Fios de outono
O Eco das Sombras e o Brilho das Chamas
A semana que se seguiu ao confronto no pátio foi envolta em uma névoa de estranheza que nem mesmo o feitiço *Lumos* mais forte poderia dissipar. Ellie Diggory sentia-se como se estivesse caminhando sobre uma corda bamba esticada entre as torres de Astronomia e da Grifinória. Cada vez que cruzava com um tufo de cabelo ruivo nos corredores, seu estômago executava uma manobra de Quadribol que a deixava sem fôlego.
Fred, por sua vez, parecia ter adotado uma nova estratégia: a presença silenciosa. Ele não a abordava com piadas barulhentas, nem tentava roubar sua atenção com explosões controladas. Em vez disso, ele apenas aparecia. Ele estava lá, sentado a duas mesas de distância na biblioteca; estava lá, encostado na parede perto da sala de Transfiguração; estava lá, observando-a do outro lado do Salão Principal com um olhar que não era mais de provocação, mas de uma avaliação profunda e inquietante.
— Você está fazendo de novo — disse Cedrico, sentando-se à mesa da Lufa-Lufa durante o café da manhã de terça-feira.
— Fazendo o quê? — Ellie perguntou, concentrada demais em decapitar seu ovo cozido.
— Olhando para a mesa da Grifinória como se estivesse tentando decifrar um pergaminho antigo. Ellie, se o Fred te chateou de alguma forma...
— Ele não me chateou, Ced. — Ela suspirou, largando a colher. — Nós só... tivemos uma conversa honesta. E conversas honestas são exaustivas.
Cedrico a observou com aquela preocupação fraternal que, embora doce, às vezes a sufocava.
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe? Se ele estiver sendo um idiota, eu posso...
— Você pode continuar sendo o monitor perfeito e o apanhador estrela, e me deixar resolver minhas próprias questões — interrompeu ela, com um sorriso triste para suavizar o golpe. — Eu estou bem, de verdade. Só preciso de um pouco de espaço para pensar.
Mas o espaço era a última coisa que Hogwarts oferecia. Especialmente quando a neve começou a cair, transformando os jardins em um deserto branco e forçando todos os alunos a se espremerem nos corredores aquecidos por tochas.
Naquela tarde, Ellie decidiu se refugiar nas estufas. O calor úmido da Estufa Três, misturado ao cheiro de terra fértil e fertilizante de dragão, era o único lugar onde ela sentia que podia respirar sem o peso dos olhares alheios. Ela estava ocupada podando algumas Vagens Suporíferas quando ouviu o ranger da porta de vidro.
— A Professora Sprout disse que não queria ninguém aqui fora do horário de aula — disse ela, sem se virar.
— Ainda bem que eu nunca fui muito bom em seguir o que os professores querem.
A voz de Fred era como um cobertor quente em um dia frio. Ellie sentiu o coração falhar uma batida, mas continuou seu trabalho, as tesouras de poda estalando ritmicamente.
— O que você quer, Fred?
Ele caminhou até a bancada ao lado dela, observando as plantas com um desdém fingido.
— Jorge e eu estamos trabalhando em algo novo. Um tipo de chiclete que faz a pessoa flutuar alguns centímetros, mas o efeito colateral é que a pele fica verde-limão. Pensei que você pudesse ter uma ideia de qual planta neutralizaria a cor sem tirar a flutuação.
Ellie finalmente parou e olhou para ele. Ele usava um cachecol da Grifinória desleixado e tinha uma mancha de tinta no polegar.
— Você veio até aqui para me pedir consultoria botânica? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.
— Vim até aqui porque você não olha mais para mim — admitiu ele, a honestidade da declaração atingindo Ellie como um feitiço de impacto. — E porque eu odeio o silêncio que ficou entre a gente depois daquela noite no pátio.
Ellie largou as tesouras e limpou as mãos no avental sujo de terra.
— O que você disse... sobre eu te fazer querer ser mais do que um palhaço. O que isso significa, Fred?
Fred suspirou, passando a mão pelos cabelos ruivos, deixando-os ainda mais bagunçados. Ele parecia estar travando uma batalha interna entre sua natureza brincalhona e algo muito mais sério.
