Fuck
Visualização Única
O intervalo na escola parecia um campo de batalha silencioso, dividido entre o cheiro de salgado requentado da cantina e o sol forte do pátio. O grupo de sempre estava reunido sob a sombra de uma árvore, mas a dinâmica estava estranha. Mizi estava sentada de um lado, com fones de ouvido no pescoço, ignorando deliberadamente a existência de Sua, que estava sentada no lado oposto, concentrada em um livro grosso de capa escura.
Foi nesse momento que Acorn apareceu. Ele era um cara alto, de cabelos castanhos meio bagunçados e olhos da mesma cor, com aquela pele pálida de quem passava tempo demais jogando videogame, mas que ainda assim conseguia ser considerado um dos "bonitões" do terceiro ano. Ele era gente boa, mas tinha aquela fama de quem não queria nada com nada além de diversão rápida.
Ele caminhou direto até Sua, ignorando o restante do grupo que parou de conversar para observar a cena.
— E aí, Sua, né? — Acorn disse, com um sorriso de lado que ele provavelmente achava infalível.
Sua nem sequer levantou os olhos do livro de imediato. Demorou uns cinco segundos, fechou o livro devagar e olhou para ele com aquela expressão de "o que você quer?".
— Sou.
— Então, te vi pelos corredores esses dias. Você é nova, mas já chamou atenção — ele continuou, sem se abalar com a frieza dela. — Te achei mó bonita, de verdade. A gente podia marcar de fazer alguma coisa, ou só ficar por aí mesmo, sem pressão. Que tal?
Ivan, que estava comendo um chocolate ali perto, quase engasgou. Hyuna arregalou os olhos, pronta para ver Sua dar um fora épico no garoto. Mizi, por outro lado, apenas bufou e revirou os olhos, murmurando algo sobre "gente sem critério".
Para a surpresa de absolutamente todos, Sua deu de ombros.
— Tá. Pode ser.
— Sério? — Acorn pareceu surpreso com a facilidade. — Demorou. Passa seu número aí.
Sua pegou o celular, digitou o número e devolveu para ele sem dizer mais nada. Acorn saiu com um sorrisinho vitorioso.
— Caralho, Sua — Ivan disse, limpando o canto da boca. — Você nem conhece o cara.
— Ele é bonito — Sua respondeu de forma monossilábica, voltando a abrir o livro. — E eu não tenho nada melhor pra fazer.
— Você é muito aleatória, na moral — comentou Till, balançando a cabeça.
***
A noite daquela sexta-feira estava silenciosa na casa dos novos moradores. Sua tinha acabado de sair de um banho quente, o vapor ainda embaçando o espelho do banheiro. Ela vestiu uma camiseta larga e se jogou na cama, pegando o celular. Tinha várias notificações.
Acorn estava mandando mensagens desde o final da aula. A conversa estava naquele nível básico de flerte adolescente, mas as coisas escalaram rápido.
**Acorn:** *Pô, a gente ficou hoje no corredor, mas queria mais.* **Acorn:** *Manda uma foto aí pra eu ver se você é bonita de todo ângulo.* **Acorn:** *Manda dos peitos. Visualização única, confia.*
Sua olhou para a tela com tédio. Ela não estava apaixonada, nem mesmo interessada de verdade, mas havia uma parte dela, talvez a parte irritada com a mudança e com a escola nova, que simplesmente não se importava. Ela se levantou, foi até o espelho, puxou a gola da camiseta e tirou a foto.
Ao mesmo tempo, outra notificação brilhou no topo da tela. Era Mizi.
Mizi estava em call com Till há quase uma hora.
— Eu tô te falando, Till, aquela garota é um porre! — Mizi exclamava, deitada de cabeça para baixo na cama. — Ela me deu um fora no grupo na frente de todo mundo. "Você fala demais". Quem ela pensa que é?
— Ah, Mizi, você também provoca — Till respondeu do outro lado, a voz abafada. — Mas o Ivan é estranho também. Ele fica me encarando com aquele sorriso de deboche.
