Fernando torres e eu
Entre Acordes e Gramados
O flash das câmeras era como uma tempestade elétrica constante, mas Ana Avelar já tinha aprendido a não piscar. No tapete vermelho do "Premios Juventud", em Madri, o mundo parecia girar em torno dela. Ela usava um vestido de seda prateada que parecia mercúrio líquido, refletindo a luz de forma quase hipnótica. Sua música, uma mistura de pop melancólico com raízes espanholas, estava tocando em todas as rádios de Londres a Buenos Aires. No entanto, enquanto os repórteres gritavam seu nome, a mente de Ana estava a quilômetros dali, ou melhor, a meses de distância.
Desde aquela noite no terraço, após a Copa do Mundo, o contato entre ela e Fernando Torres tinha sido reduzido a mensagens de texto enviadas em fusos horários diferentes e ligações de voz às três da manhã. Ele estava vivendo o sonho em Liverpool, tornando-se o novo rei de Anfield, e ela estava saltando de avião em avião, promovendo um álbum que deveria ser apenas um projeto pessoal, mas que se tornou um fenômeno. A química que quase incendiou o terraço em Madri ainda estava lá, latente, guardada em palavras digitadas e promessas de "na próxima vez".
E a próxima vez era hoje.
Ao entrar no auditório, Ana sentiu o coração acelerar. Ela sabia que ele estaria lá. Fernando fora convidado para entregar um dos prêmios principais, uma jogada de marketing para unir o esporte e a música. Ela se sentou na primeira fila, sentindo o peso das joias e a expectativa no ar.
— Você está distraída — sussurrou sua empresária ao lado. — Lembre-se, se ganhar, o discurso precisa ser curto.
Ana apenas assentiu, os olhos vagando pelas fileiras até que, finalmente, o viu.
Fernando estava três fileiras atrás, conversando com alguns dirigentes. Ele parecia ainda mais imponente do que ela se lembrava. O terno escuro realçava a estrutura física de um atleta no auge, e o cabelo loiro, agora um pouco mais curto, dava-lhe um ar de maturidade que a fez perder o fôlego por um segundo. Como se sentisse o olhar dela, Fernando virou a cabeça.
O tempo parou. Não houve flashes, não houve música alta, apenas o reconhecimento imediato. Ele deu um sorriso discreto, aquele mesmo sorriso de lado que a tinha desarmado meses atrás, e tocou levemente o nó da gravata. Era o sinal deles. "Eu também sinto sua falta".
A premiação seguiu como um borrão. Ana subiu ao palco para receber o prêmio de "Artista Revelação". Ela falou as palavras certas, agradeceu aos fãs, mas seus olhos nunca deixaram os dele por mais de dez segundos. Quando desceu as escadas, sentiu a adrenalina percorrer suas veias. Ela precisava falar com ele.
O intervalo comercial foi a oportunidade perfeita. Enquanto a plateia se movimentava, Ana caminhou em direção ao lounge VIP nos bastidores, sabendo que os apresentadores e entregadores de prêmios ficavam por ali.
Ela mal cruzou a cortina de veludo pesado quando uma mão firme envolveu seu pulso e a puxou para um nicho mal iluminado entre as caixas de som e os equipamentos de iluminação.
— Você não faz ideia do quanto é difícil ficar sentado ali e não poder te abraçar — a voz de Fernando soou rouca, colada ao ouvido dela.
Ana soltou um suspiro que nem sabia que estava prendendo. Ela se virou, ficando de frente para ele naquele espaço apertado. O perfume dele, uma mistura de cítrico e madeira, a atingiu como uma onda de nostalgia.
— Fernando... — ela murmurou, passando as mãos pelas lapelas do terno dele. — Eu achei que você não viria. O Liverpool tem jogo depois de amanhã.
— Eu peguei um jato particular — disse ele, aproximando-se mais, a testa encostada na dela. — Eu não ia perder a chance de te ver ganhar esse prêmio. E de te ver, ponto final. As fotos nas revistas não chegam nem perto da realidade, Ana.
