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Filmes

Sussurros no Escuro e o Som do Silêncio

O apartamento de Kuro e Tatsuyo era um refúgio de vidro e concreto, suspenso acima do caos incessante de Nova York. As luzes da cidade, que nunca dormia, filtravam-se pelas enormes janelas de moldura preta, criando padrões geométricos nas paredes cobertas por prateleiras de livros e prêmios de cinema. Era o único lugar no mundo onde o "casal de ouro" da Marvel podia, finalmente, tirar as máscaras — tanto as de heróis quanto as de estrelas de cinema.

Kuro jogou as chaves na mesa da entrada e soltou um suspiro pesado, sentindo a tensão dos ombros finalmente se dissipar. Ele tirou o boné, bagunçando o cabelo branco curto e repicado que já estava começando a crescer um pouco além do corte exigido pelo estúdio.

— Se eu tiver que responder "como foi o treinamento físico para as cenas de luta" mais uma vez, acho que vou acabar dando um mortal para trás involuntário — brincou ele, jogando-se no sofá de couro marrom.

Tatsuyo riu suavemente, retirando as botas de cano alto com uma elegância que parecia inata. Ela caminhou descalça pelo tapete felpudo, sentindo a textura macia sob os pés.

— Você adora a atenção, Kuro. Não finja que não gosta de ver a cara das repórteres quando você descreve a sua rotina de abdominais.

— Eu gosto da atenção *delas*? — Kuro arqueou uma sobrancelha, puxando-a pelo pulso quando ela passou por ele. — Eu só gosto da atenção de uma pessoa. E ela está sendo muito difícil hoje.

Tatsuyo caiu sobre o peito dele, o contraste de sua pele parda contra o moletom preto de Kuro criando uma imagem que qualquer fotógrafo de revista pagaria milhões para capturar. Ela apoiou o queixo nas mãos, olhando profundamente nos olhos castanhos dele.

— Difícil? Eu acabei de passar três horas em um estúdio gelado dizendo ao mundo o quanto você é um ator incrível. Minha cota de elogios por hoje está esgotada.

— Ah, é? — Kuro sorriu, aquele sorriso ladino que fazia o coração de Tatsuyo errar uma batida. Ele passou a mão pelos cabelos pretos e lisos dela, sentindo a seda dos fios entre os dedos. — Então acho que vou ter que me contentar com a comida tailandesa.

— O pedido já deve estar chegando — disse ela, inclinando-se para dar um beijo rápido na ponta do nariz dele. — Agora, vá tomar um banho. Você ainda cheira a spray de cabelo e maquiagem de set.

— Só se você vier me ajudar a tirar esse sangue falso que sobrou atrás da orelha.

— Nem pensar, Hatake. Vá logo!

Vinte minutos depois, o aroma de capim-limão, gengibre e leite de coco preenchia a sala. Kuro estava de volta, agora vestindo apenas uma calça de moletom cinza, exibindo o físico que era motivo de debate em todos os fóruns de fãs, mas que para Tatsuyo era apenas o calor familiar onde ela se aninhava todas as noites. Ele abriu as embalagens de papel sobre a mesa de centro, enquanto Tatsuyo organizava as almofadas no chão.

— Você viu o que o diretor mandou no grupo da produção? — perguntou Kuro, servindo o Pad Thai. — Eles vão liberar o primeiro *teaser* amanhã durante o intervalo do Super Bowl.

Tatsuyo pausou, um pedaço de tofu entre os hashis.

— Amanhã? Eu achei que eles iam esperar até a Comic-Con.

— A Marvel quer causar impacto. Eles sabem que a nossa química é o ponto alto. As cenas de teste de audiência tiveram a nota mais alta da história da franquia para um casal protagonista.

Tatsuyo suspirou, deixando os ombros caírem um pouco. Ela se sentou no chão, encostando as costas no sofá, ao lado das pernas de Kuro.

— Isso me assusta um pouco — confessou ela em voz baixa. — Quando o filme sair, não vai haver mais volta. O nível de escrutínio sobre a nossa vida pessoal vai triplicar.

Kuro desceu do sofá para se sentar ao lado dela no tapete, ignorando a comida por um momento. Ele envolveu os ombros dela com o braço musculoso, puxando-a para perto.

