Friends to Lovers
Alola, Alianças e Amores à Prova de Fogo
A manhã do grande torneio de duplas da Academia Índigo não nasceu com o sol; nasceu com o som ensurdecedor de Dot batendo panela no meio do corredor dos dormitórios às seis da manhã.
— Acorda, bando de desocupados! — gritava ela, já devidamente paramentada com sua peruca roxa e rosa e o moletom gigante da Nidotina. — Se a gente perder o navio para Alola porque o Roy resolveu que o Skeledirge precisava de um "sono de beleza", eu juro que deleto o save de todo mundo!
Roy tropeçou para fora do quarto, vestindo apenas uma calça de moletom e com o cabelo parecendo que tinha sofrido um ataque de *Hurricane*. Ele esfregava os olhos, encarando Dot com uma mistura de pavor e admiração.
— Dot, pelo amor de Arceus, são seis da manhã de um sábado. Nem o Mewtwo acordaria a essa hora por vontade própria.
— O Mewtwo não tem um contrato de exclusividade de streaming para cobrir o torneio "Laços de Kanto", Roy! — Dot rebateu, empurrando-o de volta para o quarto. — Vai tomar banho. Você cheira a fumaça e desespero. Liko já está lá embaixo com o Quaquaval revisando o itinerário.
Vinte minutos depois, Roy desceu as escadas da ala principal, encontrando Liko sentada em uma mala azul, bebendo uma lata de energético com uma expressão de quem estava tentando processar a existência humana. Ela usava um short jeans e uma blusa branca leve, com uma mochila de Meowscarada nas costas. Quando viu Roy, seus olhos azuis brilharam, e um sorriso pequeno e sonolento surgiu em seus lábios.
— Sobreviveu ao despertador humano? — perguntou ela, enquanto Roy se aproximava e deixava sua mochila pesada cair no chão.
— Eu acho que perdi 30% da minha audição, mas estou aqui. — Roy se inclinou e deu um beijo rápido na bochecha dela, sentindo o perfume de flores que sempre o deixava meio tonto. — Você está incrível. Pronta para ganhar um resort em Alola?
— Pronta para não passar vergonha na frente de metade da universidade — corrigiu Liko, corando levemente. — O Ult e a Dot vão como nossos "suportes técnicos", mas o Hektor também se inscreveu. Com o Arcanine dele e um parceiro do curso de elite.
Roy estalou os dedos, as chamas internas de sua determinação começando a arder.
— Deixa ele vir. O Skeledirge está doido para mostrar que o fogo de Paldea é mais quente que o de Kanto.
O porto de Vermilion estava lotado de estudantes. O navio da Academia era uma estrutura luxuosa, com campos de batalha no deque superior e uma área de convivência que mais parecia um shopping. Durante a viagem, o clima era de festa, mas a tensão competitiva pairava no ar.
Enquanto Ult e Dot discutiam estatísticas de visualização e ângulos de câmera para a live no deque inferior, Roy e Liko encontraram um canto isolado na proa do navio, observando o mar azul infinito.
— Sabe — disse Liko, apoiando os cotovelos no parapeito —, eu nunca imaginei que minha vida universitária seria assim. Eu achei que passaria quatro anos escondida na biblioteca, tirando notas boas e talvez fazendo uma amiga ou duas.
— E agora você é a namorada do cara mais barulhento do campus e está indo para um torneio internacional — Roy riu, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para perto. — Destino é uma parada doida, né?
— É. — Liko olhou para ele, a seriedade voltando aos seus olhos. — Roy, se as coisas ficarem intensas lá... se a gente perder... você não vai ficar bravo comigo, vai?
Roy parou de rir na hora. Ele virou Liko para que ela ficasse de frente para ele, segurando seus ombros com firmeza.
— Liko, olha para mim. Eu amo batalhar. Eu amo vencer. Mas eu amo muito mais estar no campo com você. Se a gente perder no primeiro turno por causa de um erro meu ou seu, a única coisa que eu vou querer fazer é te levar para tomar um sorvete e dizer que a gente tenta de novo no ano que vem. Você é minha parceira, antes e depois da Pokébola. Entendeu?
Liko sentiu um nó na garganta, mas era um nó de alívio. Ela se inclinou e o beijou, um beijo longo que tinha gosto de salitre e promessa.
— Entendi, seu bobo.
— ÓTIMO! — A voz de Ult surgiu do nada, fazendo ambos se afastarem bruscamente. — Agora que o momento "Titanic" sem o naufrágio acabou, o sorteio das chaves saiu. E adivinhem?
— Se você disser que a gente pega o Hektor logo de cara, eu te jogo desse navio, Ult — avisou Roy.
