Voltar ao resumo

Filmes

Ecos do Passado, Brilho do Futuro

O silêncio do apartamento de luxo no Upper East Side era um contraste gritante com o caos ensurdecedor da coletiva de imprensa que haviam deixado para trás há poucas horas. As luzes da cidade de Nova York filtravam-se pelas janelas do chão ao teto, pintando o chão de carvalho com tons de âmbar e azul elétrico. Kuro estava jogado no enorme sofá de veludo azul-marinho, com as pernas esticadas e o boné agora jogado em cima da mesa de centro. Ele observava Tatsuyo, que estava de pé perto da janela, observando o movimento dos táxis lá embaixo.

Ela já havia se livrado das botas de cano alto e caminhava descalça, a blusa de seda marfim reluzindo sob a luz da lua. Havia uma melancolia natural nela, algo que a tornava a atriz perfeita para os dramas que protagonizava, mas que Kuro sempre tentava dissipar com seu humor às vezes exagerado.

— Você está muito quieta, Tatsu — disse Kuro, sua voz grave quebrando o silêncio. — Ainda está pensando na pergunta sobre os nossos "mundos diferentes"?

Tatsuyo virou-se lentamente, os cabelos pretos balançando suavemente sobre os ombros nus. Ela deu um sorriso pequeno, quase imperceptível.

— Um pouco. Estava lembrando de quando nos conhecemos, no teste de elenco para aquele filme policial que você fez há três anos. Você era o detetive prodígio e eu era apenas a testemunha silenciosa.

Kuro riu, uma lembrança calorosa aquecendo seu peito.

— Eu lembro que você não disse uma palavra durante o teste inteiro, mas seus olhos... droga, Tatsuyo, seus olhos diziam tanta coisa que eu esqueci metade das minhas falas. O diretor achou que eu estava fazendo uma "pausa dramática", mas eu estava apenas em choque com o seu talento.

— E agora estamos aqui — ela caminhou até o sofá e sentou-se ao lado dele, encolhendo as pernas. — Fazendo um filme da Marvel. É um salto enorme, Kuro. Às vezes eu me pergunto se eu me encaixo nesse brilho todo, nessas explosões e uniformes coloridos.

Kuro sentou-se, aproximando-se dela. Ele pegou a mão pequena de Tatsuyo entre as suas, sentindo a delicadeza da pele parda dela contra a sua pele branca e calejada pelos treinos de dublê.

— Você é o cérebro da Marvel agora, esqueceu? — Ele brincou, mas seu olhar era sério. — O público jovem me ama porque eu pulo de prédios, mas eles vão te amar porque você é a razão de eu não morrer. Você traz humanidade para esse circo todo. Sem a sua personagem, o meu herói é só um cara de colante com problemas de temperamento.

— Eu gosto de ajudá-lo — admitiu ela, encostando a cabeça no ombro dele. — No roteiro e na vida.

O interfone tocou, anunciando a chegada da comida tailandesa. Kuro deu um pulo, recuperando sua energia habitual.

— Comida! Finalmente! Meu tanquinho está começando a reclamar de maus-tratos.

— Você e esse seu tanquinho — Tatsuyo riu, levantando-se para pegar os pratos. — É uma relação de amor e ódio, não é?

— É uma relação de muito esforço e pouco carboidrato, Tatsu. Mas hoje, eu abro uma exceção para o Pad Thai.

Enquanto comiam sentados no tapete da sala, cercados por roteiros espalhados e algumas revistas de cinema onde suas fotos estampavam as capas, o clima mudou para algo mais íntimo. Eles conversavam sobre o dia seguinte de filmagem — a grande cena em que a personagem de Tatsuyo, usando sua inteligência sobre-humana, hackearia o sistema do vilão enquanto o personagem de Kuro enfrentava um exército de drones.

— Eu li as alterações no script hoje cedo — comentou Tatsuyo, enrolando o macarrão no garfo. — O diretor adicionou uma linha de diálogo na nossa cena final no laboratório.

— Ah, é? Qual? — perguntou Kuro, de boca cheia.

— Depois que você diz que eu sou a única coisa que faz sentido, eu deveria responder: "Então não me deixe ser a única coisa que resta".

Kuro parou de mastigar por um momento. Ele olhou para Tatsuyo, vendo a seriedade nos olhos pretos dela.

— Isso é pesado. É a cara dos diretores de drama que você gosta, mas funciona muito bem para o tom desse filme. Dá um medo real de perda.

— Exatamente — disse ela, deixando o prato de lado. — Eu andei pensando muito sobre isso, Kuro. Sobre o medo de perder o que temos por causa dessa indústria. Hoje, na entrevista, quando todos aqueles flashes começaram... eu senti um aperto no peito. É como se estivéssemos expondo nossa alma em 4K para o mundo todo julgar.

Kuro deixou o prato dele no chão e puxou-a para um abraço apertado. Ele a envolveu com seus braços fortes, sentindo a fragilidade dela, mas também a força que ela emanava.

— Ei, olha para mim — ele pediu, afastando-a levemente para encarar seus olhos. — O mundo pode ver o que quiser. Eles podem projetar o que quiserem na gente. Mas quando as luzes do set apagam e a gente atravessa aquela porta, somos só nós. Eu não sou o herói e você não é a gênia melancólica. Somos só o Kuro, que é meio bobo e gosta de videogame, e a Tatsuyo, que é a pessoa mais inteligente e linda que eu já conheci.

