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Fuck

Entre o Chocolate e o Caos

O sábado amanheceu com aquele silêncio pesado que só as casas vazias possuem. Ivan, em uma de suas raras demonstrações de iniciativa social que não envolviam irritar Sua, tinha conseguido arrastar Till para algum rolê aleatório no centro da cidade. Sua sabia que o irmão provavelmente passaria o dia inteiro tentando "acidentalmente" encostar no ombro de Till ou fazendo piadas de duplo sentido que o garoto de cabelos cinzas levaria horas para entender.

Sozinha em casa, Sua sentia-se um náufrago em um oceano de lençóis. A cólica, embora menos agressiva que a do dia anterior, ainda era uma presença incômoda, uma pontada surda que a fazia querer se fundir ao colchão. Ela usava uma calça de moletom cinza larga e uma blusa de alças finas, o cabelo preto espalhado pelo travesseiro de forma desordenada.

Lá fora, o som de passos no corredor do prédio precedeu o barulho da chave girando na fechadura. Sua franziu o cenho. Ivan não voltaria tão cedo.

Mizi entrou no quarto sem bater, segurando uma sacola de papel que exalava o aroma inconfundível de cacau de alta qualidade. Ela usava um short jeans curto e uma camiseta curta que deixava parte da barriga à mostra, o cabelo rosa preso em um rabo de cavalo bagunçado.

— O seu irmão é um gênio ou um completo idiota por deixar a chave debaixo do tapete — disse Mizi, jogando a bolsa em cima da escrivaninha e caminhando até a cama. — Mas facilita a minha vida.

Sua nem se deu ao trabalho de se levantar. Apenas virou o rosto na direção da namorada, os olhos roxos semicerrados.

— Você não tem casa, Mizi?

— Tenho, mas a minha casa não tem uma namorada rabugenta de TPM que precisa de supervisão — Mizi sentou-se na beirada do colchão, abrindo a sacola. — Trouxe o de caramelo salgado. E aquele com pedaços de morango que você finge que não gosta.

Mizi começou a tirar os tabletes da embalagem. Com uma paciência que contrastava com sua energia habitual, ela quebrou um pedaço e o levou à boca de Sua. A garota pálida hesitou por um segundo antes de aceitar, sentindo o chocolate derreter na língua. O açúcar pareceu acalmar seus nervos por um breve instante.

— Como você está? — perguntou Mizi, começando a massagear os pés de Sua por cima da meia.

— Como se um caminhão tivesse passado por cima de mim e depois dado ré — resmungou Sua, fechando os olhos sob o toque das mãos de Mizi. — Minhas costas doem.

— Vira de lado — ordenou Mizi.

Sua obedeceu, sentindo as mãos quentes de Mizi subirem para a sua lombar, pressionando os pontos de tensão com a força exata. Por alguns minutos, o quarto foi preenchido apenas pelo som da respiração delas. Mizi fazia carinho no cabelo de Sua entre um movimento e outro, uma doçura que fazia o coração de Sua palpitar de um jeito que ela odiava admitir.

Mas a atmosfera mudou rápido. Mizi nunca conseguia manter a "enfermeira gentil" por muito tempo. O toque na lombar tornou-se mais firme, descendo para o quadril, e o olhar dourado de Mizi escureceu, transformando-se naquela expressão de predadora que Sua já conhecia bem.

Mizi inclinou-se, distribuindo beijos quentes pelo pescoço de Sua, enquanto sua mão deslizava para o elástico da calça de moletom.

— Sabe... — sussurrou Mizi, a voz carregada de segundas intenções — ontem no banheiro foi rápido demais. E o Ivan vai demorar horas com o Till. A gente tem a casa toda.

Ela começou a puxar o moletom de Sua para baixo, a intenção de reivindicar o que era seu estampada em cada movimento impaciente.

— Mizi, para — disse Sua, segurando o pulso da outra com firmeza.

— O quê? — Mizi parou, franzindo o cenho. — Qual é o problema agora?

— O problema é que eu ainda estou menstruada, Mizi. E hoje o fluxo está pior. Você vai acabar passando mal, ou vai fazer uma sujeira que a gente não vai conseguir limpar antes do meu irmão chegar.

— Eu já disse que não me importo com sangue, Sua! — protestou Mizi, tentando se soltar.

— Mas eu me importo — rebateu Sua, sentando-se na cama e encarando-a com seriedade. — Eu me sinto desconfortável. Depois que passar... eu deixo você fazer o que quiser. Mas agora, não.

Mizi soltou um suspiro frustrado e se afastou bruscamente, sentando-se na outra extremidade da cama. Ela cruzou os braços, fazendo um bico que seria adorável se não fosse tão irritante.

— Poxa, Sua. Eu vim até aqui, trouxe chocolate, fiz massagem... e você me corta assim?

— Eu estou com dor, Mizi! — Sua elevou o tom de voz, a irritabilidade da TPM subindo como uma maré. — Você acha que eu sou um brinquedo que você liga e desliga quando quer? Eu disse não.

Mizi ficou emburrada, desviando o olhar para a parede. O silêncio que se seguiu foi tenso e desconfortável. Sua sentiu uma pontada de culpa ao ver a expressão de "cachorrinho abandonado" no rosto da namorada, embora soubesse que tinha razão.

— Vem cá — disse Sua, estendendo a mão e puxando Mizi pelo braço.

Mizi resistiu um pouco, mas acabou cedendo, deixando-se ser puxada para perto. Sua a envolveu em um abraço e selou seus lábios em um beijo calmo, que logo foi retribuído com uma fome desesperada por parte de Mizi.

— Eu ainda estou sangrando lá embaixo — sussurrou Sua entre os beijos —, mas... eu ainda tenho os seios. Se você quiser...

