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As Cartas do Predador
O eco do tiro que estraçalhara o crânio de Delalieu parecia ter se incrustado nas paredes de concreto do Setor 45. Mesmo horas depois de os recrutas terem lavado o chão com água sanitária e removido os restos mortais do velho tenente, o cheiro de cobre fresco e fuligem continuava suspenso no ar, denso o bastante para sufocar quem ousasse respirar com profundidade.
Mas não fora a morte rápida do prisioneiro que paralisara o quartel. Fora o que acontecera depois.
Pelos corredores cinzentos e mal iluminados, os sussurros corriam velozes e apavorados como ratazanas. Ninguém no setor conseguia compreender o que testemunhara no refeitório. Paris Anderson — o Comandante Supremo que muitos acreditavam ter sido aniquilado por Juliette — não apenas caminhava entre os vivos com uma bandagem no pescoço, mas atravessara sozinho os dutos de esgoto da base rebelde para recuperar a jovem esposa e a filha recém-nascida.
E, mais assustador ainda, fora ela quem o expulsara.
A mulher de formas cheias e bochechas macias, que todos julgavam ser uma donzela ignorante e desprotegida, liberara uma força invisível, violenta e devastadora, arremessando o carrasco mais temido da terra contra as vigas de aço. Depois, com a filha no colo e lágrimas nos olhos, rejeitara a mão do tirano diante de dezenas de homens armados, arrancando dele uma trégua de quatro semanas antes que ele desse meia-volta e sumisse nas trevas.
O Setor 45 agora olhava para o quarto 104 com um respeito supersticioso, misturado a um terror contido. Ninguém sabia se Clara Anderson era uma refém, uma espiã involuntária ou a única barreira que impedia o continente inteiro de virar cinzas sobre suas cabeças.
Dentro do alojamento, Clara mal percebia a inquietação do lado de fora.
Ela estava sentada na borda do catre de ferro, com Alice no colo. O quarto era espartano: uma cama estreita com colchão de espuma fina, uma mesa de cabeceira de metal e uma janela com grades grossas que dava vista para o pátio de treinamento enlameado.
Alice sugava vorazmente o seio de Clara, os olhinhos cinzentos semicerrados sob as pestanas curtas e claras. O leite finalmente descera após horas de sofrimento e compressas improvisadas, aliviando a queimação febril que quase levara Clara ao desespero durante a manhã. Mas o alívio físico não dissipara a náusea em sua alma. Toda vez que fechava as pálpebras, ela via a expressão no rosto de Paris quando disparou contra Delalieu: a indiferença gélida de quem esmaga um graveto seco sob a bota.
E depois, a transformação perturbadora. Aquele mesmo rosto esculpido em ódio e frieza amolecendo diante dela com uma adoração quase devota.
*Eu manchei as minhas mãos de sangue todos os dias para que as suas mãos continuassem puras.*
A voz dele ressoava em seu peito como o dobre fúnebre de um sino de igreja.
Duas batidas secas na porta de madeira oca a arrancaram de seus devaneios.
— Pode entrar — sussurrou ela, cobrindo o peito com a barra de uma camisa larga que os rebeldes lhe haviam arranjado.
A porta se abriu rangendo, revelando Kenji Kishimoto. Ele trazia duas grandes caixas de metal lacradas, empilhadas nos braços, e uma sacola de lona pendurada no ombro. Atrás dele vinha Castle, com a testa franzida em sulcos profundos de preocupação e um envelope de papel pesado nas mãos.
Kenji largou as caixas sobre a mesa de metal com um estrondo abafado, soltando o ar ruidosamente pelos dentes cerrados.
— Eu juro por Deus que esse mundo está oficialmente enlouquecido — resmungou Kenji, passando a mão pelos cabelos escuros e encarando as caixas com profunda desconfiança. — Não sobrou uma única gota de bom senso nesta porra de planeta.
Clara olhou para os contêineres, surpresa. Eram caixas térmicas militares de alta tecnologia, do tipo utilizado para transportar órgãos transplantados ou medicamentos de alto custo entre os setores centrais do Restabelecimento. O selo dourado da Comandância Suprema reluzia na lateral polida.
— O que é isso? — perguntou ela, a voz fraca.
— Presentes do seu marido — respondeu Castle, aproximando-se com passos lentos e medidos. Ele não parecia agressivo, mas havia um cansaço avassalador em sua postura. — Um mensageiro desarmado do Setor 46 cruzou os portões externos há vinte minutos sob uma bandeira branca de trégua. Deixou as caixas na guarita e recuou imediatamente, sem disparar um único tiro.
