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Festival e a família

O Alvorecer da Linhagem Suprema

O sol da manhã entrava pelas janelas do palácio de Tempest, mas o clima dentro dos aposentos reais era de uma quietude ansiosa. Rimuru estava sentado na beira da cama, com o rosto pálido e uma mão apoiada na boca, enquanto Shuna terminava de canalizar sua magia de diagnóstico. Guy Crimson estava de pé, encostado na parede oposta, com os braços cruzados e uma expressão que oscilava entre a preocupação mortal e uma esperança que ele mal ousava admitir.

Shuna retirou as mãos, seus olhos rosados brilhando com uma mistura de choque e uma alegria avassaladora. Ela se curvou profundamente, as mãos tremendo levemente.

— Rimuru-sama... Guy-sama... as minhas suspeitas foram confirmadas. — Shuna levantou o rosto, e as lágrimas já começavam a rolar. — Rimuru-sama está esperando um bebê. Um herdeiro de sangue e alma nasceu da união de vocês.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Rimuru piscou, processando a informação, enquanto sua mão descia instintivamente para o ventre ainda plano. Guy, por sua vez, pareceu perder o equilíbrio por um milésimo de segundo. O Lorde Demônio mais antigo, o ser que enfrentou o Criador e sobreviveu a eras de caos, caminhou lentamente até Rimuru. Ele se ajoelhou entre as pernas do slime e escondeu o rosto no peito de Rimuru, os ombros tremendo de uma forma que Rimuru nunca tinha visto.

— Guy... — sussurrou Rimuru, acariciando os cabelos ruivos dele.

— Um filho... — a voz de Guy saiu abafada, carregada de uma emoção que ele não conseguia mais conter. — Nós realmente conseguimos, Rimuru.

A notícia espalhou-se por Tempest como um incêndio florestal. Em questão de horas, o palácio foi invadido por uma energia caótica de celebração e pânico protetor. Veldora, ao saber que seria "tio" de um ser que carregaria a essência de Rimuru e Guy, soltou um rugido que pôde ser ouvido em metade da floresta de Jura, chorando dramaticamente enquanto proclamava que ensinaria ao bebê todas as "técnicas secretas dos manuscritos sagrados" (seus mangás).

Os demônios primordiais reagiram com uma devoção que beirava o fanatismo. Diablo caiu de joelhos, as lágrimas negras escorrendo enquanto ele louvava a "magnificência genética" de seu mestre. Testarosa, Carrera e Ultima declararam imediatamente que o bebê teria a guarda pessoal mais poderosa que o multiverso já viu.

No entanto, a realidade da gravidez logo se impôs. Como Shuna havia alertado, um bebê gerado por dois seres de classe catástrofe exigia uma quantidade de energia absurda. Rimuru, que sempre foi a personificação da vitalidade, começou a sentir o peso.

Três meses depois, o cenário no jardim privado era de uma calma enganosa. Rimuru estava deitado em uma espreguiçadeira luxuosa, cercado por almofadas. Sua pele parecia mais translúcida que o normal, e havia olheiras leves sob seus olhos amarelos.

— Eu estou com fome... de novo — resmungou Rimuru, a voz arrastada pelo cansaço. — E eu quero aquele doce de pêssego que a Shuna faz, mas com um toque de pimenta.

Guy, que não saía do lado de Rimuru por mais de dez minutos, sinalizou para um subordinado com um olhar que prometia morte se o pedido não fosse atendido em trinta segundos.

— Você precisa comer, Rimuru. O pequeno monstro está sugando sua energia mágica como se fosse um buraco negro — disse Guy, sentando-se ao lado dele e pegando sua mão.

As crianças — Kenya, Ryota, Gale, Alice e Chloe — apareceram correndo, mas pararam abruptamente a alguns metros, como se estivessem entrando em um solo sagrado. Elas haviam se tornado os guardiões mais ferozes de Rimuru.

— Mamãe! — Kenya sussurrou, aproximando-se com cuidado. — Podemos falar com ele hoje?

Rimuru sorriu, a fadiga desaparecendo por um momento.

— Claro, venham aqui.

As cinco crianças se amontoaram ao redor da espreguiçadeira. Alice e Chloe foram as primeiras. Elas se ajoelharam e encostaram os rostos na barriga de Rimuru, que já exibia uma curvatura suave e firme sob a seda do vestido.

— Oi, bebezinho — sussurrou Alice, sua voz brincalhona tornando-se doce. — Aqui é a sua irmã Alice. Quando você sair daí, eu vou te ensinar a usar as bonecas para assustar o Tio Veldora.

— E eu vou te dar meu coelho de pelúcia se você ficar com medo — completou Chloe, dando um beijo casto sobre o tecido do vestido de Rimuru.

