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Friends to Lovers

Sombras, Segredos e uma Noite na Biblioteca

A biblioteca da Academia Índigo era um daqueles lugares que pareciam ter saído de um filme de época, com estantes de carvalho que chegavam ao teto e o cheiro onipresente de papel antigo e cera de madeira. Era o único lugar onde o caos da universidade parecia ser barrado na porta. Ou pelo menos deveria ser, até Roy e Liko decidirem que precisavam "estudar seriamente" para a prova de Táticas Avançadas do professor Turo.

— Eu juro por Arceus, Liko, se eu tiver que ler mais uma página sobre a eficácia de tipos em terrenos gramados, eu vou entrar em modo *Burnout* — resmungou Roy, debruçado sobre uma mesa de madeira maciça. O Skeledirge estava encolhido a seus pés, ocupando quase todo o corredor entre as mesas, soltando ocasionais suspiros de fumaça que faziam o bibliotecário, um senhor rabugento com um Noctowl no ombro, lançar olhares fulminantes.

— Roy, para de reclamar. Você quer passar ou quer repetir a matéria e ter que aturar o Ult me zoando porque você ficou pra trás? — Liko ajustou os óculos de leitura, que costumava usar apenas para estudar, e Roy sentiu aquele nó familiar na garganta. Ela ficava... diferente com óculos. Mais séria, mas de um jeito que o deixava hipnotizado.

— O Ult já me zoa por existir, isso não faz diferença — Roy respondeu, tentando focar no livro, mas seus olhos insistiam em desviar para o perfil de Liko. — E olha só, a Meowscarada nem tá estudando. Ela tá lá atrás, flertando com o espelho ou algo assim.

A Pokémon de planta estava, de fato, sentada em cima de uma pilha de enciclopédias, polindo as unhas com uma elegância irritante. Ela lançou um olhar de desdém para Roy e voltou ao que estava fazendo.

— Ela está descansando a mente, algo que você deveria tentar — rebateu Liko, embora estivesse sorrindo. — Mas sério, Roy, foca aqui. Se o oponente usa um *Trick Room*, o que você faz com o Skeledirge?

— Eu mando ele usar um golpe tão forte que quebra o espaço-tempo? — Roy sugeriu com um sorriso convencido.

— Errado. Você perde o turno porque ele é lento demais e leva um *Hydro Pump* na cara. — Liko fechou o livro com um estalo. — Você é impossível.

— Eu sou impulsivo, é diferente! — Ele se inclinou para frente, diminuindo a distância entre eles na mesa. — Mas você gosta disso. Admite. A vida seria um tédio se você só andasse com gente racional tipo a Dot.

Liko sentiu o rosto esquentar. Roy tinha essa habilidade de transformar uma discussão sobre táticas de batalha em algo pessoal em questão de segundos.

— A Dot é racional até o Wi-Fi cair, Roy. Depois disso ela vira um tipo Sombrio selvagem. — Ela tentou desviar o assunto. — Mas falando nela... você viu o Ult hoje? Ele estava com uma cara de quem tinha descoberto um segredo de estado.

Roy soltou uma risada curta, lembrando-se da cena no dormitório mais cedo.

— Aquele cara não presta. Ele me disse que ia "investigar" por que a Dot passa tanto tempo editando vídeos de madrugada. Acho que ele quer descobrir a identidade secreta da Nidotina, mas ele é burro demais pra perceber que a resposta tá debaixo do nariz dele.

— Se o Ult descobrir que a melhor amiga dele é a maior streamer de Kanto, ele vai ter um colapso — comentou Liko. — Ou vai tentar cobrar comissão pelas piadas que ele conta e ela usa nas lives.

Enquanto os dois conversavam, as luzes da biblioteca piscaram e se apagaram gradualmente, deixando apenas os abajures de luz amarelada nas mesas acesos. O sinal de fechamento iminente tocou ao longe.

— Droga, já deu o horário? — Roy se espreguiçou, os ossos estalando. — Minha bunda tá quadrada de ficar sentado aqui.

— Vamos guardar as coisas. A gente termina de revisar no caminho pro dormitório.

Eles começaram a empilhar os livros, mas quando Roy foi alcançar uma obra pesada sobre "Lendas de Paldea" que estava no topo de uma prateleira próxima, sua mão escorregou. O livro não caiu, mas ele acabou esbarrando em uma alavanca decorativa que, para surpresa de ambos, cedeu com um clique seco.

Uma das estantes atrás deles rangeu e se moveu alguns centímetros para o lado, revelando uma passagem estreita e empoeirada.

— Não... brinca... — Roy arregalou os olhos, o espírito de aventura brilhando mais forte que qualquer bom senso. — Liko, olha isso! Uma passagem secreta!

— Roy, não. Nem pense nisso. A gente tem toque de recolher em vinte minutos e o bibliotecário vai nos matar se nos pegar fora da área permitida. — Liko agarrou a manga da camiseta dele, mas já conhecia aquela expressão. Era a mesma de quando ele decidiu que seria uma boa ideia tentar surfar num Dondozo.

