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Foryou

O Marceneiro de Sombras e a Chama de Marfim

As semanas que se seguiram àquela noite na propriedade de campo foram marcadas por uma rotina clandestina e febril. Para o mundo, Jhemini Black continuava sendo a sobrinha brilhante e independente, focada em seus estudos e em sua carreira acadêmica. Para Richard, ela era o centro de uma obsessão que ele não conseguia — e não queria — controlar.

Eles criaram um código próprio, uma linguagem de olhares em jantares de família e mensagens curtas que incendiavam o celular de Jhe nas horas mais impróprias. Jhe aprendera rapidamente como desestabilizar a fachada gélida do homem mais poderoso de Nova York. Ela descobriu que, embora ele exigisse ser o mestre da situação, havia algo que o fazia perder o fôlego: o uso deliberado do parentesco deles como uma arma de provocação.

— O que foi, tio Rick? — ela sussurrava em seu ouvido durante breves encontros nos corredores da mansão, enfatizando o apelido com uma doçura venenosa. — Parece tenso. Precisa de uma massagem... ou de outra nevasca para se acalmar?

Richard costumava reagir segurando o braço dela com uma força que beirava o aviso, os olhos escurecendo de desejo e fúria. Ele odiava o lembrete do tabu, mas amava o modo como a boca dela se curvava ao pronunciar aquelas palavras.

Naquela sexta-feira, o evento era uma gala beneficente da Fundação Black. Jhe decidira não ir. Estava cansada dos jogos e da necessidade constante de se esconder sob camadas de seda e sorrisos falsos. Ela avisara a Richard por mensagem: "Não conte comigo hoje. Vou ficar em casa com meus livros".

Ele não respondeu. Richard nunca implorava.

No entanto, por volta das nove da noite, uma inquietude estranha tomou conta dela. A solidão do seu apartamento parecia sufocante. Jhe era persistente e, acima de tudo, curiosa. Ela queria ver como Richard se comportava quando achava que ela não estava olhando. Queria ver o predador em seu habitat natural, sem a distração da sua presença.

Ela se vestiu em tempo recorde. Escolheu um vestido de cetim preto, simples na frente, mas com um decote vertiginoso que terminava na base da coluna. Prendeu o cabelo em um coque elegante, deixando apenas algumas mechas soltas para emoldurar o rosto. Não avisou ninguém. Apenas chamou um carro e partiu para o hotel de luxo onde a gala acontecia.

Ao chegar, o brilho dos lustres de cristal e o som da orquestra a envolveram. Jhe se moveu pelas sombras do salão, evitando os pais e os primos. Seus olhos procuraram por uma única figura.

Ela o encontrou perto do bar de gelo. Richard estava impecável em um smoking preto, a personificação da elegância fria. Mas ele não estava sozinho.

Ao lado dele, com uma proximidade que fez o sangue de Jhe ferver instantaneamente, estava Elena, sua secretária executiva. Elena era uma mulher de trinta e poucos anos, impecavelmente vestida e com uma eficiência que Richard sempre elogiara. Mas ali, sob as luzes da gala, ela não parecia apenas uma funcionária. Ela tocava o braço de Richard enquanto falava, uma risada baixa escapando de seus lábios. Richard, por sua vez, não se afastava. Ele mantinha o corpo inclinado na direção dela, ouvindo com uma atenção que Jhe considerava exclusiva.

Jhe sentiu uma pontada de insegurança, algo que raramente permitia que florescesse. Elena era adequada. Elena não era um escândalo ambulante. Elena não era a sobrinha dele.

— Olhe para eles — uma voz familiar soou ao lado de Jhe. Era sua prima, Beatrice, segurando uma taça de champanhe. — Richard e Elena fazem um par tão... eficiente, não acha? Dizem que ela é a única pessoa que ele realmente ouve fora do conselho.

Jhe forçou um sorriso, as unhas cravando-se na palma da mão.

— Eles parecem muito focados nos negócios, Beatrice.

— Negócios? — Beatrice riu. — Jhemini, querida, olhe como ela o olha. E Richard... bom, ele é um homem de necessidades. Elena é discreta. É o tipo dele.

Jhe não respondeu. Ela viu o momento em que Elena colocou a mão no peito de Richard para enfatizar algo, e ele cobriu a mão dela com a sua por um breve segundo antes de se afastarem para cumprimentar um senador. Foi o suficiente.

Uma onda de raiva e possessividade, muito mais forte do que a razão, atingiu Jhe. Ela percebeu que, por mais inteligente que fosse, o ciúme era uma emoção primitiva que não aceitava lógica. Ela se virou e caminhou em direção aos toaletes de luxo, precisando de um momento para respirar e decidir se deveria confrontá-lo ou simplesmente ir embora e nunca mais atender suas ligações.

O banheiro feminino era um palácio de mármore e espelhos, vazio naquele momento. Jhe parou diante da pia, olhando para o próprio reflexo. Seus olhos brilhavam com lágrimas de raiva que ela se recusava a deixar cair.

