Flor de cerejeira
O Eco do Coração sob as Luzes de Xangai
A noite em Xangai parecia vibrar com uma energia diferente após aquele encontro no café. Para Maya, o retorno ao dormitório da universidade foi como flutuar através de um sonho lúcido. O perfume amadeirado de Zhang Linghe ainda parecia impregnado em sua pele, e a sensação do toque de seus dedos em seus cachos era um fantasma doce que a fazia sorrir para o nada. Ela sabia que sua vida havia mudado de eixo, mas não tinha ideia do quão rápido as coisas poderiam escalar no mundo da fama chinesa.
Na manhã seguinte, o burburinho nos corredores da Academia de Artes Cênicas era ensurdecedor. Maya tentava se concentrar em seu roteiro de ensaio para a aula de expressão corporal, mas sentia os olhares de soslaio de suas colegas.
— Maya, você viu o Weibo hoje? — Li Wei surgiu do nada, segurando o celular com uma expressão que misturava choque e excitação.
— Não, eu mal tive tempo de tomar café. O que aconteceu? — Maya perguntou, sentindo um nó se formar em seu estômago.
— Alguém tirou uma foto borrada de um homem muito parecido com o Linghe entrando no "A Lanterna de Papel" ontem à noite. Estão dizendo que ele foi encontrar uma "mulher misteriosa com cabelos de sereia". Maya... era você, não era?
Maya sentiu o sangue fugir do rosto. Ela olhou para a tela do celular de Li Wei. A foto estava granulada, mas a silhueta de seus cabelos longos e cacheados, descendo até o quadril enquanto ela estava sentada, era inconfundível para quem a conhecesse.
— Nós só conversamos, Li Wei. Ele estava me ajudando com o mandarim e... — Maya começou a explicar, mas foi interrompida pelo toque de seu próprio celular.
Uma mensagem no WeChat. O coração dela disparou ao ver o nome de Linghe.
— "Não se assuste com as notícias. Meu agente está cuidando disso. Você está bem? Por favor, me diga que não estão te incomodando na faculdade."
Maya respirou fundo e digitou rapidamente, tentando manter a calma enquanto as lágrimas de ansiedade ameaçavam cair.
— "Estou bem, mas as pessoas estão começando a desconfiar. Eu não queria causar problemas para a sua carreira, Linghe."
A resposta dele foi imediata, como se ele estivesse segurando o telefone esperando por ela.
— "Minha carreira é feita de papéis, mas minha vida é feita de momentos reais. O momento com você ontem foi o mais real que tive em anos. Me encontre às 19h no portão lateral do estúdio. Vou enviar um carro. Confie em mim."
O resto do dia passou como um borrão. Maya mal conseguia focar nas instruções do Professor Wang sobre a importância da "presença cênica". Ela já tinha presença cênica demais para o seu gosto naquele momento. Quando o relógio finalmente marcou 18h45, ela se vestiu com uma calça jeans justa que valorizava suas curvas e uma blusa de seda pérola. Ela prendeu apenas a parte superior de seus cabelos com um prendedor de jade que comprara em um mercado local, deixando o restante da cascata escura fluir livremente.
O carro preto com vidros fumê já a esperava. O motorista, um homem de meia-idade com expressão severa, apenas acenou para que ela entrasse. O trajeto até os estúdios de Hengdian foi silencioso, mas a mente de Maya era um turbilhão. Ela estava se apaixonando por uma das maiores estrelas da China, uma brasileira em um mar de tradições e expectativas.
Ao chegar, ela não foi levada para o set principal, mas para um trailer luxuoso estacionado em uma área reservada, cercada por bambus que barravam a visão dos curiosos. A porta se abriu antes mesmo que ela pudesse bater.
Zhang Linghe estava lá, ainda usando o traje de seu personagem, mas sem a peruca longa de época. Seus cabelos naturais estavam levemente bagunçados, e ele parecia exausto, mas seus olhos brilharam ao vê-la.
— Você veio — disse ele, dando um passo para trás para deixá-la entrar. — Peço desculpas pelo sigilo. O mundo lá fora pode ser cruel quando não entende algo tão belo quanto o que aconteceu entre nós.
— Linghe, eu estou assustada — confessou Maya, sua voz falhando levemente. — Eu vim para cá para estudar, para ser como você, uma artista. Eu não quero ser conhecida como "a garota do escândalo".
