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Friends with benefits and a family!?

A Ressaca, o Pátio da Escola e o Amor em Horário Comercial

O som do despertador era como uma britadeira perfurando o crânio de Engfa Waraha. Ela tateou o criado-mudo, derrubando um cinzeiro vazio e um copo de água antes de finalmente silenciar o aparelho. A claridade que entrava pelas frestas da cortina parecia uma afronta pessoal. A comemoração da noite anterior — tanto a oficial quanto a... privada — tinha deixado rastros. O vinho de Faye era de excelente qualidade, mas a quantidade e a intensidade da noite cobravam seu preço agora.

— Por que o sol está tão alto? — resmungou Engfa, afundando o rosto no travesseiro que ainda cheirava ao perfume floral de Charlotte.

Ela esticou o braço, esperando encontrar o corpo quente de uma de suas namoradas, mas o lado da cama estava vazio e frio. Um bilhete estava preso no travesseiro de Faye. Engfa forçou a vista, ajustando os óculos que estavam tortos em seu rosto.

"Char teve uma reunião de emergência no tribunal às 07:00. Eu precisei ir para a sede da empresa resolver um bug no sistema de segurança. Freen precisa estar no campus às 08:30. É sua vez, 'Pai'. Tem café forte na cozinha e aspirina no armário. Te amamos. — Faye."

Engfa soltou um rosnado que misturava adoração e desespero. Olhou para o relógio: 07:45.

— Freen! — gritou Engfa, sua voz saindo mais rouca do que o normal. — Levanta esse corpo de adolescente prodígio, senão a gente vai chegar no campus fazendo drift na calçada!

Dez minutos depois, Engfa estava na cozinha, vestindo uma calça cargo preta, uma regata branca e sua inseparável jaqueta de couro, apesar do calor matinal de Bangkok. Ela bebia o café preto direto da jarra quando Freen apareceu, impecável em seu uniforme, mas com um sorriso zombeteiro que denunciava que ela estava aproveitando o estado deplorável da "mãe".

— Você está com cheiro de uva fermentada e arrependimento — comentou Freen, pegando uma torrada. — A mamãe Char disse que se você me deixasse atrasada, ela ia confiscar suas chaves por uma semana.

Engfa parou com a jarra de café no ar, os olhos semicerrados por trás das lentes dos óculos.

— Ela não ousaria.

— Ela é advogada, Engfa. Ela provavelmente já redigiu o contrato de confisco enquanto você babava no travesseiro — Freen provocou, passando por ela e pegando sua mochila. — Vamos? A Ninja não vai se pilotar sozinha.

Enquanto isso, no centro jurídico de Bangkok, o clima era consideravelmente mais... sofisticado, porém não menos caótico. Charlotte Austin caminhava pelos corredores de mármore com a elegância de quem nasceu para dominar aquele ambiente. Seus sapatos de salto alto ecoavam com autoridade. Ela estava ali para uma audiência de custódia de um caso pro bono, mas seus pensamentos ainda estavam na noite anterior.

Ao dobrar o corredor em direção à sala de reuniões, ela avistou uma figura familiar encostada em uma pilastra, mexendo em um tablet de última geração. Cabelos vermelhos vibrantes, um terno sob medida que gritava "CEO de tecnologia" e um sorriso que Charlotte conhecia bem demais.

— Faye? O que você está fazendo aqui? Achei que estivesse na empresa — Charlotte perguntou, aproximando-se e sentindo o coração acelerar, como se fosse a primeira vez que a via.

Faye Malisorn levantou o olhar do tablet e sorriu, aquela expressão observadora que parecia ler a alma de Charlotte.

— O sistema da empresa é rápido, mas os advogados do sindicato são lentos — explicou Faye, guardando o aparelho e envolvendo a cintura de Charlotte com um braço possessivo. — Tive que vir assinar uns termos de confidencialidade aqui no tribunal. E, por coincidência, soube que a advogada mais brilhante da Tailândia estaria no prédio.

