Friends to Lovers
O Despertar da Ressaca e o Café de Meio de Tarde
A luz do sol de Kanto atravessava as cortinas do quarto 302 com uma agressividade que Ult considerava pessoal. Ele se sentou na cama, sentindo a cabeça latejar levemente — não por álcool, já que a festa da noite anterior no centro acadêmico tinha sido regada apenas a suco de Berries e refrigerante, mas pelo puro cansaço de ter que lidar com a densidade emocional de Roy.
— Levanta logo, ó projeto de Charizard — resmungou Ult, chutando a beliche de cima. — O Skeledirge já tá lá embaixo tentando comer o tapete da recepção e você ainda tá aí babando.
Roy soltou um som que parecia um misto de agonia e preguiça extrema. Ele rolou para a beirada da cama, o cabelo preto com a franja vermelha mais desgrenhado do que o normal.
— Que horas são? — Roy perguntou, a voz rouca.
— Tarde o suficiente para a Liko já ter tomado café, treinado, estudado botânica Pokémon e provavelmente ter tido três crises existenciais sobre aquele "elogio" que você soltou ontem no corredor — Ult respondeu, já calçando os tênis.
Roy sentou-se de um salto, o rosto ganhando aquele tom de tomate instantâneo.
— Mano, por que você tem que lembrar disso? Eu nem sei por que eu disse aquilo. Saiu, tá ligado? Foi tipo um *Critical Hit* involuntário.
— Involuntário? Roy, você tem a sutileza de um Giga Impacto. Todo mundo viu. Até o Quaquaval da Dot fez um post no "PokéGram" sobre como o clima entre vocês está mais pesado que um Mudsdale.
Roy ignorou a provocação e correu para o banheiro. Enquanto a água gelada batia em seu rosto, ele recapitulava a cena. Liko parada, o rosto vermelho, os olhos azuis arregalados... e aquele sorrisinho que ela tentou esconder. Ele deu um soco leve na palma da mão. Precisava agir com naturalidade. Se ele começasse a agir de forma estranha, ela ficaria estranha, e aí a amizade deles iria pro espaço.
No dormitório feminino, o clima era de operação de guerra. Dot estava sentada no chão, cercada por cabos, microfones e uma embalagem vazia de salgadinho, enquanto Liko tentava, sem sucesso, domar o próprio cabelo na frente do espelho.
— Eu não posso sair daqui, Dot. Eu vou ficar aqui até a formatura. Talvez eu peça transferência para a região de Paldea. Ouvi dizer que lá a Academia Uva é ótima nesta época do ano — disse Liko, a voz saindo abafada por trás de uma escova de cabelo.
Dot nem desviou os olhos do monitor, onde editava um vídeo da Nidotina.
— Para de ser dramática, Liko. O Roy é um idiota, mas ele é o seu idiota. Ele te chamou de bonita, não disse que ia te sacrificar para um Giratina. Qual o problema de vocês dois? É sério, me dá um cansaço físico só de olhar.
— O problema é que a gente é amigo! — Liko virou-se, gesticulando freneticamente. — Amigos não dizem que o outro fica "bonito quando está bravo" com aquela voz... aquela voz de quem sabe o que está fazendo! E o pior é que ele saiu correndo! Ele me deixou lá, bugada!
— Ele saiu correndo porque o cérebro dele entrou em curto-circuito, Liko. O Roy processa as coisas na velocidade de um Slowpoke com paralisia. Ele provavelmente só percebeu o que disse quando já estava no quarto — Dot girou na cadeira, encarando a amiga. — Olha, se você quer resolver isso, vai lá embaixo. O Ult me mandou mensagem dizendo que eles estão indo pro café do campus agora.
Liko sentiu um frio na barriga.
— O Ult te mandou mensagem? Desde quando vocês se falam por mensagem sem ser pra se xingar?
Dot ficou levemente corada, mas disfarçou ajustando o fone de ouvido.
— Ele me mandou um meme de um Quaquaval dançando funk e eu respondi com um figurinha de um Sableye sendo atropelado por um caminhão. É a nossa linguagem, não se mete. Agora vai logo, antes que eu use o Quaquaval pra te empurrar escada abaixo.
Dez minutos depois, Liko estava no pátio central, tentando parecer a pessoa mais casual do mundo. Ela usava um moletom oversized azul e segurava um livro de "Comportamento de Pokémon do Tipo Planta", que ela já tinha lido três vezes. Meowscarada caminhava ao seu lado, exalando uma aura de "eu sou superior a todo esse drama adolescente".
— Ei, Liko! — A voz de Roy ecoou pelo pátio.
Ela parou e respirou fundo. *Naturalidade, Liko. Seja natural.*
— Oi, Roy. Oi, Ult — disse ela, forçando um sorriso que parecia um pouco travado demais.