Linghe aproximou-se, fechando a porta do trailer e eliminando o espaço entre eles. Ele era muito mais alto que ela, e Maya teve que inclinar a cabeça para encontrar seu olhar.
— Você nunca será apenas um escândalo, Maya. Você é a inspiração que eu não sabia que precisava. — Ele pegou uma das mãos dela, entrelaçando seus dedos longos aos dela. — Hoje, durante as filmagens, eu não conseguia parar de pensar na maneira como seus olhos verdes brilham quando você fala do seu país. Eu errei minhas falas três vezes porque você era o único roteiro que eu queria ler.
Maya sentiu o rosto queimar, um calor que se espalhou por todo o seu corpo.
— Você é um mestre com as palavras, Zhang Linghe. É por isso que é um autor e ator tão bom.
— Com você, eu não estou atuando — ele sussurrou, aproximando o rosto do dela. — Maya, eu sei que nos conhecemos há pouco tempo. Eu sei que o mundo dirá que isso é impossível. Mas quando eu te vi naquele set, presa naquele cabo de luz, eu senti que algo em mim, que estava desligado há muito tempo, finalmente acendeu.
— Eu sinto o mesmo — admitiu ela, a honestidade superando o medo. — É como se eu tivesse atravessado o mundo para encontrar alguém que fala uma língua que só o meu coração entende.
Linghe sorriu, aquele sorriso que derretia corações em toda a Ásia, mas que agora era direcionado apenas a ela. Ele levou a mão livre ao rosto de Maya, acariciando sua pele parda com o polegar, maravilhando-se com a textura e o calor.
— Posso? — perguntou ele, sua voz reduzida a um sussurro rouco.
Maya não precisou responder com palavras. Ela se inclinou para frente, e seus lábios finalmente se encontraram. O beijo começou suave, uma exploração tímida de dois mundos colidindo. Tinha gosto de chá de jasmim e de uma promessa silenciosa. Logo, a intensidade aumentou. Linghe a puxou para mais perto pela cintura, sentindo a curva de seu corpo estilo pera contra o seu, enquanto as mãos de Maya se perdiam nos cabelos dele.
O tempo pareceu parar dentro daquele trailer. O barulho do set lá fora, as câmeras, os diretores e os paparazzi desapareceram. Ali, havia apenas um homem e uma mulher, unidos por uma conexão que desafiava a lógica.
Quando se separaram para respirar, Linghe encostou sua testa na dela, seus olhos fechados.
— Eu vou te proteger, Maya. Não importa o que aconteça com a mídia ou com a faculdade. Se você me permitir, eu quero ser o seu porto seguro aqui na China.
— Eu também quero estar com você — disse ela, acariciando o peito dele, por cima da seda do traje histórico. — Mas como faremos? Você é uma estrela. Eu sou apenas uma estudante de intercâmbio.
— Nós seremos discretos, mas não seremos invisíveis — afirmou ele com determinação. — Eu tenho uma ideia. Na próxima semana, haverá um jantar de gala para o lançamento do trailer oficial do drama. Eu quero que você vá. Não como minha acompanhante oficial, mas como uma das estudantes convidadas da Academia.
— Mas todos vão olhar... — Maya começou a protestar.
— Deixe que olhem — interrompeu ele, beijando a ponta do nariz dela. — Deixe que vejam a beleza que o Brasil nos enviou. Eu estarei lá, e mesmo que não possamos dar as mãos na frente das câmeras, meus olhos nunca deixarão os seus. Você confia em mim?
Maya olhou para o homem à sua frente. Ela via o ator famoso, sim, mas via também a alma solitária que buscava algo real em um mundo de aparências.
— Eu confio em você, Linghe.
— Ótimo. — Ele se afastou um pouco, mas ainda mantendo o contato físico. — Agora, me conte mais sobre esse seu cabelo maravilhoso. Como você consegue cuidar de algo tão longo e perfeito enquanto estuda tanto?
Maya riu, a tensão finalmente deixando seus ombros.
— É um segredo brasileiro, Sr. Zhang. Talvez, se você se comportar bem, eu te conte um dia.
— Ah, então eu terei que ser o melhor homem da China para merecer esse segredo? — brincou ele, puxando-a para outro abraço.
Eles passaram o resto da hora conversando sobre coisas triviais, tentando ignorar o fato de que o mundo lá fora logo exigiria a presença dele novamente. Linghe mostrou a ela algumas fotos de sua infância, e Maya mostrou vídeos das praias do Rio de Janeiro e do som do samba, que o deixou fascinado.
