Friends to Lovers
Tempestades de Inverno, Lençóis de Verão e o Caos do Dia Seguinte
A manhã seguinte ao "incidente" na biblioteca não começou com o canto de um Fletchling ou com o despertar suave da luz solar. Começou com Roy caindo da beliche de cima porque Skeledirge decidiu que era uma excelente ideia tentar espirrar enquanto sonhava com comida, lançando uma pequena labareda que chamuscou a ponta do lençol de Roy.
— Puta que pariu, Skeledirge! — Roy exclamou, embolado no chão com o edredom, a voz ainda rouca de sono. — Você quase me transformou em churrasco, cara!
Ult, que já estava de pé terminando de amarrar os coturnos, soltou uma risada seca, sem um pingo de empatia.
— É o universo tentando te avisar que o seu fogo tá alto demais desde ontem, Romeu de Kanto. Anda logo, a gente tem aula de Táticas Avançadas em quinze minutos e, se você chegar atrasado com essa cara de quem foi atropelado por um Tauros, o professor Turo vai te usar de exemplo de como *não* ser um treinador focado.
Roy se levantou, ignorando a dor nas costas. Ele passou a mão pelo cabelo bagunçado e, por um segundo, parou. A memória do beijo na biblioteca o atingiu como um *Volt Tackle*. Ele sentiu o rosto esquentar instantaneamente. Não era um sonho. Ele realmente tinha beijado a Liko. Eles eram... namorados? A palavra ainda parecia grande demais para a sua boca, mas o sorriso que surgiu em seu rosto era inegável.
— Ei, Ult — chamou Roy, enquanto procurava uma camiseta limpa no meio da bagunça do armário. — Você acha que... sei lá, eu devia levar flores pra ela? Ou um café? O que as pessoas fazem no "dia um"?
Ult parou na porta e olhou para o melhor amigo com uma expressão de profundo cansaço existencial.
— Roy, a Liko te conhece desde que você achava que o tipo Venenoso era eficaz contra o tipo Aço. Se você aparecer com flores agora, ela vai achar que você quebrou alguma coisa cara dela ou que foi substituído por um Ditto. Só... não seja um idiota completo. É o máximo que eu posso te pedir.
Enquanto isso, no dormitório feminino, Liko estava vivendo seu próprio drama interno. Ela já tinha trocado de roupa três vezes. Meowscarada estava sentada na cama, observando a treinadora com um olhar de julgamento que só os Pokémon do tipo Planta conseguem ter.
— Eu não posso ir assim, Dot! — Liko exclamou, apontando para o espelho. — Essa blusa me faz parecer muito... séria? Ou talvez muito largada? E se ele se arrependeu? E se o beijo foi só o efeito da poeira daquela biblioteca antiga e agora ele percebeu que eu sou só a Liko desastrada de sempre?
Dot, que estava com os olhos colados em um tablet revisando os gráficos da sua última live como Nidotina, nem se deu ao trabalho de olhar para cima.
— Liko, respira. O Roy tem a profundidade emocional de uma colher de chá, mas ele é obcecado por você desde o primeiro semestre. Ele não vai "se arrepender". O máximo que pode acontecer é ele esquecer como se usa um garfo porque o cérebro dele derreteu de felicidade. Agora põe essa jaqueta azul e vamos, eu preciso de cafeína antes que eu comece a morder pessoas.
O encontro nos corredores do prédio de salas de aula foi, no mínimo, cinematográfico — se o cinema em questão fosse uma comédia romântica de baixo orçamento sobre adolescentes atrapalhados.
Roy vinha correndo, ainda tentando ajeitar o colar de pedra que sempre usava, enquanto Liko caminhava tentando manter a postura de "pessoa que tem a vida sob controle". Quando seus olhos se cruzaram no meio do corredor lotado, o mundo ao redor pareceu entrar em modo de câmera lenta.
— Oi — disse Roy, parando na frente dela. Ele estava ofegante e seu cabelo estava mais rebelde que o normal.
— Oi — respondeu Liko, sentindo as bochechas queimarem.
Eles ficaram ali, parados, bloqueando o fluxo de estudantes que iam para as aulas.
— Então... — Roy começou, coçando a nuca. — Você dormiu bem?