— O Ivan parece gente boa, você que é um emo revoltado — Mizi riu. — Mas a Sua... enfim, eu preciso das anotações de biologia. O Luka não me responde, a Hyuna sumiu e o Ivan deve estar comendo. Vou ter que pedir pra ela.
**Mizi:** *ei, babaca. manda a foto das anotações de hoje? perdi o final da aula pq tava dormindo.*
Sua viu a mensagem de Mizi e sentiu um estalo de irritação. "Babaca?". Ela decidiu que ia mandar a foto, mas ia mandar em visualização única. Se Mizi fosse lerda e a foto fechasse, problema dela, Sua não mandaria de novo.
O problema é que o cérebro de Sua estava no piloto automático, cansado do dia longo.
Ela selecionou a foto dos peitos que tinha acabado de tirar para o Acorn. Clicou no ícone de visualização única. Mas, na pressa e no cansaço, ela clicou no chat da Mizi.
E para o Acorn, ela mandou as fotos das páginas do caderno de biologia sobre mitose e meiose.
O silêncio que se seguiu no quarto de Sua foi quebrado apenas pelo som das mensagens sendo entregues.
No quarto de Mizi, a garota estava prestes a desligar a call com Till.
— Peraí, a "babaca" respondeu — Mizi disse, rindo. — Mandou visualização única? Que garota escrota, ela acha que eu vou roubar a letra dela?
Mizi clicou na foto, esperando ver garranchos sobre células e DNA.
O que ela viu fez o ar sumir de seus pulmões.
Mizi era lésbica. Ela sabia disso há anos, embora nunca tivesse sentido necessidade de fazer um anúncio oficial para o grupo. Ela gostava de garotas, mas sempre manteve aquela pose de "hétero top" porque era mais fácil de lidar. Mas ali, na tela do celular, a imagem em alta definição de Sua, com a pele pálida contrastando com a luz do quarto, revelando curvas que Mizi nunca teria imaginado sob aquelas roupas largas e o jeito seco... foi um choque.
— Puta que pariu... — Mizi sussurrou, os olhos dourados arregalados.
— O que foi? A letra dela é tão ruim assim? — Till perguntou na call.
— Eu... eu tenho que desligar, Till. Tchau!
Mizi encerrou a chamada sem esperar resposta. A foto sumiu, como prometido pela visualização única, mas a imagem estava queimada na retina dela. "Caralho, que peito bonito", foi o primeiro pensamento que cruzou a mente dela, seguido de um "O QUE EU TÔ PENSANDO?".
Enquanto isso, no celular de Sua, a ficha caiu.
**Acorn:** *Ué?* **Acorn:** *Pedi outra coisa, gata. Pra que eu quero saber de mitose agora? kkkkk* **Acorn:** *Manda a certa aí.*
Sua sentiu o sangue sumir do rosto. Ela olhou para o chat da Mizi. O "visualizado" estava lá. O desespero subiu pela garganta. Ela tinha mandado a foto errada para a pessoa errada. A pessoa que mais a odiava na escola agora tinha um nudes dela.
**Mizi:** *oi???* **Mizi:** *eu pedi as anotações da aula.* **Mizi:** *pq vc mandou isso????*
Sua não respondeu. Ela jogou o celular na parede oposta da cama e se cobriu com o edredom, querendo que a terra a engolisse. Ela não respondeu Acorn, não respondeu Mizi, não respondeu ninguém durante todo o fim de semana.
***
A segunda-feira chegou com a sutileza de um soco no estômago.
Sua caminhava pelo corredor da escola sentindo que cada pessoa que olhava para ela sabia do seu erro. Ela encontrou o grupo perto da entrada da sala. Ivan estava contando uma piada para Hyuna, Luka estava corrigindo a gramática de algo que Till tinha dito, e Mizi...
Mizi estava encostada na parede, usando a saia curta de sempre e mexendo no cabelo rosa. Quando Sua se aproximou, o olhar das duas se cruzou.
Foi instantâneo. O ar ficou pesado.
Mizi não desviou o olhar. Ela parecia confusa, uma mistura de choque residual e algo que Sua não conseguia decifrar. Mizi estava mais quieta que o normal, o que por si só já era um sinal de alerta.
