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Filha perdida do stark

O Despertar da Herdeira e o Sentinela de Metal

A sala de treinamento do Complexo dos Vingadores ecoava com o som rítmico de socos contra o couro pesado. Duda, vestindo calças de compressão e uma regata preta que contrastava com sua pele morena, sentia o suor escorrer por suas têmporas. Seus cachos estavam presos em um coque firme, mas alguns fios teimosos insistiam em emoldurar seu rosto.

— A guarda está baixa, Starkzinha. Se eu fosse um agente da Hydra, você já estaria sem dentes — a voz de Natasha Romanoff soou calma, mas cortante, enquanto ela circulava a jovem como uma pantera.

Duda respirou fundo, ajustando a postura.

— Eu sou psicóloga, Nat. Meu trabalho é abrir a mente das pessoas, não o crânio delas — rebateu Duda, embora tenha levantado os punhos imediatamente.

— No nosso mundo, às vezes você precisa fazer os dois — disse uma voz grave vinda da entrada.

Bucky Barnes estava encostado no batente da porta, os braços cruzados sobre o peito largo. O braço de vibranium brilhava sob as luzes fluorescentes. Ele observava Duda com uma intensidade que ia além da mera supervisão tática. Desde que a resgatara no Brasil, havia uma eletricidade estática entre os dois que ninguém no Complexo conseguia ignorar — especialmente Tony Stark.

— O Capitão mandou reforços? — Natasha sorriu de lado, guardando as faixas de combate. — Ótimo. Ela é toda sua, Barnes. Vou buscar um café antes que o Tony apareça com um ataque de pânico por ver a "filhinha" suando.

Natasha saiu, dando um tapinha no ombro de Bucky ao passar. O silêncio que se seguiu na sala de treinamento era denso. Bucky caminhou lentamente até o centro do tatame.

— O Steve acha que você precisa aprender a usar o peso do seu oponente contra ele — começou Bucky, parando a poucos centímetros dela. — Você é inteligente, Duda. Luta não é só força, é análise comportamental em tempo real.

Duda sorriu, limpando o suor da testa com as costas da mão.

— Então você está dizendo que socar alguém é uma forma de comunicação não-verbal?

— A mais honesta que existe — Bucky deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Me ataca. Sem medo.

Duda investiu, tentando um golpe lateral, mas Bucky se moveu com uma agilidade que desafiava seu tamanho. Em um movimento fluido, ele segurou o pulso dela e a girou, prendendo-a contra seu peito, as costas dela coladas ao metal frio de seu braço esquerdo. A respiração de Duda falhou por um segundo, não pelo esforço físico, mas pela proximidade. O cheiro de Bucky — pólvora, sabão de hotel e algo puramente masculino — a atingiu em cheio.

— Você está muito tensa — sussurrou Bucky perto do ouvido dela, sua voz vibrando contra o pescoço da jovem. — Se você não relaxar, seus movimentos ficam previsíveis. E eu odeio prever o que você vai fazer. Gosto de ser surpreendido.

— É uma cantada de 1940 ou você está realmente me dando dicas de combate? — Duda provocou, virando o rosto para encará-lo, seus olhos castanhos brilhando com desafio.

Bucky deu um sorriso de canto, aquele que raramente mostrava a qualquer outra pessoa.

— Talvez um pouco dos dois. O que uma psicóloga diria sobre um homem que gosta de perigo?

— Diria que ele tem uma fixação por adrenalina para mascarar traumas não resolvidos — ela respondeu rapidamente, sentindo o coração disparar. — E que ele está tentando flertar com a filha do homem que paga as contas dele. O que é um comportamento de alto risco, sabia?

Antes que Bucky pudesse responder, a porta automática da sala de treinamento se abriu com um estrondo metálico.

— AFAS TEM-SE! — A voz de Tony Stark ecoou, amplificada pelo sistema de som.

Tony entrou na sala usando apenas uma luva da armadura Mark 85 e segurando um tablet. Atrás dele, Sam Wilson vinha rindo, claramente se divertindo com a situação.

