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O Brilho da Prata e o Veneno do Desprezo

A subida pelas montanhas de Caingorn era um teste de resistência que Clara não havia pedido para fazer. O ar tornava-se cada vez mais rarefeito, e o terreno acidentado fazia com que suas botas pesadas parecessem feitas de chumbo. À sua frente, o grupo avançava com uma determinação que ela invejava. Geralt caminhava com a fluidez de um predador, os olhos fixos na trilha, enquanto Jaskier, apesar das reclamações incessantes sobre o estado de suas calças de seda, tentava manter o passo do bruxo.

— Jaskier, se você mencionar a bolha no seu calcanhar mais uma vez, eu juro que te empurro desse desfiladeiro e digo aos nossos pais que foi um acidente trágico com um wyvern — resmungou Clara, limpando o suor da testa com as costas da mão.

O bardo parou, ofegante, apoiando-se em um rochedo.

— Você é uma criatura cruel, Clara! Uma mulher sem coração! — Ele fez um gesto dramático para o topo da montanha. — Estamos caçando um dragão! Um dragão dourado, se os rumores forem reais! Imagine a balada, a glória, as rimas que terminam em "fogo" e "tesouro"!

— E imagine o cheiro de carne de bardo queimada — retrucou ela, passando por ele com um olhar de deboche. — Geralt, por que raios aceitamos isso?

O bruxo não parou. Nem sequer virou a cabeça.

— O pagamento é bom — foi tudo o que ele disse, a voz rouca cortando o vento frio.

Clara sentiu a costumeira pontada de irritação. Para Geralt, ela era apenas um ruído de fundo, uma presença constante e útil que não merecia mais do que frases monossilábicas. Na noite anterior, no acampamento, ele a procurara sob o manto da escuridão. Seus toques haviam sido urgentes, quase desesperados, mas, assim que o sol despontou no horizonte, ele voltou a ser a estátua de gelo que mal reconhecia sua existência.

O grupo de caçadores de dragões era diversificado, para dizer o mínimo. Havia os anões, barulhentos e eficientes; os Crinfrid Reavers, que exalavam uma periculosidade barata; e, claro, o cavaleiro Sir Eyck de Denesle. Mas a figura que mais incomodava Clara era a mulher que cavalgava ao lado do cavaleiro: Yennefer de Vengerberg.

Clara não precisava ser uma feiticeira para sentir a eletricidade no ar toda vez que Geralt e Yennefer se olhavam. Era uma tensão antiga, um emaranhado de mágoas e desejos que fazia Clara se sentir pequena, gordinha e irrelevante. Yennefer era a perfeição esculpida em magia; Clara era apenas uma mulher comum, com curvas que o linho não conseguia disfarçar e mãos calejadas de cuidar de um bruxo ingrato.

Durante uma pausa para descanso perto de um riacho gelado, Clara se afastou para lavar o rosto. Ela se sentou em uma pedra, observando o reflexo de sua própria insegurança na água.

— A montanha é um lugar implacável para alguém tão delicada — disse uma voz masculina, interrompendo seus pensamentos.

Clara se sobressaltou e olhou para cima. Sir Eyck de Denesle estava parado a poucos metros, sua armadura brilhando sob a luz pálida do sol. Ele não a olhava com o desprezo que ela esperava de um cavaleiro de sua linhagem, nem com a indiferença de Geralt. Havia algo de genuinamente curioso em seus olhos.

— Delicada não é a palavra que meu irmão usaria — respondeu Clara, recuperando o deboche habitual. — "Teimosa como uma mula" é o termo técnico que ele prefere.

Sir Eyck soltou uma risada curta, aproximando-se.

— A teimosia é uma virtude em uma jornada como esta. Sou Eyck. E você, se não me engano, é a irmã do bardo.

— Clara — disse ela, ajeitando a túnica e sentindo-se subitamente consciente de seu peso e de seu cabelo desgrenhado pelo vento. — E sim, sou a babá oficial do Julian. Alguém tem que garantir que ele não tente rimar com as garras do dragão.