Roy estava usando uma camiseta preta que marcava levemente os ombros, e por um segundo, Liko esqueceu como se formavam frases em português. O Skeledirge estava logo atrás dele, parecendo feliz da vida ao ver a Meowscarada.
— E aí, sobreviveu ao treino de ontem? — Roy perguntou, coçando a nuca. Ele parecia estar tentando muito não olhar nos olhos dela por mais de dois segundos seguidos.
— Sobrevivi. Sem graças a você, que quase me matou de susto — ela brincou, sentindo a tensão diminuir um pouco.
— Ah, qual é! Eu salvei você! — Roy riu, e o som da risada dele, como sempre, desarmou todas as defesas de Liko. — A gente tá indo pegar um café e uns donuts. Quer vir?
— Claro, eu tô morrendo de fome.
— Ótimo — interrompeu Ult, com o sorriso mais sarcástico da história da humanidade. — Porque eu e a Dot combinamos de encontrar o pessoal da liga de batalha lá perto da biblioteca. Então, vocês dois podem ir na frente. A gente se vê depois.
Liko olhou para Ult com um olhar que dizia "eu vou te matar", mas o garoto de cabelos verdes apenas deu um tchauzinho irônico e saiu caminhando na direção oposta, onde Dot já o esperava com uma cara de poucos amigos.
Roy e Liko ficaram parados no meio do pátio. O silêncio que se seguiu foi constrangedor, mas de um jeito diferente. Não era aquele silêncio de briga, mas aquele em que as palavras parecem pesadas demais para serem ditas.
— Então... — Roy começou, chutando uma pedrinha. — Donuts?
— Donuts — concordou Liko.
Eles caminharam em direção à cafeteria da Academia. O lugar estava cheio de estudantes, alguns revisando matérias com seus Pokémon, outros apenas jogando conversa fora. Eles pegaram seus pedidos — um café preto e um donut de chocolate para Roy, e um chá gelado com um donut de morango para Liko — e se sentaram em uma mesa mais afastada, perto da janela que dava para o lago.
— Liko, sobre ontem... — Roy começou, e Liko quase engasgou com o chá.
— Roy, não precisa...
— Não, eu preciso — ele a interrompeu, a expressão ficando séria. — Eu sei que eu sou meio sem noção às vezes. Eu falo as coisas sem pensar e acabo te deixando desconfortável. O Ult vive dizendo que eu sou um "desastre emocional" e, por mais que eu odeie admitir, ele tem razão.
Liko colocou o copo na mesa, observando Roy. Ele parecia genuinamente preocupado.
— Você não me deixou desconfortável, Roy. Só... me pegou de surpresa.
— É que... — Roy suspirou, passando a mão pelo cabelo. — Eu não queria que as coisas ficassem estranhas entre a gente. Você é a minha melhor amiga aqui. A primeira pessoa que eu procuro quando ganho uma batalha ou quando o Skeledirge faz alguma merda. Eu não quero estragar isso porque eu não sei calar a boca.
Liko sentiu uma pontada no peito. "Melhor amiga". Era uma frase segura, mas que, naquele momento, soou quase como um golpe. Ela queria ser a melhor amiga dele, claro, mas havia aquela pequena parte dela — aquela parte que o Roy chamou de "furacão" — que queria algo mais.
— Você não vai estragar nada, seu bobo — disse ela, esticando a mão e tocando levemente a mão dele sobre a mesa. A pele de Roy estava quente, e o toque enviou uma descarga elétrica pelo braço de Liko. — Mas você tem que parar de fugir depois de dizer essas coisas. Isso sim é estranho.
Roy olhou para a mão dela sobre a dele e depois para o rosto de Liko. Ele deu um sorriso de canto, um pouco mais confiante.
— Prometo que não fujo mais. Da próxima vez, eu fico pra ver você ficar vermelha.
— Idiota! — Liko retirou a mão, sentindo o rosto esquentar novamente. — Não vai ter próxima vez!
— Ah, vai sim. Você fica muito engraçada quando tenta disfarçar que tá com vergonha.
Eles riram, e a tensão que pairava sobre eles desde o dia anterior finalmente se dissipou. Por uma hora, eles foram apenas Roy e Liko, conversando sobre as aulas chatas de História Pokémon, as táticas de batalha e as loucuras da Dot durante as lives.
No entanto, a bolha de tranquilidade foi estourada quando um grupo de alunos do terceiro ano passou pela mesa. Entre eles estava Hektor, um treinador de um Arcanine que tinha a sutil reputação de ser um babaca arrogante.
— Olha só se não é o "garoto do vulcão" e a "garota das flores" — disse Hektor, parando na frente da mesa deles com um sorriso debochado. — Ouvi dizer que vocês deram um showzinho no campo de treino ontem. Quase se fundiram no chão, não foi?
Roy fechou a mão em punho, a expressão mudando instantaneamente de alegre para defensiva.
— O que você quer, Hektor? — Roy perguntou, a voz baixa e perigosa.
