Gelo ardente
Gelo Queimado e Cicatrizes de Tallinn
O vestiário feminino estava mergulhado em um silêncio cortante, quebrado apenas pelo som rítmico do sistema de ventilação. Julia Cenci sentou-se no banco de madeira, os patins ainda calçados, as lâminas protegidas pelas capas de borracha. Suas mãos tremiam levemente. Não era o frio. Era a adrenalina residual do beijo de Ilia e a fúria absoluta por ter permitido, mais uma vez, que ele invadisse seu espaço pessoal e sua mente.
Ela olhou para o espelho à sua frente. O batom estava levemente borrado no canto inferior da boca, uma evidência silenciosa do que acabara de acontecer no corredor. Com um gesto brusco, ela limpou a mancha com as costas da mão, sentindo a pele arder.
— Idiota — sussurrou para o reflexo. — Ele é um idiota completo.
Julia sabia que a provocação de Ilia não era apenas sobre o beijo. Era sobre poder. Desde aquela noite em Tallinn, quando tinham quinze anos, a dinâmica entre eles havia se transformado em um jogo de xadrez perigoso onde o tabuleiro era feito de gelo e as peças eram as suas próprias sanidades.
Ela se lembrava vividamente daquela noite. O quarto de hotel cheirava a carpete velho e ao perfume barato de algum sabonete de hotel. Ela estava tão vulnerável, tão devastada pelo quarto lugar, que a arrogância de Ilia pareceu, por um breve momento, a única coisa sólida à qual ela poderia se agarrar. Ele não tinha sido gentil — Ilia Malinin não sabia o que era gentileza na época —, mas ele tinha sido real. E, no calor daquele momento impensado, ela entregou a ele algo que nunca poderia recuperar.
O problema era que Ilia guardava aquela memória como se fosse um troféu, uma vantagem competitiva que ele usava para desequilibrá-la antes de cada salto, de cada programa curto, de cada final.
A porta do vestiário se abriu e Sergei entrou, cruzando os braços sobre o peito largo. O treinador russo tinha uma expressão que oscilava entre a decepção e a curiosidade.
— Você está distraída, Julia — disse ele, a voz grave ecoando nas paredes de azulejo. — Aquele erro no triplo Axel... não foi técnico. Foi mental.
Julia começou a desamarrar os cadarços dos patins, evitando o olhar do treinador.
— Eu sei, Sergei. Eu me desconcentrei por um segundo. Não vai acontecer de novo no programa longo.
— Espero que não. O americano está lá fora, rindo com os jornalistas e fazendo quádruplos saltos como se estivesse brincando no quintal de casa. Se você quer o pódio amanhã, precisa tirar o que quer que esteja na sua cabeça e colocar no gelo.
— Eu vou — prometeu ela, a voz firme, embora seu coração ainda estivesse acelerado.
Após Sergei sair, Julia trocou de roupa rapidamente. Ela queria sair dali, evitar a zona mista, evitar as câmeras e, acima de tudo, evitar Ilia. Mas o destino, ou talvez o senso de humor doentio de Malinin, tinha outros planos.
Ao sair pelas portas laterais da arena em direção ao transporte dos atletas, ela o viu. Ele estava cercado por um pequeno grupo de fãs, distribuindo autógrafos com aquela facilidade irritante de quem nasceu para ser o centro das atenções. Quando seus olhos se cruzaram com os dela por cima da cabeça de uma adolescente entusiasmada, o sorriso de Ilia se transformou em algo mais predatório.
Ele terminou de assinar um cartaz, disse algo que fez as garotas rirem e caminhou na direção de Julia antes que ela pudesse desviar o caminho.
— Fugindo tão cedo, Cenci? — perguntou ele, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta da equipe dos EUA. — Eu achei que a gente ainda tinha alguns pontos para discutir sobre a sua técnica de... aproximação.
