Friends with benefits and a family!?
O Esboço, o Escândalo e o Território Marcado
O som da porta da frente se abrindo foi o sinal para que Sunny disparasse pelo corredor como uma pequena bola de pelos branca e elétrica. Engfa, que estava jogada no sofá tentando convencer seu cérebro de que ele não estava flutuando em uma banheira de gim, levantou a cabeça apenas o suficiente para ver Charlotte e Faye entrarem carregando sacos de papel que exalavam o perfume celestial de gordura, carne grelhada e batatas fritas.
— O resgate chegou — anunciou Faye, depositando as sacolas na mesa de centro com a elegância de quem estava servindo um banquete no palácio, apesar de ser apenas fast-food.
— Graças aos deuses — resmungou Engfa, sentando-se com esforço. — Se eu tivesse que comer mais uma daquelas barrinhas de cereal de "superalimento" que a Faye compra, eu juro que começaria a caçar pombos na varanda.
Charlotte riu, aproximando-se de Engfa e depositando um beijo suave em sua testa, testando a temperatura.
— Você ainda está viva, Waraha. Pare de drama. Coma primeiro, porque eu tenho um projeto para você depois do almoço.
Engfa devorou o hambúrguer como se fosse sua última refeição, sentindo a vida retornar ao corpo conforme o sódio e o açúcar faziam seu trabalho. Faye e Charlotte observavam a cena com uma mistura de adoração e divertimento. Quando a última batata desapareceu, Charlotte puxou Engfa pela mão em direção ao seu ateliê improvisado na sala.
— O que foi agora, Char? Quer que eu pose para uma estátua de mármore? Eu prefiro ser a versão de bronze, é mais resistente — brincou Engfa.
— Quase isso — disse Charlotte, pegando uma caixa que estava escondida atrás de suas telas. — Eu tive uma ideia para um esboço novo. Um conceito sobre "domesticação do caos". E você, querida, é o meu caos favorito.
Faye, que já estava confortavelmente instalada em uma poltrona com uma taça de vinho (desta vez, apenas uma), arqueou uma sobrancelha ao ver o que Charlotte tirou da caixa. Era uma coleira de couro preto delicada, com tachas prateadas, e uma tiara com orelhas de cachorro feitas de pelúcia realista.
Engfa arregalou os olhos, a boca aberta em choque.
— Nem ferrando, Austin. Nem em um milhão de anos.
— É apenas para um esboço, Engfa — pediu Charlotte, fazendo aquele bico que ela sabia que desarmava qualquer defesa da namorada. — As linhas do seu pescoço ficam lindas com acessórios, e eu quero capturar essa dualidade... a fera indomável da Kawasaki Ninja sendo, bem... minha.
— Nossa — corrigiu Faye, com um brilho malicioso nos olhos. — Vai, Engfa. É pelo bem da arte da Charlotte. E eu adoraria ver como você fica... coordenada.
Resmungando todos os palavrões que conhecia, Engfa deixou que Charlotte prendesse a coleira em seu pescoço e ajustasse as orelhas em sua cabeça. O couro estava frio contra sua pele, e o peso das orelhas a fazia se sentir ridícula. Charlotte começou a esboçar rapidamente no papel, mas o silêncio da sala foi quebrado pela risada baixa de Faye.
— Sabe, Engfa — começou a ruiva, levantando-se e caminhando até ela, passando a ponta dos dedos pelo couro da coleira —, você fica realmente bonitinha quando está domesticada. Talvez devêssemos manter isso como parte do uniforme da casa.
Engfa sentiu o rosto queimar, uma cor vermelha intensa subindo pelo pescoço até as pontas das orelhas (as de verdade e as de pelúcia).
— Parem com isso — murmurou ela, desviando o olhar, a imagem da "bad girl" das corridas clandestinas desmoronando completamente. — Eu sou uma ameaça pública, não um animal de estimação.
— Você é a nossa ameaça pública — disse Charlotte, parando o desenho para beijar a ponta do nariz de Engfa. — E você está adorável.
O momento de "domesticação" foi interrompido pelo toque estridente do telefone de Charlotte. Ela atendeu, e sua expressão mudou de lúdica para profissional em segundos.
— Sim, entendo. Sim, ela é a responsável legal. Estaremos aí em vinte minutos.
Charlotte desligou o telefone e olhou para Engfa, que ainda tentava tirar as orelhas de cachorro com pressa.
— A diretora da escola da Freen. Parece que a sua chegada triunfal de manhã causou um "alvoroço desnecessário" e ela quer conversar com os responsáveis.