— Eu sei. Mas a gente já faz isso há anos, Tatsu. Você é a rainha dos dramas independentes, as pessoas te respeitam.

— É diferente, Kuro — rebateu ela, olhando para o reflexo das luzes da cidade no vidro. — Nos meus filmes, eu sou uma personagem melancólica, uma ideia artística. Na Marvel, eu sou... uma propriedade global. E nós somos o "casal real". As pessoas vão começar a procurar rachaduras nas nossas paredes.

— Deixa eles procurarem — disse Kuro, a voz firme e cheia de uma confiança que sempre acalmava as ansiedades dela. — Eles podem olhar o quanto quiserem, mas nunca vão saber o que acontece aqui dentro. Eles não sabem que você lê poesia para mim quando eu não consigo dormir por causa da adrenalina das filmagens. Eles não sabem que eu sou o único que consegue te fazer rir quando você entra fundo demais em uma personagem triste.

Tatsuyo sorriu, encostando a cabeça no ombro dele.

— Você sempre sabe o que dizer, não é? Deveria escrever seus próprios roteiros.

— Eu prefiro improvisar — ele riu, beijando o topo da cabeça dela. — Agora coma, antes que esfrie. E depois, eu prometo assistir àquele documentário preto e branco sobre a arquitetura russa que você salvou na lista. Sem dormir.

— Você prometeu isso da última vez e estava roncando em quinze minutos — provocou ela.

— Desta vez é sério! Vou tomar um café extra forte.

A noite seguiu em um ritmo doméstico e doce. Eles terminaram de jantar entre risadas e discussões leves sobre as teorias que os fãs estavam criando na internet. Kuro se divertia com as suposições absurdas sobre os poderes de sua personagem, enquanto Tatsuyo lia, com uma sobrancelha arqueada, as análises profundas que alguns críticos já faziam sobre sua "gênia incompreendida".

— Olha essa aqui — disse Kuro, mostrando o celular para ela. — "Teoria: A personagem de Tatsuyo é, na verdade, uma vilã infiltrada que vai quebrar o coração do herói no terceiro filme".

Tatsuyo soltou uma gargalhada genuína.

— Bom, considerando os meus papéis anteriores, não é uma suposição ruim. Eu tenho cara de quem quebra corações cinematográficos.

— Mas não o meu — Kuro disse, pegando o celular da mão dela e jogando-o para longe, no outro canto do sofá. — Chega de internet por hoje.

Ele se levantou, estendendo a mão para ela.

— O que você está fazendo? — perguntou ela, aceitando a mão e sendo puxada para cima.

— Treinando — respondeu ele, com um brilho travesso nos olhos.

— Kuro, eu já disse que não quero você pulando nos móveis...

— Não esse tipo de treino. O diretor disse que a cena do baile de gala, que vamos filmar na próxima semana, precisa de "elegância clássica". E, como você vive dizendo, eu sou um ogro de filmes de ação.

Tatsuyo sorriu, entendendo o plano. Ela colocou as mãos nos ombros dele, enquanto Kuro posicionava as mãos na cintura dela. A diferença de altura era perfeita; ela precisava inclinar a cabeça para trás para encará-lo, e ele parecia protegê-la completamente com sua presença física.

— Você não é um ogro — sussurrou ela. — Só é um pouco... impaciente com os pés.

— Então me ensine, professora.

Sem música, apenas com o som distante do tráfego de Nova York e o zumbido suave do ar-condicionado, eles começaram a se mover. Kuro era forte e seguro, mas sob a orientação de Tatsuyo, ele suavizou seus movimentos. Eles deslizaram pelo espaço aberto da sala, entre a mesa de jantar e o piano de cauda que Tatsuyo costumava tocar em seus momentos de introspecção.

— Um, dois, três... um, dois, três... — ditava ela baixinho.

Kuro a girou, e por um momento, o mundo pareceu parar. O cabelo preto dela flutuou no ar, e o brilho nos olhos pretos de Tatsuyo era algo que nenhuma câmera, por mais tecnológica que fosse, conseguiria capturar em toda a sua plenitude. Era uma luz que pertencia apenas a ele.

