Festival e a família
O Pequeno Soberano de Olhos de Rubi
A luz da manhã em Tempest nunca pareceu tão suave quanto naquelas semanas que se seguiram ao nascimento do herdeiro. No grande quarto real, o silêncio era um tesouro raro, interrompido apenas pelo som rítmico de um berço de madeira de magisteel balançando e pelos suspiros cansados de Rimuru Tempest. O líder da Federação Jura estava sentado em uma poltrona macia, envolto em um robe de seda azul, observando o pequeno ser que havia virado seu mundo de cabeça para baixo.
Itoshi, como foi batizado, era uma visão que desafiava a lógica da genética, mas confirmava a força da linhagem de Guy Crimson. O bebê era, em quase todos os aspectos, uma cópia em miniatura do Lorde Demônio Vermelho. Tinha os cabelos de um carmesim vibrante, desgrenhados mesmo tão curtos, e quando abria os olhos, dois rubis intensos brilhavam com uma inteligência precoce e uma teimosia que já dava sinais de ser lendária.
— Ele não para de me encarar, Guy — sussurrou Rimuru, soltando uma risada baixa e exausta. — Sinto que ele está julgando a minha capacidade de governar enquanto espera pelo próximo lanche.
Guy Crimson, que estava encostado na sacada observando o horizonte, virou-se com um sorriso que raramente mostrava ao mundo, mas que era constante na presença de sua nova família. Ele caminhou até Rimuru e pousou a mão em seu ombro, sentindo a mana do companheiro ainda se estabilizando após o parto desgastante.
— Ele tem bom gosto — respondeu Guy, inclinando-se para observar o filho. — Ele sabe que você é o centro deste universo. E, honestamente, ele tem a minha personalidade. Se ele quer algo, ele quer agora.
Como se para provar o ponto do pai, o pequeno Itoshi começou a se contorcer. Seu rosto pequeno franziu-se, e um resmungo baixo começou a subir pelo seu peito. Não era um choro comum; era um protesto de autoridade.
— Ma... Ma! — Itoshi soltou, esticando os bracinhos em direção a Rimuru.
Rimuru sentiu o coração derreter, uma sensação que ele ainda estava aprendendo a processar.
— Sim, meu pequeno lorde, a mamãe está aqui — disse Rimuru, pegando o bebê com uma delicadeza infinita.
O efeito foi imediato. Assim que sentiu o calor e a mana familiar de Rimuru, Itoshi se acalmou, enterrando o rosto no pescoço do slime e soltando um suspiro satisfeito. No entanto, a paz durou pouco. A porta do quarto foi aberta com um estrondo controlado, e cinco vultos entraram silenciosamente, mas com uma energia que preenchia o ambiente.
Kenya, Ryota, Gale, Alice e Chloe aproximaram-se da cama como se estivessem em uma peregrinação. Eles haviam adotado o papel de irmãos mais velhos com uma seriedade assustadora.
— Ele acordou? — perguntou Kenya em um sussurro alto, os olhos brilhando. — Eu trouxe aquela pedra de luz que ele gostou de olhar ontem.
Itoshi virou a cabeça ligeiramente, seus olhos de rubi focando no garoto loiro.
— Ni... — resmungou o bebê, apontando um dedo minúsculo para Kenya.
Kenya quase saltou de alegria, contendo-se apenas para não assustar o pequeno.
— Ele me chamou! Ele disse "Ni"! — Kenya virou-se para os outros, triunfante. — Eu sou o favorito, eu sabia!
— Não comece, Kenya — resmungou Ryota, aproximando-se com uma pequena esfera de fogo controlada na palma da mão para aquecer o ambiente. — Ele só está com fome.
Itoshi olhou para Ryota e soltou um som curto e agudo.
— I!
Ryota ficou paralisado por um segundo, um sorriso raro cruzando seu rosto.
— Viu? Ele sabe que eu sou quem mantém o lugar aquecido.
Alice e Chloe não ficaram atrás. Alice começou a fazer uma de suas bonecas dançar no ar, criando pequenas correntes de vento que faziam o cabelo carmesim de Itoshi balançar.
— Ai... Ai! — Itoshi riu, tentando agarrar a boneca invisível no ar.