— Dormi. Quer dizer, mais ou menos. — Liko deu um sorriso tímido. — A Dot não parou de falar sobre como eu sou "lenta" até as duas da manhã.
— O Ult também não ajudou. — Roy deu um passo para mais perto, diminuindo a distância segura de amizade. — Mas, eh... eu fiquei pensando naquilo. Na biblioteca.
— Eu também.
— A gente ainda tá... naquela página? — Roy perguntou, a voz baixando um tom, a sinceridade transbordando pelos olhos vermelhos.
Liko estendeu a mão e, de forma rápida, entrelaçou seus dedos nos dele. Foi um toque breve, já que estavam em público, mas o suficiente para fazer Roy abrir aquele sorriso largo que iluminava o corredor inteiro.
— Definitivamente — afirmou ela.
— QUE LINDO! — O grito de Dot ecoou atrás deles, fazendo ambos pularem de susto. — Agora que o momento "Disney" acabou, podemos entrar na sala antes que o Turo decida que a nossa nota é proporcional ao nosso atraso?
A aula de Táticas Avançadas foi um teste de resistência. Roy e Liko sentaram-se lado a lado, mas a concentração de ambos estava no nível zero. Toda vez que suas mãos se encostavam acidentalmente sobre a mesa, era como se uma explosão ocorresse.
— Como discutido anteriormente — a voz monótona do Professor Turo ecoava pela sala —, o uso de condições climáticas pode alterar drasticamente o fluxo da batalha. Roy, você pode nos dizer qual a principal vantagem do sol para o seu Skeledirge além do aumento de dano?
Roy, que estava ocupado desenhando um pequeno Meowscarada no canto do seu caderno de anotações, deu um pulo na cadeira.
— Eh... o sol? Ah, sim! Ele faz o Skeledirge ficar com um bronzeado maneiro e... eh... impede o congelamento? — Ele arriscou, sentindo o suor frio descer pela nuca.
A sala explodiu em risadas. Ult bateu a mão na testa, enquanto Liko tentava esconder o rosto entre as mãos, rindo baixinho.
— Uma resposta... criativa, embora tecnicamente correta sobre o congelamento — disse Turo, sem mudar a expressão. — Tente manter sua mente no campo de batalha, Roy. Nem tudo na vida se resolve com "bronzeado".
Após a aula, o grupo se reuniu no refeitório. O clima estava leve, mas Roy notou que Hektor estava sentado em uma mesa próxima com seus amigos, lançando olhares de desdém na direção deles. Roy sentiu a irritação crescer, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, sentiu a mão de Liko tocar seu joelho por baixo da mesa.
— Ignora, Roy — sussurrou ela. — Ele não vale o seu esforço.
— Eu sei, mas aquele cara me tira do sério — resmungou Roy, voltando-se para o seu prato de macarrão. — Ele age como se fosse o dono da Academia só porque o pai dele é um patrocinador da Liga.
— Falando em donos da Academia — Ult interveio, roubando uma batata frita do prato de Dot —, vocês ficaram sabendo do torneio de duplas que vai rolar no próximo fim de semana? O prêmio é uma viagem com tudo pago para um resort em Alola e uns TMs raros.
Os olhos de Roy brilharam instantaneamente.
— Torneio de duplas? Liko, a gente tem que entrar!
Liko hesitou, olhando para Meowscarada, que estava sentada ao lado dela.
— Eu não sei, Roy. A gente acabou de... você sabe. Misturar romance com batalha de duplas pode ser perigoso. E se a gente brigar no meio do campo?
— A gente não vai brigar! — Roy exclamou, empolgado. — A gente se entende sem nem precisar falar, lembra? Além disso, imagina a gente em Alola. Só nós dois. Longe do Ult e das lives da Dot.
— Ei! — Dot protestou. — Eu ouvi isso. E saiba que, se vocês forem, eu vou junto para cobrir o evento. A Nidotina precisa de conteúdo de "casais treinadores" para os seus seguidores.
— Nem pensar — disse Liko, rindo. — Mas... tudo bem, Roy. Vamos fazer isso. Mas temos que treinar sério. Nada de ficar me distraindo com elogios bobos no meio do comando.
— Prometo tentar — Roy piscou para ela.