— Aquela mulher não tem mais o que fazer? — reclamou Engfa, jogando as orelhas no sofá. — Eu só deixei a garota na porta!
— Você deixou a garota na porta fazendo um barulho que parecia o apocalipse, Engfa — Faye pontuou, já pegando as chaves do carro. — Vamos. Eu vou com você. Charlotte, você tem aquele caso no tribunal, melhor não se atrasar. Eu cuido da diplomacia... se a Engfa não abrir a boca.
No escritório da diretora, o clima era gélido. A Sra. Somchai, uma mulher que parecia ter sido esculpida em gelo e regras gramaticais, olhava para Engfa como se ela fosse uma mancha de óleo em um tapete persa.
— Sra. Malisorn, agradecemos seu apoio financeiro contínuo à instituição — começou a diretora, ignorando olimpicamente a presença de Engfa ao lado de Faye. — No entanto, a conduta da... outra responsável da Srta. Sarocha é inaceitável. Motocicletas de alta cilindrada, vestimentas inadequadas e, francamente, um comportamento que não condiz com os valores desta escola de elite.
Engfa sentiu a veia em sua têmpora pulsar. Ela cruzou os braços, as tatuagens em seus braços parecendo vibrar de irritação.
— Valores? — Engfa soltou uma risada sarcástica. — Você quer falar de valores? Os pais biológicos da Freen nem sabem em que continente ela está, mas vocês estão preocupados com o barulho do meu motor? Façam-me o favor! Esta escola é um depósito de crianças ricas e solitárias.
— Engfa... — Faye tentou intervir, mas era tarde demais.
— E outra coisa! — continuou Engfa, levantando-se. — Se vocês estão mais preocupados com a minha jaqueta de couro do que com o fato de a Freen ser a melhor estudante deste campus apesar de ter pais ausentes, então esta escola é uma merda hipócrita! Podem enfiar os seus "valores" naquele lugar onde o sol não bate!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. A diretora estava pálida de choque. Faye fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, antes de abrir sua bolsa e pegar o talão de cheques.
— Sra. Somchai — disse Faye, sua voz sendo o ápice da calma aristocrática —, as palavras da minha namorada foram... coloridas, mas o cerne da questão permanece. Considere o xingamento como uma expressão de estresse parental. Quanto custa a nova ala da biblioteca que vocês queriam construir? Eu cubro os custos, e em troca, a senhora vai esquecer esse incidente e garantir que ninguém incomode a Freen sobre quem a traz para a escola.
A diretora olhou para o cheque, depois para a fúria nos olhos de Engfa, e finalmente para a autoridade inquestionável de Faye. Ela pigarreou.
— Creio que houve um mal-entendido. A biblioteca é, de fato, uma prioridade.
Ao saírem da sala, Engfa estava bufando.
— Você não deveria ter dado dinheiro para aquela múmia, Faye!
— Foi o preço para você poder mandar a diretora para o inferno e sair impune, Engfa. Considere um investimento no seu temperamento — Faye respondeu, segurando o braço de Engfa enquanto caminhavam pelo pátio em direção à saída, onde Freen as esperava após o término das aulas.
No entanto, antes que chegassem ao portão, foram interceptadas por uma mulher jovem, de óculos de armação fina e um sorriso que era um pouco doce demais para ser puramente profissional. Era a professora Chompu, responsável pelas aulas de literatura de Freen.
— Sra. Waraha? — chamou ela, aproximando-se de Engfa com um brilho evidente nos olhos. — Eu sou a professora da Freen. Eu vi você de manhã e... bem, eu queria dizer que a sua motocicleta é fascinante. Eu sempre tive um interesse por... velocidade.
Engfa, que era naturalmente imune a flertes quando estava irritada, apenas ajeitou os óculos.
— É, ela corre bem.
— Eu adoraria saber mais sobre o modelo — continuou Chompu, dando um passo para mais perto do espaço pessoal de Engfa e ignorando Faye completamente. — Talvez você pudesse me dar algumas dicas em um café? Ou quem sabe uma volta?
Faye estreitou os olhos. Ela sentiu aquela onda familiar de possessividade subir por sua espinha. Ela não precisou dizer nada, pois naquele exato momento, o carro de Charlotte estacionou bruscamente no meio-fio. A advogada desceu do veículo, o olhar afiado como uma lâmina ao perceber a cena.
Charlotte caminhou até o grupo com passos decididos. Ela não deu tempo para apresentações.