— Ele é tão lindo — sussurrou Alice, os olhos marejados. — Ele parece um bonequinho de verdade, mas com o gênio do Papai Guy.
Chloe, sempre a mais calma, aproximou-se e tocou a mão de Itoshi. O bebê agarrou o dedo dela com uma força surpreendente e não soltou.
— Oe... — murmurou o pequeno, fechando os olhos por um momento enquanto sentia a mana misteriosa e reconfortante de Chloe.
— Ele reconhece todos vocês — disse Rimuru, olhando para a cena com uma doçura que fazia Guy se sentir o homem mais sortudo de todos os planos de existência. — Gale, não fique aí parado, ele está te olhando.
Gale, o mais tímido, aproximou-se com um pequeno torrão de terra mágica que brilhava suavemente.
— Ga... — Itoshi reconheceu, soltando a mão de Chloe para tentar tocar o brilho.
A cena era surreal. Os futuros heróis e protetores do mundo estavam todos rendidos a um bebê de poucos meses que, apesar de pequeno, já emanava uma aura de comando. Guy observava tudo de braços cruzados, sentindo um orgulho imenso. Ele se aproximou do grupo, e as crianças abriram espaço para o "Pai Supremo".
— Pa... — Itoshi chamou, esticando o braço para Guy.
Guy pegou o filho de Rimuru, segurando-o com uma mão só, apoiando o bebê contra seu peito largo. Itoshi parecia uma lasca do próprio Guy. O bebê puxou uma mecha do cabelo ruivo do pai, e Guy nem sequer piscou, permitindo que o pequeno exercesse sua "tirania".
— Ele está com fome, Rimuru — observou Guy, sentindo a agitação do bebê aumentar. — E quando ele fica com fome, a paciência dele é exatamente igual à minha: inexistente.
— Eu sei, eu sei — disse Rimuru, levantando-se com cuidado. A recuperação do parto estava sendo lenta; a criação de um ser com tanta mana havia exaurido suas reservas de uma forma que nem mesmo o "Rei da Sabedoria" conseguia acelerar completamente. — Shuna preparou aquela mistura especial. Vou buscá-la.
— Eu vou — ofereceu-se Gale prontamente. — Eu sei onde está.
— Eu ajudo! — Alice saiu correndo atrás dele.
Enquanto os dois saíam, Rimuru sentou-se novamente, sentindo uma leve tontura. Guy percebeu imediatamente e, com um movimento rápido, sentou-se ao lado dele, mantendo Itoshi em um braço e envolvendo Rimuru com o outro.
— Você precisa descansar mais, Rimuru. O pequeno Itoshi está sugando muita energia, mesmo agora.
— Eu estou bem, Guy. Só preciso de um tempo para me ajustar. É estranho... eu sou um slime, tecnicamente não deveria nem ter esse tipo de processo, mas aqui estamos nós.
— Nós somos exceções a todas as regras — lembrou Guy, beijando a têmpora de Rimuru.
Momentos depois, Gale e Alice voltaram com a mamadeira especial, feita de ervas nutritivas e uma pequena dose de mana purificada. Guy tentou alimentar o bebê, mas Itoshi virou o rosto com uma careta de indignação.
— Ma! Ma! — ele protestou, chutando as pernas gordinhas.
— Ele não aceita de ninguém se você estiver por perto, Rimuru — suspirou Guy, entregando o bebê de volta. — Ele é extremamente possessivo com você.
Rimuru pegou Itoshi e, assim que a mamadeira encostou em seus lábios, o bebê começou a beber com uma voracidade impressionante. O silêncio voltou ao quarto, quebrado apenas pelos sons de satisfação do pequeno.
— Ele vai ser um problema quando crescer, não vai? — perguntou Kenya, observando o irmão. — Digo, ele já manda no Lorde Demônio Guy e na Mamãe Rimuru.
— Ele não vai ser um problema — corrigiu Guy, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa, mas orgulhosa. — Ele vai ser o ápice. Ele tem a benevolência de Rimuru e a minha força. O mundo terá que se ajustar a ele, e não o contrário.
Rimuru olhou para Guy e depois para as crianças.
— Eu só quero que ele seja feliz. E que ele não destrua o palácio antes de aprender a falar frases completas.