— Barnes, eu juro pela minha coleção de carros que, se esse braço de metal chegar a menos de trinta centímetros da minha filha de novo, eu vou transformar você em um abridor de latas gigante — Tony exclamou, parando entre os dois e empurrando o ombro de Bucky com o tablet.

— Relaxa, Tony. É só treinamento — disse Sam, cruzando os braços e observando a cena. — Além disso, o Bucky está sendo o cavalheiro de sempre. Só que com 70 anos de atraso e um braço que custa mais que a minha casa.

— Não me venha com essa, Sam — Tony se virou para Duda, analisando-a como se procurasse por ferimentos invisíveis. — Duda, querida, por que você não vai estudar? Tem uma biblioteca incrível no andar de cima. Ou podemos construir um robô. O que acha? Nada de contato físico com ex-assassinos da Hydra. É uma regra da casa.

Duda revirou os olhos, mas com um carinho evidente.

— Pai, eu tenho dezenove anos e uma graduação quase completa. Eu sei me cuidar. E o Bucky está me ajudando.

— "Bucky"? — Tony fez uma careta. — Já estamos no nível de apelidos? O que vem depois? Passeios românticos no Quinjet? Noites de cinema assistindo documentários sobre a Segunda Guerra?

— Na verdade, eu prefiro comédias românticas — Bucky comentou, mantendo a expressão neutra, embora seus olhos estivessem rindo. — Mas a Duda disse que eu sou um "caso de estudo interessante".

Sam soltou uma gargalhada alta.

— Caso de estudo? Cara, ela está te dando uma consulta de graça e você nem percebeu. Ela está analisando cada tique nervoso seu enquanto você tenta bancar o garanhão de 1945.

— Cala a boca, Sam — Bucky resmungou, mas não conseguiu evitar o leve rubor nas bochechas.

Tony suspirou dramaticamente, passando a mão pelo cabelo.

— Eu viajo para o Brasil para resgatar uma filha e volto com uma psicóloga que quer namorar o meu melhor amigo/pior pesadelo. É o carma. Só pode ser o carma.

— Eu não disse que quero namorar ele, pai — Duda disse, pegando sua garrafa de água. — Eu disse que ele é interessante. Há uma diferença técnica entre interesse acadêmico e... outros tipos de interesse.

Ela lançou um olhar significativo para Bucky por cima da garrafa, e o supersoldado sentiu algo que não sentia há muito tempo: um frio na barriga que não tinha nada a ver com o soro do supersoldado.

— Certo, chega de hormônios e vibranium por hoje — Tony decretou, pegando Duda pelo braço de forma protetora. — Sam, leve o Robocop para a manutenção. Duda, temos uma reunião sobre os protocolos administrativos do Complexo. Você disse que queria ajudar na gestão, não disse?

— Disse, pai. Mas não precisa me arrastar.

Enquanto Tony a guiava para fora, Duda olhou para trás, por cima do ombro. Bucky ainda estava lá, parado no meio do tatame. Ela moveu os lábios silenciosamente: "Me encontra depois".

Bucky apenas assentiu, um brilho de esperança em seus olhos azuis.

— Cara, você está tão ferrado — Sam disse, aproximando-se de Bucky assim que os Stark saíram. — O Tony vai colocar um rastreador no seu braço. Ou pior, vai programar o Sexta-Feira para tocar um alarme toda vez que você chegar perto dela.

— Vale a pena — Bucky murmurou, pegando sua jaqueta no banco.

— O quê? O alarme ou o rastreador?

— Ela — respondeu Bucky, saindo da sala e deixando Sam Wilson com um sorriso de satisfação no rosto.

Mais tarde naquela noite, o Complexo estava silencioso. Duda estava sentada em uma das varandas que davam para a floresta de Nova York, com um caderno de anotações no colo e uma caneca de chá. O som de passos metálicos e leves anunciou a chegada de Bucky.

— O seu pai finalmente dormiu? — perguntou ele, sentando-se no banco ao lado dela, mantendo uma distância que faria Tony Stark (quase) aprovar.

— Ele está na oficina, provavelmente projetando um cinto de castidade tecnológico para mim — ela riu, fechando o caderno. — Senta aqui, James.

