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Fuck

O Reflexo do Inesperado

O quarto de Sua estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho da tela do computador de Ivan, que estava jogado no tapete, terminando um pacote de balas de goma. Sua estava sentada na beira da cama, com os braços cruzados e uma expressão que misturava derrota e puro ódio pelo universo. O silêncio durou até que Ivan, com a boca cheia, resolveu cutucar a fera.

— Vai ficar nesse luto até quando? — perguntou Ivan, jogando uma bala para cima e pegando com a boca. — Você tá com essa cara desde que a gente chegou da escola. O que a Mizi fez dessa vez? Te chamou de muda de novo?

Sua soltou um suspiro pesado, escondendo o rosto nas mãos.

— Eu fiz uma merda, Ivan. Uma merda colossal.

Ivan se sentou ereto, os olhos pretos brilhando com um interesse repentino.

— Opa. Adoro merdas colossais. Conta tudo.

Sua hesitou. Ela não era de compartilhar intimidades, nem mesmo com o irmão, mas a pressão interna estava prestes a fazê-la explodir. Em poucas frases secas e diretas, ela narrou o erro da noite de sexta-feira: o pedido do Acorn, a foto tirada no calor da irritação e o dedo trêmulo que enviou o arquivo para Mizi em vez do garoto.

Ivan ficou em silêncio por exatos cinco segundos antes de explodir em uma gargalhada tão alta que provavelmente os vizinhos ouviram.

— Puta que pariu, Sua! — Ele rolava no tapete, segurando a barriga. — De todas as pessoas no mundo... a Mizi? A garota que você quer esganar desde o primeiro dia?

— Não tem graça, seu idiota! — Sua chutou o ombro dele, o rosto fervendo de vergonha. — Ela viu. Ela visualizou. E hoje, no intervalo, ela veio falar comigo.

Ivan parou de rir, limpando uma lágrima no canto do olho.

— E aí? Ela te chantageou? Disse que ia postar no mural da escola?

— Não — Sua murmurou, desviando o olhar. — Ela disse que não ia contar pra ninguém. Mas ela disse... que não conseguiu tirar a imagem da cabeça o fim de semana inteiro.

Ivan arqueou uma sobrancelha, um sorriso malicioso e intrigado surgindo em seus lábios.

— "Não conseguiu tirar da cabeça", é? — Ele se levantou, limpando o pó de açúcar das calças. — Isso é muito interessante. A Mizi é toda marrenta, mas parece que você deu um curto-circuito no cérebro da Barbie de cabelo rosa.

— Eu não sei o que fazer — admitiu Sua, a voz pequena. — O clima está bizarro.

Ivan estendeu a mão, fazendo um gesto de "me dá".

— Passa o celular.

— Pra quê? — Sua perguntou, desconfiada.

— Relaxa, maninha. Eu vou resolver isso do meu jeito. Vou sondar o terreno. Confia no seu irmão gay, eu entendo de drama muito melhor que você.

Sua hesitou, mas a exaustão mental era tanta que ela simplesmente entregou o aparelho. Ivan desbloqueou a tela e começou a digitar rapidamente, com um brilho travesso nos olhos.

— O que você está escrevendo? — Sua tentou espiar, mas ele se esquivou.

— Shh. Deixa o mestre trabalhar.

**[Chat: Mizi]**

**Sua (Ivan):** *aquilo de hoje no intervalo... você tava falando sério? sobre não esquecer?*

A resposta não demorou nem dois minutos.

**Mizi:** *por que você tá perguntando isso agora? já falei que não vou espalhar nada, relaxa.* **Mizi:** *e sim, eu falei sério. foi... diferente do que eu esperava de você. você parece tão certinha com esses livros o tempo todo.*

Ivan riu baixinho, os dedos voando pelo teclado.

**Sua (Ivan):** *diferente como? achou ruim?*

**Mizi:** *não enche, Sua.* **Mizi:** *você sabe que não foi ruim. só foi... confuso. a gente se odeia, lembra?* **Mizi:** *mas se serve de consolo, você tem bom gosto pra luz. a foto ficou boa. agora para de me mandar mensagem, eu tô tentando ver série.*

Ivan devolveu o celular para Sua com um olhar triunfante.

— Pronto. O diagnóstico é claro: ela está caidinha, ou pelo menos muito, muito perturbada. Ela até elogiou a luz da foto, Sua! Quem elogia a luz de um nudes se não estiver interessado?

— Você é um idiota, Ivan — Sua disse, pegando o celular e lendo as mensagens. Seu coração deu um solavanco incômodo ao ler "você sabe que não foi ruim". — Isso não resolve nada. Só deixa tudo mais estranho.