Quando o giro terminou, ele a puxou para perto, colando seus corpos. A respiração de ambos estava levemente acelerada, não pelo esforço físico, mas pela intensidade do momento.

— Você está indo bem — elogiou ela, a voz quase um sussurro.

— É fácil quando você é o meu norte — respondeu Kuro. Ele deslizou a mão pelas costas nuas dela, sentindo a pele macia sob o toque. — Sabe, às vezes eu esqueço que estamos fazendo um filme de super-heróis. Para mim, parece apenas que estamos vivendo a nossa vida, e tem um monte de gente estranha em volta com câmeras.

Tatsuyo riu, encostando a testa na dele.

— Essa é a definição de ser ator, Kuro. Mas eu entendo. Com você, o trabalho nunca parece trabalho.

Ele a beijou então. Não era um beijo coreografado para o cinema, com ângulos perfeitos e luzes de preenchimento. Era um beijo real, profundo, que carregava o peso de quatro anos de convivência, de medos compartilhados, de conquistas celebradas e da promessa silenciosa de que, não importa o quão grande o mundo lá fora se tornasse, eles sempre teriam aquele apartamento, aquele silêncio e um ao outro.

Kuro a pegou no colo, fazendo Tatsuyo soltar um ganido de surpresa seguido de uma risada.

— Kuro! O que você está fazendo?

— O herói está resgatando a gênia — declarou ele, caminhando em direção ao quarto. — O vilão "Cansaço" está tentando nos dominar, e eu decidi que a melhor estratégia de defesa é o sono.

— Você é tão brega — disse ela, escondendo o rosto no pescoço dele, aspirando o cheiro de sabonete e da pele quente de Kuro.

— Mas você ama esse brega.

— Amo — admitiu ela, enquanto ele a depositava suavemente sobre a cama de lençóis de linho escuro.

Kuro se deitou ao lado dela, puxando o edredom sobre os dois. O quarto estava na penumbra, apenas com a luz azulada da lua entrando pelas frestas das cortinas.

— Tatsu? — chamou ele, depois de alguns minutos de silêncio.

— Hum?

— Você acha que, se não fôssemos atores... se fôssemos apenas pessoas normais... a gente teria se encontrado?

Tatsuyo se virou de lado, observando o contorno do rosto dele na escuridão. Ela estendeu a mão e tocou a cicatriz quase invisível na sobrancelha de Kuro, resultado de uma cena de ação que deu errado há dois anos.

— Eu acho que o universo não é tão cruel a ponto de nos manter separados — respondeu ela com sua voz de poeta. — Talvez você fosse um detetive de verdade, e eu fosse uma cientista em algum laboratório escondido. E você bateria na minha porta precisando de ajuda para resolver um caso impossível.

Kuro sorriu, fechando os olhos sob o toque dela.

— Eu gostaria disso. Mas acho que prefiro a nossa realidade. Pelo menos aqui, eu posso te beijar sem precisar de um mandado judicial.

Tatsuyo riu, aninhando-se no peito dele.

— Durma, Kuro. Amanhã o mundo vai querer um pedaço de nós.

— Que eles tentem — murmurou ele, já entregue ao sono. — Eles só vão encontrar o que a gente deixar eles verem.

Enquanto Kuro adormecia, Tatsuyo ficou acordada por mais alguns instantes, ouvindo a respiração rítmica do homem que amava. Ela sabia que o filme da Marvel seria um divisor de águas. Sabia que a fama deles atingiria níveis estratosféricos e que a pressão seria esmagadora. Mas, olhando para Kuro, ela sentiu uma paz que nenhum roteiro poderia descrever.

Ela era a mente mais brilhante da Marvel na ficção, mas na vida real, sua maior sabedoria tinha sido entregar seu coração a um ator de cabelos brancos que não tinha medo de ser vulnerável.

Tatsuyo fechou os olhos, finalmente deixando a melancolia artística de lado para abraçar a felicidade simples de ser apenas uma mulher apaixonada. O amanhã traria o *teaser*, os fãs, os críticos e a loucura. Mas ali, naquele momento, o único roteiro que importava era o batimento cardíaco de Kuro, marcando o tempo de uma história que nenhum diretor jamais seria capaz de cortar.