— É tão vibrante — comentou ele, observando um vídeo de Maya dançando em uma festa de família antes de viajar. — Você tem uma alegria que é contagiante. Não deixe que a rigidez das nossas aulas ou a pressão da fama apaguem isso em você.
— Eu não vou deixar — prometeu ela. — Especialmente agora que tenho um motivo extra para sorrir.
Uma batida na porta do trailer interrompeu o momento. Era o assistente de Linghe, avisando que o diretor estava pronto para a cena noturna.
— Eu preciso ir — lamentou ele, dando um último beijo rápido em Maya. — O motorista vai te levar de volta com segurança. Me mande uma mensagem quando chegar ao dormitório.
— Eu mandarei. Bom trabalho, Linghe. Brilhe como você sempre faz.
Ele parou na porta e olhou para trás.
— Eu só brilho porque agora tenho o seu reflexo em mim.
Maya saiu do trailer sentindo-se como uma protagonista de um dos dramas que costumava assistir. O caminho de volta para a universidade foi preenchido por planos e sonhos. Ela sabia que os desafios seriam muitos. A diferença cultural, a barreira da língua que ela ainda estava superando, e a vigilância constante sobre a vida de Linghe eram obstáculos gigantescos.
No entanto, ao tocar o pingente de jade que agora parecia ter um novo significado, ela sentiu uma força que nunca soube que possuía. Ela era Maya, uma mulher brasileira, forte e determinada, e não permitiria que o medo a impedisse de viver aquele amor cinematográfico.
Ao chegar no dormitório, Li Wei estava dormindo, mas o celular de Maya vibrou.
— "A cena foi perfeita. Imaginei que estava dizendo aquelas palavras de amor para você, e o diretor disse que foi a minha melhor performance do ano. Durma bem, minha sereia brasileira."
Maya sorriu, deitando-se e espalhando seus cabelos cacheados pelo travesseiro. Ela fechou os olhos e, pela primeira vez desde que chegara à China, sentiu que não era mais uma estrangeira em uma terra distante. Ela estava exatamente onde deveria estar: no centro de sua própria história de amor, onde o roteiro estava sendo escrito em tempo real, com a tinta do destino e o calor de um sentimento que atravessou oceanos.
Nos dias que se seguiram, a rotina na faculdade tornou-se um exercício de paciência. Maya evitava os grupos que fofocavam sobre Linghe, focando intensamente em suas aulas de atuação. Ela usava a emoção que sentia por ele para dar vida aos seus personagens nos ensaios, e o Professor Wang começou a notar sua evolução.
— Você tem algo novo em seus olhos, Maya — disse o professor após uma cena dramática em que ela interpretou uma mulher esperando por um amante que partira para a guerra. — Uma profundidade que não víamos antes. Continue assim.
Ela agradeceu com uma reverência, sabendo que a "profundidade" tinha nome e sobrenome.
Enquanto isso, as trocas de mensagens com Linghe eram constantes. Eles compartilhavam músicas, poemas e pensamentos sobre o futuro. Ele a enviava fotos dos bastidores, e ela o enviava fotos da biblioteca ou das flores que desabrochavam no campus.
A noite da gala de lançamento do trailer estava se aproximando, e com ela, a promessa de um novo capítulo. Maya comprou um tecido de seda em um tom de verde esmeralda profundo, que combinava perfeitamente com seus olhos, e pediu a uma costureira local para fazer um vestido que seguisse o estilo tradicional chinês, o Qipao, mas com um corte que respeitasse e valorizasse suas curvas brasileiras.
Ela sabia que aquela noite seria o teste definitivo. Ela não estaria apenas entrando em um salão de festas; estaria entrando oficialmente no mundo de Zhang Linghe. E enquanto olhava para o espelho, ajeitando seus longos cachos que brilhavam sob a luz do quarto, Maya sentiu que estava pronta.
O intercâmbio na China a ensinara sobre arte, sobre língua e sobre história. Mas o amor de Zhang Linghe a ensinara sobre coragem. E com essa coragem, ela estava pronta para enfrentar as luzes de Xangai, as câmeras do mundo e qualquer desafio que o destino colocasse em seu caminho, desde que, ao final da noite, ela pudesse encontrar o olhar de Linghe e saber que, entre todos os roteiros da China, o dele pertencia a ela.