Forbidden love
O Brilho do Vidro e o Peso do Sangue
O sol de Bangkok filtrava-se pelas persianas automatizadas da cobertura, criando padrões lineares de luz e sombra sobre os lençóis de cetim. Quando Sonya estendeu a mão, tateando o lado esquerdo da cama king-size, encontrou apenas o vazio frio. Onde deveria estar o corpo firme e a presença silenciosa de Lookmhee, havia apenas um bilhete curto escrito em um papel de gramatura cara, com uma caligrafia impecável e angulada.
"Preciso resolver as pendências burocráticas sobre o espólio dos Pedersen. Volto antes do almoço. Não saia da zona de segurança. — L."
Sonya amassou o papel com uma irritação crescente. "Pendências burocráticas". Ela sabia o que aquilo significava no vocabulário de Lookmhee Punyapat. Para o mundo exterior, Lookmhee era uma advogada de prestígio, especializada em casos corporativos complexos e sucessões de heranças; uma fachada perfeita para circular entre a elite. Mas Sonya conhecia a verdade sob o terno de corte italiano. Lookmhee provavelmente estava "convencendo" os antigos associados de seu pai a desistirem de reivindicar as propriedades da família Pedersen. E esse convencimento, Sonya sabia, geralmente envolvia o brilho de uma lâmina ou o silenciador de uma pistola.
A jovem herdeira sentou-se na cama, os cabelos castanhos ondulados caindo bagunçados sobre os ombros. Ela se sentia sufocada. A proteção de Lookmhee era um abraço de veludo, mas ainda assim, era uma cela. O ódio que ela jurara manter vivo parecia mais difícil de alimentar quando a assassina de seus pais a tratava como a joia mais preciosa de sua coleção.
Duas horas depois, a porta blindada da cobertura se abriu com um clique eletrônico suave. Lookmhee entrou, retirando o paletó cinza-chumbo. Ela parecia impecável, nem um fio de cabelo fora do lugar, mas o olhar observador de Sonya notou uma pequena mancha escura, quase imperceptível, no punho da camisa branca. Sangue.
— Você demorou — disse Sonya, cruzando os braços enquanto permanecia parada no meio da sala.
Lookmhee parou e fixou seus olhos pretos em Sonya. A frieza lógica que ela usava no trabalho derreteu-se instantaneamente, substituída por aquela obsessão mansa que só Sonya conseguia despertar.
— Os advogados da oposição foram... persistentes — respondeu Lookmhee, caminhando em direção a ela. — Mas o assunto está encerrado. Seus bens agora estão protegidos por uma rede de empresas de fachada. Ninguém tocará no que é seu por direito.
— Eu não me importo com o dinheiro, Lookmhee. Eu me importo em ficar trancada aqui enquanto você se diverte sendo o monstro que você é — rebateu Sonya, a voz carregada de um sarcasmo defensivo.
Lookmhee parou a poucos centímetros de distância. Ela odiava ser tocada por outros, mas com Sonya, seu corpo parecia buscar o contato como um ímã. Ela estendeu a mão e acariciou a bochecha de Sonya, os dedos frios enviando arrepios pela espinha da mais nova.
— Você está entediada — constatou a assassina, com uma calma profunda. — Peço desculpas. Como posso compensar minha pequena herdeira?
Sonya inclinou o rosto para o toque, odiando-se por gostar daquilo.
— Quero sair. Quero ir ao shopping. Quero ver pessoas, comprar coisas inúteis e fingir que o mundo não desmoronou há alguns meses.
Lookmhee hesitou por um segundo. O mundo lá fora era perigoso. Havia olhos em todos os lugares. Mas ela nunca conseguia dizer não a Sonya, especialmente quando a garota a olhava com aquele misto de raiva e carência.
— Prepare-se — disse Lookmhee. — Vamos ao Siam Paragon. Mas você não sairá do meu lado nem por um segundo.
O shopping estava lotado, um mar de rostos anônimos e luzes artificiais. Para Sonya, que sofria de uma leve fobia social desde o trauma, o barulho das multidões era um estímulo agressivo, mas a presença de Lookmhee ao seu lado funcionava como uma âncora. A assassina caminhava com uma elegância predatória, uma mão possessiva pousada na base das costas de Sonya, guiando-a através do fluxo de pessoas.
Lookmhee era uma visão de maturidade e poder. Vestindo uma calça de alfaiataria e uma blusa de seda escura, ela exalava uma aura que fazia as pessoas abrirem caminho sem que ela precisasse dizer uma palavra.