Kenji cruzou os braços sobre o peito e soltou uma risada sarcástica e nervosa.
— Nós passamos três semanas arrombando comboios para conseguir analgésicos e farinha para os nossos feridos, e o psicopata em pessoa envia uma entrega expressa de mantimentos de luxo porque a esposa dele está com as bochechas pálidas. Dá para acreditar nisso?
Castle ignorou o desabafo do rapaz e colocou o envelope de papel pardo sobre o colchão, ao lado da coxa macia de Clara. Em seguida, abriu a trava da primeira caixa com um clique metálico suave.
O aroma que escapou do interior fez o estômago de Clara roncar de maneira involuntária e dolorosa. Havia fatias grossas de carne bovina resfriada em vácuo, queijos amarelos importados, recipientes térmicos com caldos de legumes densos e ricos em ferro, maçãs frescas que cheiravam a pomar colhido naquela mesma manhã e potes de vidro cheios de geleia de amora.
Na segunda caixa, arrumados com uma precisão cirúrgica obsessiva, estavam pacotes de fórmula láctea hipoalergênica para bebês, fraldas de algodão egípcio macio, pomadas dermatológicas especiais para assaduras, lenços umedecidos sem perfume e sabonetes líquidos à base de calêndula e camomila.
Havia até mesmo duas caixas de pomada de lanolina pura para seios feridos pela amamentação.
Kenji puxou uma folha de papel dobrada que estava presa à tampa da caixa de suplementos. Ele correu os olhos pelo texto e balançou a cabeça em choque.
— Ele escreveu um memorando — disse Kenji, com a voz embargada de incredulidade. — O homem que comanda trezentos setores de guerra escreveu um memorando de três páginas ditando a sua dieta diária. Olhe isso, Castle: *“A senhora Anderson precisa consumir no mínimo dois mil e quinhentos mililitros de líquidos por dia, preferencialmente chá de erva-doce morno para estimular a produção de leite e acalmar as cólicas da bebê. Se faltar proteína animal na alimentação dela, o Setor 45 será reduzido a pó antes do amanhecer. Ela não tolera alimentos com excesso de sal; cozinhem tudo com alho e azeite leve.”*
Kenji amassou a ponta do papel, encarando Clara com os olhos arregalados.
— Ele está ameaçando explodir uma base militar inteira se nós dermos comida muito salgada para você. É oficial. O Comandante Supremo perdeu completamente a cabeça.
Clara sentiu um nó apertar sua garganta até quase sufocá-la. Lágrimas quentes voltaram a queimar os cantos de seus olhos, mas ela as conteve, envergonhada. Paris não apenas lembrara de suas restrições alimentares; ele listara as exatas refeições que costumava pedir aos cozinheiros de sua casa no bosque para prepararem para ela nas semanas que se seguiram ao parto difícil de Alice.
— Há remédios aqui que nós nunca vimos nos setores rebeldes — comentou Castle, examinando um frasco de gotas pediátricas com dedos cuidadosos. — São medicamentos de uso exclusivo da cúpula de comando. Alice não terá problemas gastrointestinais ou respiratórios enquanto tivermos esses suprimentos.
Castle virou o rosto para Clara, seu olhar paterno e pesado de compaixão.
— Você não precisa comer nada disso se não quiser, Clara. Nós temos as nossas rações. Mas para a criança... isso é a diferença entre a saúde plena e o risco de desnutrição neste inverno.
Clara olhou para Alice em seu colo. A menina acabara de soltar o seio, com uma gotinha branca escorrendo pelo canto dos lábios grossos, adormecendo com a bochecha encostada no peito da mãe. Como ela poderia recusar aquilo? Como poderia punir a filha inocente pelo sangue que manchava as mãos do pai?
— Deixem as coisas da bebê aqui, por favor — sussurrou Clara, a voz trêmula. — E a comida... vocês podem distribuir a maior parte para os feridos do quartel. Eu só preciso do suficiente para continuar produzindo leite para a Alice. Não deixem essas frutas estragarem. As pessoas lá fora precisam mais do que eu.
Kenji abriu a boca para fazer mais um comentário sarcástico, mas parou no meio do caminho, desarmado pela humildade sincera daquela mulher. Ele apenas assentiu devagar com a cabeça, um lampejo de empatia suavizando suas feições cansadas.
