Voltar ao resumo

Filmes

Flashbacks, Filtros e Confissões

O dia de divulgação era, para muitos atores, a parte mais exaustiva do trabalho. Horas sentados em cadeiras desconfortáveis, respondendo às mesmas perguntas sobre como foi a preparação física ou qual era o clima no set. Mas para Kuro Hatake e Tatsuyo, aquele dia em particular tinha um sabor diferente. Era a primeira vez que eles enfrentavam a imprensa como o "casal de ouro" da Marvel, e a energia no estúdio de gravações em Nova York estava elétrica.

Kuro estava em seu elemento. Ele usava uma calça *baggy* cinza-claro que parecia flutuar ao redor de suas pernas musculosas, um moletom preto com uma estampa abstrata de um dragão neon e, completando o visual de "garoto da vizinhança" que tanto encantava suas fãs, um boné preto virado para trás. Ele parecia ter acabado de sair de uma pista de skate, não de um set de filmagens de alto orçamento.

Ao seu lado, Tatsuyo era a definição de elegância moderna e artística. Ela vestia uma blusa de seda na cor marfim, que se prendia delicadamente ao redor de seu pescoço, deixando suas costas nuas à mostra e revelando a pele parda impecável. O contraste com o shorts curto de couro caramelo e as botas de cano alto da mesma cor trazia uma sofisticação que combinava perfeitamente com sua aura de atriz de cinema *cult*. Seus cabelos pretos e lisos caíam como uma cascata de seda até o meio das costas, e seus olhos pretos brilhavam com uma inteligência que intimidava até os entrevistadores mais experientes.

— Você está tentando me ofuscar com esse visual de "estive em Veneza semana passada", não está? — sussurrou Kuro no ouvido dela, enquanto os assistentes de produção ajustavam os microfones de lapela.

Tatsuyo deu um sorriso de canto, aquele que Kuro sabia que significava que ela estava se divertindo.

— Alguém precisa manter o nível estético dessa dupla, Kuro. Você parece que vai participar de um campeonato de videogame depois daqui.

— E eu vou — ele piscou, ajeitando a aba do boné. — Mas só se você prometer que vai ser minha "Player 2".

— Olá, pessoal! Estamos ao vivo! — anunciou a entrevistadora de um famoso portal de entretenimento, cortando o momento privado deles. — Hoje estamos com as estrelas do novo épico da Marvel. Kuro Hatake e Tatsuyo!

A câmera acendeu a luz vermelha e, instantaneamente, Kuro assumiu sua persona pública: o sorriso largo, a postura relaxada e aquela energia contagiante.

— E aí, galera! — Kuro acenou para a câmera, a voz cheia de entusiasmo.

— É um prazer estar aqui — completou Tatsuyo, com sua voz suave e pausada, que sempre parecia carregar um peso poético, mesmo em uma entrevista de internet.

— Vamos começar com um dos nossos jogos favoritos: "Quem é mais provável de..." — disse a entrevistadora, entregando a cada um deles duas plaquinhas com os nomes "Kuro" e "Tatsuyo".

— Ah, não. Isso sempre acaba em briga lá em casa — brincou Kuro, arrancando risadas da equipe técnica.

— Primeira pergunta: quem é mais provável de esquecer as falas no meio de uma cena de ação?

Kuro nem hesitou. Ele levantou a placa com o seu próprio nome. Tatsuyo fez o mesmo, olhando para ele com um ar de "eu avisei".

— Com certeza sou eu — admitiu Kuro, rindo. — Especialmente quando tem muita explosão. Eu fico tão animado com as coisas quebrando que as palavras simplesmente fogem da minha cabeça.

— Ele fica parecendo uma criança em um parque de diversões — comentou Tatsuyo, ajustando a blusa no pescoço. — Em uma cena, ele deveria dizer "O reator está sobrecarregando", e ele simplesmente gritou "Olha o tamanho daquele fogo!".

— Foi um fogo muito bonito, Tatsuyo! — defendeu-se ele, fazendo biquinho.

A entrevistadora riu, anotando algo em seu tablet. A química entre os dois não era apenas para as câmeras; era algo orgânico, que transbordava em cada troca de olhares.

— Próxima pergunta: quem é o mais inteligente na vida real? Assim como a personagem da Tatsuyo no filme?

Desta vez, ambos levantaram a placa de Tatsuyo sem um segundo de dúvida.

— Nem tem competição — disse Kuro, sério por um momento. — Às vezes eu estou lendo o roteiro e pergunto: "Tatsu, por que o meu personagem faria isso?". E ela me dá uma aula de psicologia de dez minutos. Ela analisa o subtexto, a motivação ancestral... eu só penso se o soco vai ficar legal na câmera.

— Não é bem assim — Tatsuyo corou levemente, o que era raro para ela em público. — Eu só gosto de entender as camadas. Mas o Kuro tem uma inteligência emocional incrível. Ele sabe ler o set como ninguém.

— Próxima pergunta: quem é mais provável de se emocionar com os comentários dos fãs?

Tatsuyo levantou a placa de Kuro. Kuro, timidamente, levantou a dela.

— Espera, eu? — perguntou Tatsuyo, surpresa.

— Sim, você! — Kuro virou-se para ela, esquecendo por um momento que estavam sendo gravados. — Lembra daquela carta que aquela menina mandou de Tóquio? Dizendo que sua atuação no filme de drama do ano passado a ajudou a lidar com o luto? Você chorou por duas horas.

