Forbidden love
O Sacrifício das Sombras e o Altar da Pele
Sonya acordou com a respiração errática, o peito subindo e descendo em uma cadência de pânico e prazer. O lençol de seda estava emaranhado em suas pernas, úmido de suor, e a pele de suas coxas ainda formigava com a memória fantasmagórica de um toque que não estava lá. No sonho, o mundo era feito de escuridão e texturas. Ela estava vendada, o cetim negro pressionando suas pálpebras, enquanto as mãos de Lookmhee — aquelas mãos que sabiam exatamente onde apertar para tirar uma vida — a percorriam com uma reverência quase religiosa. No sonho, a assassina não era um monstro, mas uma devota, e Sonya era seu único altar.
— Maldição... — sussurrou Sonya, cobrindo o rosto com as mãos.
Era errado. Era doentio desejar a mulher que havia transformado seu sobrenome em um obituário. Mas, enquanto o sol de Bangkok tentava penetrar as cortinas pesadas, Sonya não conseguia afastar a sensação da boca de Lookmhee em seu pescoço, ou a maturidade daquela voz rouca prometendo-lhe o mundo em troca de sua submissão voluntária.
Ela se levantou e caminhou até a cozinha, esperando encontrar o café da manhã impecável e o matcha perfeitamente batido. No entanto, a atmosfera na cobertura estava carregada. Lookmhee estava de pé junto à imensa janela de vidro, o celular pressionado contra a orelha. Ela ainda vestia a camisa social da noite anterior, mas as mangas estavam dobradas, revelando os antebraços tensos.
— Eu não me importo com as perdas marginais, Sakda! — a voz de Lookmhee chicoteou pelo ar, fria e cortante como uma navalha. — O acordo deveria ter sido assinado à meia-noite. Se os papéis não estiverem na minha mesa em duas horas, eu mesma irei até o seu escritório e não usarei uma caneta para resolver isso.
Sonya parou no umbral da porta, observando a rigidez nos ombros da mulher mais velha. Lookmhee parecia emanar uma aura de violência contida que faria qualquer homem feito tremer.
— Bom dia para você também — disse Sonya, tentando usar seu tom sarcástico habitual para dissipar a tensão.
Lookmhee virou-se bruscamente. Seus olhos pretos, geralmente suaves quando pousavam em Sonya, estavam injetados e distantes, perdidos em cálculos de poder e retaliação.
— Agora não, Sonya — respondeu Lookmhee, o tom de voz mais firme e ríspido do que jamais usara com a garota. — Vá para o quarto ou tome seu chá em silêncio. Estou ocupada.
O impacto das palavras foi como um tapa físico. Sonya estancou, o orgulho Pedersen inflamando instantaneamente. Ninguém falava assim com ela. Nem mesmo a mulher que a mantinha em uma gaiola de ouro.
— Como é? — Sonya semicerrou os olhos, a voz subindo uma oitava. — Você me mantém trancada aqui como um animal de estimação e agora decide que eu sou um estorvo?
Lookmhee suspirou, uma expressão de pura irritação cruzando seu rosto pálido. Ela desligou o celular com força e deu um passo à frente, invadindo o espaço de Sonya com uma agressividade que não era física, mas psicológica.
— Eu disse para ficar quieta, Sonya! — Lookmhee rosnou, a voz vibrando de estresse. — Há vidas em jogo e milhões de dólares desaparecendo porque um idiota decidiu brincar de ser esperto. Eu não tenho tempo para suas crises de atenção agora. Saia da minha frente.
Sonya sentiu as lágrimas de raiva picarem seus olhos, mas ela se recusou a deixá-las cair. Sem dizer uma palavra, ela deu meia-volta e caminhou em direção ao seu quarto, batendo a porta com tanta força que o som ecoou por toda a cobertura de luxo.
O resto do dia foi um exercício de silêncio absoluto. Sonya se trancou. Ela ignorou as batidas na porta ao meio-dia. Ignorou o cheiro de comida tailandesa fresca que Lookmhee provavelmente pedira para tentar se redimir. Ela passou as horas deitada, alimentando o ódio que deveria sentir o tempo todo, mas que agora parecia apenas uma ferida aberta pela rejeição.
Por volta das seis da tarde, a porta do quarto se abriu silenciosamente. Lookmhee entrou, tendo trocado de roupa por algo mais casual, mas seu rosto carregava uma derrota que Sonya nunca vira. A assassina infalível parecia... vulnerável.
— Sonya? — chamou Lookmhee, a voz agora suave, quase suplicante.
Sonya, sentada na poltrona perto da janela, continuou olhando para o horizonte de prédios, ignorando a presença da outra.
— Sonya, por favor. Eu perdi o controle. O negócio... foi estressante, mas isso não é desculpa.
Silêncio.
— Eu sinto muito — continuou Lookmhee, aproximando-se. — Eu nunca deveria ter falado com você daquela forma. Você é a única coisa que me mantém sã neste mundo de m*rda. Por favor, olhe para mim.
Sonya virou o rosto apenas o suficiente para que Lookmhee visse o desprezo em seus olhos castanhos.