— Eu vou mandar a equipe médica esterilizar tudo antes de usar — disse Kenji, pegando uma parte dos suprimentos excedentes com cuidado renovado. — E vou pedir para a cozinha preparar uma sopa com essa carne e legumes para você. Descanse, Clara. E tente não... explodir mais nenhuma parede hoje, tudo bem? A gente já tem problemas demais com o encanamento velho deste prédio.
Kenji e Castle se retiraram devagar, fechando a porta de madeira e deixando Clara mais uma vez na penumbra solitária do quarto.
O envelope sobre a cama parecia pulsar como um coração vivo.
Clara deitou Alice no centro do catre, cercando o corpinho frágil com o cobertor militar dobrado para evitar que a menina rolasse. Em seguida, com as mãos ainda úmidas de suor frio, pegou o envelope de papel grosso.
Não havia carimbos do exército ou insígnias militares. Na frente, com a caligrafia inclinada, precisa e elegante que ela tantas vezes vira em cartas de amor deixadas sob o seu travesseiro, estava escrito apenas: *Para a minha Clara.*
Ela puxou a fita adesiva que lacrava o papel com uma cera negra gravada com as iniciais *P.A.*. As folhas finas de papel de carta desdobraram-se com um sussurro macio entre seus dedos gordinhos e trêmulos.
O perfume a atingiu antes mesmo da primeira palavra. Pinho amadeirado, resina de inverno e uma leve nota de fumo nobre. Era o cheiro da pele de Paris. O cheiro de sua nuca quando ele se deitava exausto sobre a barriga dela, enterrando o rosto em suas dobras macias e murmurando que ela era seu único descanso debaixo do céu.
Clara começou a ler, o coração martelando contra a traqueia:
*“Clara,*
*A casa está insuportavelmente fria. Sem a sua respiração no quarto ao lado, este silêncio é uma sentença de tortura pior do que qualquer ferimento que aquela garota pudesse ter me infligido no quartel.*
*Eu sei que você está horrorizada. Sei que o impacto de ver o sangue daquele tolo do Delalieu quebrou a redoma em que eu lutei por sete anos para mantê-la. Mas eu nunca menti quando disse que amava você, Clara. Cada suspiro que dei desde que a tirei daquela colônia miserável, no dia em que seus pais morreram de peste, foi devotado à sua preservação. Eu sou um monstro para os monstros que habitam o resto deste continente. Para eles, eu sou a morte inevitável. Mas para você... para você e para a nossa pequena Alice, eu fui apenas o homem que as amou com toda a alma que ainda me resta.*
*Você me empurrou hoje. Você não faz ideia de como o seu poder é magnífico e puro, Clara, mas usá-lo sem treinamento drena as suas reservas de energia. Beba a água com minerais que enviei na caixa cinzenta. Não deixe que o estresse seque o seu leite. A Alice precisa de você forte. Ela é gordinha e gulosa como você era quando a engravidei; ela sentirá as cólicas se você se alimentar apenas da ração intragável daqueles rebeldes.*
*A noite vai cair em breve. Eu sei que a Alice acorda às três da madrugada com desconforto no estômago. Massageie a barriguinha dela em círculos no sentido horário, como eu fazia. Não tente embalá-la de pé; seus quadris ainda estão sensíveis pelo parto recente. Sente-se e cante a canção do rio que sua mãe costumava cantar.*
*Eu cumprirei as quatro semanas da nossa trégua porque prometi a você. Mas não pense por um segundo que eu vou abandoná-la neste buraco úmido cercado por insurgentes que logo serão enforcados pela minha infantaria. Eu estou vigiando cada respiração sua, meu amor. Cuide da nossa filha.*
*Com toda a minha devoção,* *Paris.”*
Clara amassou a carta contra o peito, soltando um choro entrecortado e silencioso. As lágrimas molharam o papel nobre, borrando a tinta preta.
Era um pesadelo grotesco. Como um homem podia ser capaz de tamanha crueldade com o resto do mundo e, ao mesmo tempo, conhecer cada nuance íntima de seu corpo e da rotina de sua bebê? Ela queria odiá-lo com todas as fibras de seu ser; queria arrancar a memória daquele toque de sua pele. Mas, sob a camada espessa de terror e desilusão, havia um buraco escuro e doloroso de saudade.
Porque a realidade daquele quarto frio no Setor 45 era implacável.
Quando a meia-noite passou e as luzes do complexo foram cortadas para racionar energia, a temperatura despencou. O vento gelado assobiava pelas frestas da janela de metal, fazendo a manta de Alice parecer fina demais. Clara tentou aquecer a filha com o próprio calor corporal, puxando o corpo macio da bebê para junto de sua barriga farta, mas a menina estava inquieta.