— Significa que todo mundo espera que eu seja o gêmeo engraçado. O que explode coisas. O que não leva nada a sério. — Ele deu um passo para mais perto, o cheiro de pólvora e canela agora misturado ao aroma de terra úmida. — Mas quando eu converso com você, sinto que não preciso fazer uma performance. Você me vê, Ellie. A pessoa, não o show.
— E a Angelina? — A pergunta saiu antes que ela pudesse contê-la. — Você ainda olha para ela como se ela fosse o sol.
Fred deu um sorriso torto, um pouco melancólico.
— A Angelina é incrível. E por muito tempo, eu achei que o que eu sentia por ela era... bem, o que todo mundo sente. Mas é um brilho que cega, sabe? Com você, é diferente. É como estar na frente de uma lareira. É calmo, é quente e é real.
Ellie sentiu as bochechas corarem, mas não desviou o olhar.
— Eu passei anos sendo a sombra do Cedrico, Fred. Eu não quero ser a sombra de ninguém. Nem a sua, nem a da Angelina, nem a de ninguém.
— Você nunca poderia ser uma sombra — disse ele, a voz baixando para um tom quase inaudível. — Você brilha de um jeito que a maioria das pessoas é burra demais para notar. Mas eu noto. Eu noto o jeito que você morde o lábio quando está concentrada, o jeito que você protege as plantas menores das maiores... e o jeito que você me desafia.
Ele estendeu a mão, mas hesitou por um segundo antes de tocar a ponta dos dedos no queixo de Ellie, levantando o rosto dela para que seus olhos se encontrassem plenamente.
— Eu não quero que as coisas explodam na nossa cara, Ellie. Eu quero que isso... seja lá o que for... cresça no tempo dele. Como uma dessas suas plantas esquisitas.
Ellie soltou uma risada curta, a tensão finalmente se quebrando.
— Você acabou de comparar nosso relacionamento em potencial com um arbusto de Bubotuber?
— Ei, Bubotubers são úteis! — Fred exclamou, recuperando um pouco de seu brilho habitual. — O pus delas cura acne, não cura?
— Você é impossível — murmurou ela, mas não se afastou quando ele deu mais um passo à frente.
Eles estavam perigosamente próximos agora. Ellie podia ver as sardas individuais no nariz de Fred e a intensidade âmbar de seus olhos. O ar na estufa parecia ter ficado ainda mais pesado, carregado de uma expectativa que fazia suas mãos tremerem levemente.
— Fred! — A voz de Jorge ecoou do lado de fora da estufa, seguida pelo som de passos rápidos na neve. — Fred, você não vai acreditar! O Lino conseguiu os ovos de Doxie que a gente precisava!
Fred fechou os olhos por um momento, encostando a testa na de Ellie. Foi um contato breve, quase etéreo, mas que enviou choques elétricos por todo o corpo dela.
— O dever chama — sussurrou ele, a voz rouca. — Mas a nossa consultoria botânica ainda não acabou, Diggory.
— Eu estarei aqui — respondeu ela, sentindo-se estranhamente leve.
Fred se afastou, mas antes de sair pela porta, ele se virou e piscou.
— E Ellie? O Roger Davies perguntou de você de novo hoje.
O coração de Ellie deu um solavanco, mas não pelo motivo de costume.
— E o que você disse a ele?
— Disse que você estava ocupada demais cultivando coisas muito mais interessantes do que ele.
Com um último sorriso travesso, Fred desapareceu na brancura do lado de fora, deixando Ellie sozinha com suas plantas e um sorriso que ela não conseguia apagar do rosto.
Nos dias seguintes, a mudança foi sutil, mas profunda. Eles não se tornaram um casal oficial aos olhos da escola, mas havia um entendimento silencioso. Nas refeições, Fred ocasionalmente jogava uma bolinha de papel enfeitiçada que se transformava em uma pequena flor de papel quando Ellie a abria. Ellie, por sua vez, começou a deixar pequenos frascos de essências úteis para as invenções dos gêmeos em lugares onde Fred sabia que encontraria.