— Aquela bolsa — apontou Sonya, parando em frente à vitrine da Saint Laurent.
— Leve-a — respondeu Lookmhee, sem sequer olhar para o preço.
— E aqueles sapatos. E aquele vestido de seda.
— Compre tudo o que quiser, Sonya. Meu dinheiro é apenas papel se não servir para adornar você.
A cada loja que entravam, Lookmhee observava Sonya com um olhar clínico e devoto. Ela não se importava com as sacolas ou com os valores astronômicos. O que a fascinava era a centelha de vida nos olhos de Sonya, a forma como a garota provocava os vendedores e como sua postura se tornava mais altiva a cada compra. Lookmhee sabia que Sonya estava tentando preencher um vazio com consumo, e ela estava mais do que feliz em ser a provedora desse abismo.
Após algumas horas, elas pararam na praça de alimentação de luxo para tomar um matcha. Sonya sentou-se, sentindo o cansaço começar a pesar. A agitação do shopping estava começando a disparar sua ansiedade. Seus dedos começaram a tamborilar nervosamente na mesa de mármore.
— Respire — murmurou Lookmhee, sentando-se à frente dela. — Eu estou aqui. Ninguém vai tocar em você.
— É muita gente, Lookmhee. Sinto que todos estão olhando — sussurrou Sonya, os olhos baixos.
— Deixe que olhem. Eles olham porque você é radiante. E porque eu sou o monstro que eles gostariam de ter a coragem de ser.
Enquanto Lookmhee se levantava para buscar os pedidos, um grupo de garotas na casa dos vinte anos, sentadas em uma mesa próxima, começou a cochichar. Elas observavam Lookmhee com um interesse evidente. A assassina, com seus 1,75m, cabelo preto liso e aura de mistério, era o tipo de mulher que dominava qualquer ambiente.
Uma das garotas, a mais audaciosa do grupo, levantou-se e caminhou até Lookmhee enquanto ela esperava pelo matcha no balcão.
— Com licença — disse a garota, com um sorriso treinado e um tom de voz flertante. — Eu não pude deixar de notar você. Você é modelo ou algo assim? Meu nome é May, e eu adoraria te pagar um drink em um lugar mais... privado.
Lookmhee nem sequer virou o rosto para olhar para a garota. Seus olhos permaneciam fixos no atendente que preparava o chá.
— Você está no meu caminho — disse Lookmhee, a voz tão fria que a garota pareceu estremecer fisicamente.
Sonya, observando a cena de longe, sentiu uma onda de ciúmes possessivo que a surpreendeu. Ela se levantou, ignorando sua fobia social por um momento, e caminhou até elas. Ela passou o braço pela cintura de Lookmhee, colando seus corpos, e olhou para a intrusa com um desprezo que só uma Pedersen sabia projetar.
— Ela está acompanhada — disse Sonya, a voz firme e provocadora. — E nós não aceitamos convites de estranhas. Especialmente quando estamos em um encontro.
A garota, May, olhou de Sonya para Lookmhee, notando a diferença de idade e a clara tensão entre as duas.
— Ah, entendi. Desculpe. Eu não sabia que você estava com sua... — ela hesitou, procurando a palavra — ...namorada.
— Sim, namorada — confirmou Lookmhee, finalmente desviando o olhar para a garota. — E se eu fosse você, voltaria para sua mesa antes que eu decida que seu interesse foi uma ofensa pessoal.
A garota recuou rapidamente, sentindo o perigo real que emanava daquela mulher mais velha. Quando voltaram para a mesa, o clima havia mudado. Sonya ainda mantinha a mão na cintura de Lookmhee, uma demonstração de posse que a assassina secretamente celebrava.
— Namorada, é? — provocou Lookmhee, um meio sorriso brincando em seus lábios enquanto entregava o matcha para Sonya. — Achei que você estivesse planejando me matar, não me assumir em público.
Sonya sentiu o rosto esquentar, mas não recuou.
— Eu ainda vou matar você. Mas até lá, ninguém mais tem o direito de flertar com o que é meu. Você mesma disse, não foi? Que eu sou sua. Pois bem, a recíproca é verdadeira.
Lookmhee sentiu um calor incomum no peito. A lógica dizia que Sonya era apenas uma sobrevivente sob seu controle, mas seu coração — aquela parte seca e esquecida de sua alma — batia descompassado.
No entanto, o momento de intimidade foi interrompido pelo ambiente ao redor. Algumas pessoas nas mesas próximas começaram a olhar torto. O contraste entre a aparência madura e letal de Lookmhee e a juventude vibrante de Sonya, somado à cena possessiva que acabaram de presenciar, gerava sussurros maldosos.