Às duas e quarenta e cinco da manhã, Alice começou a se contorcer.
Primeiro foram resmungos baixos, depois soluços sôfregos, e finalmente um choro estridente, agudo e desesperado que ecoava nas paredes nuas do quarto. As perninhas gordinhas da bebê batiam no ar, a barriguinha distendida e dura como um tambor por causa dos gases acumulados.
Clara sentou-se na cama às pressas, o coração apertado.
— Psiu... calma, meu amor, a mamãe está aqui... — tentou Clara, com a voz rouca de sono e choro.
Ela ergueu a filha nos braços e começou a niná-la de um lado para o outro. Seus próprios músculos protestaram instantaneamente. Os quadris largos e a base da coluna ainda doíam terrivelmente do esforço do parto de quatro meses atrás; as solas de seus pés estavam dormentes pelo frio do chão de concreto.
Alice chorava cada vez mais alto, o rosto ficando vermelho, os olhinhos cheios de lágrimas.
Na casa antiga, Clara nunca precisara suportar aquele desespero sozinha.
Naquela mansão isolada no bosque, nos raros períodos em que Paris conseguia estar presente, Clara nunca precisava sair da cama às três da manhã. Assim que o primeiro choramingo escapava do berço de madeira entalhada, Paris já estava de pé. O Comandante Supremo despia a túnica militar pesada e, vestindo apenas a calça de linho e a camisa branca entreaberta, pegava a filha com uma delicadeza espantosa para um homem daquele porte.
Era ele quem passava horas andando pelo assoalho aquecido, balançando Alice com movimentos firmes e ritmados contra o peito largo e musculoso. Paris sabia exatamente o ângulo para colocar a cabeça da menina contra o seu ombro; ele sussurrava no ouvido de Alice histórias de impérios distantes e recitava tratados de paz em francês e alemão até que a respiração da bebê desacelerasse.
E enquanto ninava a filha, Paris estendia a mão para Clara na cama, acariciando os cabelos desgrenhados de sua esposa, beijando suas pálpebras cansadas e murmurando: *“Volte a dormir, minha vida. Eu cuido das minhas duas meninas. Descanse o seu corpo.”*
Ele trazia toalhas quentes para aliviar a tensão nos seios dela. Ele preparava infusões de ervas no meio da madrugada. Ele a cobria com mantas grossas de lã pura e a beijava na testa com a reverência de quem protege o tesouro mais raro da terra.
Ali, no chão estéril do Setor 45, Clara estava desamparada.
Seus braços tremiam sob o peso de sete quilos de bebê agitada. A dor nas costas irradiava para a pelve em pontadas agudas. Clara tentou massagear a barriga de Alice, mas a menina chorava tanto que se engasgava com a própria saliva.
— Paris... — O nome escapou em um sussurro dilacerado e culpado dos lábios de Clara, no escuro do quarto.
Ela odiava a si mesma por desejar a presença dele naquele instante. Sentia nojo de sua própria fraqueza por ansiar pelo abraço do assassino que derrubara Delalieu a sangue-frio. Mas seu corpo cansado, sua maternidade dolorosa e o desespero de ver a filha sofrer gritavam pelo único porto seguro que ela conhecera por sete anos.
Alice parecia sentir a mesma ausência. Os olhos cinzentos da menina procuravam ao redor, no vazio escuro do cômodo militar, a silhueta alta, a voz grave e o calor do peito do pai que costumava espantar todas as suas dores noturnas.
Clara sentou-se no chão de concreto, encostando as costas na parede fria. Ela abriu a embalagem da pomada enviada por Paris, aplicando o creme na barriguinha da bebê, e começou a cantar a canção do rio, as lágrimas escorrendo quentes por suas bochechas cheias e caindo sobre o tecido de algodão de Alice.
Demorou mais de uma hora para que o choro cessasse e Alice finalmente adormecesse, esgotada, com a boca aberta contra a clavícula da mãe.
Com a filha finalmente em paz, Clara fechou os olhos na escuridão. O silêncio voltou a reinar no quarto 104, pesado e ameaçador.
Faltavam vinte e sete dias para o fim da trégua. E Clara soube, com um calafrio terrível que desceu por sua espinha, que quando o prazo expirasse, nem os rebeldes, nem as suas próprias defesas poderiam impedir Paris Anderson de vir cobrar o que ele acreditava ser seu por direito divino.