Fios de outono
O Labirinto de Pergaminhos e o Aroma de Pólvora
A biblioteca de Hogwarts era, para a maioria dos alunos, um santuário de silêncio e tédio. Para Ellie Diggory, era o lugar onde ela podia ser apenas Ellie, e não a "irmã mais nova do Cedrico". No entanto, naquela tarde de quinta-feira, o silêncio foi interrompido não por um sussurro de Madame Pince, mas pelo som inconfundível de algo explodindo em pequena escala perto da seção de Poções Avançadas.
Ellie nem precisou olhar para cima para saber quem era. O cheiro de caramelo queimado e enxofre entregava os culpados. Ela continuou escrevendo sua redação sobre o uso de guelricho, sentindo uma presença alta e sombreada se inclinar sobre sua mesa.
— Você sabia que, se misturar pó de chifre de bicórnio com essência de arruda, a mistura não deveria, teoricamente, criar um pequeno tornado verde? — A voz de Fred Weasley soou logo acima de seu ouvido, carregada de um divertimento cansado.
Ellie finalmente largou a pena e olhou para ele. Fred estava com o rosto levemente manchado de fuligem, e uma mecha de seu cabelo ruivo parecia estar apontando para o lado oposto das outras.
— Teoricamente, Fred, você não deveria estar fazendo experimentos alquímicos na biblioteca — rebateu ela, tentando manter a expressão séria, embora o canto de sua boca teimasse em subir. — Onde está o Jorge?
— Levando a culpa com a Pince no corredor ao lado para que eu pudesse vir te entregar isso. — Fred deslizou um pequeno sapo de chocolate, que parecia estar tentando lutar contra a embalagem, para cima do pergaminho dela.
— Um suborno? — Ellie arqueou uma sobrancelha.
— Um agradecimento. Aquela dica sobre a passagem atrás da armadura de Barnabás... nos salvou de uma detenção com o Filch ontem à noite. Como você sabia que ele estaria patrulhando o quarto andar tão cedo?
Ellie deu de ombros, voltando sua atenção para o livro, mas a proximidade de Fred a deixava estranhamente alerta.
— Eu observo os padrões. Filch sempre começa pelo lado leste quando está chovendo, porque Madame Nora odeia as goteiras da ala oeste. É lógica básica, Weasley.
Fred puxou uma cadeira, sentando-se ao contrário, com os braços apoiados no encosto. Ele a observou por um longo momento, ignorando as caretas de alguns alunos da Corvinal na mesa vizinha.
— Você é assustadora, Diggory. O Cedrico sabe que a irmã dele é uma mente criminosa em potencial?
— O Cedrico acha que eu passo o tempo todo colhendo flores com a Professora Sprout — Ellie respondeu, e dessa vez não havia amargura em sua voz, apenas uma aceitação divertida. — Ele é um bom irmão, Fred. Ele não tenta me ofuscar, ele só... brilha naturalmente. Eu prefiro o meu canto.
— Bem, o seu "canto" está ficando bem movimentado ultimamente — Fred comentou, e o tom de sua voz mudou sutilmente. — Vi que o Roger Davies tentou falar com você no pátio hoje cedo. Ele finalmente percebeu que as irmãs Patil não dão a mínima para as estatísticas de Quadribol dele?
Ellie sentiu uma pontada de irritação. Ela ainda tinha uma queda por Roger, ou pelo menos achava que tinha, até que as conversas com Fred começaram a se tornar o ponto alto de sua semana.
— Ele só queria saber se o Cedrico ia usar a tática de mergulho em parafuso no próximo jogo. Ele acha que eu sou a fonte de informações da Lufa-Lufa.
— E você deu a informação? — Fred inclinou-se mais para perto.
— Eu disse a ele que, se ele quisesse saber, deveria convidar o Cedrico para um chá, não a mim.
Fred soltou uma risada baixa, o tipo de som que fazia os pelos do braço de Ellie se arrepiarem.
— Garota cruel. Eu gosto disso.
O momento, no entanto, foi quebrado por uma voz familiar e preocupada.
— Ellie? Ah, oi, Fred.
Cedrico Diggory parou ao lado da mesa, carregando uma pilha de livros de Defesa Contra as Artes das Trevas. Ele olhou de Fred para Ellie, um vinco de confusão entre as sobrancelhas. Cedrico não era o tipo de irmão superprotetor e irritante; ele era genuinamente protetor porque amava a irmã, mas muitas vezes não entendia que ela sabia se cuidar.
— Tudo bem por aqui? — perguntou Cedrico. — Ouvi uma explosão agora pouco.
— Fred estava apenas me explicando as propriedades... explosivas da curiosidade — Ellie disse rapidamente, fechando seu livro de Herbologia.
— É, Ced — Fred levantou-se, recuperando sua postura desleixada e confiante. — Estávamos discutindo como sua irmã é muito mais útil para a sociedade do que você e seu sorriso de capa de revista.