— Você tem um espírito vivaz, Lady Clara — disse o cavaleiro, inclinando a cabeça de forma cortês. — É raro encontrar tal coragem em uma mulher que não porta espadas ou feitiços. A maioria das damas estaria em casa, bordando, enquanto homens arriscam a vida.

Clara sentiu o rosto esquentar. Ela não estava acostumada a elogios, especialmente de homens que pareciam ter saído de um livro de contos de fadas.

— Eu não sou uma lady, Sir Eyck. Sou apenas... eu. E, para ser honesta, se eu pudesse estar bordando perto de uma lareira agora, provavelmente estaria.

— A modéstia só aumenta sua beleza — afirmou ele, com uma sinceridade que fez o estômago de Clara dar um nó.

De longe, Geralt observava a cena. Ele estava encostado em uma árvore, afiando uma adaga, mas seus olhos cor de âmbar estavam fixos no cavaleiro e na mulher à beira do riacho. Jaskier, sempre atento ao drama alheio, aproximou-se do bruxo com um sorriso malicioso.

— Parece que nossa Clara encontrou um admirador, Geralt — comentou o bardo, afinando uma corda do alaúde. — Sir Eyck parece muito interessado nas "virtudes" dela.

Geralt não respondeu, mas a adaga deslizou com mais força contra a pedra de amolar, produzindo um som estridente.

— Ele é um idiota pomposo — resmungou o bruxo.

— Pode ser. Mas ele está dando a ela a atenção que você se recusa a dar — Jaskier continuou, o tom de voz perdendo a brincadeira e tornando-se sério. — Ela é minha irmã, Geralt. E ela é apaixonada por você, por mais que eu tente convencê-la de que você é um caso perdido. Se você não a quer, deixe que alguém que saiba apreciar uma mulher de verdade o faça.

Geralt guardou a adaga com um movimento brusco e caminhou em direção ao grupo, ignorando Jaskier. Ele passou por Clara e Eyck sem dizer uma palavra, mas o brilho em seus olhos era de uma frieza mortal.

Mais tarde, quando o acampamento foi montado para a noite, a atmosfera estava carregada. Yennefer movia-se com uma graça felina, trocando palavras ácidas com Geralt que pareciam carregar significados ocultos. Clara, sentada perto da fogueira, tentava se concentrar em remendar a capa rasgada de Jaskier, mas seus olhos sempre voltavam para o bruxo e a feiticeira.

— Ela é linda, não é? — A voz de Yennefer surgiu de repente, enquanto ela se aproximava para pegar um pouco de vinho. Ela não olhava para Clara, mas para Geralt.

Clara sentiu o sangue ferver. A insegurança era uma velha amiga, mas a raiva era uma aliada mais recente.

— Ela é uma feiticeira — disse Clara, sem levantar os olhos da costura. — A beleza dela é parte do trabalho.

Yennefer soltou uma risada melodiosa, virando-se para Clara.

— E você, querida, é a "companheira" de viagem. A irmã do bardo que cuida das feridas do bruxo. Geralt sempre teve um gosto por... utilidade.

Clara espetou o dedo com a agulha e soltou um palavrão. Ela se levantou, encarando a mulher de olhos violeta.

— Eu posso não ter perfumes caros ou olhos mágicos, Yennefer, mas eu não preciso de feitiços para ser real. E Geralt... bem, Geralt é um homem que não sabe o que quer.

— Ele sabe exatamente o que quer — sibilou Yennefer, aproximando-se o suficiente para que Clara sentisse o cheiro de groselha e lilás. — Ele quer o que não pode ter. E ele usa o que está disponível para passar o tempo.

Aquelas palavras foram como facadas. Clara sabia que eram verdadeiras, e era isso que mais doía. Ela viu Geralt se aproximar, os olhos alternando entre as duas mulheres.

— Algum problema aqui? — perguntou ele, a voz baixa.

— Nenhum, Geralt — disse Yennefer com um sorriso triunfante, afastando-se em direção à sua tenda. — Estávamos apenas trocando dicas de culinária.

