Friends with benefits and a family!?
O Sobrenome que Faltava e o Vinho que Incendeia
O ar condicionado do tribunal parecia insuficiente para conter a ansiedade que emanava do pequeno grupo sentado nos bancos de madeira polida. Charlotte, impecável em um terninho bege, mantinha as mãos entrelaçadas sobre os joelhos, os nós dos dedos brancos de tanta tensão. Ao seu lado, Faye mantinha a postura ereta de uma herdeira, embora seus olhos vermelhos — resultado de uma noite mal dormida revisando documentos — denunciassem sua preocupação. Entre elas, Freen parecia menor do que realmente era, balançando as pernas nervosamente, enquanto Engfa, de óculos escuros e uma jaqueta de couro que parecia um insulto à formalidade do lugar, batia o pé no chão em um ritmo frenético.
— Se esse juiz demorar mais cinco minutos, eu juro que vou invadir aquela sala e assinar o papel eu mesma — resmungou Engfa, a voz rouca carregada de impaciência.
— Engfa, silêncio — pediu Charlotte, embora sua voz tivesse um tom de súplica. — A família do meu pai moveu muitos pauzinhos para que essa audiência fosse rápida. Não estrague tudo agora com seu temperamento.
— Eu não estou estragando nada, Char! Só acho que a burocracia é uma merda. A garota já mora com a gente, o Sunny já reconhece ela como dona e eu já gastei metade do meu salário em peças para a moto dela. O que mais esse velho quer? — Engfa rebateu, cruzando os braços e fazendo um bico que Freen achou hilário.
— Ele quer garantir que a Freen não vá de uma negligência para um hospício, Engfa — Faye interveio, com um sorriso de canto, embora estivesse acariciando a mão de Charlotte para acalmá-la. — E, tecnicamente, com você por perto, o hospício é uma possibilidade real.
Antes que Engfa pudesse retrucar, a porta pesada de carvalho se abriu. Um oficial de justiça chamou os nomes. O coração de Freen deu um salto. Ela olhou para as três mulheres que, nos últimos meses, haviam transformado sua vida de um vazio silencioso em um caos barulhento e cheio de amor.
Lá dentro, o juiz, um homem de cabelos grisalhos e olhar severo, analisou a papelada por um tempo que pareceu uma eternidade. Os pais biológicos de Freen nem sequer compareceram; enviaram uma procuração dando pleno consentimento, como se estivessem se desfazendo de um imóvel antigo.
— Diante das provas de negligência e do relatório social favorável... — o juiz começou, ajustando os óculos — ...e considerando que a menor expressou desejo explícito de permanecer sob a guarda das senhoritas, eu julgo procedente o pedido de adoção. Freen Sarocha agora é, legalmente, filha de Engfa Waraha, Charlotte Austin e Faye Malisorn.
O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo. Freen não esperou o protocolo. Ela se jogou nos braços de Charlotte, que começou a chorar instantaneamente, soluçando contra o ombro da adolescente. Faye abraçou as duas por trás, escondendo o rosto no pescoço de Freen, permitindo-se finalmente relaxar a postura impecável.
— CARALHO, FINALMENTE! — o grito de Engfa ecoou pela sala solene, fazendo o juiz pular na cadeira. — EU SABIA QUE ESSE VELHO IA TER BOM SENSO! CHUPA, MUNDO! A PIRRALHA É NOSSA!
— Senhora! — o juiz exclamou, batendo o martelo com força. — Respeite este tribunal! Isso é desacato! Vou aplicar uma multa por comportamento inadequado e linguagem ofensiva!
Engfa nem olhou para ele. Ela apenas puxou Freen para um abraço de urso, tirando-a do chão e girando-a no ar.
— Pode aplicar a multa que quiser, seu juiz! Cobra da ruiva ali, ela é rica! — Engfa riu, beijando a testa de Freen com força. — Você ouviu, pirralha? Ninguém te tira da gente. Nunca mais.
Faye suspirou, já abrindo a bolsa e pegando o talão de cheques com uma expressão de "eu já esperava por isso".
— Mil desculpas, Meritíssimo — disse Faye, com sua voz mais diplomática, enquanto preenchia o valor da multa. — Minha namorada tem a delicadeza de um trator, mas o coração é de ouro. Considere isso uma contribuição para a reforma do tribunal.
Minutos depois, já no estacionamento, a euforia ainda não tinha passado. Freen olhava para o documento em suas mãos como se fosse um tesouro sagrado.
— Então... eu sou uma de vocês agora? De verdade? — Freen perguntou, a voz ainda um pouco trêmula.
— Você sempre foi, querida — Charlotte disse, limpando as lágrimas e beijando as bochechas de Freen. — Agora o mundo só sabe o que a gente já sabia. E como hoje é o seu dia, você escolhe o jantar. Qualquer coisa.
— Qualquer coisa mesmo? — Freen olhou para Engfa com um brilho travesso nos olhos.
— Nem vem, pirralha. Se você pedir comida de posto de gasolina, a Charlotte mata nós duas — alertou Engfa, colocando o capacete.
— Eu quero pizza. Muitas pizzas. E quero que a Engfa me deixe pilotar a Ninja até a pizzaria — Freen disparou.
— Nem pensar! — Charlotte e Faye gritaram juntas.
— Viu só? — Engfa riu, subindo na moto. — Elas são as mães chatas. Eu sou o pai legal. Sobe aí, mas se você bater a minha moto, eu te devolvo para o orfanato que você nunca foi.