— Deixa de ser pessimista. Amanhã a gente resolve o resto.

***

A terça-feira amanheceu cinzenta, o que combinava perfeitamente com o humor de Till, que tinha pegado uma gripe forte e ficado em casa. Hyuna, sendo a namorada dedicada (e também querendo uma desculpa para não ir à aula de química), decidiu faltar para levar canja e videogames para ele.

Isso deixou o grupo reduzido a quatro pessoas no intervalo: Luka, Mizi, Ivan e Sua.

Eles estavam sentados em uma mesa de metal no pátio coberto. Luka estava distraído, lendo um artigo científico em seu tablet, enquanto Mizi mexia em uma salada de frutas com uma expressão aérea, cutucando os pedaços de melão como se fossem inimigos mortais.

Ivan olhou para Sua e deu uma piscadela quase imperceptível. Era a hora do plano.

— Luka, meu caro lorde vitoriano — Ivan disse, debruçando-se sobre a mesa para obstruir a visão do loiro. — Eu estava lendo sobre esgrima ontem e fiquei com uma dúvida técnica sobre a diferença entre o florete e a espada. Você, como um mestre das lâminas, poderia me iluminar?

Luka levantou os olhos, os óculos brilhando sob a luz da cantina. Um brilho de empolgação surgiu em seu rosto geralmente sério.

— É uma pergunta fascinante, Ivan. Muitas pessoas confundem, mas a principal diferença reside na zona de toque e na flexibilidade da lâmina. O florete é uma arma de estocada, enquanto a espada...

Ivan começou a fazer perguntas cada vez mais específicas, guiando Luka para longe da mesa, fingindo uma curiosidade acadêmica profunda que Sua sabia ser totalmente falsa.

Mizi continuou cutucando a fruta, sem perceber que os dois garotos estavam se afastando. Foi quando sentiu um toque firme em seu pulso.

— A gente precisa conversar. Agora — disse Sua, a voz baixa e decidida.

Mizi deu um pulo, quase derrubando o pote de plástico.

— Que susto, garota! Onde o Ivan e o Luka foram?

— Não importa. Vem comigo.

Sua não deu escolha. Ela puxou Mizi pela manga da camisa social desabotoada, conduzindo-a para trás de uma das colunas largas do ginásio, um lugar onde os alunos raramente iam durante o intervalo por causa da falta de sinal de celular.

Mizi se soltou, ajeitando a camisa e tentando recuperar a postura de deboche.

— Qual é o seu problema, Sua? Tá querendo me sequestrar agora?

— Por que você disse aquilo ontem? — Sua foi direto ao ponto, encurralando Mizi contra a parede de concreto frio. — E por que respondeu daquele jeito no WhatsApp ontem à noite?

Mizi sentiu o rosto esquentar instantaneamente. O tom de pele dela, naturalmente claro, deixava o rubor muito evidente.

— Eu respondi o que eu senti, ué! Você que começou a me perguntar se eu tinha achado ruim.

— Eu nunca perguntei se você achou ruim — Sua disse, estreitando os olhos roxos. — Foi o Ivan. Ele pegou meu celular.

Mizi travou. O pânico brilhou em seus olhos dourados por um segundo.

— Aquele... aquele projeto de modelo de passarela me enganou? — Mizi bufou, passando a mão pelo cabelo rosa. — Que ódio! Eu vou matar o seu irmão.

— Esquece o Ivan — Sua deu um passo para mais perto. Ela era mais baixa que Mizi, mas a intensidade de seu olhar fazia a diferença de altura desaparecer. — Você disse que não conseguiu tirar a foto da cabeça. Você disse que não foi ruim.

Mizi desviou o olhar, encarando uma mancha qualquer no chão. O silêncio se arrastou, preenchido apenas pelo som distante dos gritos dos alunos no pátio.

— Olha, Sua... a gente não se suporta, tá? — Mizi começou, a voz menos confiante do que o normal. — Você é toda fechada, seca, me trata como se eu fosse um barulho irritante. E eu... eu sou eu. Eu gosto de atenção, gosto de falar, gosto de gente que reage.

— E a foto? — insistiu Sua.

Mizi soltou um riso nervoso, finalmente olhando para Sua.

— A foto foi um erro, eu sei. Mas, porra... eu sou humana. E eu sou lésbica, caso você não tenha percebido com todo o meu "estilo". Eu vejo uma coisa daquelas e você espera que eu simplesmente delete da memória? Você é bonita, Sua. Pra caralho. Mesmo sendo uma babaca.