— É a agenda, "Niño" — ela riu baixo, uma risada carregada de frustração. — Eu estou em Paris amanhã, e você volta para a Inglaterra. Parece que o universo está tentando nos manter em linhas paralelas que nunca se cruzam.
— Linhas paralelas não se beijam — retrucou ele, e antes que ela pudesse responder, ele selou o espaço entre eles.
O beijo foi urgente, uma descarga de meses de desejo acumulado. Era a confirmação de que a conexão no after party não tinha sido um delírio causado pelo champanhe ou pela euforia da vitória. Era real. Fernando a segurava pela cintura como se ela fosse o troféu mais valioso de sua carreira, e Ana se perdia na sensação de segurança que os braços dele proporcionavam.
— Senti sua falta — confessou ele, entre beijos lentos. — Eu assisto aos seus vídeos no YouTube depois dos treinos. Meus companheiros de equipe acham que estou estudando táticas de jogo, mas eu só estou tentando decorar o jeito que você sorri quando erra uma nota.
Ana deu um tapinha leve no peito dele, rindo.
— Eu não erro notas, Torres!
— Erra sim — ele provocou, os olhos brilhando de diversão. — Naquela sessão acústica em Londres. Você riu no meio do refrão. Foi o momento mais bonito que eu já vi.
— Eu estava pensando em uma mensagem idiota que você me mandou cinco minutos antes de eu entrar no palco — ela rebateu, sentindo o rosto esquentar. — Você é uma distração perigosa para a minha carreira.
— E você é um perigo para a minha concentração — Fernando disse, ficando sério novamente. — Toda vez que eu entro em campo, eu procuro por você na arquibancada, mesmo sabendo que você está em outro país.
Eles ficaram ali por alguns minutos, protegidos pela sombra, enquanto o mundo lá fora continuava a celebrar. Era um momento roubado, uma bolha de intimidade em meio ao caos da fama.
— Temos que voltar — disse Ana, relutante. — Minha empresária vai ter um ataque cardíaco se eu não estiver no meu assento quando as câmeras voltarem.
— Espera — Fernando a segurou pela mão. — Tem um evento beneficente em Genebra, daqui a três semanas. É para uma fundação infantil. Eu vou estar lá.
Ana sorriu, já sabendo o que ele ia pedir.
— Eu fui convidada para cantar no encerramento — disse ela. — Eu ia recusar por causa da gravação do clipe novo, mas... acho que posso mudar os planos.
— Mude — pediu ele, a voz suave. — Me dê uma noite inteira, Ana. Sem câmeras, sem premiações. Só a gente.
— Eu vou estar lá, Fernando. Eu prometo.
Ele beijou a palma da mão dela antes de soltá-la. Ana voltou para o salão com o coração batendo no ritmo de uma canção nova, uma que ainda não tinha letra, mas que já tinha a melodia mais bonita do mundo.
Três semanas depois, Genebra estava coberta por uma fina camada de neve. O evento era sofisticado, realizado em um hotel histórico às margens do lago. Ana estava nervosa, o que era raro para alguém que já tinha enfrentado milhões de espectadores em um reality show. Mas cantar para Fernando era diferente.
Quando ela subiu ao palco, o salão estava em silêncio. Ela se sentou ao piano, o vestido azul-escuro contrastando com a pele clara. Seus olhos varreram as mesas até encontrá-lo. Ele estava na mesa de honra, mas toda a sua atenção estava voltada para o palco.
Ana começou a tocar. Não era um de seus sucessos de rádio. Era uma composição nova, algo que ela tinha escrito em um hotel em Tóquio, pensando em como o tempo parecia diferente quando eles estavam juntos. A letra falava sobre dois mundos colidindo, sobre a grama verde de um estádio e as luzes de um palco, e sobre como, no final do dia, as únicas coisas que importavam eram as verdades ditas no escuro.
