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O Brilho da Aliança e a Sombra do Lobo
A cidade de Oxenfurt fervilhava com a energia caótica que apenas um centro acadêmico e comercial poderia exalar. O cheiro de pergaminho velho, rio poluído e fritura de taverna impregnava o ar, criando uma sinfonia olfativa que Geralt de Rívia geralmente tentava evitar. No entanto, o inverno estava chegando, os contratos de monstros estavam escassos nas montanhas e o ouro em sua bolsa pesava menos do que a consciência de um rei.
Geralt caminhava pelas ruas de paralelepípedos, sua figura imponente e os cabelos brancos atraindo olhares de medo e curiosidade que ele ignorava por puro hábito. Seus sentidos, no entanto, estavam em alerta máximo. Não por causa de um perigo iminente, mas por causa de um som. Um som que ele reconheceria até no meio de uma batalha contra um Grifo.
O dedilhar vibrante de um alaúde e uma voz que, embora irritante para muitos, possuía uma técnica inegável.
Ele seguiu a música até uma taverna chamada "O Tinteiro Quebrado". O lugar era amplo, bem iluminado e frequentado por estudantes e mercadores de classe média — um degrau acima dos pardieiros imundos onde ele costumava encontrar Jaskier no passado.
Ao entrar, o bruxo se posicionou nas sombras perto da porta. No palco improvisado, Jaskier estava radiante. Ele vestia um gibão de veludo azul-celeste com bordados de prata que pareciam custar mais do que o cavalo de Geralt. Ele não parecia o bardo faminto que roubava cenouras de acampamentos; ele parecia um homem de posses, um artista de sucesso.
Mas o que chamou a atenção de Geralt não foi o bardo, e sim a mesa logo à frente do palco. Jaskier terminou uma balada animada sobre um marinheiro e uma sereia, e a taverna explodiu em aplausos. O bardo desceu do palco com um sorriso de orelha a orelha e se dirigiu diretamente a um homem sentado em uma mesa de canto.
O homem era robusto, mas de uma forma sólida e saudável, não como um guerreiro, mas como alguém que trabalhava com as mãos e comia bem. Tinha cabelos castanhos claros e um rosto que exalava uma bondade genuína, daquelas que Geralt raramente encontrava no Caminho.
— Por Melitele, Jaskier! — exclamou o homem, rindo enquanto batia no ombro do bardo. — Se você cantar assim no dia da cerimônia, não haverá um olho seco em toda a cidade.
— Meu caro Henrik — Jaskier respondeu, aceitando uma caneca de cerveja que parecia ser de alta qualidade —, eu pretendo fazer as próprias pedras do castelo chorarem. Nada menos que a perfeição para a minha pequena.
Geralt sentiu um nó estranho no estômago. "Sua pequena". Jaskier sempre se referira a Clara dessa forma, embora ela odiasse o apelido por causa de sua estrutura robusta.
— Ela está nervosa, você sabe — continuou Henrik, o tom de voz tornando-se suave e carregado de afeto. — Passou a manhã inteira discutindo com o alfaiate sobre o caimento da seda. Eu disse a ela que, para mim, ela poderia se casar vestindo um saco de batatas e ainda seria a mulher mais deslumbrante de Redânia.
— Ah, Henrik, você é um romântico incurável — Jaskier zombou, mas seus olhos brilhavam com uma aprovação fraternal. — Mas você conhece a Clara. Ela é braba, teimosa e tem um senso estético apurado. Ela quer que tudo esteja impecável. Especialmente agora que finalmente nos estabelecemos.
Geralt deu um passo à frente, saindo das sombras. A menção ao nome dela foi como um soco físico. Clara. Casamento. Seda.
O bruxo caminhou em direção à mesa. O silêncio começou a se espalhar pelas mesas próximas conforme as pessoas notavam as espadas em suas costas e os olhos de gato. Jaskier foi o último a perceber. Quando o bardo levantou os olhos e encontrou a figura de prata e couro parada diante dele, seu sorriso não desapareceu, mas transformou-se em algo afiado, quase defensivo.
— Ora, ora — disse Jaskier, recostando-se na cadeira com uma calma que Geralt não esperava. — Vejam só o que o vento gelado do norte trouxe para a nossa porta.
— Jaskier — disse Geralt, a voz rouca soando estrangeira naquele ambiente festivo.
