Foryou
O Labirinto de Vidro e Cinzas
As semanas que se seguiram àquela noite na propriedade de campo foram marcadas por uma rotina clandestina e febril. Para o mundo, Jhemini Black continuava sendo a sobrinha brilhante e independente, focada em seus estudos e em sua carreira acadêmica. Para Richard, ela era o centro de uma obsessão que ele não conseguia — e não queria — controlar.
Eles criaram um código próprio, uma linguagem de olhares em jantares de família e mensagens curtas que incendiavam o celular de Jhe nas horas mais impróprias. Jhe aprendera rapidamente como desestabilizar a fachada gélida do homem mais poderoso de Nova York. Ela descobriu que, embora ele exigisse ser o mestre da situação, havia algo que o fazia perder o fôlego: o uso deliberado do parentesco deles como uma arma de provocação.
Entretanto, sob a superfície daquela paixão avassaladora, uma fissura silenciosa crescia no peito de Jhemini. Richard era uma força da natureza, um predador que a reivindicava com a fúria de quem marca um território, mas ele nunca falava sobre o amanhã. Suas palavras eram ordens, seus toques eram possessão pura, e seu silêncio sobre o futuro era ensurdecedor. Para Jhemini, inteligente e analítica, a conclusão era óbvia: ela era um vício, um segredo perigoso que ele guardaria em uma caixa de veludo até que o brilho se apagasse ou o risco de um escândalo se tornasse insuportável.
Ela vivia cada encontro como se fosse o último, agindo com uma desprendimento que começava a irritar a natureza controladora de Richard.
Naquela noite, o cenário era a cobertura de Richard em Manhattan. O vidro das janelas do chão ao teto refletia as luzes da cidade, mas o ambiente interno era envolto em uma penumbra luxuosa. Jhemini estava sentada no parapeito interno, observando o tráfego lá embaixo, vestindo apenas uma das camisas de seda dele.
— Você está distante hoje — a voz de Richard ressoou, profunda e carregada, vindo de trás dela. — O que está ocupando essa mente brilhante que eu não autorizei?
Jhemini deu um sorriso enigmático, sem se virar.
— Estou apenas pensando no meu estágio para o próximo semestre em Londres, Richard. É uma oportunidade incrível para a minha carreira.
O silêncio que se seguiu foi gélido. Ela sentiu a aproximação dele, o calor do corpo dele irradiando contra suas costas antes mesmo de ele tocá-la. Richard segurou sua cintura com uma firmeza que beirava a dor, obrigando-a a descer do parapeito e encará-lo.
— Londres? — Ele arqueou uma sobrancelha, os olhos escuros brilhando com uma irritação perigosa. — Você não vai para Londres. Eu já disse que você ficará na sede da Black Enterprises em Nova York sob minha supervisão.
— Você disse, Richard, mas eu nunca concordei — rebateu ela, sustentando o olhar dele com uma persistência que sempre o desarmava. — Londres é longe. É independente. E, sejamos honestos, é o lugar perfeito para quando este... "caso" terminar.
Richard travou o maxilar. A palavra "caso" pareceu chicoteá-lo.
— Caso? É assim que você chama o que temos?
— O que mais seria? — Jhemini deu de ombros, forçando uma indiferença que dilacerava seu coração. — Nós nos escondemos, Richard. Nós quebramos todas as regras morais da família. Você me possui como se eu fosse um objeto valioso, mas nunca disse que há um lugar para mim na sua vida pública. Você nunca disse que quer que isso seja algo além de uma obsessão de pele.
Richard a prensou contra o vidro frio. A mão dele subiu para o pescoço dela, não para apertar, mas para forçar uma intimidade absoluta.
— Você é uma Black, Jhemini. Você sabe como o mundo funciona.
— Eu sei como o seu mundo funciona — corrigiu ela, sentindo as lágrimas queimarem, mas recusando-se a deixá-las cair. — Você me quer por perto para satisfazer seu desejo de controle. Mas eu sou inteligente o suficiente para saber que, quando o vovô começar a pressionar por um herdeiro legítimo ou quando o conselho exigir uma esposa adequada, eu serei apenas a sobrinha que passou uma temporada na sua cobertura. Estou apenas me preparando para o fim inevitável.
— Não há fim — rosnou ele, o rosto a centímetros do dela. — Eu não permito que haja um fim.
— Você não é dono do tempo, Richard. Nem dos meus sentimentos — ela sussurrou. — Se você não pode me dar nada além de sombras, não pode reclamar quando eu decidir buscar a luz em outro lugar.
Richard sentiu uma pontada de algo que ele não experimentava há décadas: medo. O medo de que aquela criatura vibrante, inteligente e gentil pudesse realmente caminhar para longe dele. Ele sempre acreditou que a possessão era a forma mais alta de amor, que mantê-la sob sua asa, cercada de luxo e desejo, era o suficiente. Mas os olhos de Jhemini, agora carregados de uma tristeza resignada, diziam o contrário.
— Você acha que eu faço isso por diversão? — Ele soltou a cintura dela, começando a andar pelo quarto como um animal enjaulado. — Você tem ideia do que eu enfrento todos os dias para garantir que ninguém desconfie de nós? Eu protejo você, Jhemini. Protejo sua reputação, sua carreira, sua vida.
— Você protege a sua imagem, Richard — retrucou ela. — Se você me amasse... se fôssemos algo real... você não se importaria com as cinzas que restariam se o mundo soubesse. Mas você prefere o labirinto de vidro. É bonito, é caro, mas ainda é uma prisão.
