Fuck
O Doce Sabor da Rendição
A porta do apartamento bateu com um estrondo que ainda vibrava nos ouvidos de Mizi enquanto ela esperava o elevador. Sua respiração estava curta, as mãos levemente trêmulas de raiva. "Insuportável", ela pensou, apertando o botão do térreo com força desnecessária. "Eu tento ser legal, tento cuidar dela, e recebo um travesseiro na cara e um sermão sobre egoísmo."
Ela saiu do prédio pisando fundo, o sol da tarde batendo em seu rosto. Mizi caminhou meia quadra, a mente fervendo com todas as coisas que deveria ter dito, com todas as formas de provar que Sua era a pessoa mais difícil do planeta. Ela chegou à esquina, pronta para virar em direção ao ponto de ônibus e ir para casa, mas seus pés travaram.
Ela olhou para o asfalto, depois para o próprio reflexo em uma vitrine. Viu a garota de cabelos rosa que sempre conseguia o que queria, mas que agora sentia um vazio esquisito no peito. O ego de Mizi era grande, sim, mas o que ela vinha construindo com Sua nos últimos meses — aquele emaranhado de silêncios compartilhados, provocações ácidas e toques escondidos — era muito maior.
— Que merda... — resmungou Mizi para si mesma, passando a mão pelo rosto. — Eu sou uma idiota.
Ela não foi para o ponto de ônibus. Em vez disso, atravessou a rua e entrou na farmácia 24 horas. Mizi percorreu os corredores com determinação, pegando a caixa mais forte de analgésico para cólica e uma daquelas bolsas térmicas de gel que podiam ir ao micro-ondas. Depois, foi ao mercado ao lado. Ela não pegou apenas uma barra de chocolate; pegou três tipos diferentes, um pote grande de sorvete de baunilha com calda de frutas vermelhas e um energético para si mesma, porque sabia que a tarde seria longa.
Quinze minutos depois, Mizi estava de volta à porta do apartamento. Ela girou a chave com uma cautela milimétrica, sem fazer um único ruído. Entrou na sala, deixou as sacolas sobre o balcão da cozinha e preparou o sorvete em uma tigela, colocando a colher de lado. Pegou os chocolates e o energético e caminhou em direção ao quarto, o coração batendo um pouco mais rápido.
A porta estava entreaberta. Mizi espiou e sentiu um aperto doloroso no peito. Sua estava exatamente onde ela a deixara, mas agora estava encolhida de costas para a porta, os ombros tremendo de forma quase imperceptível. O som de um fungado baixo e abafado cortou o silêncio do quarto.
Ela estava chorando. A garota de gelo, a Sua inabalável, estava chorando por causa de uma briga boba e de uma dor que Mizi tinha ignorado.
Mizi colocou o energético no criado-mudo com o máximo de cuidado. Ela sentou-se na beirada da cama, o peso fazendo o colchão ceder. Sua deu um sobressalto, virando o rosto manchado de lágrimas e os olhos roxos arregalados de surpresa.
— Mizi? — A voz de Sua saiu falha, um sussurro quebrado.
— Eu não consegui ir embora, babaca — disse Mizi, a voz suave, sem qualquer traço da arrogância de antes. — Eu fui comprar munição para a sua recuperação.
Mizi pegou a tigela de sorvete e mergulhou a colher, levando-a até os lábios de Sua.
— Come um pouco. Vai ajudar com o açúcar. E eu trouxe o remédio bom, aquele que a Hyuna diz que apaga até dor de dente.
Sua hesitou, olhando para Mizi como se estivesse tentando decidir se aquilo era uma alucinação. Por fim, abriu a boca e aceitou o sorvete frio. A doçura pareceu acalmar o tremor em seus lábios.
— Me desculpa — disse Mizi, enquanto levava outra colherada até ela. — Eu fui uma idiota. Eu sei que dói, e eu sei que você não é um brinquedo. Eu só... às vezes eu não sei lidar quando você me corta, porque eu quero muito estar perto de você. De qualquer jeito.
Mizi deixou o sorvete de lado por um momento e começou a fazer um carinho leve nas têmporas de Sua, afastando os fios pretos que grudavam em sua testa suada.
— Eu não quero que você se sinta usada. Eu gosto de você, Sua. Mesmo quando você está me expulsando e jogando travesseiros em mim.
Sua limpou os olhos com as costas da mão, soltando um suspiro longo. A raiva tinha evaporado, substituída por um cansaço emocional profundo.
— Você é muito barulhenta, Mizi — murmurou Sua —, mas o silêncio sem você é pior.
Mizi sorriu de canto e pegou uma das barras de chocolate, quebrando um quadrado e dando na boca de Sua. Ela deixou o resto das guloseimas espalhadas sobre a colcha, criando uma espécie de ninho de açúcar ao redor delas.
— O que você quer que eu faça? — perguntou Mizi, o olhar sério e atento. — Qualquer coisa. Eu fico aqui quieta, eu leio pra você, eu faço massagem... o que você quiser.
Sua olhou para Mizi por um longo tempo. Ela ainda sentia a pressão no ventre, mas o desejo de conexão física, daquele tipo que Mizi oferecia com tanta intensidade, ainda estava lá, latente. Ela não queria sexo, não queria a invasão que o fluxo tornava complicada, mas queria ser sentida.
Devagar, Sua puxou o edredom para baixo, revelando seus seios novamente. Ela não disse nada, apenas sustentou o olhar de Mizi.