— Veja como aquela mulher olha para a menina... parece um animal — sussurrou uma senhora em uma mesa lateral para seu marido.
— É indecente — respondeu o homem, ajustando os óculos enquanto encarava Lookmhee com julgamento.
Sonya encolheu os ombros, a ansiedade voltando com força total. Os olhares eram como agulhas em sua pele. Ela começou a respirar de forma ofegante, a fobia social nublando seus sentidos.
— Lookmhee... eu quero ir embora. Agora — pediu Sonya, a voz trêmula.
Lookmhee mudou instantaneamente. A suavidade que ela reservava para Sonya desapareceu, dando lugar à frieza da "Monstra Punyapat". Ela estendeu a mão e envolveu a nuca de Sonya com firmeza, mas com carinho, forçando a garota a olhar em seus olhos.
— Olhe para mim, Sonya. Só para mim — ordenou Lookmhee, sua voz um comando calmo. — O resto deles não existe. Eles são apenas fantasmas.
Sonya focou na escuridão profunda dos olhos de Lookmhee. Ali, ela encontrou uma segurança distorcida. O mundo ao redor desapareceu, restando apenas o cheiro de matcha e o perfume amadeirado da mulher à sua frente.
— Respire comigo — disse Lookmhee.
Aos poucos, o batimento cardíaco de Sonya desacelerou. Ela assentiu, sentindo-se protegida pelo muro de gelo que Lookmhee construía ao redor delas.
— Vamos embora — disse Lookmhee, levantando-se.
Enquanto caminhavam em direção à saída, Lookmhee não olhou para os lados, mas seu cérebro, treinado para a execução, trabalhava em alta velocidade. Ela gravou o rosto da senhora que chamara a situação de indecente. Gravou o rosto do marido dela. Gravou a placa do carro de um homem dois corredores atrás que dera um sorriso lascivo para Sonya.
Para o mundo, Lookmhee era apenas uma mulher elegante saindo de um shopping com muitas sacolas. Mas em sua mente, ela já estava traçando rotas. Ela sabia onde aquelas pessoas moravam por seus relógios, suas roupas e o tempo que levariam para chegar aos seus veículos.
Ninguém olhava para Sonya Pedersen com julgamento e saía impune. Ninguém causava desconforto à sua obsessão sem pagar um preço de sangue.
— Você está bem? — perguntou Lookmhee enquanto entravam no elevador do estacionamento privativo.
— Vou ficar — respondeu Sonya, encostando a cabeça no ombro de Lookmhee. — Só... obrigada por me tirar de lá.
Lookmhee a abraçou de lado, beijando o topo de sua cabeça.
— Eu sempre vou tirar você de qualquer lugar que te faça mal, Sonya.
Ao chegarem ao carro esportivo de Lookmhee, uma Ferrari preta fosca, a assassina abriu a porta para Sonya com a deferência de um cavaleiro sombrio. Antes de entrar no lado do motorista, ela enviou uma mensagem rápida de seu celular criptografado.
"Localização: Siam Paragon. Três alvos. Identificação visual enviada. Quero que eles saibam por que estão morrendo antes do fim. Lenta e dolorosamente."
Ela guardou o aparelho e entrou no carro. Ao olhar para Sonya, viu a garota observando a paisagem de Bangkok através do vidro escurecido, parecendo exausta, mas segura.
— O que você está pensando? — perguntou Lookmhee, ligando o motor que rugiu como uma fera faminta.
Sonya virou-se para ela, um sorriso triste e complexo nos lábios.
— Estou pensando que você é a pior coisa que já me aconteceu. E que, por algum motivo doentio, eu não consigo mais imaginar minha vida sem esse matcha amargo que você me serve todos os dias.
Lookmhee acelerou, saindo do estacionamento e ganhando as ruas da cidade.
— O amargo é o que dá valor ao doce, Sonya. E nós temos todo o tempo do mundo para descobrir todos os sabores que existem entre o ódio e o que quer que estejamos construindo aqui.
Enquanto o carro cortava a noite, Lookmhee já visualizava a lâmina que usaria mais tarde. O amor dela por Sonya era carinhoso e protetor, mas o mundo precisava ser lembrado, de tempos em tempos, que o monstro ainda estava bem acordado, vigiando o sono de sua princesa de vidro. E naquela noite, o sangue de estranhos seria o sacrifício oferecido no altar daquela paixão perigosa.