— Idiota — sussurrou para si mesma. — Você achou que era especial para um homem que não tem coração.

Ela abriu a torneira, molhando os pulsos para tentar se acalmar. O som da água correndo era o único ruído no ambiente, até que o som pesado da porta principal se abrindo ecoou no mármore.

Jhe não se virou. Ela achou que era outra convidada. Mas então, o som metálico da tranca sendo girada fez seu coração parar.

Ela olhou pelo espelho.

Richard estava parado ali. Ele não parecia o homem civilizado que brindava com senadores momentos antes. Seu smoking estava ligeiramente desalinhado, e seus olhos queimavam com uma fúria sombria que Jhe reconheceu imediatamente.

— O que você está fazendo aqui, Jhemini? — A voz dele era um trovão contido, perigosa e baixa.

— Eu mudei de ideia — ela disse, virando-se lentamente, sustentando o olhar dele enquanto secava as mãos com uma toalha de papel, demonstrando uma indiferença que não sentia. — Mas vejo que você estava muito bem acompanhado. Eu não queria interromper o seu momento com a Elena.

Richard deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. O perfume dele, uma mistura de sândalo e poder, a envolveu.

— Você me mandou uma mensagem dizendo que não viria. Eu passei a noite inteira vigiando a porta, esperando que você mudasse de ideia, e quando você finalmente aparece, fica se escondendo nos cantos como uma criança emburrada.

— Eu não estava me escondendo — rebateu ela, a persistência brilhando em seus olhos. — Eu estava observando. E o que eu vi foi o "tio Rick" sendo muito carinhoso com a secretária. Ela sabe como você gosta do seu uísque, Richard? Ela também sabe como você fica quando está preso em uma nevasca?

Richard soltou uma risada curta, mas não havia humor nela. Ele a prensou contra a pia de mármore, as mãos grandes segurando a borda da bancada, prendendo-a entre seu corpo e o espelho.

— Você está com ciúmes — afirmou ele, o rosto a centímetros do dela.

— Eu estou com nojo da sua hipocrisia! — sibilou ela. — Você me mantém em uma casa de vidro, exige que eu use os seus diamantes, que eu não use sutiã para que você possa me imaginar nua a noite inteira, e depois fica desfilando com aquela mulher na frente de todo mundo!

— Elena é uma funcionária, Jhemini. Nada mais.

— Ela não parecia uma funcionária quando estava tocando o seu peito, Richard!

— Ela estava me avisando sobre um investidor! — Ele se inclinou mais, a testa encostada na dela. — Mas nada disso importa. O que importa é que você está aqui. E você está linda nesse vestido. Eu te vi no momento em que entrou. Vi o modo como esse cetim abraça os seus peitos... vi como você olhou para mim.

— Eu te odeio — sussurrou ela, embora suas mãos tivessem subido para as lapelas do smoking dele, puxando-o para mais perto.

— Não, você não odeia — disse ele, a voz tornando-se um sussurro rouco. — Você me deseja tanto que está tremendo. Você veio aqui porque não suportava a ideia de eu estar em um lugar onde você não pudesse me controlar.

Richard desceu uma das mãos para a curva do quadril dela, subindo lentamente pela lateral do vestido até encontrar a abertura nas costas. O contato da pele quente dele com a dela fez Jhe soltar um suspiro trêmulo.

— Eu não sou sua propriedade, Richard — ela tentou, mas a determinação estava falhando diante da química avassaladora entre eles.

— Não? — Ele aproximou os lábios da orelha dela, mordiscando levemente o lóbulo. — Então por que você faz tudo o que eu mando? Por que está aqui, sem nada por baixo deste vestido, apenas porque eu escrevi em um bilhete?

— Porque eu queria ver se você teria coragem de me tocar em um lugar onde qualquer um pode entrar — desafiou ela, sua natureza questionadora voltando à tona.

Richard afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. O desafio na voz de Jhe era o combustível que ele precisava.

— Você acha que eu tenho medo deste lugar? — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares traçando o contorno de seus lábios. — Eu sou o dono deste hotel, Jhemini. Eu sou o dono desta noite. E eu vou te mostrar exatamente o que acontece quando você tenta me provocar usando o nome daquela mulher.

Ele a beijou com uma violência que não era de raiva, mas de uma possessividade desesperada. Jhe respondeu com a mesma intensidade, suas mãos subindo para os cabelos dele, desfazendo a perfeição do penteado de Richard. O beijo tinha gosto de champanhe e de uma verdade que ambos tentavam esconder: eles eram viciados um no outro.

Richard a levantou, sentando-a na bancada de mármore frio. Ele afastou o cetim preto, revelando as pernas longas e a intimidade de Jhe. A visão dela, ali, naquele ambiente luxuoso e proibido, fez o controle de Richard quebrar de vez.