Charlotte olhou ao redor, verificando se havia algum colega de trabalho por perto, mas a atração magnética de Faye era difícil de resistir. Ela se deixou puxar para mais perto, descansando as mãos no peito de Faye.

— Você é um perigo para a minha produtividade, Malisorn — sussurrou Charlotte, beijando o queixo da ruiva. — Eu tenho uma reunião em dez minutos.

— Dez minutos é muito tempo para quem sabe o que quer — Faye retrucou, conduzindo Charlotte para uma sala de consultas jurídicas que estava vazia.

Assim que a porta se fechou, o profissionalismo deu lugar à saudade latente. Faye pressionou Charlotte contra a porta, beijando seu pescoço com uma intensidade que fez a advogada soltar um suspiro trêmulo.

— A Engfa deve estar sofrendo agora — comentou Charlotte entre beijos, rindo baixo enquanto Faye acariciava seu rosto.

— Ela merece. Quem mandou querer virar a última garrafa de vinho sozinha? — Faye riu, selando os lábios de Charlotte em um beijo profundo e apaixonado. — Mas, falando sério... como está o processo da Freen?

— Tudo certo. Só faltam os trâmites do novo registro civil — respondeu Charlotte, recuperando o fôlego e ajeitando o cabelo de Faye. — Em breve, ela terá nossos três sobrenomes. Sarocha Chankimha-Austin-Malisorn-Waraha. Vai ser um pesadelo para ela assinar provas, mas vai ser oficial.

— Nós somos loucas — Faye murmurou, abraçando Charlotte pela cintura e descansando a testa na dela. — Mas eu nunca fui tão feliz.

Enquanto as duas perdiam a noção do tempo na sala jurídica, o caos motorizado chegava ao campus da escola de elite de Freen.

O ronco ensurdecedor da Kawasaki Ninja H2R fez com que dezenas de estudantes e pais parassem o que estavam fazendo. Engfa entrou no estacionamento como se estivesse em uma pista de corrida, parando a moto com uma precisão milimétrica bem em frente à entrada principal.

Ela desligou o motor, mas manteve-se montada, retirando o capacete e balançando os cabelos castanhos. Mesmo com a ressaca e os pequenos cortes de brigas passadas ainda visíveis, Engfa exalava um magnetismo perigoso que contrastava violentamente com os carros de luxo comportados ao redor.

— Chegamos, pirralha. Dois minutos adiantadas — anunciou Engfa, limpando uma gota de suor da testa e já tateando o bolso em busca de um cigarro, antes de lembrar que era proibido fumar ali. — Merda de escola de elite.

Freen desceu da garupa, ajeitando a saia do uniforme e o cabelo. Ela notou imediatamente os olhares. Seus colegas, acostumados com motoristas particulares ou pais de terno, encaravam Engfa como se ela fosse um alienígena — ou uma estrela de rock em decadência.

— Freen! — uma colega de classe se aproximou, sussurrando alto o suficiente para Engfa ouvir. — Quem é essa? É sua segurança nova? Ela é... uau.

Freen olhou para Engfa, que agora estava com os óculos escuros postos, observando o movimento com uma expressão de tédio e proteção. Engfa deu um piscadela para a colega de Freen, fazendo a menina corar instantaneamente.

— É a minha mãe — respondeu Freen, com um orgulho que não tentou esconder. — A mais irresponsável das três, para ser sincera.

Engfa soltou uma risada alta, descendo da moto e caminhando até Freen. Ela ignorou os olhares de julgamento dos outros pais e abraçou a adolescente pelos ombros.

— Irresponsável, mas sou eu que te ensino a não ser uma tonta nesse mundo de tubarões — disse Engfa, beijando o topo da cabeça de Freen. — Se algum desses riquinhos te encher o saco hoje, me liga. Eu venho aqui e mostro para eles como se faz uma curva de verdade.

— Não ameaça os meus colegas, Engfa — pediu Freen, embora estivesse sorrindo. — E vê se toma um banho e dorme. Você está parecendo um guaxinim com esses olhos fundos.

— Respeite seus ancestrais, Sarocha! — Engfa brincou, dando um tapinha leve nas costas da garota. — Agora vai. Estuda para ser a CEO que vai sustentar minha aposentadoria e minhas motos.