Richard parou diante dela. A arrogância habitual estava lá, mas havia algo novo em seu olhar, uma vulnerabilidade que ele tentava sufocar.
— Eu nunca disse que a amava porque as palavras são baratas para homens como eu — ele disse, a voz subitamente baixa e rouca. — Mas eu movi montanhas para que você tivesse tudo. Eu afastei pretendentes, eu manipulei o conselho, eu transformei minha vida em um altar para você.
— Um altar escondido no porão, Richard — ela deu um passo à frente, tocando o peito dele, sentindo o coração acelerado sob a camisa cara. — Eu não quero ser sua possessão. Eu quero ser sua parceira. E se você não pode me assumir diante daqueles hipócritas que chamamos de família, então deixe-me ir para Londres. Deixe-me viver enquanto ainda tenho idade para isso.
Richard segurou a mão dela contra seu peito, apertando-a com força.
— Você não vai a lugar nenhum.
— Então me dê uma razão para ficar — desafiou ela. — Uma razão que não envolva sexo ou o nome da nossa família.
Richard a puxou para um beijo desesperado, um beijo que carregava toda a frustração e o desejo reprimido de semanas. Jhemini respondeu, porque seu corpo era traidor e sua alma estava ligada à dele por fios invisíveis de gelo e fogo. Ele a levantou, sentando-a na mesa de carvalho, afastando os papéis da empresa como se fossem lixo.
— Você quer uma razão? — Ele perguntou entre beijos, a respiração errática. — A razão é que eu não consigo respirar em um mundo onde você não esteja ao alcance da minha mão. A razão é que eu odeio cada homem que olha para você porque sei que eles nunca saberão o quanto você é magnífica quando está desafiando as regras.
— Isso ainda é possessão, Richard — ela arfou, as mãos perdidas nos cabelos dele.
— Então que seja! — Ele exclamou, parando o movimento e olhando-a nos olhos com uma intensidade que a fez tremer. — Se o amor for essa necessidade doentia de ter você em cada pensamento, de querer destruir qualquer coisa que te faça chorar, então eu te amo, Jhemini. Da forma mais sombria e egoísta que existe.
Jhemini paralisou. Foi a primeira vez. As palavras que ela achou que nunca ouviria saíram da boca dele como uma confissão de um crime.
— Você... o quê?
— Eu te amo — repetiu ele, quase como um insulto à sua própria lógica. — E é por isso que não posso te deixar ir para Londres. E é por isso que, se você insistir em se afastar, eu vou queimar este império Black apenas para que você tenha que ficar e me ajudar a reconstruir as cinzas.
Jhemini sentiu o peso daquela declaração. Não era um amor de contos de fadas; era o amor de um homem frio que encontrara sua única chama. Era perigoso, era possessivo, mas era, finalmente, real.
— E as regras, Richard? — Ela perguntou, a voz trêmula. — E a família?
— Que se danem as regras — ele disse, voltando a beijar o pescoço dela, as mãos explorando o corpo que ele conhecia tão bem. — Nós somos os Black. Nós criamos nossas próprias leis. Se o mundo quiser nos julgar, que o faça de longe, porque ninguém terá coragem de nos enfrentar enquanto estivermos juntos.
Naquela noite, a dinâmica mudou. A insegurança de Jhemini não desapareceu totalmente — ela sabia que o caminho à frente seria um campo minado de escândalos e conflitos —, mas a dúvida sobre o que ela significava para Richard fora incinerada.
Ele a possuiu naquela mesa, não como um mestre possuindo uma escrava, mas como um homem entregando sua alma à única pessoa capaz de domá-la. Jhemini sentiu a diferença em cada toque, em cada gemido rouco que ele soltava. Não era apenas calor corporal para afastar o frio da nevasca; era o incêndio de duas vidas que se recusavam a seguir o roteiro imposto pelo sangue.
Horas depois, deitados na cama imensa, com a cidade de Nova York aos seus pés, Richard mantinha Jhemini presa contra seu peito.
— Londres está fora de questão — ele murmurou, o tom voltando à sua arrogância natural, mas com um toque de carinho que ele só mostrava a ela.
— Veremos — respondeu ela, sorrindo contra a pele dele. — Eu ainda sou independente, Richard. E ainda sou questionadora.
— Eu não esperaria nada menos da minha rainha — ele beijou o topo da cabeça dela. — Mas saiba disso: o que aconteceu na neve foi apenas o começo. Eu não vou mais me esconder nas sombras, Jhemini. Se eles querem um escândalo, nós daremos a eles o maior que a linhagem Black já viu.
Jhemini fechou os olhos, sentindo-se finalmente segura no meio da tempestade. Ela sabia que Richard Black era um homem frio, um predador e, muitas vezes, um arrogante inveterado. Mas ele era o seu arrogante. E naquele labirinto de vidro e cinzas, eles finalmente haviam encontrado a saída — ou talvez, tivessem apenas decidido que o labirinto era pequeno demais para o amor proibido que agora os guiava.
A nevasca eterna que os unira continuava a cair lá fora, mas dentro daquele quarto, o gelo do pecado havia derretido, dando lugar a uma aliança perigosa e inquebrável. Richard Black havia declarado sua posse, mas Jhemini sabia a verdade: ela era a única que detinha a chave do coração de gelo do homem mais poderoso de Nova York. E ela não pretendia devolvê-la jamais.