Cedrico riu, dando um tapinha amigável no ombro de Fred. Havia um respeito mútuo entre eles, o que tornava tudo mais complicado para Ellie.
— Não duvido disso. Ellie é o cérebro da família, eu sou só o batedor de vassouras. Aliás, Ellie, papai mandou uma coruja. Ele quer saber se você quer aquele kit novo de jardinagem para o seu aniversário.
— Eu já disse que quero os livros de Poções Avançadas, Ced. Jardinagem é o hobby dele, não o meu.
— Eu sei, eu sei. Vou escrever para ele. — Cedrico olhou para Fred novamente. — A Angelina estava te procurando, Fred. Algo sobre o treino de amanhã.
O nome de Angelina Johnson pairou no ar como uma névoa fria. Ellie sentiu o estômago dar um nó familiar. Fred, por sua vez, apenas assentiu, mas seu olhar demorou um segundo a mais em Ellie antes de se afastar.
— Certo. O dever chama. Até mais, pequena Diggory. Cedrico.
Quando Fred se afastou, Cedrico sentou-se no lugar que ele ocupava. Ele olhou para a irmã com uma expressão pensativa.
— Você e o Fred estão passando muito tempo juntos, Ellie.
— Somos amigos, Ced. Ou algo parecido. — Ela começou a guardar suas coisas, sentindo-se subitamente ansiosa para sair dali.
— Ele é um bom sujeito, mas é imprevisível — disse Cedrico, com cautela. — Só não quero que você se meta em confusão por causa das brincadeiras deles. Você tem um futuro brilhante pela frente, não precisa da ficha suja com o Filch.
Ellie parou o que estava fazendo e olhou diretamente para o irmão.
— Cedrico, eu adoro você. Mas eu não sou você. Eu não quero ser a monitora perfeita ou a capitã de nada. Se eu quiser ter a ficha suja ou passar o tempo com as pessoas "imprevisíveis", a escolha é minha.
Cedrico pareceu surpreso, mas não ofendido. Ele deu um sorriso suave, cheio de orgulho.
— Eu sei que é. Às vezes eu esqueço que você não precisa que eu te guie. Você sempre soube exatamente onde estava indo, mesmo quando estava nas sombras.
— Exatamente — murmurou ela, pegando sua mochila. — Agora, se me dá licença, eu tenho um sapo de chocolate para domesticar.
No entanto, o caminho para a sala comunal da Lufa-Lufa não foi tão simples. Ao virar o corredor do segundo andar, Ellie deu de cara com Angelina Johnson. A artilheira da Grifinória era alta, bonita e emanava uma confiança que Ellie invejava secretamente.
— Ellie Diggory, certo? — Angelina parou, cruzando os braços. Não havia malícia em seu rosto, mas havia uma curiosidade direta.
— Sim. Oi, Angelina.
— O Fred tem falado muito de você. — Angelina deu um meio sorriso. — Ele disse que você é a única pessoa na escola que consegue ganhar dele em um argumento sobre as leis de Gamp.
Ellie sentiu o rosto esquentar.
— Ele exagera. Ele só gosta de me provocar.
— Fred não gasta tempo provocando quem ele não acha interessante — Angelina comentou, e houve um silêncio pesado entre as duas. — Só um aviso, Ellie. Ele é como um Fogos de Artifício Dr. Filibusteiro. Divertido de olhar, mas se você chegar perto demais sem saber o que está fazendo, pode se queimar.
— Eu sei me cuidar, Angelina. — A voz de Ellie saiu mais firme do que ela esperava. — E, pelo que eu saiba, você e ele...
— Nós somos amigos. Grandes amigos — interrompeu Angelina, com uma clareza que pareceu um soco e um alívio ao mesmo tempo. — Mas Fred é... complicado. Ele não sabe bem o que quer até que a coisa exploda na cara dele.
Angelina seguiu seu caminho, deixando Ellie parada no meio do corredor, com o coração acelerado. O que aquilo significava? Era um aviso? Uma benção? Ou apenas Angelina sendo a força da natureza que Fred descrevera?
A confusão mental de Ellie só piorou no jantar. Ela se sentou à mesa da Lufa-Lufa, tentando se concentrar em seu purê de batatas, mas seus olhos insistiam em viajar para a mesa da Grifinória. Fred estava rindo de algo que Lino Jordan dizia, mas, em um momento de distração, ele olhou para o lado e seus olhos encontraram os de Ellie.
Ele não acenou. Ele apenas inclinou a cabeça levemente, um gesto quase imperceptível, mas que carregava uma intimidade que a fez perder o apetite.
— Você está bem, Ellie? — perguntou Ana Abbott, sentada ao lado dela. — Você está encarando o purê como se ele fosse te morder.
— Só estou pensando em Poções — mentiu Ellie.
— Se precisar de ajuda, o Cedrico disse que...
— Eu não preciso do Cedrico para Poções, Ana! — Ellie respondeu, um pouco mais alto do que pretendia. Alguns alunos olharam para ela, surpresos pelo surto repentino da sempre calma Diggory.