— É uma passagem secreta numa faculdade de séculos de idade, Liko! Pode ter tesouros, mapas antigos ou... ou um estoque secreto de lanches! — Ele já estava entrando, puxando-a pela mão. — Só cinco minutinhos. Juro.

Liko suspirou, mas não soltou a mão dele. No fundo, ela também estava curiosa, e o calor da palma de Roy contra a sua era um incentivo que ela não admitiria em voz alta.

A passagem levava a uma pequena sala circular, escondida sob uma das torres da biblioteca. O lugar estava coberto de teia de aranha, mas as paredes eram repletas de fotos antigas de alunos da Academia e troféus de competições de séculos passados.

— Uau... — sussurrou Liko, soltando a mão de Roy para tocar o vidro empoeirado de uma moldura. — Olha essa foto. São os fundadores da Liga Pokémon de Kanto quando eram estudantes.

Roy, no entanto, não estava olhando para as fotos. Ele estava olhando para um baú de madeira no canto da sala. Sem pensar duas vezes, ele o abriu.

— Roy! Pode ter uma armadilha ou um Pokémon selvagem aí dentro! — Liko se aproximou, preocupada.

— Relaxa, é só... papel? — Roy puxou um maço de cartas amarradas com uma fita desbotada. — "Para o meu eterno rival e amor". Caramba, isso é pesado.

Liko se aproximou, a curiosidade vencendo o medo. Eles se sentaram no chão empoeirado, ombro a ombro, enquanto Roy abria a primeira carta. A luz que vinha da abertura da estante era fraca, forçando-os a ficarem muito próximos para enxergar a caligrafia elegante.

— "Querido Red" — Roy começou a ler em voz baixa. — "Se você está lendo isso, significa que eu finalmente tive coragem de deixar essa carta onde você costuma estudar. Eu sei que a gente passa o dia inteiro brigando e tentando superar um ao outro nas batalhas, mas eu precisava que você soubesse que cada vez que você me vence, meu coração dispara não de raiva, mas de outra coisa..."

Roy parou de ler, a voz falhando. O silêncio na sala secreta tornou-se denso. Liko sentia o cheiro de Roy — aquele aroma de aventura e calor — e percebeu que eles estavam tão perto que seus joelhos se tocavam.

— Isso é... muito íntimo — sussurrou Liko, o coração batendo forte. — Eles eram rivais, mas se amavam em segredo.

— É meio idiota, não é? — Roy comentou, tentando manter o tom leve, mas seus olhos vermelhos estavam fixos nos de Liko. — Perder tanto tempo brigando e escondendo o que sente, quando a pessoa tá bem ali na sua frente todo santo dia.

Liko engoliu em seco. Ela sentia que a conversa não era mais sobre os antigos donos das cartas.

— Às vezes é difícil dizer — ela disse, a voz quase um suspiro. — Você tem medo de estragar o que já tem. A amizade é... segura. Se você fala o que sente e a pessoa não sente o mesmo, você perde tudo.

Roy largou a carta no chão e se virou totalmente para ela. A luz amarelada criava sombras dramáticas em seu rosto, destacando a seriedade que ele raramente mostrava.

— E se a pessoa sentir o mesmo? — ele perguntou. A impulsividade de Roy estava lá, mas temperada com uma vulnerabilidade que fez o estômago de Liko dar piruetas. — E se ela tiver morrendo de vontade de dizer, mas for burra demais pra achar as palavras certas?

Liko sentiu que o ar estava fugindo de seus pulmões.

— Roy...

— Eu não sou bom com cartas, Liko. Eu não sou bom com planos ou estratégias. Você sabe disso. Eu sou o cara que corre pro perigo e depois vê o que acontece. — Ele deu um riso nervoso, a mão subindo para coçar a nuca. — E ultimamente, toda vez que eu olho pra você, eu sinto que tô correndo pro perigo mais perigoso da minha vida. Porque se você me der um "fora", eu não tenho um item de cura que resolva isso.

Liko sentiu uma lágrima solitária de nervoso escapar, mas ela a limpou rapidamente. Ela estendeu a mão e tocou o rosto de Roy, sentindo a pele quente e a leve aspereza de quem não se preocupava muito com a aparência, mas que era perfeito para ela.

— Você é um idiota, Roy — ela disse, com um sorriso trêmulo. — Um idiota completo.

— Eu sei. Mas eu sou o seu idiota?

Liko não respondeu com palavras. Ela se inclinou, fechando a pequena distância que restava entre eles. O beijo foi desajeitado no início — o nariz de Roy bateu no dela, e eles quase perderam o equilíbrio no chão empoeirado — mas logo se transformou em algo profundo e urgente. Tinha gosto de café frio, de donuts de morango e de anos de uma amizade que estava pedindo para transbordar.

Roy envolveu a cintura dela com os braços, puxando-a para mais perto, como se quisesse garantir que ela não desapareceria. Liko entrelaçou os dedos no cabelo preto dele, sentindo a textura da franja vermelha. Naquele momento, não havia Academia Índigo, não havia provas, não havia Dot ou Ult fazendo piadas. Eram apenas eles.

Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes, os rostos vermelhos e os cabelos bagunçados.

— É... — Roy disse, tentando recuperar o fôlego. — Acho que isso foi um "sim".

Liko riu, encostando a testa na dele.

— Foi mais do que um sim, seu burro.

O momento romântico, porém, foi interrompido por um barulho de passos pesados vindo da biblioteca.

— QUEM ESTÁ AÍ? A BIBLIOTECA FECHOU FAZ DEZ MINUTOS! — A voz do bibliotecário ecoou, e a luz de uma lanterna começou a varrer as estantes perto da passagem.

— Lascou! — Roy pulou de pé, puxando Liko junto. — Skeledirge, acorda! Meowscarada, faz alguma coisa!

A Meowscarada, que estava assistindo a cena do beijo com um olhar de "finalmente, não aguentava mais", saltou da pilha de livros e usou um *Leafage* rápido para criar uma cortina de folhas e poeira, obscurecendo a visão da passagem.

— Por aqui! — Roy puxou Liko para trás de uma das estantes móveis que levava a uma saída de serviço.

Eles correram pelos corredores escuros da Academia, rindo como criminosos que tivessem acabado de roubar as joias da coroa, quando na verdade só tinham roubado um momento de coragem um do outro.

Só pararam quando chegaram ao pátio central, sob o céu estrelado de Kanto. O ar fresco da noite ajudou a baixar a adrenalina.

— Cara... o Ult nunca vai acreditar nisso — disse Roy, tentando ajeitar a camiseta.

— E você não vai contar! — Liko o repreendeu, embora estivesse sorrindo. — Pelo menos não agora. Eu não estou pronta para o interrogatório da Dot. Ela vai querer detalhes técnicos e provavelmente vai tentar fazer um gráfico da nossa compatibilidade amorosa.

— Justo. — Roy se aproximou e pegou a mão dela, entrelaçando os dedos. — Mas agora que a gente... você sabe... a gente ainda vai estudar pra prova amanhã?

Liko olhou para ele, os olhos azuis brilhando sob a luz da lua.

— Roy, a gente não estudou nada hoje. Você não sabe nem o que é um *Trick Room*.

— É, mas eu aprendi uma tática nova — ele piscou para ela. — Chama-se "Distração com Beijo". É super efetiva.

Liko deu um tapa leve no braço dele.

— Vamos pro dormitório, Roy. Antes que a gente seja pego pela patrulha noturna e acabe na diretoria no nosso primeiro dia de... seja lá o que isso for.

— Namoro? — Roy sugeriu, a palavra soando estranha e maravilhosa em sua boca.

Liko sentiu o coração dar um salto.

— Namoro. — Ela concordou, apertando a mão dele.

Eles caminharam em direção à ala dos dormitórios, mas antes de se separarem, Roy a puxou para um último beijo, rápido e doce, perto da porta do prédio feminino.

— Boa noite, Liko. Vê se não sonha muito comigo, senão você não acorda pro treino.

— Convencido! Boa noite, Roy.

Liko entrou no quarto tentando manter a compostura, mas assim que fechou a porta, encostou as costas na madeira e soltou um suspiro longo.

— Demorou, hein? — A voz de Dot veio do escuro. Ela estava sentada na cama, o brilho do notebook iluminando seu rosto. — Você tá com cara de quem viu um Ho-Oh ou de quem finalmente parou de ser covarde.

Liko caminhou até sua cama e se jogou nos travesseiros, escondendo o rosto.

— Dot... eu acho que eu vou morrer de felicidade.

— Menos drama, mais detalhes — Dot girou na cadeira, os olhos brilhando de curiosidade. — E se você disser que só estudaram, eu vou hackear o seu PokéGram e postar que você ama o professor Turo.

Enquanto isso, no quarto 302, Roy entrou tropeçando nos próprios pés, com um sorriso que não cabia no rosto. Ult estava deitado, lendo uma revista sobre pedras evolutivas.

— E aí, garanhão? A biblioteca tava boa? — Ult perguntou, sem tirar os olhos da revista. — Você tá com uma marca de batom... ah, não, é só o seu rosto que tá pegando fogo mesmo.

— Ult, cala a boca e me ajuda a entender o que é um *Trick Room* — Roy disse, jogando-se na cama de cima. — Porque eu acho que agora eu realmente preciso passar nessa matéria se quiser impressionar a minha namorada.

Ult deixou a revista cair no rosto.

— Namorada? Você conseguiu? O mundo vai acabar amanhã. Vou até avisar o Sableye pra ele começar a estocar comida.

Roy não se importou com a provocação. Ele olhou para o teto, lembrando-se do cheiro de papel antigo, da luz amarelada e do jeito que o mundo pareceu parar quando Liko o beijou. A faculdade era difícil, as batalhas eram intensas e o futuro era incerto, mas ali, no silêncio do dormitório, Roy sabia que tinha vencido a batalha mais importante da sua vida.

E o prêmio era muito melhor do que qualquer insígnia de ginásio.