— Henrik, este é Geralt — apresentou o bardo, sem se levantar. — Um... antigo conhecido de estrada. Geralt, este é Henrik van de Berg. O melhor mestre-cervejeiro de Oxenfurt e, para minha imensa alegria, o homem que vai finalmente tirar a responsabilidade de cuidar da minha irmã das minhas costas.
Henrik levantou-se prontamente, estendendo uma mão calejada e firme.
— O bruxo! — disse Henrik com um entusiasmo sincero. — Jaskier contou histórias sobre você. Muitas histórias. É uma honra conhecê-lo, senhor.
Geralt olhou para a mão estendida e, após um segundo de hesitação que pareceu uma eternidade, apertou-a. A mão de Henrik era quente. A mão de um homem que tinha uma lareira para voltar todas as noites.
— Você é o noivo dela — constatou Geralt, a voz desprovida de emoção, embora suas entranhas estivessem em chamas.
— Sou o homem mais sortudo destes reinos, isso sim — respondeu Henrik, puxando uma cadeira vaga. — Por favor, junte-se a nós. Jaskier, peça outra rodada da minha reserva especial para o seu amigo.
Geralt sentou-se. Ele se sentia um monstro em um jardim de flores. Henrik e Jaskier continuaram a conversar, e o bruxo apenas ouvia, absorvendo as informações como se fossem veneno.
— Ela não vem hoje, Henrik? — perguntou Jaskier, bebericando sua cerveja.
— Não, ela ficou na loja. Sabe como é, a confeitaria está com encomendas dobradas por causa do festival de outono. Ela disse que, se visse mais um rolo de massa hoje, jogaria na cabeça de alguém.
Henrik riu, um som cheio de adoração.
— Ela ainda tem aquele temperamento, então — comentou Geralt, incapaz de ficar calado.
Jaskier olhou para ele, os olhos azuis frios como o gelo.
— Ela tem muito mais do que temperamento agora, Geralt. Ela tem uma vida. Tem uma casa com cortinas de linho, um jardim onde planta suas próprias ervas medicinais — não para curar cortes de espada de bruxos ingratos, mas para fazer chás para as vizinhas — e tem um homem que a olha nos olhos e diz que ela é linda antes mesmo de ele tomar o café da manhã.
Geralt sentiu a pontada da provocação, mas não reagiu.
— Fico feliz por ela — disse ele, e a mentira soou pesada até para seus próprios ouvidos.
— Deveria ficar — rebateu Jaskier. — Ela mudou, Geralt. A insegurança que você tanto gostava de alimentar... sumiu. Henrik a vê como ela é. Ele não a vê como "a irmã gordinha do bardo" ou como uma conveniência noturna. Ele a vê como a mulher braba, inteligente e magnífica que ela sempre foi.
— Ela é a alma daquela casa — acrescentou Henrik, sem perceber a tensão entre os outros dois. — No início, ela era um pouco arredia, sabe? Parecia que esperava ser chutada a qualquer momento. Mas eu prometi a ela, no dia em que a conheci, que eu nunca a deixaria caminhar atrás de mim. Ela caminha ao meu lado, ou não caminhamos.
Geralt olhou para a mesa, os dedos traçando as ranhuras da madeira. Ele se lembrou da montanha. Lembrou-se do desprezo que lançara sobre ela para ferir Yennefer, ou talvez para ferir a si mesmo. Lembrou-se de como ela simplesmente aceitara e partira. Ele passara meses dizendo a si mesmo que fora o melhor. Que ela estaria segura. Mas vê-la sendo descrita como a noiva radiante de um mestre-cervejeiro criava uma dissonância cognitiva que ele não sabia como processar.
— O casamento é em três dias — disse Jaskier, quebrando o silêncio. — Não que eu esteja te convidando, Geralt. Honestamente, sua presença seria... perturbadora. Clara está em paz. E eu gostaria que ela permanecesse assim.
— Eu não vim para causar problemas — disse Geralt.
— Você é um problema ambulante, Geralt de Rívia — Jaskier retrucou, inclinando-se para a frente. — Você a teve por anos. Ela cuidou de você, ela te amou com uma pureza que você não merecia, e você a tratou como se ela fosse lixo sob suas botas de couro legítimo. Agora, ela tem um homem que daria a vida por ela e que a assume diante de todo o conselho da cidade.
Henrik parecia um pouco desconfortável agora, percebendo que havia uma história muito mais obscura ali do que ele imaginava.
— Jaskier, talvez não seja a hora... — começou o noivo.
