Flor de cerejeira
O Brilho da Esmeralda e o Silêncio do Destino
A noite do baile de gala no hotel Peninsula, em Xangai, não era apenas um evento de marketing; era o epicentro do entretenimento asiático. Tapetes vermelhos estendiam-se como rios de sangue sob a iluminação ofuscante, e o aroma de flores frescas misturava-se ao perfume caro dos convidados. Maya desceu do táxi a poucos metros da entrada, sentindo o coração martelar contra as costelas. O vestido Qipao de seda esmeralda, ajustado ao seu corpo estilo pera, abraçava suas curvas com uma elegância que atraía olhares imediatos. Seus cabelos cacheados, uma força da natureza que descia até os joelhos, estavam parcialmente presos com grampos de prata, mas a maior parte caía como uma cortina escura e brilhante sobre suas costas.
— Você está deslumbrante, Maya — sussurrou Li Wei, que a acompanhava como parte do grupo de estudantes convidados. — Se alguém dissesse que você é a protagonista do drama, todos acreditariam.
— Eu só quero passar despercebida, Wei — mentiu Maya, embora soubesse que, com aquela aparência, a invisibilidade era um conceito impossível.
Ao entrarem no salão principal, a opulência era quase esmagadora. Lustres de cristal balançavam no teto alto, e as paredes eram adornadas com projeções gigantescas do trailer de *A Promessa do Vento*. E lá estava ele. No centro do salão, cercado por produtores e investidores, Zhang Linghe brilhava. Ele vestia um terno de corte impecável, preto com lapelas de cetim, e seu porte aristocrático parecia comandar o ar ao seu redor.
Maya parou por um momento, hipnotizada. Ele parecia tão distante, uma divindade de celuloide inalcançável. Mas, como se sentisse a presença dela, Linghe girou levemente o corpo. Seus olhos varreram a multidão com uma indiferença polida até que pousaram na figura em verde esmeralda. Por um breve segundo, a máscara de ídolo perfeito vacilou. Suas pupilas dilataram e um brilho de reconhecimento e adoração atravessou seu rosto. Ele não sorriu abertamente — o protocolo não permitia —, mas inclinou a cabeça minimamente, um cumprimento secreto que só ela entenderia.
— Ele viu você — cutucou Li Wei, eufórica. — Ele olhou diretamente para cá!
— Shhh! — pediu Maya, sentindo as bochechas arderem. — Vamos para o buffet, precisamos agir como estudantes normais.
Enquanto circulavam, Maya tentava absorver a técnica dos atores veteranos presentes, mas sua mente estava em Linghe. Ela o via cumprimentar atrizes famosas, sorrir para câmeras e dar entrevistas curtas. Ele era um mestre na arte da etiqueta social. No entanto, o destino tinha seus próprios planos para o roteiro daquela noite.
Cerca de uma hora depois, quando a música de fundo tornou-se mais suave, Maya sentiu uma mão tocar levemente seu cotovelo. Era um dos assistentes pessoais de Linghe, um homem que ela reconheceu do set de filmagem.
— Senhorita Maya? — perguntou ele em um tom baixo. — O Sr. Zhang gostaria que você conhecesse a diretora de elenco, a Sra. Chen. Ela está no terraço privado. É uma oportunidade acadêmica única.
Maya hesitou, sabendo que "oportunidade acadêmica" era o código para um encontro privado.
— Claro — respondeu ela, tentando manter a voz firme. — Eu adoraria.
Ela seguiu o assistente por um corredor lateral, longe dos flashes dos fotógrafos, até chegar a uma varanda ampla que dava vista para o Rio Huangpu. O vento frio da noite de Xangai agitou seus cabelos, e o silêncio ali fora era um alívio após o barulho do salão. No entanto, não havia nenhuma Sra. Chen à vista. Apenas uma silhueta alta e solitária, apoiada no parapeito de mármore.
— A diretora de elenco é muito pontual, ou ela é invisível? — brincou Maya, aproximando-se.
Linghe virou-se, e o sorriso que ele deu foi capaz de aquecer o ar gelado ao redor deles.
— Ela teve um imprevisto de última hora — disse ele, caminhando em direção a ela. — Mas eu achei que o protagonista do drama poderia substituí-la à altura.
— Você corre riscos vindo aqui, Linghe — disse ela, embora seus pés a levassem para mais perto dele. — Se alguém nos vir...
— Deixe que vejam — interrompeu ele, pegando as mãos de Maya. — Você está a coisa mais linda que já vi em toda a minha vida. Esse verde... ele faz seus olhos parecerem florestas onde eu adoraria me perder.
— E você — retrucou Maya, perdendo o fôlego quando ele puxou sua mão para os lábios dele —, parece que saiu diretamente de um sonho. Eu tive medo de me aproximar lá embaixo. Você parecia tão... inalcançável.
— Nunca diga isso — pediu ele, a voz carregada de uma seriedade intensa. — Para o mundo, eu posso ser o Zhang Linghe. Mas para você, eu sou apenas o homem que conta os minutos para receber uma mensagem no WeChat.
Ele soltou as mãos dela e, com uma delicadeza quase reverente, tocou os fios de cabelo que o vento soprava sobre o rosto de Maya.
— Eu vi como os outros homens olhavam para você lá embaixo — comentou ele, um traço de ciúme possessivo cruzando seu olhar. — Eu queria gritar para todos que você é a minha inspiração, a razão pela qual minhas cenas de amor agora têm verdade.