O resto da semana foi uma mistura caótica de aulas, treinos intensos no campo de batalha e momentos roubados entre os dormitórios. A rotina universitária não dava trégua, mas agora tudo parecia ter um filtro mais brilhante.
Numa dessas noites, após um treino exaustivo onde Skeledirge e Meowscarada terminaram exaustos, Roy e Liko ficaram sentados na arquibancada do estádio da academia, observando as estrelas.
— Sabe, Liko — Roy começou, olhando para as próprias mãos —, às vezes eu ainda não acredito que a gente tá aqui. Tipo, de verdade.
— Aqui na arquibancada ou "aqui" na relação? — perguntou ela, encostando a cabeça no ombro dele.
— Os dois. Eu passei tanto tempo tentando ser o melhor treinador, tentando provar que eu era forte, que eu esqueci que a parte mais legal de tudo isso era ter você do meu lado. Eu sou meio burro, né?
— Um pouco — Liko admitiu, rindo. Ela se afastou um pouco para olhar nos olhos dele. — Mas você é o único que me faz sentir que eu não preciso ser perfeita. Com você, eu posso ser a Liko que tropeça, que fica nervosa e que não sabe o que fazer. E você ainda me olha como se eu fosse uma campeã.
Roy sentiu o coração apertar de um jeito bom. Ele se inclinou e deu um beijo suave na testa dela, descendo para a ponta do nariz e, finalmente, para os lábios. Era um beijo calmo, que selava uma promessa silenciosa de que, não importa o que acontecesse naquele torneio ou na faculdade, eles estariam juntos.
No entanto, a calmaria foi interrompida pelo som de passos rápidos na grama.
— Roy! Liko! — Era Ult, e ele parecia genuinamente preocupado, o que era um sinal de alerta máximo.
— O que foi, Ult? Alguém morreu? — Roy perguntou, levantando-se.
— Quase isso. A Dot... ela entrou em pânico. Alguém vazou a identidade real da Nidotina no fórum da Academia. Estão dizendo que ela é a "esquisita do quarto 402" e tem uma galera indo pro dormitório feminino agora pra tirar satisfação ou fazer live dela.
Liko empalideceu. Ela sabia o quanto a privacidade era importante para a amiga.
— O quê? A gente tem que ir lá agora! — Liko já estava correndo antes mesmo de terminar a frase.
Roy foi logo atrás, chamando Skeledirge.
— Aqueles idiotas não sabem com quem estão mexendo — rosnou Roy. — Ninguém mexe com a nossa equipe.
Quando chegaram ao prédio dos dormitórios, viram um grupo de cerca de dez alunos, liderados por — para a surpresa de ninguém — Hektor. Ele estava com o celular na mão, gravando a porta do quarto de Dot, enquanto ria e fazia comentários maldosos.
— Vamos lá, Nidotina! Aparece! Queremos ver se você é tão corajosa na vida real quanto é atrás daquele avatar de pato! — gritava Hektor.
Liko sentiu uma fúria que raramente sentia. Ela passou pelo grupo como um furacão.
— SAIAM DAQUI! — Ela gritou, a voz ecoando pelo corredor e fazendo todos pararem.
Hektor virou-se, com um sorriso cínico.
— Ora, se não é a guarda-costas. O que foi, Liko? Ficou bravinha porque a sua amiga é uma fraude?
— A única fraude aqui é você, Hektor — Roy disse, aproximando-se e ficando ombro a ombro com Liko. Skeledirge soltou um rugido baixo que fez as janelas do corredor vibrarem. — Você está assediando uma aluna e violando a privacidade dela. Sai daqui agora antes que eu decida que este corredor é um excelente lugar para um *Flare Blitz*.
— Você não teria coragem — desafiou Hektor, embora estivesse visivelmente tremendo. — A diretoria te expulsaria na hora.
— Quer testar? — Roy deu um passo à frente, os olhos vermelhos brilhando com uma intensidade perigosa. — Eu não me importo de ser expulso se for pra calar essa sua boca de esgoto.
Ult apareceu logo atrás, com Sableye flutuando ao seu lado, as pedras preciosas nos olhos do Pokémon brilhando de forma sinistra.
— E eu tenho fotos de você colando na prova de História Pokémon da semana passada, Hektor — disse Ult, com seu tom mais venenoso e calmo. — Seria uma pena se elas fossem parar na mesa do Professor Turo enquanto você é levado por assédio.