— Ma... — Itoshi soltou a mamadeira por um segundo, olhou para Rimuru e deu um sorriso banguela que iluminou o quarto. — Ma... amo.
O quarto congelou. Rimuru sentiu as lágrimas subirem aos olhos instantaneamente.
— Ele disse... ele tentou dizer que me ama? — Rimuru soluçou, abraçando o bebê com força.
— Ele disse! Eu ouvi! — Alice começou a pular. — Ele ama a mamãe!
Guy Crimson, o ser que não se emocionava por nada, sentiu um nó na garganta. Ele desviou o olhar para a janela, tentando manter sua fachada de indiferença, mas sua mão apertou o ombro de Rimuru com ternura.
— Ele sabe quem é o coração desta casa, Rimuru — sussurrou Guy. — Ele sabe.
O resto do dia passou em uma névoa de cuidados e risadas. Itoshi, após ser alimentado, decidiu que era hora de brincar. Ele não engatinhava ainda, mas sua mana era tão forte que ele conseguia flutuar alguns centímetros acima da cama, para o desespero de Rimuru e o divertimento de Guy.
As crianças sentaram-se em círculo ao redor da cama grande, contando histórias para o bebê. Kenya falava sobre suas aventuras na floresta, Ryota mostrava truques com pequenas brasas, e Chloe lia livros ilustrados que Itoshi parecia entender perfeitamente.
No final da tarde, Shuna e Shion entraram para trazer o jantar de Rimuru. Shion, como sempre, estava à beira das lágrimas de emoção toda vez que via o bebê.
— Ele é a personificação da perfeição de Rimuru-sama! — exclamou Shion, tentando não apertar o bebê com muita força. — Olhe para esses olhos! Ele será um guerreiro magnífico!
— Ele será o que ele quiser ser, Shion — disse Rimuru, aceitando a bandeja de comida. — Mas, por enquanto, ele é apenas o meu bebezinho que precisa de uma troca de fraldas.
Guy riu, uma risada rica e profunda.
— Essa é a parte que eu ainda estou tentando dominar. A magia de desintegração funciona bem para o lixo, mas Rimuru diz que eu sou "intenso demais" no processo.
— Você quase desintegrou a fralda e o lençol junto, Guy! — lembrou Rimuru, rindo.
Conforme a noite caía, as crianças foram se retirando uma a uma, dando beijos de boa noite no "Ni-Ito" (como Kenya agora o chamava). O quarto ficou novamente em silêncio, iluminado apenas por cristais mágicos de luz suave.
Itoshi estava finalmente dormindo, esparramado entre Rimuru e Guy na cama imensa. Ele dormia com os braços para cima, a imagem da paz absoluta.
Rimuru encostou a cabeça no peito de Guy, sentindo a batida constante do coração do demônio.
— Eu nunca imaginei que minha vida acabaria assim, Guy. De um assalariado humano a um slime, e agora... mãe do herdeiro do Lorde Demônio mais forte do mundo.
— O destino tem um senso de humor peculiar — respondeu Guy, envolvendo Rimuru e o bebê em seus braços. — Mas eu não mudaria nada. Nem um único segundo.
— Nem as noites em claro? — brincou Rimuru.
— Nem as noites em claro. Ver você com ele... ver como nossos filhos mais velhos o amam... isso é mais poder do que qualquer Ultimate Skill poderia me dar.
Itoshi se mexeu no sono, soltando um resmungo baixo.
— Ma... Pa... — ele murmurou, voltando a dormir profundamente logo em seguida.
Rimuru sorriu, fechando os olhos. Ele ainda estava se recuperando, seu corpo ainda estava fraco e sua mana ainda oscilava, mas ele nunca se sentiu tão forte. Tempest tinha um novo príncipe, um pequeno ser de cabelos vermelhos e olhos de rubi que havia unido dois mundos e consolidado uma família que ninguém ousaria desafiar.
E ali, no coração da nação dos monstros, o Rei Vermelho e a Rainha Slime velavam o sono de seu tesouro, prontos para enfrentar qualquer tempestade que o futuro pudesse trazer, contanto que estivessem juntos. A era de Itoshi estava apenas começando, e o mundo, embora ainda não soubesse, já pertencia àquele pequeno sorriso banguela.