Freen acenou e correu para dentro, mas Engfa permaneceu ali por alguns minutos, encostada na Ninja. Ela sentiu o celular vibrar no bolso. Era uma foto no grupo das três: Charlotte e Faye, visivelmente descabeladas e com sorrisos cúmplices, dentro de uma sala escura no tribunal.

"Reunião atrasada. Culpem a Faye. Como está a nossa menina? — Char."

Engfa sorriu, o coração aquecendo de um jeito que ela ainda não entendia completamente. Ela tirou uma selfie rápida, com o campus ao fundo e uma careta de cansaço.

"A pirralha está entregue. Os pais de elite estão me olhando como se eu fosse roubar a prataria da escola. Vou para casa, tomar um banho e tentar não morrer de dor de cabeça. Amo vocês. Tragam comida de verdade no almoço, nada de salada da Faye ou coisas orgânicas da Char. Eu quero gordura. — Engfa."

Ela guardou o celular, montou na moto e deu a partida. O rugido do motor pareceu uma declaração de guerra contra a monotonia daquela manhã de terça-feira.

Enquanto dirigia de volta para o apartamento, Engfa pensava em como sua vida tinha mudado. Há dois anos, ela estaria em algum bar sujo, sem rumo, fugindo dos fantasmas do pai. Agora, ela tinha uma casa que cheirava a tinta e livros, duas mulheres que eram seu porto seguro e sua perdição, e uma filha que era o seu reflexo mais brilhante.

Ao chegar em casa, o silêncio do apartamento era preenchido apenas pelos latidos entusiasmados de Sunny.

— Oi, bolinha de pelo — murmurou Engfa, pegando o Lulu da Pomerânia no colo. — Elas nos deixaram sozinhos, amigão.

Ela caminhou até a cozinha e viu a tela que Charlotte estava pintando na varanda. Eram tons de azul e roxo, algo que lembrava o céu de Bangkok ao amanhecer. No canto da mesa, um livro de Faye estava aberto com um marcador de seda.

Engfa suspirou, sentindo uma onda de gratidão tão forte que quase superava a ressaca. Ela foi até o quarto de Freen, que agora estava decorado com pôsteres de bandas e fotos delas quatro. O quarto que antes era de hóspedes agora transbordava a personalidade da adolescente.

Ela deitou na cama de Freen por um momento, sentindo o cheiro de juventude e esperança que emanava dali.

— Eu não vou estragar isso — prometeu a si mesma, em voz baixa. — Eu juro que não vou ser como ele.

O celular tocou novamente. Era uma chamada de vídeo de Charlotte e Faye. Engfa atendeu, vendo as duas já no carro, provavelmente a caminho de casa.

— Engfa! Você está com uma cara péssima — riu Faye pela tela.

— É o preço de ser o único pai responsável desta casa — rebateu Engfa, fingindo indignação.

— Nós estamos levando hambúrgueres e batatas fritas — anunciou Charlotte, soprando um beijo para a câmera. — E eu comprei aquele sorvete de morango que a Freen adora.

— E para mim? — perguntou Engfa, fazendo bico.

— Para você, temos muito amor, um banho gelado e uma massagem — Faye disse, com um olhar que prometia muito mais. — Chegamos em dez minutos.

— Estejam aqui em cinco ou eu começo a ensinar o Sunny a pilotar — ameaçou Engfa.

Ela desligou o celular e sorriu para o teto. O caos era a rotina delas. As brigas, a possessividade, os beijos roubados em salas de tribunal, as corridas de moto e a luta diária para dar a Freen a família que ela nunca teve.

Era imperfeito. Era barulhento. Era, muitas vezes, perigoso. Mas enquanto Engfa Waraha tivesse Charlotte e Faye ao seu lado, e Freen como seu norte, o resto do mundo podia continuar tentando entender. Elas não precisavam de compreensão. Elas tinham uma às outras.

E, para Engfa, isso era a única corrida que realmente valia a pena ganhar.