— Você não tem sorte, Roy. É exatamente isso. Primeira rodada: Roy e Liko contra Hektor e Silas. O Silas é aquele cara do terceiro ano que tem um Magnezone. É uma combinação de Fogo/Elétrico contra o seu Fogo/Planta. Desvantagem estratégica total.
Liko empalideceu, mas Roy apenas sorriu, aquele sorriso predatório que ele só usava em batalhas oficiais.
— Desvantagem? Ult, você esqueceu que a Meowscarada da Liko tem *Flower Trick*. E o meu Skeledirge tem um pulmão que não acaba mais. Eles podem ter os tipos, mas a gente tem a conexão.
A chegada em Alola foi um turbilhão de cores e calor. O torneio começou no dia seguinte, em um estádio aberto cercado por palmeiras e areia branca. A multidão rugia enquanto os nomes eram anunciados.
— E na arena de hoje, representando o primeiro ano com uma ascensão meteórica, Roy e Liko! — gritou o locutor.
Eles entraram no campo sob os gritos de incentivo de Dot, que estava na primeira fila com três câmeras montadas, e Ult, que apenas balançava um sinalizador com uma cara de "eu não conheço essas pessoas".
Do outro lado, Hektor e Silas pareciam confiantes. Arcanine rosnava, soltando faíscas, enquanto Magnezone flutuava, emitindo bips metálicos e ondas eletromagnéticas.
— Preparada? — perguntou Roy, ajustando o boné.
— Sempre — respondeu Liko, lançando a Pokébola. — Meowscarada, mostre sua magia!
— Skeledirge, é hora do show! — Roy gritou.
A batalha começou de forma explosiva. Hektor não perdeu tempo.
— Arcanine, use o *Extreme Speed* na Meowscarada! Silas, trava o Skeledirge com *Thunder Wave*!
— Meowscarada, evasiva com *Acrobatics*! — comandou Liko. A gata mágica deu um salto mortal para trás, desviando por milímetros do impacto veloz de Arcanine.
— Skeledirge, use o *Earth Power*! — Roy gritou, reagindo ao movimento de Magnezone.
O chão do estádio tremeu, e ondas de energia terrestre irromperam sob o Pokémon metálico, causando um dano massivo. Mas Silas era experiente.
— Magnezone, suporte com *Light Screen*! Agora, Arcanine, *Flamethrower* no campo de grama!
O fogo de Arcanine varreu a arena, tentando encurralar Meowscarada. Liko sentiu a pressão. O calor era intenso e a desvantagem de tipo da sua Pokémon era evidente.
— Roy, ela está ficando sem espaço! — gritou Liko.
— Eu vi! Skeledirge, use o *Torch Song* para absorver as chamas e aumentar seu poder!
O crocodilo de fogo abriu a boca e soltou uma nota poderosa. Em vez de fugir do fogo de Arcanine, Skeledirge pareceu "puxar" a energia para si, suas próprias chamas brilhando com uma intensidade branca.
— Agora, Liko! — Roy deu o sinal.
— Meowscarada, use o *Flower Trick* no Magnezone enquanto ele está focado no Skeledirge!
A Pokémon de planta lançou sua flor explosiva. O golpe, que nunca erra, atingiu Magnezone em cheio, ignorando as defesas aumentadas. O Pokémon metálico balançou, mas não caiu.
— Vocês são irritantes! — Hektor rugiu. — Arcanine, use o *Flare Blitz* com tudo na Meowscarada! Silas, finalize o Skeledirge com *Flash Cannon*!
Os dois ataques mais poderosos dos oponentes foram lançados simultaneamente. Era um xeque-mate. Se Meowscarada fosse atingida, Liko estaria fora, e Roy não conseguiria vencer sozinho contra dois.
— Roy... — Liko sussurrou, o pânico começando a subir.
— Confia em mim, Liko! — Roy correu para o lado dela no campo, ignorando as regras de etiqueta de treinador. Ele pegou a mão dela. — Lembra do que a gente treinou na biblioteca? O movimento combinado!
Liko respirou fundo, sentindo o calor da mão de Roy. O "furacão" dentro dela se acalmou, transformando-se em foco puro.
— Meowscarada, entre na frente do Skeledirge e use o *U-turn*!
— Skeledirge, use o *Protect* em volta da Meowscarada! — comandou Roy.
Foi uma manobra arriscada. O escudo verde de Skeledirge envolveu Meowscarada no exato momento em que o *Flare Blitz* de Arcanine atingiu. A explosão de energia foi tão forte que levantou uma nuvem de areia. Mas, dentro da proteção, Meowscarada usou o impulso do impacto para girar e atingir Arcanine com um chute carregado de energia de inseto antes de retornar momentaneamente para a Pokébola, sendo substituída por um vácuo de ar que desorientou os oponentes.