Sua sentiu algo estranho no estômago. Não era a irritação habitual. Era uma vibração elétrica, algo que a deixava inquieta, mas de um jeito que ela não queria que parasse.

— Você também é bonita — Sua admitiu, a voz quase um sussurro. — Mas você fala demais. E o seu perfume é doce demais.

Mizi deu um sorriso de canto, aquele sorriso provocador que costumava irritar Sua, mas que agora parecia um convite.

— É? E o que você vai fazer sobre isso? Vai me mandar outra foto pra ver se eu fico quieta?

— Não — Sua disse, aproximando o rosto do de Mizi. — Acho que fotos não resolvem mais o problema.

Mizi sentiu o coração disparar contra as costelas. Ela nunca tinha visto Sua tão... presente. A garota melancólica e silenciosa tinha desaparecido, dando lugar a alguém que parecia saber exatamente o poder que tinha.

— Então o que resolve? — provocou Mizi, embora sua respiração estivesse falhando.

— O silêncio — respondeu Sua.

Sua não esperou por uma resposta. Ela reduziu a distância mínima que restava e pressionou seus lábios contra os de Mizi. Foi um beijo desajeitado no início, um choque de dentes e surpresa, mas que rapidamente se transformou em algo urgente. Mizi soltou um gemido abafado contra a boca de Sua, suas mãos subindo para o pescoço da garota pálida, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundir as duas ali mesmo.

O beijo tinha gosto de gloss de cereja e da bala de menta que Sua sempre mastigava. Era intenso, carregado de toda a frustração e estranhamento que vinham acumulando desde que se conheceram.

Quando se separaram, ambas estavam arfando. Mizi tinha o batom borrado e os olhos dourados pareciam mais brilhantes do que nunca. Sua tinha as bochechas coradas, uma visão que Mizi guardou mentalmente como um tesouro.

— Você beija melhor do que escreve mensagens — Mizi provocou, tentando recuperar o fôlego, embora suas pernas parecessem feitas de gelatina.

— E você continua falando demais — Sua rebateu, mas não se afastou.

Antes que pudessem dizer mais nada, ouviram passos se aproximando.

— ...e é por isso que o equilíbrio da lâmina é fundamental para a execução de um parry perfeito — a voz de Luka ecoava pelo corredor, aproximando-se da coluna.

— Fascinante, Luka. Simplesmente fascinante — a voz de Ivan estava carregada de um sarcasmo que só Sua conseguia identificar.

As duas se afastaram rapidamente. Mizi limpou a boca com as costas da mão e Sua abriu seu livro em uma página aleatória, fingindo estar profundamente concentrada.

Ivan e Luka apareceram logo em seguida. Ivan olhou para as duas, notando o cabelo levemente bagunçado de Mizi e o rosto vermelho de Sua. Ele abriu um sorriso largo e vitorioso.

— Ah, aí estão vocês! — disse Ivan, cruzando os braços. — Perdemos alguma coisa importante? Algum debate literário acalorado?

— Não enche, Ivan — Sua disse, sem levantar os olhos do livro, embora as páginas estivessem de cabeça para baixo.

— É, a gente só estava... discutindo o horário das aulas — Mizi completou, a voz ainda um pouco instável.

Luka ajeitou os óculos, olhando para as duas com curiosidade.

— Mizi, seu batom está levemente fora do contorno labial. E Sua, você está segurando o livro de forma invertida. A dislexia súbita é um sintoma comum de estresse térmico, talvez devêssemos ir para um local mais ventilado.

Ivan soltou uma gargalhada alta, passando o braço pelos ombros de Luka.

— Deixa pra lá, Luka. Acho que o "estresse térmico" delas é de um tipo que a ciência ainda está tentando explicar.

Mizi lançou um olhar mortal para Ivan, mas quando seus olhos encontraram os de Sua por um breve segundo, houve uma promessa silenciosa ali. O ódio ainda estava lá, em algum lugar, mas agora ele tinha uma companhia muito mais interessante e perigosa.

O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo. Enquanto caminhavam de volta para a sala, Mizi se aproximou de Sua e sussurrou, tão baixo que só ela pudesse ouvir:

— Me manda a foto das anotações depois. Mas dessa vez, manda as anotações de verdade. O resto a gente resolve pessoalmente.

Sua não respondeu com palavras. Apenas fechou o livro com força e deu um leve sorriso de canto, o primeiro sorriso real que Mizi via nela.

O terceiro ano, definitivamente, não seria nada entediante.

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