— Linghe... — sussurrou ela, inclinando-se para o toque dele. — Eu sou apenas uma estudante. O que acontece quando o intercâmbio acabar? O que acontece quando as luzes deste drama se apagarem?
Linghe silenciou-a colocando um dedo sobre os lábios dela.
— Não escreva o final antes de vivermos o clímax, Maya. No Brasil, vocês não dizem que o amor supera tudo?
— Dizemos. Mas a realidade às vezes é mais dura que a ficção.
— Então faremos da nossa realidade a mais bela das ficções — afirmou ele.
Ele a puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto na curva do pescoço dela, aspirando o perfume de baunilha e flores tropicais que ela sempre usava. Maya sentiu a força dos braços dele e a batida acelerada de seu coração contra o peito dela. Naquele momento, no topo de Xangai, não havia câmeras, não havia barreiras culturais, apenas o encontro de duas almas que haviam cruzado o globo para se encontrar.
— Eu tenho um presente para você — disse ele, afastando-se o suficiente para tirar uma pequena caixa de veludo do bolso interno do terno.
Ao abrir, Maya viu um colar de ouro fino com um pingente em forma de uma pequena folha de bordo, feita de jade pura.
— Na nossa cultura, o jade representa pureza e eternidade — explicou ele. — E a folha de bordo é o símbolo da nossa série. Mas para mim, representa o dia em que te vi sob aquela árvore no set. Quero que você o use sempre. Para que, mesmo quando estivermos longe, você saiba que uma parte de mim está protegendo você.
— É lindo, Linghe — disse ela, as lágrimas brilhando em seus olhos verdes. — Mas eu não tenho nada para te dar em troca... nada que se compare a isso.
— Você já me deu tudo quando decidiu não ir embora naquele dia no estúdio — respondeu ele, pegando o colar e colocando-o delicadamente no pescoço dela. Seus dedos roçaram a pele da nuca de Maya, enviando arrepios por toda a sua espinha.
Eles ficaram ali, em silêncio, observando as luzes de Pudong refletidas na água. O momento era de uma paz absoluta, até que o som de passos apressados ecoou no corredor.
— Linghe! O produtor está te procurando para o brinde final! — era a voz de sua agente, soando urgente.
— Eu preciso ir — sussurrou ele, dando um beijo casto na testa de Maya. — Fique aqui por mais cinco minutos. Saia pela outra porta. Eu te ligo assim que chegar em casa.
— Vá — disse ela, sorrindo com ternura. — O mundo está esperando pelo seu herói.
Ele deu um último olhar para ela, um olhar que prometia mil noites como aquela, e desapareceu nas sombras do corredor.
Maya permaneceu na varanda, tocando o pingente de jade gelado contra sua pele quente. Ela olhou para o céu de Xangai, onde as estrelas eram ofuscadas pelo brilho da cidade, e sentiu uma certeza avassaladora. O caminho à frente seria difícil. Haveria tabloides, haveria julgamentos, e talvez a pressão de dois mundos diferentes tentando separá-los. Mas enquanto Zhang Linghe a olhasse daquela forma, como se ela fosse a única cor em um mundo em preto e branco, ela enfrentaria qualquer tempestade.
Ao voltar para o salão, ela viu Linghe no palco, segurando uma taça de champanhe, fazendo um discurso sobre paixão e dedicação à arte. Ele parecia o ídolo perfeito novamente, mas quando seus olhos encontraram os dela por um breve milésimo de segundo, Maya viu o homem que acabara de lhe dar seu coração em uma varanda silenciosa.
— Maya, onde você estava? — perguntou Li Wei, aproximando-se com uma expressão curiosa. — Você perdeu o trailer! Foi incrível!
— Eu estava apenas... respirando um pouco de ar fresco — respondeu Maya, com um sorriso enigmático que iluminou todo o seu rosto.
— Você está diferente — observou a amiga, estreitando os olhos. — Parece que você acabou de ganhar o papel principal da sua vida.
Maya riu, uma risada clara e vibrante que atraiu a atenção de alguns convidados próximos.
— Talvez eu tenha ganhado, Wei. Talvez eu tenha ganhado.
Naquela noite, ao deitar-se em sua cama estreita no dormitório, Maya não conseguia parar de pensar nas palavras de Linghe. "Vamos escrever nossa própria história". Ela pegou seu caderno de anotações, aquele que trouxera do Brasil, e escreveu na primeira página em branco: *A Promessa de Xangai*.
O intercâmbio estava longe de terminar, e as aulas de atuação continuariam exigindo seu máximo. Mas agora, cada palavra que ela decorava, cada gesto que ensaiava, tinha um novo propósito. Ela não estava apenas estudando para ser uma atriz; ela estava aprendendo a ser a co-protagonista de uma realidade que superava qualquer dorama que a China já tivesse produzido.
Enquanto o sono a envolvia, seu celular vibrou na mesa de cabeceira.
— "Você estava mais brilhante que qualquer luz de Xangai hoje. Sonhe comigo, minha esmeralda."
Maya fechou os olhos, o sorriso ainda brincando em seus lábios, enquanto o aroma amadeirado de Linghe parecia flutuar em seus sonhos, prometendo que, independentemente do que o amanhã trouxesse, aquela história de amor estava apenas começando seu primeiro ato. E ela mal podia esperar pelas próximas cenas.