem poder, sem nome no Conselho. Quando ela adoeceu e perdeu a utilidade, ele nos abandonou na miséria absoluta. Ele batia nela. Ele me espancava para me ensinar a não chorar quando eu tinha a idade do James.
Clara cobriu a boca com a mão livre, sentindo as lágrimas arderem instantaneamente em seus olhos. A imagem de Paris — o homem que passava noites inteiras velando seu sono, que beijava suas mãos com a solenidade de um devoto — colidiu de forma monstruosa contra o relato daquele jovem despedaçado.
— Ele tinha outra família... — soluçou Clara, sentindo a náusea subir amarga por sua garganta. — O Aaron... e você...
— O Warner e eu descobrimos recentemente que dividimos o mesmo sangue podre — explicou Adam, com um amargor gélido na voz. — Paris Anderson destruiu a mãe do Warner trancando-a em uma clínica até a morte. Ele destruiu a minha mãe deixando-a apodrecer na pobreza enquanto eu tinha que roubar ração para que o James não morresse de fome. Ele nos tratou como lixo descartável.
Adam deu mais um passo, aproximando-se da cama. Seus olhos desceram para as bochechas coradas de Alice, que dormia tranquilamente sob a manta grossa.
— E então eu ouvi o que aconteceu no refeitório — continuou Adam, a voz falhando ligeiramente, deixando transparecer a vulnerabilidade de um menino que nunca tivera um pai de verdade. — Ouvi dizer que ele atravessou os esgotos sozinho. Que ele ofereceu parar uma guerra inteira por você e por ela. Que ele chora quando a bebê tosse. Eu precisei ver com os meus próprios olhos. Eu precisava saber se era verdade... ou se era apenas mais uma alucinação sádica dele.
Clara olhou para as próprias mãos, macias e sem cicatrizes, pousadas sobre o corpinho da filha. A culpa a esmagava como uma montanha de chumbo.
— Eu não sabia de nada — disse ela, as lágrimas escorrendo livres pelas bochechas cheias, caindo sobre o tecido escuro do vestido. — Eu juro pela vida da minha filha, Adam. Eu tinha dezenove anos quando ele me encontrou. Meus pais tinham acabado de morrer na fronteira. Eu estava desnutrida, doente... Ele me levou para aquela casa nos bosques. Ele me deu comida limpa, me ensinou a ler tratados antigos, me trouxe flores... Por sete anos, ele foi o homem mais paciente da terra. Ele nunca... ele nunca gritou comigo. Nunca levantou a mão para mim.
Adam soltou uma risada seca e sem alegria, balançando a cabeça.
— É claro que não — murmurou ele, sem rancor em relação a ela, apenas um profundo e exausto desalento. — O meu pai é um psicopata narcisista. Ele precisava de um espelho limpo. Ele precisava de um lugar intocado pela podridão dele para poder olhar e fingir que era humano. Ele torturava a mim e ao Warner porque nos via como soldados, como ferramentas para o império dele. Mas você... você e a Alice eram o teatrinho particular dele. O refúgio onde ele podia fingir que tinha salvação sem precisar pagar pelos seus pecados.
James puxou suavemente a barra da calça de Adam, interrompendo o desabafo do irmão mais velho.
— Adam, posso tocar a mãozinha dela? — pediu o menino, os olhos brilhando. — Só um dedinho. Por favor.
Adam olhou para Clara, pedindo permissão em silêncio.
Clara engoliu o pranto, comovida pela inocência de James. Ela afastou ligeiramente a manta, revelando o bracinho gordinho de Alice. A bebê se moveu no sono, abrindo a mãozinha minúscula, os dedinhos rosados se esticando no ar quente do quarto.
— Pode tocar, James — sussurrou Clara, limpando as lágrimas do queixo com as costas da manga. — Ela não morde.
James deu um passo à frente com uma reverência quase sagrada. Ele estendeu o indicador magro e tocou a palma aberta de Alice. O reflexo natural da recém-nascida fez com que seus pequenos dedos se fechassem com força ao redor do dedo do menino.
James prendeu a respiração, abrindo um sorriso tão radiante que pareceu iluminar as paredes de concreto cinzento.
— Ela me segurou! — sussurrou James, olhando para Adam com os olhos marejados de pura alegria. — Adam, olha! Ela é tão forte! Ela tem os mesmos olhos que você quando acorda bravo, mas o narizinho é fofo.
Adam não conseguiu conter um sorriso triste. Ele se aproximou da cama e, pela primeira vez, ajoelhou-se ao lado do catre, ficando na altura dos olhos de Clara.
Ele olhou para a irmãzinha. O ódio por Paris Anderson era um fogo que nunca se apagaria em seu peito, mas aquela criaturinha indefesa não tinha culpa pelo sangue que corria em suas veias. Ela era apenas uma vítima de um destino cruel, nascida da união entre um monstro e uma prisioneira que acreditara estar no paraíso.
Adam estendeu a mão com cautela extrema e tocou a cabecinha de Alice, sentindo a penugem macia dos cabelos claros da bebê sob as pontas de seus dedos calejados pelo manuseio de fuzis.
— Ela é linda, Clara — disse Adam, com a voz embargada. — E ela não tem culpa de nada. Nem você.