— AGORA! — gritaram Roy e Liko em uníssono.
— Skeledirge, *Overheat*!
— Meowscarada, volte e use o *Night Slash*!
O ataque combinado foi devastador. Uma torrente de chamas puras engoliu o campo, enquanto Meowscarada surgia das sombras como um vulto, cortando a defesa de Magnezone. Quando a fumaça baixou, Arcanine e Magnezone estavam fora de combate.
O estádio ficou em silêncio por um segundo antes de explodir em aplausos.
— Os vencedores são Roy e Liko! — anunciou o juiz.
Roy não comemorou com um soco no ar ou um grito de vitória. Ele simplesmente se virou para Liko, que estava ofegante, com o cabelo colado na testa pelo suor. Ele a envolveu em um abraço tão forte que a tirou do chão.
— A gente conseguiu! — ele exclamou, rodopiando com ela. — Você viu aquilo? O jeito que você cronometrou o *U-turn* foi insano!
— A gente conseguiu — Liko repetiu, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Você foi incrível, Roy.
Do lado de fora do campo, Hektor estava furioso, chutando a areia, mas ninguém se importava. Dot estava pulando na arquibancada, gritando para a câmera que "o amor venceu a meta de jogo", enquanto Ult dava um sorriso discreto de satisfação.
A noite em Alola foi celebrada com um banquete de frutas tropicais e música. O resort era tudo o que tinham prometido: bangalôs sobre a água, luzes de fada e um clima de romance que era quase palpável.
Após a festa oficial, Roy e Liko escaparam para a praia privativa do resort. A lua de Alola era enorme e prateada, refletindo nas ondas calmas.
— Sabe o que é o melhor de ter vencido? — Roy perguntou, enquanto caminhavam descalços pela areia.
— O troféu? O prestígio? — arriscou Liko.
— Não. É que agora eu tenho uma desculpa oficial para te trazer para lugares assim — ele parou e olhou para ela, a expressão subitamente vulnerável. — Liko, eu sei que eu sou meio caótico. Eu sei que eu falo merda e que às vezes eu não percebo quando você está triste. Mas eu nunca me senti tão vivo quanto me sinto quando estou com você.
Liko parou também, sentindo a brisa quente de Alola balançar seu cabelo.
— Você não precisa ser perfeito, Roy. Eu já te disse isso. Eu amo o seu caos. Ele é o que me faz sair da minha concha.
Roy tateou o bolso da bermuda e tirou algo pequeno. Não era um anel — eles eram jovens demais para isso —, mas era um pingente feito de uma pedra de fogo e uma pedra de planta entrelaçadas por um fio de prata.
— Eu mandei fazer isso em Vermilion, antes de embarcarmos — ele disse, entregando a ela. — O artesão disse que essas pedras juntas criam um equilíbrio único. Tipo a gente.
Liko pegou o pingente, os olhos brilhando.
— É lindo, Roy.
— Coloca para mim? — pediu ele, virando-se.
Ela prendeu o colar no pescoço dele, e depois ele fez o mesmo por ela. Eles ficaram ali, sob as estrelas de Alola, dois treinadores, dois amigos, dois amantes que tinham encontrado um no outro o porto seguro que nenhuma batalha poderia destruir.
— Roy? — chamou Liko, enquanto ele a puxava para um beijo.
— Oi?
— Se a gente ganhar a final amanhã... você acha que a Dot vai tentar nos fazer casar numa live para ganhar inscritos?
Roy soltou uma gargalhada que ecoou pela praia.
— Provavelmente. E o Ult provavelmente vai tentar ser o padre só para poder nos xingar durante os votos.
— Então é melhor a gente aproveitar o silêncio enquanto podemos — Liko sorriu, puxando-o pela gola da camiseta.
— Com certeza.
O beijo que se seguiu não tinha mais a urgência nervosa da biblioteca ou a adrenalina do campo de batalha. Era um beijo que tinha gosto de futuro. Naquela noite, em Alola, Roy e Liko entenderam que a maior aventura de suas vidas não era chegar ao topo da Liga Pokémon, mas descobrir, a cada dia, novas formas de amar o desastre maravilhoso que eram um para o outro.
E enquanto Skeledirge e Meowscarada brincavam na beira da água ao longe, a Academia Índigo parecia um mundo distante, deixando apenas o presente, o calor e a certeza de que, não importa para onde o vento os levasse, eles sempre teriam um ao outro para segurar a mão quando o chão resolvesse tremer.