— Você é minha — rosnou ele contra a pele do colo dela. — Não importa quantas secretárias existam, não importa quantas regras a nossa família crie. Você é a única que eu quero.

— Então prove, tio Rick — sussurrou ela, usando o apelido novamente, mas desta vez como um convite para o abismo. — Prove que eu sou a única.

Richard não hesitou. Ele se livrou da própria roupa com uma urgência que ignorava o fato de que, a poucos metros dali, centenas de pessoas da elite de Nova York celebravam. O som da orquestra chegava abafado ao banheiro, uma trilha sonora surreal para o ato de rebeldia que eles consumavam.

O encontro foi bruto e faminto. No mármore frio, sob as luzes fluorescentes que refletiam a paixão deles em mil espelhos, Richard a possuiu como se estivesse tentando fundir suas almas. Jhe gritou o nome dele, o som sendo abafado pelo peito dele, enquanto o prazer a atingia em ondas avassaladoras.

— Diga — ordenou Richard, o suor brilhando em sua testa enquanto ele se movia dentro dela. — Diga de quem você é.

— Sua... — ela arfou, as unhas cravadas nas costas dele. — Eu sou sua, Richard.

Quando o ápice finalmente os alcançou, eles ficaram abraçados por um longo tempo, o silêncio do banheiro sendo preenchido apenas por suas respirações pesadas. Richard beijou o topo da cabeça de Jhe, um gesto de carinho que ele só permitia a ela.

— Elena vai ser transferida para a filial de Londres na segunda-feira — disse ele, a voz voltando ao tom calmo e autoritário.

Jhe se afastou um pouco, surpresa.

— Por quê? Ela é uma ótima secretária.

— Porque eu não quero que nada, nem ninguém, cause essa expressão de dúvida no seu rosto novamente — ele acariciou a bochecha dela. — E porque eu não quero sentir vontade de matar qualquer pessoa que chegue perto demais de mim quando você está assistindo.

Jhe sorriu, sentindo uma satisfação vitoriosa. Ela sabia que tinha Richard na palma da mão, não apenas pelo sexo, mas pela inteligência e pela persistência que o forçavam a ser um homem melhor — ou, pelo menos, um homem mais honesto com seus próprios desejos.

Eles se vestiram e se arrumaram com uma eficiência silenciosa. Richard ajeitou o vestido dela, garantindo que cada dobra de cetim estivesse no lugar. Ele limpou o rastro de batom borrado de seu próprio rosto e arrumou o smoking.

— Vá para casa — ordenou ele, antes de abrir a porta. — Eu terminarei os brindes e estarei no seu apartamento em uma hora.

— E se eu não estiver lá? — provocou ela, com a mão na maçaneta.

Richard deu um passo à frente, um brilho perigoso nos olhos.

— Você estará. Porque você sabe que a nevasca entre nós nunca acaba, Jhemini. E você não consegue mais viver no calor lá fora.

Jhe saiu do banheiro com a cabeça erguida, sentindo-se mais poderosa do que nunca. Ela atravessou o salão de gala, ignorando os olhares curiosos. Ao passar por Elena, ela apenas deu um aceno de cabeça educado, um sorriso enigmático brincando em seus lábios.

Ela sabia que a guerra com a família Black estava longe de acabar. Haveria mais jantares, mais hipocrisia e, possivelmente, escândalos que poderiam destruir ambos. Mas enquanto ela entrava no carro que a levaria para casa, Jhe sentia o peso do diamante em seu pescoço e o calor do toque de Richard ainda em sua pele.

Ela não era mais a sobrinha insegura. Ela era a mulher que fizera o gelo de Richard Black derreter e transformar-se em um oceano de obsessão. E ela estava pronta para navegar naquelas águas profundas, não importava o quão perigosas elas se tornassem.

Uma hora depois, como prometido, o som da chave girando na porta do seu apartamento ecoou. Jhe estava na varanda, olhando para as luzes da cidade, vestindo apenas uma camisa de linho de Richard que ela pegara em sua última visita à cobertura dele.

Ele entrou, fechando a porta com a mesma firmeza com que trancara o banheiro do hotel.

— Você está atrasado, tio Rick — disse ela, sem se virar.

Richard caminhou até ela, envolvendo-a por trás, as mãos grandes encontrando o calor de seu corpo sob o linho fino.

— Eu tive que me despedir de alguns investidores — sussurrou ele no pescoço dela. — Mas agora o mundo lá fora não existe mais. Só existe você e a minha necessidade de te lembrar de cada palavra que você disse naquele mármore.

Naquela noite, sob o céu de Nova York, a nevasca que começara em uma estrada esquecida continuou a cair, cobrindo o pecado com uma camada de paixão inabalável. Eles eram os Black, e no império que construíram, o único crime imperdoável era negar o desejo que os consumia. E Jhemini, com sua mente brilhante e coração persistente, sabia que aquela era a única regra que ela nunca mais voltaria a questionar.