Ryota e Gale ficaram observando, os braços cruzados, tentando parecer maduros, mas seus olhos brilhavam.

— Eu vou te ensinar magia de fogo — murmurou Ryota, encostando a mão na barriga de Rimuru. — Mas o Papai Guy disse que eu não posso te irritar agora porque a mamãe fica brava.

Guy soltou uma risada baixa.

— Ela não fica brava, Ryota. Ela fica aterrorizante.

Rimuru deu um tapa leve no braço de Guy.

— Eu não sou aterrorizante! Eu só... tenho mudanças de humor. É hormonal!

— Ontem você chorou porque o Shion cortou o pão em triângulos em vez de quadrados, Rimuru — lembrou Guy, com um sorriso provador.

— O triângulo é agressivo, Guy! O quadrado é reconfortante! — rebateu Rimuru, e logo em seguida seus olhos se encheram de lágrimas. — Viu? Agora eu estou triste de novo!

Guy imediatamente o puxou para um abraço, ninando-o enquanto as crianças olhavam feio para o pai por ter feito a mãe chorar. O "terror dos mundos" agora passava boa parte do dia pedindo desculpas por coisas que ele nem entendia.

Com o passar dos meses, a situação tornou-se mais intensa. No sexto mês, a barriga de Rimuru estava proeminente, uma esfera perfeita que carregava o futuro de Tempest. No entanto, a energia necessária para manter a gestação era tanta que Rimuru frequentemente desmaiava se tentasse usar magia ou se esforçar demais.

Certa tarde, durante uma reunião com os executivos de Tempest, Rimuru tentou se levantar para explicar um novo projeto arquitetônico.

— E se nós usarmos o minério de magisteel para... — Rimuru parou, sua visão escurecendo. — Oh...

Guy se moveu antes que qualquer outra pessoa pudesse reagir. Ele pegou Rimuru no ar antes que ele atingisse o chão.

— Reunião encerrada! — rugiu Guy, sua aura vermelha vazando de forma opressiva. — Benimaru, assuma o comando. Se alguém interromper o descanso dele, eu destruirei esta cidade.

Guy carregou Rimuru para o quarto, colocando-o na cama com uma delicadeza extrema. Quando Rimuru acordou, minutos depois, encontrou Guy sentado ao seu lado, segurando sua mão com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

— Você me assustou, Rimuru — sussurrou Guy, a voz rouca. — Por favor, pare de tentar ser o líder de uma nação por cinco minutos e foque em ser apenas você.

— Eu sinto muito, Guy... eu só não gosto de me sentir inútil — respondeu Rimuru, sua voz fraca.

— Você está criando uma vida que é a união de dois seres supremos. Isso é mais útil do que qualquer tratado comercial.

Guy colocou a mão sobre a barriga avantajada de Rimuru. Quase instantaneamente, um chute forte e rítmico respondeu ao seu toque. Rimuru soltou um suspiro de surpresa, e seus olhos amarelos brilharam com lágrimas de alegria.

— Ele sentiu você — disse Rimuru, pegando a mão de Guy e pressionando-a mais contra a pele. — Toda vez que você toca, ele fica agitado. Acho que ele já sabe quem é o pai dele.

Guy ficou em silêncio, sentindo os movimentos vigorosos dentro de Rimuru. O herdeiro de Tempest era forte, uma tempestade de mana contida em um pequeno corpo.

— Ele tem a sua energia — comentou Guy, maravilhado. — Mas o temperamento... esse chute foi definitivamente um protesto. Ele é teimoso como eu.

No oitavo mês, Rimuru quase não saía mais da cama ou da poltrona no jardim. Sua fome era insaciável, e ele passava de risos para soluços em questão de segundos. As crianças haviam criado um sistema de guarda. Kenya e Gale ficavam na porta do quarto, Alice e Chloe ficavam ao lado da cama, e Ryota trazia lanches constantes.

Certo dia, Leon Cromwell e Luminous Valentine vieram visitar. Luminous olhou para Rimuru, chocado com o tamanho da barriga e com a aura de maternidade que o slime emanava.

— É... fascinante — admitiu Luminous, mantendo a distância. — Mas Guy, você está parecendo um cão de guarda possesso. Relaxe um pouco.

Guy, que estava sentado aos pés da cama de Rimuru polindo sua espada, olhou para Luminous com olhos que prometiam carnificina.

— Se você der mais um passo em direção a ele com essa aura fria de vampira, Luminous, eu vou esquecer que somos aliados. Ele está sensível à mana externa.

— Ele está certo, Luminous — disse Rimuru, soltando um suspiro cansado. — O bebê reage a tudo. Ontem, o Veldora tentou rir alto perto de mim e o bebê deu um chute tão forte que eu achei que ia atravessar minhas costelas.