— É a hora perfeita — disse o bardo. — Geralt precisa saber que o mundo não parou porque ele decidiu ser um idiota. A Clara que aceitava humilhação não existe mais. A mulher que você vai encontrar na "Confeitaria da Rosa Branca", na rua dos artesãos, é uma mulher que não precisa de bruxos.
Geralt levantou-se abruptamente. A cadeira arrastou-se com um ruído estridente.
— Obrigado pela cerveja, Henrik — disse ele, a voz seca. — Desejo... desejo que vocês sejam felizes.
Ele virou as costas e saiu da taverna antes que Jaskier pudesse dizer mais nada. O ar frio da noite de Oxenfurt atingiu seu rosto, mas não foi suficiente para resfriar o sangue que fervia em suas veias.
Ele não deveria ir. Ele sabia que não deveria ir. Um bruxo não sente, ele repetia para si mesmo, uma mentira que se tornara seu mantra pessoal. Mas seus pés, agindo por conta própria, o levaram em direção à rua dos artesãos.
A loja era pequena, mas impecavelmente cuidada. Através da vitrine de vidro, iluminada por velas, ele a viu.
Clara estava de costas, usando um avental enfarinhado sobre um vestido verde escuro que abraçava suas curvas de uma forma que a fazia parecer uma deusa da fertilidade da terra. Seu cabelo estava preso em um coque prático, mas alguns fios rebeldes escapavam, emoldurando seu rosto.
Ela estava rindo de algo que uma assistente jovem dizia. E então, ela se virou para pegar uma bandeja de pães doces.
Geralt prendeu a respiração.
Ela parecia diferente. Não era apenas o peso, que ela agora carregava com uma dignidade majestosa, nem as roupas melhores. Era o olhar. O brilho de autoconfiança, a ausência daquela sombra de dúvida que sempre a perseguia quando ela estava perto dele. Ela parecia... completa.
Ele a viu tocar uma pequena aliança de ouro em seu dedo anelar, um gesto inconsciente de carinho enquanto falava sobre o trabalho.
Geralt deu um passo em direção à porta, sua mão enluvada hesitando na maçaneta de metal. Ele podia entrar. Podia pedir desculpas. Podia dizer que o silêncio da estrada tinha sido insuportável sem o deboche dela. Podia dizer que, nas noites mais frias, ele ainda procurava pelo calor do corpo dela ao seu lado.
Mas, naquele momento, um homem entrou na loja por uma porta lateral. Não era Henrik, mas um entregador de lenha. Clara o cumprimentou com um sorriso radiante, trocando algumas palavras alegres, e o homem a tratou com um respeito óbvio, chamando-a de "Mestra Clara".
Geralt recolheu a mão.
Se ele entrasse, ele traria a sombra. Traria o cheiro de sangue, o peso das cicatrizes e a lembrança de todas as vezes que a fizera chorar. Ele traria a humilhação de volta para a vida dela.
Ele a viu pegar um pedaço de doce e oferecê-lo à assistente, rindo quando a menina se sujou de açúcar. Era uma cena de paz tão absoluta que Geralt sentiu que sua mera presença do lado de fora do vidro já era um tipo de profanação.
Ele se lembrou das palavras de Henrik: "Ela caminha ao meu lado, ou não caminhamos".
Geralt olhou para suas próprias mãos. Mãos feitas para matar. Mãos que nunca souberam segurar nada com delicadeza por tempo suficiente para que criasse raízes.
Ele deu um passo para trás, voltando para a escuridão da rua.
— Seja feliz, Clara — sussurrou ele, a voz sumindo no ruído da cidade.
Ele caminhou de volta para a estalagem onde deixara Carpeado. Ele partiria ao amanhecer. Havia um contrato sobre um lobisomem em Velen, um lugar de lama e miséria que combinava muito mais com ele do que as ruas limpas de Oxenfurt.
Naquela noite, Geralt de Rívia não dormiu. Ele limpou suas espadas, verificou suas poções e tentou ignorar a imagem de uma mulher gordinha e braba que finalmente encontrara o sol. Ele era um bruxo, e bruxos não sentiam.
Mas, enquanto ele cavalgava para fora dos portões da cidade na manhã seguinte, o Lobo Branco sabia que a maior batalha que ele já perdera não fora contra um monstro, mas contra o próprio orgulho, em uma montanha distante, onde ele deixara a única pessoa que realmente o vira como homem, e não como arma.
E agora, o silêncio que ele tanto buscara era a única coisa que lhe restava. Um silêncio que, pela primeira vez, pesava muito mais do que a prata em suas costas.