Mizi entendeu o recado. Não era sobre o "tudo ou nada" que ela tinha reclamado antes; era sobre o "agora". Ela se inclinou sobre Sua, mas desta vez não havia pressa. Mizi dedicou-se a explorar cada curva com uma adoração quase religiosa. Ela beijou a base do pescoço, desceu com a língua traçando caminhos lentos até a aréola sensível, sugando com uma suavidade que fazia Sua soltar suspiros trêmulos, não de dor, mas de alívio.
Passou-se meia hora. Mizi revezava entre beijos profundos, apertos carinhosos e lambidas lentas, focando inteiramente no prazer superior de Sua. Ela não tentou descer a mão para a calça de moletom nem uma única vez. Estava ali por Sua, e apenas por ela.
Quando Mizi finalmente parou e se ergueu, limpando o canto da boca, Sua fechou os olhos, esperando o momento em que Mizi se entediaria e pegaria o celular novamente. Ela se preparou mentalmente para o afastamento, para a volta da "Mizi distraída".
Em vez disso, sentiu braços fortes a envolverem. Mizi puxou o corpo pálido de Sua para perto, acomodando a cabeça da namorada em seu braço e puxando o edredom para cobri-las até os ombros.
— Fica aqui — disse Mizi, dando um beijo na testa de Sua.
Mizi pegou um pedaço de chocolate e colocou na própria boca, depois dividiu outro com Sua. Elas ficaram ali, conversando em voz baixa sobre coisas triviais — sobre como Till provavelmente estava sofrendo nas mãos de Ivan naquele momento, sobre a aula de literatura da próxima segunda, sobre nada e sobre tudo. Mizi não tocou no celular. Ela ficou fazendo carinho no braço de Sua, dando beijinhos em sua bochecha e ouvindo, de verdade, os comentários secos e curtos que Sua soltava de vez em quando.
Naquele sábado, entre o chocolate e o carinho, a barreira entre as duas não apenas caiu; ela se dissolveu.
***
Uma semana se passou. O ciclo de Sua tinha terminado, levando embora a dor e o mau humor hormonal, mas deixando para trás uma sensação de proximidade que nenhuma das duas sabia nomear. A escola continuava a mesma, com Hyuna e Luka sendo o casal "estranhamente perfeito" e Till e Ivan vivendo em uma tensão constante que Ivan parecia adorar alimentar.
Era uma tarde de sexta-feira, e elas estavam na casa de Mizi. O quarto de Mizi era o oposto do de Sua: cartazes de bandas coloridas, luzes de LED rosa, roupas espalhadas e um cheiro constante de perfume de baunilha.
Sua estava sentada na cama, folheando um livro de arte que Mizi tinha ganhado de aniversário, enquanto Mizi andava de um lado para o outro, parecendo estranhamente inquieta. Ela não estava falando sem parar, o que por si só já era um sinal de alerta.
— Você está bem? — perguntou Sua, sem levantar os olhos do livro. — Está andando em círculos há dez minutos.
Mizi parou de repente na frente dela. Ela respirou fundo, as bochechas ganhando um tom de rosa que combinava com seu cabelo.
— Sua, eu... eu andei pensando muito sobre o que aconteceu no fim de semana passado. Sobre como a gente briga, como a gente se estranha, mas como eu não consigo imaginar minha rotina sem ter que te irritar.
Sua fechou o livro devagar, o coração começando a acelerar.
— Onde você quer chegar, Mizi?
Mizi enfiou a mão no bolso do short e tirou uma pequena caixa de veludo preto. Ela se ajoelhou no tapete, entre as pernas de Sua, olhando-a nos olhos com uma vulnerabilidade que Sua nunca tinha visto.
— Eu não quero mais ser só a garota que você "está ficando" ou a inconveniente que invade o seu quarto. Eu quero ser a sua namorada. Oficialmente. Com direito a brigar por chocolate e a ficar cuidando de você quando tudo estiver uma droga.
Mizi abriu a caixinha. Dentro, havia dois anéis de prata simples, mas elegantes. Um deles tinha uma pequena pedra roxa, da cor dos olhos de Sua, e o outro uma pedra amarela, como os de Mizi.
— Você aceita namorar comigo, Sua? De verdade? Sem esconder de ninguém, nem do chato do seu irmão?
O silêncio que se seguiu foi o tipo de silêncio que Sua amava. Não era vazio; era cheio de significado. Ela olhou para as alianças, depois para o rosto ansioso de Mizi. O carisma de Mizi estava lá, mas havia algo mais profundo: uma promessa de que, mesmo sendo diferentes demais, elas se encaixavam no caos.
— Você fala demais, Mizi — disse Sua, um sorriso genuíno e doce curvando seus lábios. — Mas eu aceito. Porque eu acho que ninguém mais no mundo teria coragem de me aguentar.
Mizi soltou um grito de alegria abafado e deslizou o anel no dedo de Sua, antes de estender a mão para que Sua fizesse o mesmo. Ela se jogou sobre Sua na cama, cobrindo seu rosto de beijos, rindo alto.
— Agora você é oficialmente minha! — exclamou Mizi. — E eu vou contar pra Hyuna agora mesmo. E pro Till, só pra ver a cara de choque dele de novo.
Sua apenas riu, deixando-se levar pela energia contagiante da agora namorada. Ela sabia que os dias de paz seriam raros e que Mizi continuaria sendo barulhenta e inconveniente. Mas, enquanto sentia o peso do anel em seu dedo e o calor de Mizi contra seu corpo, Sua percebeu que o silêncio que ela tanto buscava não estava na solidão, mas sim no porto seguro que tinha encontrado no meio de todo aquele barulho cor-de-rosa.