— Eu só quero que isso acabe logo — murmurou Rimuru, acariciando o ventre. — Eu sinto falta de ver meus próprios pés. E sinto falta de ter energia para brincar com as crianças.

Chloe aproximou-se e colocou a cabeça no colo de Rimuru, evitando a barriga.

— Não fique triste, Mamãe Rimuru. Nós estamos cuidando de tudo. O Kenya disse que se alguém tentar te atacar enquanto você está "gordinho", ele vai usar o corte de luz dele.

Rimuru riu, uma risada que terminou em um soluço curto.

— "Gordinho", Chloe? Sério?

— Você está adorável, Rimuru — interveio Guy, levantando-se e beijando a testa do namorado. — Você é a visão mais bonita que eu já vi em dez mil anos.

As semanas finais foram de uma expectativa febril. Rimuru passava a maior parte do tempo dormindo, com Guy sempre por perto, servindo como um pilar de apoio. A conexão entre eles havia se aprofundado de uma forma que as palavras não podiam expressar. Eles não eram mais apenas dois Lordes Demônios em um relacionamento político e amoroso; eles eram uma unidade, um núcleo familiar que se preparava para receber seu centro.

Em uma noite de lua cheia, o silêncio de Tempest foi quebrado por um gemido baixo de Rimuru. Guy, que estava em um estado de sono leve, sentou-se instantaneamente.

— Rimuru? O que foi?

Rimuru segurou a mão de Guy, sua respiração ficando curta e pesada. A mana ao redor deles começou a girar em um turbilhão prateado e vermelho.

— Guy... está na hora — disse Rimuru, seus olhos brilhando com uma mistura de medo e determinação. — Chame a Shuna. Agora!

Guy não precisou ser avisado duas vezes. Em segundos, o palácio estava em alerta máximo. As crianças foram levadas para o quarto ao lado por Diablo, que tentava manter a calma enquanto suas próprias mãos tremiam. Veldora ficou de guarda no telhado, sua presença servindo como um aviso para qualquer ser no mundo que pensasse em se aproximar.

Dentro do quarto, Shuna e um grupo de curandeiros de elite trabalhavam sob o olhar atento e aterrorizante de Guy. Rimuru apertava a mão de Guy com uma força que teria esmagado os ossos de qualquer outro ser.

— Dói... Guy, dói muito! — exclamou Rimuru, o suor escorrendo por seu rosto divinal.

— Eu estou aqui, Rimuru. Eu não vou a lugar nenhum — prometeu Guy, transmitindo sua própria energia para Rimuru para ajudá-lo a suportar o processo. — Você é o ser mais forte que eu conheço. Você consegue.

O processo durou horas, uma batalha de vontades e magia. O poder que emanava do quarto era tão vasto que as flores nos jardins de Tempest floresceram instantaneamente, e o céu mudou de cor várias vezes.

Finalmente, um choro agudo e potente ecoou pelo palácio, cortando o silêncio da noite. Era um som que carregava a autoridade de um lorde e a pureza de uma nova vida.

Shuna, com as mãos trêmulas de emoção, envolveu o pequeno ser em uma manta de seda dourada e o entregou a Rimuru.

— É um menino, Rimuru-sama. Um príncipe para Tempest.

Rimuru, exausto e quase sem forças, olhou para o pequeno bebê em seus braços. O menino tinha uma pequena penugem de cabelos azul-prateados, mas quando abriu os olhos, eles eram de um vermelho intenso e brilhante, como rubis polidos.

Guy aproximou-se, sua respiração falhando ao ver o filho. Ele estendeu um dedo trêmulo, e o bebê imediatamente o agarrou com uma força impressionante.

— Ele é... perfeito — sussurrou Guy, as lágrimas finalmente caindo livremente.

As crianças entraram no quarto logo depois, empurradas pela curiosidade e pelo amor. Elas se amontoaram ao redor da cama, olhando para o novo irmão com reverência.

— Ele tem os olhos do Papai Guy — observou Kenya, maravilhado.

— Mas o rosto é da Mamãe Rimuru — disse Alice, sorrindo.

Rimuru olhou para sua família — o namorado que se tornou seu porto seguro, as cinco crianças que ele adotou e amou, e agora o pequeno ser que era a personificação de tudo o que eles construíram.

— Bem-vindo à família, pequeno — sussurrou Rimuru, encostando seu rosto no do bebê.

Naquela noite, Tempest não celebrou apenas o nascimento de um herdeiro. Celebrou a prova de que, mesmo entre os seres mais poderosos e temidos do mundo, o amor era a magia mais potente de todas. E Guy Crimson, o Rei Vermelho, sabia que sua maior conquista não era o poder, mas o calor daquela pequena mão segurando a sua, sob o olhar amoroso de Rimuru. O equilíbrio do mundo estava garantido, não por medo, mas por um novo começo que brilhava como uma estrela no coração da floresta.