Tatsuyo baixou o olhar, um sorriso doce nos lábios.

— É verdade. Eu me conecto muito com o que as pessoas sentem através da arte. É o que me faz querer ser atriz.

— E o Kuro? — perguntou a entrevistadora.

— O Kuro finge que é o cara durão dos filmes de suspense — disse Tatsuyo, recuperando a compostura e provocando o namorado. — Mas se ele vê um vídeo de um resgate de cachorro no Instagram, ele vira uma manteiga derretida.

— Ei! Aqueles cachorrinhos são heróis, ok? — Kuro cruzou os braços, fingindo indignação.

A entrevista continuou com mais brincadeiras, até que chegaram à parte final, o "Teste de Afinidade". A entrevistadora fez uma pergunta que silenciou o estúdio por um instante.

— Vocês são conhecidos por virem de mundos cinematográficos muito diferentes. Kuro, o rei da ação e do suspense. Tatsuyo, a musa do drama artístico. Como foi para vocês unirem esses dois mundos nesse filme da Marvel?

Kuro olhou para Tatsuyo, permitindo que ela respondesse primeiro. Ela sempre tinha as melhores palavras para essas questões profundas.

— Eu acho que a beleza deste projeto foi justamente esse contraste — começou Tatsuyo, gesticulando suavemente com as mãos. — No filme, minha personagem é a lógica, a ciência pura. O personagem do Kuro é o ímpeto, o coração, a ação física. Na vida real, somos um pouco assim também. Eu trago a melancolia e a análise, e ele traz a luz e a energia. Nós nos equilibramos.

— Ela disse tudo — completou Kuro, e sua voz estava visivelmente mais terna. — Eu aprendi muito com ela. Antes, eu achava que atuar em filmes de crime era apenas sobre tensão e ritmo. Com a Tatsuyo, aprendi que mesmo no meio de uma perseguição de carros, existe um silêncio poético. Ela me tornou um ator melhor. E, sem dúvida, uma pessoa melhor.

A entrevistadora parecia encantada.

— E para encerrar, temos uma pergunta que os fãs mandaram muito: como é a rotina de vocês em casa? Quem cozinha? Quem decide o filme da noite?

Kuro soltou uma gargalhada genuína, jogando a cabeça para trás.

— Eu cozinho! Porque se deixarmos a Tatsuyo na cozinha, ela começa a ler um livro de poesia e esquece o arroz no fogo até a casa ficar cheia de fumaça.

— É uma calúnia! — Tatsuyo riu, batendo levemente no braço dele. — Eu só me distraio com coisas mais interessantes do que carboidratos.

— Viu só? — Kuro apontou para ela. — Mas sobre os filmes, a gente tem um acordo. Um dia assistimos a um filme de ação coreano com muitos tiros, que eu escolho, e no outro assistimos a um drama francês de três horas onde ninguém fala nada e tudo é filmado em preto e branco, que ela escolhe.

— E ele sempre dorme nos primeiros vinte minutos dos meus filmes — revelou Tatsuyo para a câmera.

— Eu não durmo! Eu estou... meditando sobre a cinematografia — defendeu-se ele, fazendo todos rirem.

— Corta! — gritou o produtor. — Foi excelente, pessoal. Terminamos por hoje.

Assim que as luzes diminuíram e os microfones foram retirados, a postura de "estrelas de cinema" relaxou. Kuro estendeu a mão para Tatsuyo, ajudando-a a descer do banco alto.

— Você foi ótima — disse ele, puxando-a para perto pela cintura. — Aquela parte sobre o equilíbrio... eu quase chorei aqui.

— Você é um bobo — ela respondeu, passando os braços pelo pescoço dele, sem se importar com os assistentes que ainda circulavam pelo estúdio. — Mas eu falei a verdade. Você é a minha luz, Kuro. Mesmo quando está usando esse boné ridículo.

— Ei! Esse boné é de uma marca super exclusiva que me patrocina — ele riu, antes de selar os lábios nos dela em um beijo calmo e cheio de carinho.

Eles caminharam juntos em direção ao camarim. No corredor, o contraste entre eles era ainda mais evidente: o garoto de moletom e calça larga e a mulher de couro e seda. Dois mundos que, no papel, talvez nunca devessem ter se cruzado, mas que, na realidade, haviam criado a harmonia mais perfeita que Hollywood já vira.

— Então — disse Tatsuyo, enquanto entravam no camarim para pegar suas coisas. — Comida tailandesa ou você vai mesmo querer jogar aquele videogame novo?

Kuro parou por um segundo, fingindo pensar.

— Que tal os dois? A gente pede a comida, eu jogo e você lê aquele livro denso sobre a história do cinema expressionista do meu lado no sofá.

Tatsuyo sorriu, encostando a cabeça no ombro dele enquanto caminhavam para a saída, onde os seguranças já os esperavam para enfrentar a multidão de fãs e fotógrafos lá fora.

— Parece o roteiro perfeito para mim — concluiu ela.

E assim, entre os flashes das câmeras e o barulho da cidade, eles seguiram para o único lugar onde não precisavam ser heróis ou musas: o lar que construíram juntos, onde o único papel que importava era o de serem, simplesmente, Kuro e Tatsuyo.