— Você acha que pode me tratar como lixo e depois vir aqui com esse tom de voz e tudo ficará bem? — Sonya riu, um som seco e sem humor. — Você é apenas uma assassina, Lookmhee. No fundo, você é exatamente o que dizem: um monstro sem sentimentos.
Aquelas palavras pareceram atingir Lookmhee mais do que qualquer bala. A mulher de 36 anos, que não se curvava para máfias ou governos, caiu de joelhos no tapete felpudo, bem na frente de Sonya. Ela pegou as mãos da garota, apertando-as contra o próprio rosto.
— Eu imploro pelo seu perdão — sussurrou Lookmhee, os olhos fechados. — Eu farei qualquer coisa. Peça o que quiser. Mate-me se isso aliviar sua raiva, mas não me ignore. O seu silêncio é a única coisa que eu não consigo suportar.
Sonya observou a cena com o coração batendo forte. A visão da poderosa Lookmhee Punyapat, de joelhos, implorando por sua atenção, era inebriante. Era o poder que Sonya desejava, mas também era algo mais profundo. Era a prova de que Lookmhee estava totalmente, irremediavelmente, em suas mãos.
— Qualquer coisa? — perguntou Sonya, inclinando-se para frente, os dedos acariciando o cabelo preto de Lookmhee.
— Qualquer coisa — reafirmou a assassina, olhando para cima com uma devoção que beirava a loucura.
— Quero que você tire a camisa — ordenou Sonya. — Quero ver tudo. Quero tocar em cada cicatriz que você tem. Quero conhecer o mapa da violência que fez de você quem você é.
Lookmhee hesitou por uma fração de segundo. Suas cicatrizes eram seus segredos mais sombrios, marcas de fraquezas passadas e de sobrevivências brutais. Ela odiava toques físicos de estranhos, e mostrar seu corpo marcado era como entregar sua armadura. Mas, para Sonya, ela entregaria até sua alma.
Sem dizer uma palavra, Lookmhee levantou-se e desabotoou a blusa de linho preto, deixando-a escorregar pelos ombros.
Sob a luz suave do entardecer, o corpo de Lookmhee era uma obra de arte trágica. Havia marcas de balas no abdômen, cicatrizes longas e finas de lâminas nas costas e nos braços, e marcas de queimaduras antigas perto da clavícula. Cada uma contava uma história de dor.
Sonya levantou-se e aproximou-se, os dedos trêmulos. Ela tocou uma cicatriz irregular perto das costelas de Lookmhee.
— Esta... — murmurou Sonya.
— Um contrato em Macau, doze anos atrás — respondeu Lookmhee, a voz baixa. — Eu fui descuidada.
Sonya inclinou-se e pressionou os lábios contra a marca. Lookmhee soltou um suspiro trêmulo, seus músculos retesando-se sob o toque. Sonya continuou, beijando cada cicatriz, subindo pelos braços, contornando as marcas de faca nas costas, tratando cada ferida antiga como se fosse algo sagrado.
— Por que está fazendo isso? — perguntou Lookmhee, a voz embargada.
— Porque hoje de manhã eu tive um sonho — confessou Sonya, sua boca agora perigosamente perto do ouvido de Lookmhee. — No sonho, eu estava vendada e você me tocava. Você me tratava como se eu fosse sua única religião. E eu acordei querendo saber se a mulher real, com todas essas marcas e pecados, era capaz de ser tão devota quanto a mulher do meu sonho.
Sonya recuou um pouco, segurando o queixo de Lookmhee, forçando-a a encarar a intensidade de seu desejo.
— Diga-me, Lookmhee... — provocou Sonya com um sorriso sarcástico e sensual. — Você é capaz de realizar o desejo de uma garota de 24 anos? Ou sua maturidade e seus carros esportivos são apenas uma fachada para alguém que não sabe o que fazer com uma mulher que não tem medo de você?
Lookmhee envolveu a cintura de Sonya com os braços, puxando-a para perto até que não houvesse mais espaço entre elas. O calor que emanava da pele de Lookmhee era avassalador.
— Você não tem ideia do que eu sou capaz de fazer por você, Sonya Pedersen — disse Lookmhee, os olhos brilhando com uma chama possessiva e faminta. — Eu posso realizar cada detalhe do seu sonho, e posso te dar pesadelos tão doces que você nunca mais vai querer acordar.
Sonya sentiu um arrepio de antecipação. Ela sabia que estava brincando com fogo, que Lookmhee era um abismo e que ela estava saltando de cabeça.
— Então me mostre — desafiou Sonya, sua mão descendo pelo peito marcado da assassina. — Prove que você é minha, assim como diz que eu sou sua.
Lookmhee não precisou de outro convite. Ela ergueu Sonya nos braços com uma facilidade impressionante, levando-a em direção à cama. Naquela noite, o ódio foi deixado na porta, e o amor perigoso e obsessivo que as unia consumiu o que restava de suas defesas. Sonya percebeu que, embora Lookmhee fosse mais velha e experiente, era ela, a jovem herdeira, quem detinha o controle absoluto sobre o coração do monstro. E Lookmhee, em sua submissão carinhosa e possessiva, descobriu que não havia missão no mundo mais importante do que adorar a mulher que ousara enfrentá-la.