— Nada, só achei engraçado. A Academia Índigo não é exatamente um hotel para encontros românticos, Roy. Se vocês querem se pegar, deviam ir para a floresta de Viridian, lá ninguém vê.
Liko sentiu o sangue subir à cabeça. Ela odiava confrontos, mas odiava ainda mais quando alguém tentava transformar a amizade dela com Roy em algo sujo ou motivo de piada.
— Hektor — disse Liko, levantando-se com uma calma que surpreendeu até a si mesma. Meowscarada, ao seu lado, soltou um rosnado baixo, a flor em seu pescoço brilhando levemente. — Se você gastasse metade do tempo que gasta cuidando da vida alheia treinando o seu Arcanine, talvez não tivesse perdido para um iniciante na semana passada.
Alguns alunos ao redor soltaram um "Uh!" audível. Hektor ficou vermelho de raiva.
— Você acha que é muita coisa, não é? Só porque tem uma Pokémon de Paldea rara.
— Eu não acho nada — retrucou Liko, mantendo o olhar firme. — Agora, se nos der licença, a gente estava tendo uma conversa produtiva, algo que eu sei que você não saberia como fazer.
Hektor abriu a boca para responder, mas Roy se levantou, ficando entre ele e Liko. Roy era um pouco mais baixo que Hektor, mas a intensidade que emanava dele era suficiente para fazer o outro recuar um passo.
— Já deu, cara — disse Roy, sem um pingo de humor. — Cai fora. Agora.
Hektor murmurou algo sobre "perda de tempo" e saiu pisando fundo, seguido por seus amigos.
Roy relaxou os ombros e se virou para Liko, os olhos brilhando de admiração.
— Caramba, Liko! Você acabou com ele! "Conversa produtiva"? Essa doeu até em mim!
Liko respirou fundo, sentindo as pernas tremerem um pouco agora que a adrenalina estava baixando.
— Eu odeio gente assim. Ele não tem o direito de falar da gente desse jeito.
Roy deu um passo para mais perto dela. O espaço entre eles na cafeteria parecia ter diminuído drasticamente.
— "Da gente", é? — ele repetiu, com um sorriso travesso voltando ao rosto.
Liko percebeu o que tinha dito e tentou consertar.
— Você entendeu o que eu quis dizer! De você, de mim, dos nossos Pokémon...
— Entendi, entendi — Roy riu, mas desta vez ele não recuou. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que ninguém esperaria de alguém tão impulsivo, afastou uma mecha azul do cabelo de Liko que tinha caído sobre o rosto dela. — Valeu por me defender, Liko. Mas você sabe que eu podia ter lidado com ele, né?
— Eu sei — sussurrou ela, sentindo o calor dos dedos dele perto de sua orelha. — Mas eu quis fazer isso.
Eles ficaram ali, parados no meio da cafeteria movimentada, como se o tempo tivesse decidido tirar uma folga. Liko podia ouvir a própria respiração e o som abafado das conversas ao redor, mas tudo o que importava era o jeito que Roy a olhava — não como uma "melhor amiga", mas como se ela fosse a coisa mais fascinante que ele já tinha visto.
— Ei! — A voz estridente de Dot ecoou da entrada da cafeteria. — Se vocês não se beijarem nos próximos cinco segundos, eu vou começar a transmitir isso ao vivo para dez mil pessoas e rotular como "O Drama Mais Lento de Kanto"!
Eles se afastaram bruscamente, ambos mais vermelhos que um Magmag. Dot e Ult se aproximaram, rindo da cara de tacho dos dois.
— Vocês são péssimos — disse Ult, dando um tapinha nas costas de Roy. — Sério, o Sableye aqui tá tendo um ataque de vergonha alheia.
— Cala a boca, Ult — Roy e Liko disseram juntos, o que só fez os amigos rirem mais.
— Bom — disse Dot, pegando um donut da bandeja de Roy —, já que o momento "romance de cinema cult" acabou, a gente tem aula de Táticas Avançadas em dez minutos. E o professor Turo não aceita atrasos, nem de quem está apaixonado.
— Eu não estou... — Liko começou, mas desistiu ao ver o sorriso cúmplice de Dot.
Enquanto caminhavam para a sala de aula, Roy se aproximou de Liko e sussurrou:
— Ele estava errado, sabe?
— Quem? O Hektor?
— É. Sobre a gente ter que ir pra floresta de Viridian. — Roy piscou para ela. — Eu acho que aqui no campus tá ótimo.
Liko deu um empurrão leve nele, rindo, mas seu coração estava fazendo uma festa. A amizade deles ainda era a base de tudo, mas os tijolos de algo novo estavam sendo colocados, um por um, entre donuts, cafés e defesas inesperadas.
A rotina na Academia Índigo continuaria, com suas provas, treinos e dramas, mas para Roy e Liko, o jogo tinha acabado de mudar de nível. E nenhum dos dois parecia querer usar o botão de "Reset".