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O Crepúsculo das Ilusões

A montanha de Caingorn parecia gemer sob o peso do fracasso e da revelação. O ar, outrora gelado e límpido, agora estava impregnado com o cheiro acre de enxofre, escamas queimadas e o perfume sufocante de groselha e lilás que parecia se dissipar no vento, deixando apenas amargura em seu rastro. O dragão dourado, Villentretenmerth, partira, levando consigo a esperança de um destino traçado por desejos mágicos e deixando para trás o caos de corações dilacerados.

Clara estava parada a poucos metros da encosta, os braços cruzados sobre o peito generoso, tentando conter o tremor que não era apenas de frio. Ela vira tudo. Vira o olhar de Geralt para Yennefer — um olhar que ele nunca, em todos os anos de estradas poeirentas e noites compartilhadas, dedicara a ela. Vira a luta desesperada dele para mantê-la por perto e, finalmente, vira a explosão final.

Yennefer partira com o rosto banhado em fúria e desprezo, deixando Geralt no centro de um silêncio ensurdecedor.

Jaskier, com o alaúde pendurado nas costas e a expressão de quem acabara de ver o fim do mundo, aproximou-se do bruxo com cautela. Ele abriu a boca, provavelmente para oferecer uma piada inapropriada ou uma palavra de conforto que ninguém queria ouvir, mas Geralt se virou como um animal ferido, as pupilas tão dilatadas que seus olhos pareciam dois poços de escuridão absoluta.

— Nem mais uma palavra, Jaskier — rosnou Geralt. A voz dele não era mais o murmúrio rouco que Clara conhecia; era um trovão contido, carregado de um ódio que parecia buscar um alvo, qualquer alvo.

— Geralt, meu amigo, eu só... — começou o bardo, levantando as mãos em sinal de paz.

— Amigo? — O bruxo soltou uma risada seca, um som desprovido de qualquer humor. — Você não é meu amigo. Você é um parasita. Um estorvo que me segue de cidade em cidade, atraindo problemas que eu tenho que resolver e cantando mentiras sobre uma honra que eu nunca tive.

Clara deu um passo à frente, o instinto de proteção ao irmão falando mais alto que sua própria dor.

— Geralt, pare com isso. Você está com raiva dela, não desconte nele.

O Lobo Branco virou o olhar para ela. Clara sentiu o impacto físico daquele desprezo. Não era mais a indiferença habitual; era algo ativo, corrosivo.

— E você — disse ele, aproximando-se, cada passo exalando uma ameaça silenciosa —, a sombra silenciosa. A mulher que se contenta com as migalhas que caem da mesa porque é insegura demais para buscar algo próprio. Você e seu irmão são as âncoras que me arrastam para o fundo.

— Geralt, você está passando dos limites — Jaskier interveio, a voz agora firme, a diversão completamente esquecida. — Clara cuidou de você. Ela limpou seu sangue quando você mal conseguia ficar de pé!

— Eu não pedi! — gritou Geralt, a voz ecoando pelas paredes de pedra da montanha. — Eu nunca pedi por nada disso! Por que vocês acham que eu quero a piedade de uma cozinheira e a tagarelice de um bobo da corte? Se a vida me livrasse de vocês, seria uma bênção. Seria o fim de um fardo que eu nunca escolhi carregar.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a própria montanha. Jaskier recuou um passo, o rosto empalidecendo, os lábios tremendo enquanto a indignação lutava para se transformar em palavras. Ele ia gritar, ia defender a honra da irmã, ia enumerar cada vez que salvaram a pele daquele bruxo ingrato.

Mas Clara foi mais rápida. Ela colocou a mão no braço do irmão, apertando-o com uma força surpreendente. Seus olhos, sempre tão cheios de uma esperança teimosa e de um brilho debochado, estavam agora calmos. Uma calma morta, como a superfície de um lago congelado. Ela olhou para Geralt, não para o bruxo lendário, mas para o homem que ela conhecia na intimidade do silêncio, e percebeu que a humilhação finalmente havia atingido o fundo do poço. E lá, ela encontrou a saída.