— Engfa! — Charlotte repreendeu, mas não conseguiu esconder o sorriso.
O jantar foi uma celebração barulhenta. Sunny ganhou um pedaço de borda de pizza (escondido por Freen, já que Faye era rigorosa com a dieta do cachorro), Charlotte tirou centenas de fotos e Engfa fez questão de brindar com refrigerante, já que prometera não beber antes de levar Freen para casa em segurança.
Quando finalmente voltaram para o apartamento, a exaustão emocional atingiu Freen. Depois de um banho quente e de receber beijos de boa noite de cada uma das três, a adolescente adormeceu quase instantaneamente, abraçada ao Lulu da Pomerânia.
No andar de baixo, na sala iluminada apenas por abajures de luz quente, o clima mudou. O silêncio da noite de Bangkok lá fora parecia destacar a eletricidade que sempre pairava entre as três mulheres quando estavam sozinhas.
Faye abriu uma garrafa de um vinho tinto caro, um daqueles que ela guardava para ocasiões especiais. Ela serviu três taças e entregou uma para Charlotte e outra para Engfa, que estava jogada no sofá, com a jaqueta de couro finalmente descartada, revelando os braços tatuados e a regata branca que acentuava seus ombros.
— Um brinde — disse Faye, sua voz descendo uma oitava, tornando-se mais aveludada. — À nossa família caótica. E ao fato de que, contra todas as probabilidades, nós não estragamos a vida daquela garota ainda.
— Nós fomos ótimas hoje — Charlotte murmurou, sentando-se entre as duas e encostando a cabeça no ombro de Faye, enquanto estendia a mão para acariciar a nuca de Engfa. — Eu nunca senti tanto medo e tanta felicidade ao mesmo tempo.
— Eu só queria quebrar a cara daquele juiz no começo — Engfa admitiu, tomando um gole generoso do vinho. — Mas quando eu vi a Freen sorrindo... sei lá. A raiva sumiu. Vocês fazem isso comigo. Aquela pirralha faz isso comigo.
Engfa deixou a taça na mesa de centro e se virou para as duas. O brilho sarcástico em seus olhos tinha sido substituído por algo muito mais cru e intenso. Ela puxou Charlotte para um beijo lento, sentindo o gosto de morango do gloss da namorada misturado ao vinho.
— Você está muito tensa, Austin — Engfa sussurrou contra os lábios dela, as mãos grandes descendo para a cintura de Charlotte e apertando com possessividade. — Precisa relaxar.
Faye, observando a cena com um sorriso predatório, terminou seu vinho e deixou a taça de lado. Ela se aproximou por trás de Engfa, envolvendo o pescoço da morena com os braços e depositando um beijo úmido e demorado logo abaixo da orelha, onde a pele de Engfa era mais sensível.
— A Engfa tem razão — Faye murmurou, sua respiração quente arrepiando cada centímetro do corpo de Engfa. — Foi um dia longo. Nós merecemos uma comemoração... só nossa.
Charlotte soltou um gemido baixo quando as mãos de Engfa subiram por baixo de sua blusa, encontrando a pele quente de suas costas. Ela se inclinou para frente, beijando as mãos de Faye que ainda rodeavam o pescoço de Engfa, unindo as três em um emaranhado de toques e respirações curtas.
— Eu adoro quando vocês ficam protetoras assim — Charlotte confessou, os olhos nublados de desejo. — Mas adoro ainda mais quando vocês esquecem de ser as "mães" da Freen por uns momentos.
Engfa soltou uma risada rouca, aquela que sempre fazia as pernas de Charlotte tremerem. Ela se levantou, puxando as duas juntas com ela.
— A pirralha está em um sono profundo. O Sunny está desmaiado de tanto comer pizza — Engfa disse, a voz vibrando de antecipação. — O que começou como uma brincadeira de adotar uma filha... acabou sendo a melhor coisa que fizemos. Mas agora... eu quero focar nas minhas outras duas prioridades.
Ela empurrou Faye levemente contra a parede do corredor, prendendo-a com o corpo, enquanto trazia Charlotte para perto com o outro braço. O contraste era delicioso: a elegância clássica de Faye, a doçura observadora de Charlotte e a energia bruta e indomável de Engfa.
— Eu senti falta disso — Faye disse, as mãos puxando o cabelo castanho de Engfa para trás para expor seu pescoço. — Do nosso caos.
— O caos está só começando, Malisorn — Engfa prometeu, antes de atacar os lábios de Faye com uma fome que o vinho só fizera aumentar.
Charlotte assistia à cena por um segundo, sentindo o calor subir por seu corpo, antes de se juntar a elas, as mãos explorando as curvas de suas namoradas. Ali, naquele espaço seguro que construíram entre brigas de trânsito, telas de pintura, livros de direito e uma adolescente que precisava de amor, elas eram completas.
A noite estava apenas começando, e se o dia fora dedicado a formalizar a família, a madrugada pertencia inteiramente ao fogo que as mantinha unidas. Entre beijos, sussurros e o som abafado de risadas e gemidos que se perdiam pelo corredor, Engfa, Charlotte e Faye celebravam a vitória mais importante de suas vidas. Elas não eram apenas namoradas, e Freen não era apenas uma protegida. Elas eram um clã. Um clã barulhento, imperfeito e intensamente apaixonado.
E enquanto a Ninja H2R descansava na garagem e os pincéis de Charlotte secavam no ateliê, o apartamento 402 pulsava com uma vida que nenhum tribunal jamais seria capaz de descrever em papel.