Era uma construção lenta, um tijolo de cada vez. Havia obstáculos, é claro. Cedrico ainda lançava olhares desconfiados para Fred, e Angelina ocasionalmente parecia observar Ellie com uma expressão indecifrável, embora nunca mais tivesse dito nada.
Certa noite, Ellie estava na biblioteca, tentando terminar um ensaio sobre a Revolta dos Duendes de 1612, quando sentiu alguém se sentar ao seu lado. Não era Fred, mas sim Roger Davies.
— Oi, Ellie — disse ele, dando aquele sorriso que costumava derreter as pernas dela. — Você tem um minuto?
Ellie olhou para ele, e pela primeira vez, sentiu... nada. O que antes era uma admiração platônica agora parecia apenas uma lembrança de uma versão mais jovem e menos segura de si mesma.
— Na verdade, Roger, estou um pouco ocupada com a história da magia.
— Eu só queria saber se você gostaria de ir a Hogsmeade comigo no próximo fim de semana. Eu sei que o Cedrico disse que você gosta de jardinagem, então pensei que poderíamos passar na Dogweed and Deathcap...
Ellie sentiu uma vontade súbita de rir. Roger ainda via a "irmã do Cedrico", a menina que gostava do que o pai gostava, a menina previsível.
— Agradeço o convite, Roger. Mas eu já tenho planos. E, para sua informação, eu prefiro Poções a jardinagem.
Roger pareceu genuinamente surpreso, como se o roteiro que ele tinha em mente tivesse sido rasgado.
— Ah. Entendi. Bem, se mudar de ideia...
— Não vou mudar. Mas obrigada por perguntar.
Quando ele se afastou, Ellie sentiu um peso enorme sair de seus ombros. Ela não era mais a garota que esperava ser notada por um rosto bonito. Ela era Ellie Diggory, e ela tinha seus próprios planos, suas próprias ideias e, talvez, um certo ruivo batedor que a via exatamente como ela era.
— Isso foi muito bem executado — disse uma voz vinda de trás de uma estante de livros.
Fred saiu das sombras, segurando um livro sobre "Feitiços para Travessuras Avançadas". Ele tinha um brilho de orgulho nos olhos.
— Você estava espionando, Weasley?
— Eu prefiro o termo "monitoramento estratégico". — Ele se sentou ao lado dela, ocupando o espaço que Roger acabara de deixar, mas de uma forma que parecia muito mais natural. — Então, você tem planos para Hogsmeade?
— Tenho? — perguntou ela, desafiadora.
— Tem. Você vai me ajudar a contrabandear alguns itens proibidos para dentro do castelo e, em troca, eu vou te pagar a melhor cerveja amanteigada que o Três Vassouras pode oferecer.
Ellie fingiu considerar a proposta, embora seu coração já tivesse dito sim antes mesmo de ele terminar a frase.
— Itens proibidos parecem perigosos para a minha ficha escolar, Fred.
— Eu prometo solenemente que, se formos pegos, eu direi que te sequestrei — disse ele, aproximando-se o suficiente para que seus braços se tocassem. — Mas eu sou muito bom em não ser pego, Ellie. Especialmente quando tenho a mente mais brilhante da Lufa-Lufa ao meu lado.
— Tudo bem — cedeu ela, fechando o livro de história. — Mas eu escolho o lugar para sentar no Três Vassouras. Longe das correntes de ar e de jogadores de Quadribol exibidos.
— Feito.
Eles ficaram ali por um tempo, no silêncio da biblioteca, apenas aproveitando a presença um do outro. Não houve beijos roubados ou grandes promessas. Havia apenas a promessa de um próximo passo, de uma próxima conversa, de um próximo "quero mais".
Enquanto saíam da biblioteca, Fred passou o braço pelos ombros de Ellie. Desta vez, ela não se sentiu pequena. Ela se sentiu parte de algo maior, algo que estava sendo cultivado com cuidado, paciência e uma pitada generosa de pólvora. E, enquanto caminhavam pelo corredor mal iluminado, Ellie soube que, embora o caminho pudesse ser lento, ela não queria estar em nenhum outro lugar.