Ela se levantou, pegou sua mochila e saiu do Salão Principal antes que as lágrimas de frustração — ou fosse lá o que aquilo era — começassem a cair. Ela odiava ser comparada. Odiava ser protegida. E, acima de tudo, odiava o fato de que Fred Weasley estava ocupando cada centímetro quadrado de seus pensamentos.
Ela caminhou até o pátio interno, onde o ar da noite estava frio e cortante. Sentou-se em um dos bancos de pedra, abraçando as próprias pernas.
— Sabe, para alguém que diz que gosta de observar padrões, você foi bem previsível vindo para cá.
Fred estava encostado em um arco de pedra, as mãos nos bolsos das vestes. Ele parecia mais sério do que o habitual.
— Vá embora, Fred. Eu não estou de bom humor.
— Percebi. Você quase explodiu a mesa da Lufa-Lufa com o olhar. O que houve? O Cedrico te deu um sermão sobre "más influências ruivas"?
— Não é o Cedrico! — Ellie explodiu, levantando-se. — É tudo! É todo mundo achando que sabe o que é melhor para mim. É a Angelina me dando avisos enigmáticos. É o Roger me usando para chegar no meu irmão. E é você...
— Eu o quê? — Fred deu um passo à frente, entrando no círculo de luz de uma tocha próxima.
— Você me tratando como se eu fosse um projeto de ciência ou uma nova diversão para os seus produtos! — As palavras saíram antes que ela pudesse filtrá-las. — Eu não sou uma das suas tortinhas de abóbora, Fred. Eu não sou algo que você pode testar e depois descartar quando a Angelina chamar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Fred não riu. Ele não fez uma piada. Ele apenas a olhou com uma expressão que Ellie nunca tinha visto — algo entre a mágoa e uma determinação feroz.
— Você realmente acha isso? — A voz dele era baixa, perigosa. — Você acha que eu passo horas na biblioteca, um lugar que eu detesto, só para "testar" algo em você?
— Eu não sei o que pensar, Fred! — Ellie sentiu a primeira lágrima cair. — Você e ela... vocês são perfeitos juntos. E eu sou só a irmã do Cedrico que sabe uns atalhos no castelo.
Fred se aproximou rapidamente, encurtando a distância entre eles até que Ellie pudesse sentir o calor emanando dele. Ele segurou os ombros dela, não com força, mas com uma firmeza que a obrigou a olhar para ele.
— Escuta aqui, Diggory. A Angelina é minha amiga. Só isso. E se você acha que eu te vejo como a "irmã do Cedrico", então você é muito menos observadora do que eu pensei.
— Então o que eu sou? — desafiou ela, a voz trêmula.
Fred abriu a boca para responder, as palavras pareciam estar na ponta de sua língua, mas ele hesitou. O brilho de malícia habitual tinha sumido, substituído por uma vulnerabilidade que o tornava quase irreconhecível.
— Você é a única pessoa neste castelo que me faz querer ser mais do que apenas um palhaço — ele disse, finalmente. — E isso me assusta para caramba.
Ele soltou os ombros dela, mas não se afastou. A tensão entre eles era quase palpável, um fio esticado ao máximo, pronto para romper. Ellie sentiu o impulso de se inclinar, de acabar com o espaço que restava, mas o medo e a confusão ainda falavam mais alto.
— Fred... — ela sussurrou.
— A gente se vê, Ellie. — Ele deu um passo para trás, recuperando parte de sua máscara de indiferença. — Pense no que eu disse. Ou não. Você é a mestre da lógica, afinal.
Ele virou as costas e caminhou para dentro do castelo, deixando-a sozinha no frio. Ellie sentou-se novamente, o coração batendo tão forte que ela podia ouvi-lo nos ouvidos.
Ela tinha pedido por algo real, algo que não fosse a perfeição solar de seu irmão. E ali estava. Era confuso, era doloroso e era absolutamente eletrizante. O "quero mais" agora tinha um gosto de perigo, mas Ellie Diggory, pela primeira vez, não estava interessada em ser cautelosa.
Ela abriu o sapo de chocolate que ainda estava em seu bolso. Dentro, a carta era de Alvo Dumbledore. Ela sorriu para a imagem do diretor, que piscou para ela antes de desaparecer da moldura.
— É, Fred — murmurou ela para a escuridão. — Acho que nós dois vamos nos queimar.
Longe dali, no alto da Torre da Grifinória, Fred Weasley olhava pela janela, ignorando as perguntas de Jorge sobre o novo protótipo. Ele ainda podia sentir o calor dos ombros de Ellie sob suas mãos. Ele sabia que o caminho à frente seria lento, cheio de desentendimentos e tropeços, mas, pela primeira vez em sua vida, Fred não estava com pressa de chegar ao final da piada. Ele queria aproveitar cada segundo daquela construção, por mais lenta que fosse.