— Tudo bem — disse ela, a voz baixa e terrivelmente límpida.

Geralt franziu o cenho, como se a resposta curta o tivesse pego desprevenido em meio ao seu frenesi de fúria.

— O quê? — rosnou ele.

— Tudo bem, Geralt — repetiu ela, soltando o braço de Jaskier e começando a ajeitar as alças de sua mochila. — Sua bênção chegou.

— Clara, você não pode estar falando sério... — Jaskier começou, olhando de um para o outro.

— Vamos, Julian — ela disse, sem olhar para trás. — Temos um longo caminho até o sopé da montanha antes que a neve aperte.

Ela começou a caminhar, passando por Geralt como se ele fosse apenas mais uma rocha no caminho. Não houve olhadas por cima do ombro, não houve lágrimas dramáticas, não houve súplicas. Houve apenas o som rítmico de suas botas no cascalho.

Jaskier olhou para Geralt uma última vez. Havia um brilho de mágoa profunda nos olhos do bardo, mas também um lampejo de algo que o bruxo raramente via nele: desprezo real.

— Você é um homem muito solitário, Geralt — disse Jaskier, com uma voz desprovida de sua habitual teatralidade. — E, pela primeira vez, eu espero que você consiga exatamente o que deseja: o silêncio.

O bardo seguiu a irmã, deixando o bruxo sozinho no topo da montanha, cercado pelas cinzas do que fora uma expedição e do que fora, talvez, a única coisa próxima de uma família que ele já conhecera.

Geralt permaneceu imóvel. O vento soprava seus cabelos brancos, e ele esperou. Esperou pela piada de Jaskier que sempre vinha cinco minutos depois de uma briga. Esperou pelo som de Clara remexendo nas panelas ou pelo sermão dela sobre como ele era teimoso. Mas o silêncio era absoluto.

As horas passaram. O sol começou a mergulhar atrás dos picos, pintando o céu com tons de sangue e violeta. Geralt montou um acampamento frio. Ele não acendeu uma fogueira. Sentou-se contra um tronco seco, a mão descansando no punho da espada, os sentidos de bruxo aguçados. Ele podia ouvir o roçar das folhas, o movimento de pequenos animais, o vento... mas não ouvia o som da respiração deles.

Ele fechou os olhos, tentando se convencer de que era melhor assim. Sem o alaúde desafinado, sem as curvas de Clara ocupando espaço em sua manta, sem a necessidade de fingir que não sentia o calor dela quando a noite ficava insuportável. Mas, pela primeira vez em décadas, o silêncio não parecia uma bênção. Parecia um vácuo.

Longe dali, descendo a trilha perigosa sob a luz vacilante de uma lanterna, Clara e Jaskier caminhavam em silêncio absoluto. Jaskier, normalmente incapaz de ficar calado por mais de trinta segundos, respeitava o espaço da irmã. Ele via a rigidez em seus ombros, a forma como ela não tropeçava, apesar da escuridão.

— Clara... — ele começou, quando finalmente alcançaram uma pequena clareira protegida do vento.

— Não, Jaskier — ela o cortou, sentando-se em uma raiz exposta. — Não diga que ele vai se arrepender. Não diga que é o jeito dele. Não diga que os bruxos não têm sentimentos.

— Eu ia dizer que você é a mulher mais forte que eu conheço — murmurou o bardo, sentando-se ao lado dela e passando o braço pelos seus ombros.

Clara soltou um suspiro trêmulo, e a primeira lágrima finalmente caiu, quente e pesada.