— E aí, Sua — Hyuna cumprimentou, animada. — Sumiu o fim de semana todo, hein? O Acorn disse que você deu um vácuo nele.
Sua sentiu o rosto esquentar, algo raro para ela.
— Estava ocupada — respondeu, a voz saindo mais trêmula do que pretendia.
Mizi deu um passo à frente, saindo da parede. Ela olhou para Sua de cima a baixo. O olhar dela parou por um segundo a mais no peito de Sua, antes de subir rapidamente para os olhos roxos da outra.
— É, a Sua parece ser uma pessoa de muitas surpresas — Mizi disse, o tom de voz estranhamente menos agressivo do que na semana anterior, mas carregado de um significado que só as duas entendiam.
— O que você quer dizer com isso? — Till perguntou, franzindo o cenho.
— Nada, Till. Só que tem gente que parece santinha, mas... enfim — Mizi deu de ombros, passando por Sua para entrar na sala.
Ao passar, o ombro de Mizi roçou no de Sua. Foi um toque rápido, mas Sua sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela entrou logo em seguida, sentando-se no fundo, tentando se esconder atrás do livro.
Durante a aula de literatura, Sua sentiu que estava sendo observada. Ela levantou os olhos e viu Mizi virada para trás, fingindo ouvir o professor, mas com os olhos dourados fixos nela. Mizi rapidamente voltou para frente, mas Sua viu a ponta das orelhas da garota de cabelo rosa ficarem vermelhas.
No intervalo, Sua estava sozinha em uma mesa mais afastada quando Mizi apareceu e sentou-se na frente dela, sem pedir licença.
— A gente precisa conversar sobre... aquilo — Mizi começou, falando baixo, a voz sem o deboche habitual.
— Não precisa — Sua interrompeu, sem olhar para cima. — Foi um erro. Era pra outra pessoa. Esquece que viu.
— Pra outra pessoa? Pro Acorn? — Mizi perguntou, e por algum motivo, parecia irritada. — Você ia mandar aquilo praquele otário?
— O que eu faço com o meu celular não é da sua conta, Mizi.
Mizi bateu a mão na mesa, não forte o suficiente para chamar atenção, mas o bastante para fazer Sua olhar para ela.
— Escuta aqui, Sua. Eu não sou de guardar segredo, mas eu não vou sair espalhando isso. Não sou esse tipo de pessoa.
— Obrigada — Sua disse, seca.
— Mas... — Mizi hesitou, mordendo o lábio inferior, o brilho dourado dos olhos vacilando. — Porra, por que você é tão difícil? Eu passei o fim de semana inteiro sem conseguir tirar aquela imagem da cabeça e você age como se tivesse mandado um meme de gatinho.
Sua travou. Ela olhou bem nos olhos de Mizi e viu algo ali que não era ódio. Era uma confusão genuína, um interesse que Mizi estava tentando desesperadamente esconder sob a camada de marra.
— Você não conseguiu tirar da cabeça? — Sua repetiu, a voz baixa.
Mizi percebeu o que tinha dito e sentiu o rosto arder.
— Cala a boca! É que... foi inesperado, tá? Só isso.
Ela se levantou bruscamente e saiu andando, deixando Sua ali, processando a informação.
Pela primeira vez desde que chegou naquela escola, Sua não conseguiu se concentrar no livro. Ela ficou olhando para as costas de Mizi, vendo o jeito despojado como ela andava, e sentiu uma pontada de algo que não era irritação.
Do outro lado do pátio, Ivan observava a cena com um pirulito na boca, um sorriso de quem sabia demais cruzando seu rosto pálido.
— Till — Ivan chamou, sem desviar os olhos das duas.
— O quê? — Till resmungou, tentando abrir um pacote de salgadinho.
— Acho que o clima entre a sua "babaca" e a "inconveniente" acabou de mudar de figura.
— Você fala cada merda, Ivan — Till revirou os olhos.
Mas Ivan apenas riu. Ele sabia reconhecer o início de um caos quando via um. E aquele, com certeza, seria o caos mais interessante do ano.