Hektor olhou de Roy para Ult, e depois para a expressão gélida de Liko. Ele percebeu que estava em desvantagem numérica e moral.
— Isso não acabou — resmungou ele, baixando o celular e sinalizando para seus amigos o seguirem. — Vocês são todos loucos.
Assim que o corredor ficou vazio, Liko bateu suavemente na porta do quarto.
— Dot? Sou eu. Eles já foram.
A porta se abriu apenas uma fresta, revelando o rosto de Dot, cujos olhos estavam vermelhos de choro, algo que Roy e Ult nunca tinham visto antes. Ela rapidamente puxou os três para dentro e trancou a porta.
O quarto estava um caos. Quaquaval estava num canto, parecendo pronto para lutar contra o mundo inteiro para proteger sua treinadora.
— Eles descobriram — sussurrou Dot, sentando-se no chão. — Minha carreira acabou. Todo mundo vai ficar me olhando no campus agora. Eu não vou conseguir mais sair daqui.
Liko sentou-se ao lado dela, abraçando-a com força.
— Não acabou, Dot. Você é a Nidotina. Você dá conselhos para milhares de pessoas. Aqueles idiotas são apenas uma pequena parte do mundo. E você tem a gente.
— O Ult tem razão — Roy disse, sentando-se no chão também, cruzando as pernas. — A gente é uma equipe. Se alguém mexer com um, mexe com todos. E se alguém tentar te filmar, o Skeledirge "acidentalmente" vai quebrar o celular deles.
Dot deu um pequeno sorriso em meio às lágrimas, olhando para Roy.
— Você é um brutamontes, Roy. Mas obrigada.
— Disponha — ele respondeu, sorrindo.
Ult, que estava encostado na parede, limpou a garganta.
— Escuta, Dot... eu sei que a gente vive se xingando, mas as suas lives são... eh... decentes. Você não devia parar por causa de um bando de retardados que não têm o que fazer. Se você precisar de um segurança ou de alguém pra filtrar os comentários, eu conheço um cara.
— Que cara? — Dot perguntou.
— Eu, sua tonta — Ult desviou o olhar, levemente corado. — Eu sou ótimo em ser desagradável com as pessoas.
Liko olhou para Roy e sorriu. No meio de toda aquela confusão, ela percebeu que a Academia Índigo não era apenas um lugar de estudo e competição. Era onde eles tinham construído uma família.
A noite terminou com os quatro amontoados no quarto de Dot, pedindo pizza clandestina e planejando como lidariam com o dia seguinte. A tensão amorosa entre Roy e Liko ainda estava lá, mas agora estava envolta em uma camada de proteção mútua e amizade sólida.
Quando Roy finalmente voltou para o seu quarto com Ult, já passava das três da manhã. Ele se jogou na cama, exausto, mas com o coração leve.
— Ei, Ult — chamou Roy, antes de apagar.
— O que foi agora?
— Valeu por hoje. Você mandou bem com aquela ameaça das fotos.
— Eu nem tenho as fotos, Roy. Eu só blefei. Mas o Hektor é tão culpado que acreditou.
Roy riu, fechando os olhos.
— Você é um gênio do mal, cara.
— Eu sei. Agora dorme, porque amanhã o treino de duplas começa cedo. E se a Liko te vencer, eu vou rir de você pelo resto do semestre.
Roy adormeceu com um sorriso no rosto. Ele sabia que o torneio seria difícil, que a situação da Dot ainda daria o que falar e que ele e Liko ainda teriam muitas discussões bobas pela frente. Mas, pela primeira vez na vida, ele sentia que estava exatamente onde deveria estar.
O "furacão emocional" de Liko e a "impulsividade" de Roy tinham finalmente encontrado um centro comum. E, enquanto as chamas do Skeledirge aqueciam silenciosamente o quarto, Roy sonhou com praias de areia branca em Alola, mãos dadas e um futuro onde as batalhas eram apenas o começo de uma história muito maior.
Afinal, na Academia Índigo, a lição mais importante nunca estava nos livros: era que, com os Pokémon certos e as pessoas certas ao seu lado, não existia "desvantagem de tipo" que não pudesse ser superada.