— Eu fui uma idiota, Julian. Eu aceitei ser a sombra. Eu vi ele ir para o quarto com cada feiticeira, cada taverneira, cada mulher que desse um sorriso para ele, e eu ficava lá fora, preparando a porcaria da sopa para quando ele voltasse cansado. Eu deixei que ele me usasse como um porto seguro onde ele nunca pretendia ancorar.

— Você amou, Clara. Amar não é ser idiota. O erro foi dele por não saber o valor do que tinha.

— Ele disse que eu era um fardo — ela sussurrou, a voz quebrada. — Depois de tudo... depois de cada ferida que eu limpei, de cada vez que eu o defendi das suas piadas, de cada noite que eu o abracei enquanto ele tinha pesadelos com Kaer Morhen... eu era apenas um fardo.

Jaskier a apertou mais forte.

— Nós vamos para Oxenfurt. Ou para Novigrad. Para qualquer lugar onde não haja monstros ou homens de cabelo branco que se acham importantes demais para ter um coração. Eu vou cantar, você vai gerenciar meus ganhos — porque, sejamos sinceros, eu sou péssimo com dinheiro — e vamos viver uma vida onde ninguém nos chame de parasitas.

Clara limpou o rosto com a manga da túnica, o deboche voltando aos poucos, como um mecanismo de defesa necessário.

— Você realmente é péssimo com dinheiro, Jaskier. Se eu te deixar sozinho por uma semana, você acaba vendendo o alaúde para pagar uma rodada de hidromel para estranhos.

Jaskier riu, um som reconfortante na frieza da noite.

— Viu? Você já está voltando ao normal.

— Eu não vou voltar para ele, Jaskier — disse ela, olhando para o caminho que haviam percorrido. — Nem que ele venha rastejando. Nem que ele peça desculpas de joelhos. A esperança morreu lá em cima. E, honestamente? É um alívio.

Eles não acenderam fogo naquela noite para não atrair atenção, mas o calor da fraternidade era suficiente. Pela manhã, antes mesmo que o primeiro raio de sol tocasse o topo da montanha onde o Lobo Branco ainda processava sua "bênção", Clara e Jaskier já estavam longe, cruzando a fronteira de Caingorn.

Lá no alto, Geralt de Rívia acordou com o pescoço rígido e o estômago vazio. Ele olhou para o lado, esperando ver a silhueta gordinha de Clara enrolada nas mantas, ou ouvir o resmungo matinal de Jaskier reclamando da dureza do chão.

Não havia nada. Apenas as cinzas frias e o vento.

Ele se levantou, ajeitou suas espadas e começou a descer a montanha. Ele seguiu os rastros deles por algum tempo, a visão de bruxo identificando facilmente as pegadas pesadas de Clara e as botas mais leves de Jaskier. Ele acelerou o passo, uma urgência estranha começando a subir por sua garganta. Ele diria que precisavam se apressar. Diria que o caminho era perigoso. Talvez... talvez ele dissesse que o ensopado dela fazia falta.

Mas, quando chegou à bifurcação da estrada principal, os rastros se misturavam a dezenas de outros. Carroças, cavalos, viajantes. O cheiro deles, tão familiar, fora abafado pelo odor do mundo.

Geralt parou no meio da estrada. Ele era um bruxo. Tinha sentidos aguçados, mutações que o tornavam superior, uma vida de séculos pela frente. Ele tinha o que queria. A liberdade. O silêncio. A ausência de fardos.

Ele olhou para o horizonte, onde a estrada se perdia em direção às cidades do sul. Por um breve momento, o Lobo Branco sentiu um aperto no peito que nenhuma poção poderia curar e nenhuma espada poderia cortar. Ele chamou o nome dela, baixo, quase um sussurro que o vento levou embora antes mesmo de ser ouvido.

— Clara...

Mas não houve resposta debochada. Não houve sermão. Houve apenas o som de seus próprios passos, solitários e pesados, enquanto ele seguia na direção oposta, carregando o peso de uma bênção que, no fim das contas, parecia muito mais com uma maldição.

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