Clara soluçou, sentindo um alívio inexplicável lavar parte da vergonha que a consumia.
— Ele mandou aquela mensagem hoje — disse ela, as mãos tremendo sobre a manta. — O Kenji me contou. Ele está ameaçando matar todo mundo se eu... se eu não for tratada como uma deusa aqui dentro. As pessoas me olham no corredor como se eu fosse a morte encarnada. Eu sinto que cada prato de comida quente que entra neste quarto é um insulto a todos os que estão sofrendo lá fora.
Adam retirou a mão da bebê e encarou Clara com a seriedade madura de quem conhecia a crueldade do mundo desde o berço.
— Paris enviou aquilo para isolar você — explicou Adam, com lucidez cortante. — Ele sabe o que está fazendo. Ele sabe que, ao fazer essas exigências grotescas, ele faz com que os rebeldes odeiem você. Ele quer que você se sinta rejeitada aqui. Quer que você sinta medo da nossa gente, para que, quando as quatro semanas acabarem, você corra de volta para os braços dele voluntariamente, achando que só ao lado dele você e a bebê estarão seguras.
As palavras de Adam ressoaram na mente de Clara como o estalar de uma armadilha perfeita.
Era verdade. Paris sempre fora meticuloso. Ele nunca dava um passo em vão. A carta perfumada, os suprimentos luxuosos, o memorando obsessivo e agora a ameaça de massacre contra a base... tudo fazia parte de uma teia invisível para encurralá-la. Ele a estava empurrando de volta para a gaiola dourada, manipulando o terror alheio para garantir a submissão dela.
— Eu não quero voltar — sussurrou Clara, a voz ganhando uma firmeza que ela mesma não esperava, os olhos brilhando através das lágrimas. — Eu preferia morrer de fome com os meus pais na fronteira a deitar na mesma cama com ele de novo. Saber que ele fez você e o irmão dele sofrerem... saber que ele matou crianças... eu sinto nojo de cada beijo que ele me deu.
Adam assentiu lentamente, um respeito genuíno despontando em suas feições.
— Juliette e Warner ainda estão desaparecidos — revelou Adam, baixando ainda mais o tom de voz para que as palavras não cruzassem as frestas da porta. — Castle e Kenji estão tentando rastrear a unidade que os levou, mas se o meu pai intervir, eles podem ser executados antes do fim do mês. Nós estamos vulneráveis, Clara. Mas nós não vamos entregar você e a Alice como se fossem gado para aquele demônio.
James soltou o dedinho de Alice com relutância, olhando para Clara com uma seriedade infantil desconcertante.
— Se o homem mau vier — disse James, cerrando os punhos pequenos —, o Adam atira nele. O Adam é o melhor atirador do setor. Ele não vai deixar ninguém machucar a nossa irmãzinha.
Clara olhou para os dois irmãos — os dois filhos esquecidos de Paris Anderson, que cresceram no frio, na dor e no abandono, enquanto ela desfrutava de estufas aquecidas e geleias de amora na mansão isolada. A injustiça daquilo era um corte profundo em sua consciência, mas a solidariedade crua e pura que eles lhe ofereciam naquele quarto estéril foi o primeiro sopro de esperança que sentiu desde que Juliette chutara a porta de sua casa.
— Obrigada, James — disse Clara, estendendo a mão macia e afagando os cabelos desgrenhados do menino. — Obrigada, de verdade.
Adam levantou-se do chão, ajustando a postura militar, mas os olhos azuis continuavam fixos na irmã recém-descoberta.
— Nós precisamos ir antes que a ronda de Castle passe — disse Adam, puxando James suavemente pelo ombro. — Mas eu vou pedir para colocarem o meu turno de guarda neste corredor. Se você precisar de qualquer coisa... água, lençóis limpos, ou apenas alguém para segurar a Alice enquanto você descansa as costas... bata três vezes na parede ao lado da porta. Eu venho.
Clara assentiu, as lágrimas secando lentamente nas maçãs de seu rosto largo.
— Eu agradeço, Adam. Cuide do seu irmão.
Adam e James caminharam até a porta. Antes de sair, o garotinho acenou com a mão fechada na direção da cama, sussurrando um adeus silencioso para a bebê que voltara a ressonar profundamente.
A porta se fechou com um clique metálico suave.
Sozinha mais uma vez, Clara puxou Alice contra o peito, sentindo o calor frágil do coraçãozinho da filha bater no mesmo compasso acelerado do seu. Ela olhou para a janela gradeada, onde as nuvens cinzentas e pesadas de inverno começavam a despejar os primeiros flocos de neve sobre a terra batida do pátio.
Paris achava que a conhecia por inteiro. Achava que o terror psicológico, as cartas perfumadas e as ameaças de destruição em massa a fariam rastejar de volta para o conforto sangrento de seus braços.
Mas ele não contava com o sangue que ele próprio espalhara pelo mundo.
Clara beijou a testa de Alice, sentindo o aroma puro de lavanda misturar-se ao cheiro acre do ferro militar. Faltavam vinte e seis dias para o fim do prazo. O cerco de Paris Anderson estava se fechando como uma forca ao redor do Setor 45, mas, pela primeira vez desde que seu mundo desmoronara, Clara não estava completamente sozinha na escuridão.