Bucky obedeceu. O uso de seu nome real sempre o desarmava.

— Você disse que eu era um "caso de estudo" hoje cedo — ele começou, olhando para as estrelas. — O que você vê quando olha para mim? De verdade? Sem as piadas do Sam ou o ciúme do Tony.

Duda deixou a caneca de lado e se virou para ele, adotando aquela postura observadora que o fascinava. Sua pele morena parecia brilhar sob a luz da lua, e seus olhos castanhos eram profundos como o oceano.

— Vejo um homem que passou décadas sendo uma ferramenta, mas que nunca perdeu sua essência — ela disse suavemente. — Vejo alguém que tem medo de sua própria força porque lhe ensinaram que ela só serve para destruir. Mas, acima de tudo, vejo alguém que está desesperado para ser perdoado, sem perceber que a única pessoa que ainda o julga é ele mesmo.

Bucky ficou em silêncio por um longo tempo. As palavras dela cortavam as camadas de proteção que ele havia construído ao redor de sua mente fragmentada.

— E como eu resolvo isso, doutora? — ele perguntou, sua voz falhando levemente.

Duda se inclinou para frente, diminuindo a distância entre eles. Ela estendeu a mão e, com delicadeza, tocou a face de metal de seu braço esquerdo. Bucky estremeceu, não por dor, mas pela ternura do gesto.

— Você começa aceitando que merece coisas boas, Bucky. Que merece sentir prazer, amizade... e talvez algo mais. A psicologia diz que o trauma não é o fim da história, é apenas um capítulo difícil. Você ainda tem muitas páginas em branco.

— E você gostaria de escrever algumas delas comigo? — Bucky perguntou, sua mão de carne e osso cobrindo a mão dela sobre o metal.

Duda sorriu, aproximando seu rosto do dele até que suas respirações se misturassem.

— Considera isso a minha primeira recomendação terapêutica.

O beijo foi lento, uma mistura de hesitação e desejo acumulado. Bucky foi gentil, temendo sua própria força, mas Duda o puxou para mais perto, mostrando que não tinha medo dele. Era um encontro de mundos: o Rio de Janeiro vibrante e cheio de vida dela, e o passado gelado e metálico dele.

No entanto, o momento foi interrompido por um brilho vermelho vindo do teto da varanda.

— Senhorita Stark, os níveis de dopamina e oxitocina do Sargento Barnes e os seus estão subindo rapidamente — a voz da Sexta-Feira ecoou. — O Chefe programou um alerta para "atividades suspeitas de natureza romântica". Devo acionar os sprinklers?

Duda se afastou de Bucky, rindo enquanto jogava a cabeça para trás.

— Não, Sexta-Feira! Diga ao meu pai que estamos apenas em uma sessão intensa de terapia comportamental.

— Entendido — respondeu a IA. — Mas o Chefe mandou avisar que a "terapia" deve manter as mãos visíveis o tempo todo.

Bucky suspirou, encostando a cabeça no encosto do banco, mas não soltou a mão de Duda.

— Ele nunca vai facilitar, não é?

— Nunca — Duda concordou, entrelaçando seus dedos nos dele. — Mas quem disse que eu gosto de coisas fáceis? Eu estudo a mente humana, Bucky. Eu gosto de desafios complexos.

Bucky sorriu, sentindo que, pela primeira vez em quase um século, ele não estava apenas sobrevivendo. Ele estava começando a viver. E se isso significava enfrentar a fúria tecnológica de Tony Stark e as piadas eternas de Sam Wilson, era um preço que ele pagaria com prazer.

— Então, doutora... quando é a nossa próxima consulta?

— Amanhã, no treinamento — ela piscou para ele, levantando-se. — E dessa vez, tente não deixar minha guarda tão baixa. Meu pai pode estar assistindo.

Duda caminhou de volta para o interior do Complexo, seus cachos balançando a cada passo. Bucky ficou ali, observando-a partir, sentindo que o Soldado Invernal finalmente tinha encontrado seu caminho de volta para casa. Uma casa que tinha o sorriso de uma brasileira inteligente e o temperamento de um Stark. E ele não mudaria nada disso por nada no mundo.