Tatsuyo sorriu, sentindo as lágrimas arderem nos olhos.

— Você sempre sabe o que dizer, não sabe?

— Eu sou um ator de ação, Tatsu. Eu sei improvisar — ele piscou, arrancando uma risada dela. — Agora, chega de papo profundo. Eu prometi que ia te mostrar o novo jogo de luta.

— Ah, não. Kuro, eu sou péssima nisso!

— Não tem problema. Eu te ensino. É bom para você descarregar o estresse de interpretar uma gênia o dia todo. Às vezes, ser um pouco "bruta" ajuda.

Kuro ligou o console, e logo a sala foi preenchida pelos sons eletrônicos e luzes vibrantes do videogame. Pelas próximas duas horas, eles foram apenas dois jovens de vinte e poucos anos, rindo, gritando com a tela e competindo de forma saudável. Kuro, claro, deixava Tatsuyo ganhar algumas rodadas, embora ela fingisse não perceber.

— Ganhei! — gritou ela, jogando o controle para o lado após uma vitória apertada. — Viu? Talvez eu tenha um talento oculto para a destruição digital.

— Eu criei um monstro — brincou Kuro, deitando-se no tapete e olhando para o teto. — A musa do cinema cult agora é uma pro-player de jogos de luta. O que os críticos de Cannes diriam disso?

Tatsuyo deitou-se ao lado dele, virando o rosto para observá-lo. O cabelo branco de Kuro estava bagunçado, e ele tinha uma expressão de paz que raramente mostrava em público.

— Eles diriam que eu finalmente encontrei meu equilíbrio — respondeu ela em voz baixa.

Kuro estendeu a mão e acariciou o rosto dela, o polegar traçando a linha da mandíbula.

— Sabe, Tatsu... eu estava pensando na cena do beijo que o diretor quer fazer. Aquela no topo do prédio, com a chuva.

— O que tem ela? — perguntou ela, sentindo o coração acelerar.

— Eu não quero que seja apenas uma cena de filme da Marvel. Eu quero que, naquele momento, o mundo inteiro desapareça. Eu quero que as pessoas vejam não o herói beijando a garota, mas o quanto eu sou louco por você.

Tatsuyo aproximou-se, reduzindo a distância entre eles até que suas respirações se misturassem.

— Então não precisamos esperar pelas câmeras e pela chuva artificial, Kuro.

Ele sorriu, aquele sorriso que ela conhecia tão bem, e a puxou para um beijo profundo e lento. Ali, no chão da sala, cercados por restos de comida tailandesa e o brilho da TV, não havia roteiros, não havia diretores e não havia público. Havia apenas a realidade nua e crua de dois atores que, no meio da ficção mais grandiosa do mundo, haviam encontrado a verdade mais simples e poderosa de todas: o amor.

Algum tempo depois, eles se acomodaram no sofá para o segundo round da noite: o filme em preto e branco escolhido por Tatsuyo. Era um clássico francês, lento e carregado de simbolismo.

— Promete que não vai dormir nos primeiros dez minutos? — perguntou ela, ajeitando a manta sobre os dois.

— Eu prometo tentar — disse Kuro, já sentindo as pálpebras pesarem conforme a trilha sonora de piano começava a tocar. — Mas se eu dormir, é porque estou meditando sobre a sua beleza, não sobre o filme.

Tatsuyo riu baixinho e beijou sua bochecha.

— Convencido.

— Mas você me ama assim.

— Amo — admitiu ela, fechando os olhos por um segundo. — Mais do que qualquer roteiro poderia descrever.

Enquanto o filme rodava e a noite de Nova York seguia seu curso frenético lá fora, os dois permaneceram ali, entrelaçados. Kuro Hatake, o rosto da ação, e Tatsuyo, a alma do drama, provando que, no final das contas, as melhores histórias não são aquelas escritas por roteiristas de Hollywood, mas aquelas vividas nos pequenos momentos de silêncio, longe dos holofotes.

A jornada na Marvel estava apenas começando, e eles sabiam que os próximos meses seriam intensos. Haveria tapetes vermelhos, críticas, teorias de fãs e uma pressão esmagadora. Mas, enquanto tivessem um ao outro, enquanto tivessem suas noites de videogame e filmes conceituais, eles sabiam que poderiam enfrentar qualquer vilão, real ou imaginário.

Kuro acabou dormindo por volta do vigésimo minuto, como Tatsuyo previra. Ela o observou por um longo tempo, a luz da TV refletindo nos fios brancos de seu cabelo. Ela sorriu, sentindo uma onda de gratidão. Ele era o seu herói, não porque tinha superpoderes na tela, mas porque tinha a capacidade de fazê-la se sentir a pessoa mais inteligente e amada do mundo, mesmo quando ela se sentia perdida no caos da fama.

Ela desligou a TV, deixando a sala apenas com a iluminação suave das luzes da cidade. Encostou a cabeça no peito de Kuro, ouvindo o batimento constante de seu coração, e adormeceu, pronta para enfrentar o mundo no dia seguinte, sabendo que, não importa o que acontecesse, ela sempre teria seu porto seguro nos braços do garoto de cabelo branco e sorriso engraçado.

Afinal, na vida real, o final feliz não acontece apenas quando os créditos sobem; ele acontece todos os dias, em cada olhar compartilhado e em cada promessa silenciosa feita sob o céu de uma cidade que nunca dorme. E para Kuro e Tatsuyo, o espetáculo estava apenas começando.