Mizi não pareceu totalmente satisfeita, mas a oferta foi o suficiente para melhorar sua cara de choro. Ela atacou a boca de Sua novamente e, com movimentos rápidos, puxou a blusa de alças da garota para cima, descartando-a no chão.

Mizi mergulhou nos seios de Sua com uma voracidade que fez a garota pálida arquear as costas. Sem a necessidade de tampar a boca como faziam na escola, Sua deixou os gemidos escaparem livremente, o som preenchendo o quarto e alimentando o ego de Mizi. Mizi mordiscava, chupava e massageava, usando a língua para traçar círculos ao redor dos mamilos sensíveis, fazendo Sua tremer sob seu toque.

No entanto, depois de dez minutos, o entusiasmo de Mizi começou a minguar. Para alguém tão intensa quanto ela, focar apenas em uma parte do corpo parecia... incompleto. Era como ler apenas o prefácio de um livro proibido.

Mizi parou, soltando o seio de Sua e sentando-se ereta. Ela parecia entediada.

— O que foi agora? — perguntou Sua, tentando recuperar o fôlego, a pele do peito ainda vermelha e úmida.

— Ah, Sua... é chato ficar só nisso — resmungou Mizi, pegando o celular na escrivaninha. — Eu quero tudo ou nada. Ficar só aqui em cima é frustrante.

Ela se jogou para o outro lado da cama, desbloqueando a tela e começando a rolar vídeos no TikTok em um volume consideravelmente alto.

Sua ficou ali, seminua, o corpo ainda vibrando pela estimulação interrompida. Ela olhou para Mizi, esperando que a garota voltasse ou pelo menos dissesse algo carinhoso, mas Mizi parecia totalmente absorta em um vídeo de receita de bolo coreano.

A carência da TPM atingiu Sua como um soco. Ela queria atenção. Queria ser abraçada, queria que Mizi continuasse o carinho, mesmo que não houvesse sexo. Ver a namorada ignorá-la para ver vídeos idiotas foi a gota d'água.

— Você está falando sério? — perguntou Sua, a voz gélida.

— O quê? — Mizi nem tirou os olhos da tela. — Só estou vendo um negócio aqui. Relaxa, Sua. Você disse que não queria nada "lá embaixo", então eu estou me distraindo.

— Eu disse que não queria sexo, não disse que queria ser ignorada como se eu fosse um móvel da casa! — Sua sentou-se, puxando o edredom para cobrir o peito. — Você é inacreditável, Mizi. Se não tem o que você quer, você simplesmente desliga?

Mizi finalmente bloqueou o celular e olhou para ela, a paciência também esgotada.

— Ah, pronto! Agora eu sou a vilã porque decidi ver um vídeo? Você me deu um fora, eu aceitei. O que você quer que eu faça? Que eu fique aqui te adorando como uma estátua enquanto você reclama de dor?

— Eu quero que você seja uma namorada decente! — gritou Sua. — Você veio aqui, me provocou, me deixou excitada e agora me vira as costas porque "é chato" só me beijar? Você é egoísta, Mizi! Só pensa no seu próprio prazer!

— Egoísta? — Mizi levantou-se da cama, a voz subindo de tom. — Eu trouxe chocolate, eu fiz massagem no seu pé suado, eu atravessei a cidade no meu sábado pra ficar com você! E você me chama de egoísta porque eu não quero ficar brincando de "meio-termo"? Se você está de mau humor, a culpa não é minha!

— O meu mau humor é porque você é uma criança mimada que não aguenta ouvir um "não"! — Sua apontou para a porta. — Se é tão chato ficar comigo quando eu não posso te dar o que você quer, por que você não vai embora de uma vez? Vai ver se o Ivan e o Till precisam de uma terceira pessoa pra animar o dia deles!

— Talvez eu vá mesmo! Pelo menos o Till não fica tentando me analisar e me dar sermão a cada cinco minutos! — Mizi pegou sua sacola de papel, agora amassada. — Você é impossível, Sua. Ninguém consegue te agradar!

— Ótimo! Vai embora! — Sua pegou um dos travesseiros e jogou na direção de Mizi, mas a garota se esquivou com facilidade.

Mizi caminhou até a porta do quarto, parando por um segundo. Ela olhou para trás, vendo Sua encolhida na cama, os olhos roxos brilhando com lágrimas de raiva e frustração que ela se recusava a deixar cair. O coração de Mizi deu um solavanco, mas o orgulho falou mais alto.

— Tchau, Sua. Me avisa quando o seu útero parar de ditar as suas regras de convivência — disse Mizi, saindo e batendo a porta com força.

O som do impacto ecoou pelo apartamento silencioso. Sua ouviu a porta da frente se fechar logo em seguida.

Ela se jogou de volta nos travesseiros, puxando o edredom até o queixo. O silêncio da casa, que antes era apenas monótono, agora parecia sufocante. Ela olhou para o pedaço de chocolate de caramelo que tinha sobrado na mesa de cabeceira e sentiu uma vontade imensa de jogá-lo na parede.

— Idiota... — sussurrou Sua para o quarto vazio, a voz falhando. — Barulhenta, pervertida e idiota.

Ela fechou os olhos, tentando ignorar a cólica e o vazio no lado da cama que Mizi tinha acabado de deixar. O sábado, que tinha começado com chocolate e massagem, terminava com o gosto amargo de uma discussão que nenhuma das duas sabia como consertar. E o pior de tudo, pensou Sua enquanto uma lágrima solitária finalmente escapava, era que ela ainda conseguia sentir o cheiro do perfume doce de Mizi no seu travesseiro, lembrando-a de que, mesmo no meio do caos, ela ainda era a única pessoa que Sua queria por perto.

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