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Festival e a família

Sussurros de Guerra e Canções de Ninar

O salão de reuniões, que deveria ser o epicentro da diplomacia mundial, estava mais uma vez mergulhado em uma atmosfera que desafiava a lógica de qualquer historiador. Rimuru, mantendo sua postura divina e maternal, mal teve tempo de se acomodar após levar as outras crianças para o quarto quando a porta dupla se abriu com um estrondo suave, mas urgente.

Carrera e Ultima entraram no recinto. A visão era, no mínimo, peculiar: as duas Demônios Primordiais, conhecidas por sua natureza destrutiva e sádica, pareciam genuinamente perdidas. Carrera carregava Kenya Misaki nos braços. O garoto, geralmente o mais enérgico e corajoso do grupo, estava com o rosto vermelho, soluçando baixinho e esfregando os olhos com as mãos pequenas.

— Lorde Rimuru! — exclamou Ultima, aproximando-se com um biquinho de frustração. — Nós tentamos de tudo! Cantamos, contamos histórias de explosões, mostramos nossas magias mais brilhantes, mas ele simplesmente não para de choramingar!

— Ele diz que quer dormir, mas parece que o sono fugiu dele — completou Carrera, entregando o menino a Rimuru com um suspiro de alívio que não condizia com sua reputação de "Quebradora de Mundos".

Rimuru sorriu com ternura, estendendo os braços para receber o pequeno herói da luz.

— Obrigado por cuidarem dele, meninas. Às vezes, o excesso de energia do Kenya se transforma em irritação quando ele passa do ponto de cansaço.

Assim que Kenya sentiu o aroma de lavanda e o toque suave de Rimuru, seus soluços diminuíram para pequenos suspiros trêmulos. Rimuru, com a praticidade de quem já conhecia os rituais de cada um, tirou do nada uma chupeta verde-clara e uma pelúcia de tigre listrado.

— Aqui, Kenya. O senhor Tigre estava esperando por você — sussurrou Rimuru, encaixando a chupeta na boca do menino e aninhando o tigre em seus braços.

Kenya, como era de seu costume após uma crise de choro, entrou em seu modo defensivo. Ele não queria falar. Em vez disso, enterrou o rosto no pescoço de Rimuru, mas seus olhos dourados, ainda úmidos, espiavam o restante da sala com um brilho de pura indignação. Ele começou a encarar fixamente os Lordes Demônios presentes, como se os desafiasse a comentar qualquer coisa sobre sua situação.

Guy Crimson, observando a cena de seu lugar, soltou uma risada curta e grave.

— Veja só esse olhar. Ele tem o espírito de um guerreiro, Rimuru. Está pronto para declarar guerra a Luminous apenas por ela estar respirando no mesmo ambiente que ele.

— Guy, não incentive — corrigiu Rimuru suavemente, embora houvesse um brilho de diversão em seus próprios olhos. — Kenya, querido, não olhe assim para os convidados. Eles são amigos da mamãe.

Kenya soltou um som abafado pela chupeta, algo que soou como um protesto, e voltou seus olhos para Guy. Diferente do olhar de raiva que lançava aos outros, ele observava o Lorde Demônio Vermelho com uma curiosidade sonolenta. Kenya sempre teve uma admiração silenciosa por Guy, talvez atraído pela aura de poder absoluto que o ruivo exalava.

Rimuru percebeu a troca de olhares. Ele sabia que precisava continuar a discussão sobre os tratados de comércio com Elmesia e os outros líderes, e ter Kenya se revirando em seu colo tornaria tudo mais difícil.

— Guy — chamou Rimuru, com um sorriso travesso —, ele quer você.

Guy arqueou uma sobrancelha, surpreso.

— Eu? Ele não estava me fuzilando com os olhos agora há pouco?

— É o jeito dele de dizer que te respeita — Rimuru levantou-se e caminhou até Guy, transferindo cuidadosamente o menino e a pelúcia de tigre para os braços musculosos do demônio. — Ele se sente seguro com você. E eu preciso terminar de ler estes relatórios.

A cena que se seguiu fez com que Luminous Valentine considerasse seriamente se não havia sido atingida por uma ilusão de alto nível. Guy Crimson, o ser que personificava o terror, acomodou o pequeno Kenya em seu colo. O garoto, sentindo a firmeza dos braços de Guy, relaxou quase instantaneamente, embora continuasse a encarar o rosto do Lorde Demônio.

— Quer uma história, pirralho? — perguntou Guy, sua voz descendo para um tom baixo e vibrante que parecia vibrar no peito de Kenya. — Vou te contar sobre a vez em que eu e o Dragão Estelar destruímos uma planície inteira porque ele não queria admitir que eu era mais rápido.

— Guy! — Rimuru advertiu, sem desviar os olhos dos papéis. — Sem traumas infantis, por favor.

— Eu vou amenizar, eu vou amenizar — resmungou Guy, embora houvesse um sorriso de canto em seus lábios.

Ele começou a narrar, em sussurros, batalhas antigas, transformando explosões catastróficas em "fogos de artifício gigantes" e demônios antigos em "monstros teimosos que precisavam de um castigo". Enquanto falava, Guy mantinha um balanço rítmico e quase imperceptível. Kenya, hipnotizado pela voz profunda e pelas histórias de poder, finalmente deixou as pálpebras pesarem.

— Ele dormiu — murmurou Guy após alguns minutos, notando que a chupeta verde caía levemente para o lado.