Enquanto cantava, ela viu Fernando se inclinar para frente, a expressão de puro arrebatamento. Naquele momento, não havia "El Niño", o artilheiro do Liverpool, e não havia Ana Avelar, a estrela do pop. Eram apenas dois jovens perdidos na imensidão de suas próprias trajetórias, encontrando um porto seguro um no outro.
Ao final da apresentação, os aplausos foram ensurdecedores, mas Ana só ouviu o silêncio do olhar dele.
Mais tarde, no jardim de inverno do hotel, longe dos outros convidados, eles se encontraram novamente. O ar estava gelado, mas o calor entre eles era suficiente para derreter qualquer neve.
— Aquela música... — começou Fernando, aproximando-se dela. — Era para mim?
— E para quem mais seria? — Ana respondeu, cruzando os braços para se aquecer. — Eu não escrevo sobre futebol, Fernando. Eu escrevo sobre o que eu sinto.
Fernando tirou o paletó e o colocou sobre os ombros dela, um gesto clássico que a fez sorrir.
— Você me faz querer ser uma pessoa melhor, Ana — disse ele, a voz carregada de emoção. — Não apenas um jogador melhor, mas alguém que merece estar ao seu lado. A fama... às vezes ela parece um barulho constante na minha cabeça. Mas quando estou com você, ou quando ouço sua voz, o barulho para.
— Eu sinto o mesmo — ela confessou, encostando a cabeça no ombro dele. — É assustador, não é? Como tudo aconteceu tão rápido.
— O futebol me ensinou que os melhores gols são marcados nos momentos de maior pressão — brincou ele, mas havia uma verdade profunda em suas palavras. — Nós dois estamos no topo de nossas carreiras. Vai ser difícil. A imprensa vai especular, as agendas vão nos separar, e meio mundo vai ter uma opinião sobre nós.
Ana se afastou um pouco para olhar nos olhos dele, aqueles olhos azuis que pareciam ler sua alma.
— Você está com medo? — perguntou ela.
Fernando sorriu, e desta vez foi um sorriso completo, aberto e sincero.
— Eu jogo em Anfield, Ana. Eu enfrento os defensores mais agressivos do mundo toda semana. Eu não tenho medo de desafios. O que eu tenho é pressa. Pressa de descobrir quem somos nós quando as luzes se apagam.
— Então vamos descobrir — disse ela, estendendo a mão. — Um passo de cada vez. Um jogo, um show, um encontro por vez.
Eles caminharam juntos pelo jardim, as mãos entrelaçadas, as pegadas na neve marcando o início de algo que nenhum tabloide poderia definir. O sucesso era efêmero, os gols podiam ser esquecidos e as músicas podiam sair das paradas, mas a conexão entre a cantora e o jogador era algo que transcendia os números.
Naquela noite em Genebra, eles não eram celebridades. Eram apenas Ana e Fernando, dois astros em ascensão que tinham descoberto que, embora estivessem brilhando intensamente sozinhos, juntos eles podiam iluminar o mundo inteiro.
— Sabe — disse Fernando, enquanto entravam de volta no hotel —, eu ainda estou esperando aquele gol que prometi te dedicar.
— Você marcou três na semana passada, Fernando — ela riu.
— Nenhum deles foi bom o suficiente para você — ele piscou. — O próximo... o próximo vai ser especial. Vai ser para a mulher que escreveu uma música para mim antes mesmo de eu aprender a pronunciar o nome dela sem gaguejar de nervoso.
Ana riu, puxando-o para mais perto.
— Então eu estarei assistindo. De algum lugar do mundo, eu estarei sempre assistindo.
E enquanto as portas do elevador se fechavam, deixando o resto do mundo para trás, eles sabiam que a sinfonia que tinham começado a escrever em Madri estava apenas ganhando seus primeiros acordes de amor. A distância era apenas um detalhe quando o destino já tinha decidido o placar final.