— Algum problema aqui? — perguntou Charlotte, sua voz sendo um calmante gelado.
— Oh, não, eu só estava conversando com a Sra. Waraha sobre... interesses comuns — respondeu Chompu, um pouco intimidada pela aura de Charlotte.
Charlotte não respondeu com palavras. Em vez disso, ela se aproximou de Engfa, segurou-a pelo colarinho da jaqueta de couro e a puxou para um beijo profundo e possessivo bem na frente da professora e de quem mais estivesse olhando. Engfa, pega de surpresa, relaxou instantaneamente, as mãos encontrando a cintura de Charlotte.
Quando se separaram, Charlotte olhou para a professora com um sorriso gélido.
— Os interesses dela são extremamente limitados ao que acontece dentro da nossa casa. Tenha uma boa tarde, professora.
Faye, não querendo ficar atrás, aproximou-se do outro lado de Engfa. Ela deslizou a mão pela cintura da namorada, apertando levemente a carne ali, e inclinou-se para sussurrar no ouvido de Engfa, mas alto o suficiente para que a professora ouvisse.
— Você realmente chama muita atenção, meu amor. É um problema constante.
Faye então depositou um beijo demorado no pescoço de Engfa, marcando território da mesma forma que Charlotte fizera.
A professora Chompu murmurou algo sobre ter uma aula para preparar e saiu praticamente correndo. Freen, que assistia a tudo de longe com Sunny nos braços, aproximou-se balançando a cabeça.
— Vocês são vergonhosas — disse a adolescente, embora estivesse rindo. — Acabaram de marcar território no pátio da escola como se a Engfa fosse um osso premiado.
— Ela é o nosso osso premiado, pirralha — retrucou Engfa, recuperando sua confiança e passando o braço pelo pescoço de Freen. — Agora vamos sair daqui antes que a Faye decida comprar o campus inteiro só para garantir que ninguém olhe para mim.
— Não me dê ideias, Waraha — Faye brincou, abrindo a porta do carro para elas.
De volta ao apartamento, o caos finalmente deu lugar ao cansaço confortável. Elas pediram comida tailandesa de verdade e se espalharam pela sala. Freen estava sentada no chão terminando um trabalho de história, com Sunny dormindo sobre seus pés. Charlotte estava deitada com a cabeça no colo de Engfa, enquanto Faye massageava os ombros da morena.
— Hoje foi um dia longo — suspirou Charlotte, fechando os olhos enquanto sentia os dedos de Engfa brincarem com seu cabelo.
— Foi um dia caro — corrigiu Faye, mas seu tom era leve. — Mas ver a cara daquela professora quando a Charlotte te beijou... valeu cada centavo da biblioteca.
Engfa deu um sorriso preguiçoso. A raiva que sentira na escola tinha se dissipado, substituída pela sensação de pertencimento que só aquelas três mulheres conseguiam proporcionar.
— Vocês são loucas e possessivas — disse Engfa.
— E você adora isso — rebateu Charlotte, sem abrir os olhos.
— Adoro — admitiu Engfa em voz baixa.
Ela olhou para Freen, que estava concentrada em seus livros, e depois para as duas mulheres que dividiam sua vida. O trauma de sua infância, as cicatrizes em seu rosto e a instabilidade de sua mente pareciam menores ali, naquele pequeno santuário de desordem e afeto.
A vida delas nunca seria o comercial de margarina que a sociedade esperava. Elas eram três mulheres amando-se e criando uma adolescente negligenciada no meio de motos, multas judiciais, tintas de óleo e ciúmes explosivos. Mas, enquanto o mundo lá fora continuava tentando rotulá-las, elas continuavam simplesmente sendo.
— Ei, pirralha — chamou Engfa.
Freen levantou o olhar.
— Amanhã, depois da escola, nada de biblioteca. Vou te levar para a pista. Você precisa aprender a sair de uma fechada sem perder o equilíbrio.
— Engfa! — Charlotte e Faye gritaram em uníssono, mas o protesto foi recebido com risadas.
Freen sorriu, sentindo que, pela primeira vez na vida, ela não era apenas uma nota de rodapé na agenda de alguém. Ela era parte do caos. E o caos, descobriu ela, era o lugar mais seguro do mundo quando se estava cercada por Engfa, Charlotte e Faye.
O dia terminou como todos os outros: com Sunny latindo para o nada, o cheiro de cigarro de Engfa misturado ao perfume caro de Faye, e Charlotte planejando o próximo quadro que imortalizaria aquela família maravilhosamente imperfeita.