— Ótimo, vou pedir para o Diablo levá-lo — disse Rimuru, estendendo a mão.

— Nem pense nisso — cortou Guy, apertando levemente o garoto contra o peito. — Se alguém tentar tirá-lo daqui agora, ele vai acordar e começar aquele concerto de choro de novo. Eu conheço o tipo. Ele fica aqui.

Os subordinados de Rimuru, que observavam das sombras, estavam em um estado de choque catatônico. Ver Guy Crimson agir como um travesseiro humano para uma criança era algo que nem mesmo as profecias mais loucas poderiam prever.

— Bem — disse Rimuru, sentando-se em um sofá grande e confortável que havia sido trazido para o centro do salão —, já que o Guy está ocupado sendo um berço, podemos continuar?

Antes que Luminous pudesse responder, Milim Nava, que estava observando tudo com inveja crescente, saltou de sua cadeira.

— Rimuru! Não é justo! O Kenya está no colo do Guy, a Chloe já dormiu... e eu?! Eu sou sua melhor amiga! Eu também quero ser colocada para dormir!

Rimuru soltou uma risada melodiosa, fechando os olhos por um momento. Ele sabia que não adiantava discutir com Milim quando ela entrava nesse estado.

— Venha aqui, Milim — disse Rimuru, abrindo os braços.

Como se por mágica, Rimuru materializou uma pelúcia de dragão rosa, fofa e com olhos grandes e brilhantes.

— Para mim?! — Milim exclamou, os olhos brilhando mais que a própria pelúcia.

— Sim, para você. Mas só se você prometer ficar quietinha para não acordar o Kenya e os outros.

Milim correu e se jogou no colo de Rimuru, aconchegando-se com a pelúcia contra o peito. Ela era pequena em sua forma habitual, mas no colo de Rimuru, parecia apenas uma criança grande em busca de carinho. Rimuru começou a acariciar os cabelos rosados dela, sentindo a tensão deixar o corpo da Lorde Demônio.

— Hmph. Se a Milim pode, eu também posso — resmungou uma voz profunda vinda do canto da sala.

Veldora, o Dragão da Tempestade, caminhou até o sofá com uma expressão de falsa indiferença. Ele carregava um slime de pelúcia (uma réplica perfeita de Rimuru em sua forma original) debaixo do braço. Sem esperar por um convite oficial, ele se sentou no chão, encostando a cabeça na perna de Rimuru, que não estava ocupada por Milim.

— Veldora, você é um Dragão Verdadeiro — suspirou Rimuru, mas sua mão livre encontrou o caminho até os cabelos loiros e espetados de seu "irmão".

— Eu sou um Dragão Verdadeiro que aprecia o conforto e a hospitalidade do meu melhor amigo! — declarou Veldora, fechando os olhos e abraçando o slime de pelúcia com força.

A cena era surreal. No centro da sala, Rimuru Tempest, em sua forma feminina deslumbrante, servia de apoio para Milim e Veldora. A poucos metros, Guy Crimson, o soberano do inferno, segurava uma criança humana adormecida com a delicadeza de um pai experiente.

Luminous Valentine olhou para Leon Cromwell. Leon apenas deu de ombros, sua expressão de tédio sendo a única coisa que o impedia de ter um colapso mental.

— Eu desisto — declarou Luminous, largando sua taça. — Não há mais política aqui. Isto se tornou uma creche para seres de classe catástrofe.

— Pelo menos o ambiente está calmo — comentou Leon, observando Rimuru. — Eu nunca vi o mundo tão em paz quanto neste salão, ironicamente cercado pelos seres mais perigosos que existem.

Rimuru, sentindo o peso reconfortante de Milim em seu colo e a presença sólida de Veldora a seus pés, olhou para Guy. O Lorde Demônio Vermelho encontrou seu olhar sobre a cabeça de Kenya. Não precisaram de palavras. Havia uma compreensão mútua de que, apesar de todo o poder que possuíam, aqueles momentos de vulnerabilidade e conexão eram o que realmente valia a pena proteger.

— Guy — sussurrou Rimuru, quebrando o silêncio —... você realmente parece um pai.

Guy soltou um "tsk" audível, mas não desviou o olhar.

— E você é uma mãe terrível por me fazer carregar o mais pesado.

Rimuru riu baixinho, o som fazendo Milim murmurar algo sobre mel e Veldora roncar levemente.

— Você adora isso, admita.

— Adoro o silêncio — corrigiu Guy, embora tenha ajeitado a pelúcia de tigre de Kenya com o dedo mindinho para que não caísse. — Mas admito que o garoto tem bom gosto para histórias.

O festival lá fora continuava, com luzes e risadas, mas dentro daquele salão, o tempo parecia ter parado. Rimuru fechou os olhos por um momento, aproveitando o calor das pessoas que amava. Ele sabia que os problemas do mundo voltariam amanhã. Haveria conspirações, monstros para derrotar e nações para gerir.

Mas, por enquanto, ele era apenas Rimuru. A mãe, o irmão, o amigo e o porto seguro. E enquanto o brilho da lua banhava a sala, ele percebeu que não importava quão poderosos eles se tornassem, todos, desde o menor humano até o mais antigo demônio, só queriam um lugar onde pudessem fechar os olhos e se sentir em casa.

— Boa noite, meus pequenos — sussurrou Rimuru para o salão silencioso.

E, no colo de Guy, Kenya deu um pequeno sorriso em meio ao sono, como se, pela primeira vez, os pesadelos de ser um herói estivessem muito, muito longe.