Clara ficou parada, a agulha ainda na mão, o coração batendo forte. Geralt olhou para ela, a expressão ilegível.

— Você devia ir dormir — disse ele. — A subida amanhã será pior.

— É só isso que você tem a dizer? — explodiu Clara. — Ela me insulta na sua frente, ela te trata como se você fosse um cão de guarda, e você me diz para ir dormir?

— Eu não pedi para você vir nesta caçada, Clara.

— Não, você nunca pede nada! Você só aceita! Aceita que eu limpe seu sangue, aceita que eu te aqueça à noite, aceita que eu seja humilhada por cada mulher que cruza o seu caminho!

Geralt deu um passo à frente, sua sombra cobrindo-a.

— Eu sou um bruxo, Clara. Eu não tenho nada para te dar. Nem sentimentos, nem promessas. Se você espera algo diferente, a culpa é sua.

— Você é um covarde — sussurrou ela, a voz embargada. — Usa a desculpa das suas mutações para não ter que enfrentar o fato de que você é apenas um homem egoísta.

Ela se virou para sair, mas deu de cara com Sir Eyck, que observava a discussão à distância. O cavaleiro aproximou-se e colocou uma mão gentil no ombro de Clara.

— Lady Clara, se o bruxo não sabe tratar uma dama com o respeito que ela merece, eu ficaria honrado se aceitasse minha companhia para o jantar. Tenho provisões melhores do que esse ensopado ralo.

Clara olhou para a mão de Eyck em seu ombro e depois para Geralt. O bruxo tinha os maxilares cerrados, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. Por um momento, ela viu algo brilhar nos olhos dele — uma centelha de possessividade, talvez? Mas, tão rápido quanto surgiu, desapareceu, substituída pela costumeira máscara de pedra.

— Eu adoraria, Sir Eyck — disse Clara, forçando um sorriso debochado enquanto encarava Geralt. — Afinal, é bom estar perto de alguém que realmente sabe falar.

Ela caminhou para longe da fogueira com o cavaleiro, sentindo o olhar de Geralt queimando em suas costas. Jaskier, que assistia a tudo de longe, suspirou e balançou a cabeça.

— Você é um idiota, Geralt — murmurou o bardo.

— Cale a boca, Jaskier.

— Ela vai acabar se cansando, sabe? Até a esperança mais teimosa morre se você a deixar passar fome por tempo demais. E aquele cavaleiro... ele pode ser um fanático, mas ele olha para ela como se ela fosse a única mulher na montanha.

Geralt não respondeu. Ele sentou-se perto do fogo, pegando a capa que Clara havia deixado cair. Seus dedos tocaram o tecido áspero, e ele sentiu o cheiro dela — um misto de ervas, fumaça e algo doce que era apenas dela. Ele fechou os olhos por um segundo, a voz de Yennefer ecoando em sua mente, o toque de Clara gravado em sua pele, e a irritante presença de Eyck nublando seu julgamento.

Naquela noite, Clara não foi para o saco de dormir de Geralt. Ela ficou conversando com Eyck até tarde, ouvindo histórias de dragões e honra que ela não acreditava totalmente, mas que eram um bálsamo para sua alma ferida. Pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentiu como a "irmã gordinha do Jaskier". Ela se sentiu vista.

No entanto, quando finalmente se deitou em suas próprias cobertas, longe do calor do bruxo, o frio da montanha pareceu entrar em seus ossos. Ela olhou para as estrelas, sentindo a presença silenciosa de Geralt a alguns metros de distância.

— Por que eu não consigo simplesmente te odiar? — sussurrou ela para a escuridão.

A resposta não veio. O único som era o vento uivando nos picos nevados e o bater rítmico do coração de um bruxo que, apesar de tudo o que dizia, parecia estar em guerra consigo mesmo. A caçada ao dragão estava apenas começando, e Clara sabia que as feridas que seriam abertas naquela jornada não seriam apenas causadas por garras e fogo. Algumas cicatrizes, ela temia, nem mesmo o seu melhor bálsamo seria capaz de curar.

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