Julia parou, respirando fundo e forçando-se a manter a expressão de "Dama de Gelo" que cultivara em Moscou.
— Não temos nada para discutir, Ilia. O que aconteceu no corredor foi um erro. Outro erro para a lista.
— Um erro bem longo, então — ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Você demorou para me empurrar. Na verdade, eu tive a nítida impressão de que você estava retribuindo.
— Você é um narcisista — retrucou ela, sentindo o calor subir pelo pescoço. — Você acha que o mundo gira em torno dos seus saltos e do seu ego.
— E não gira? — Ele arqueou uma sobrancelha, o brilho de desafio nos olhos azuis. — Olhe ao redor, Julia. Eu sou o futuro desse esporte. E você... você é a única pessoa que consegue deixar esse futuro interessante. Patinar contra robôs é chato. Patinar contra você, sabendo que eu posso te desestruturar com apenas uma palavra... isso é divertido.
Julia sentiu uma vontade súbita de esbofeteá-lo, mas sabia que isso só lhe daria mais prazer.
— Você acha que Tallinn te dá algum direito sobre mim? — perguntou ela em voz baixa, a voz carregada de um veneno que ela raramente usava. — Foi uma noite, Ilia. Tínhamos quinze anos, estávamos bêbados e tristes. Significa nada. Zero.
O sorriso de Ilia vacilou por um milésimo de segundo. Foi quase imperceptível, mas para alguém que o observava há anos, Julia viu a pequena rachadura na sua armadura de confiança.
— Se significa nada — disse ele, a voz agora mais rouca —, por que você ainda treme quando eu chego perto? Por que sua mão tocou o gelo hoje quando eu pisquei para você?
— Porque você é uma distração irritante, não uma memória afetiva — ela mentiu descaradamente.
Ilia soltou uma risada curta e sem humor.
— Você mente tão bem quanto patina, Cenci. Quase acreditei.
Ele se aproximou mais, o suficiente para que ela pudesse sentir o calor vindo do corpo dele, o cheiro de suor e gelo que parecia estar impregnado em sua pele.
— Amanhã é o programa longo — continuou ele, ignorando a frieza dela. — Eu vou fazer o Quad Axel. Vou quebrar o recorde mundial. E enquanto eu estiver no ar, vou estar pensando em como você vai ficar com inveja quando eu subir naquele pódio.
— E eu vou estar pensando em como vai ser satisfatório ver você cair de cara no gelo por causa desse seu excesso de confiança — Julia rebateu, os olhos fixos nos dele.
— Quer apostar? — desafiou ele, o rosto a centímetros do dela.
— Eu não aposto com crianças.
— Se eu vencer amanhã — Ilia ignorou o insulto, sua voz descendo para um sussurro que enviou arrepios pela espinha de Julia —, você vai jantar comigo. Sem treinadores, sem câmeras, sem essa sua máscara russa de gelo.
Julia soltou uma risada sarcástica.
— E se eu vencer? Ou se você perder?
— Se você ficar à frente de mim na pontuação geral, ou se eu errar o Axel... eu te deixo em paz. Não falo mais de Tallinn, não te provoco nos corredores, finjo que você é apenas mais uma patinadora comum.
O coração de Julia deu um salto. Era o que ela sempre quis, não era? Paz. O fim das provocações constantes. O fim do lembrete diário de que ela tinha se entregado ao seu maior rival. Mas, ao olhar para Ilia, ela sentiu um vazio estranho no estômago diante da ideia de ele simplesmente ignorá-la.
— Fechado — disse ela, estendendo a mão.
Ilia olhou para a mão dela e, em vez de apertá-la, envolveu os dedos em volta do pulso de Julia, puxando-a levemente para mais perto.
— Prepare o seu melhor vestido, Cenci. Eu não pretendo perder.
Ele soltou o pulso dela e se afastou com passos largos, deixando-a parada no meio do estacionamento, o vento frio do inverno canadense soprando seus cabelos.
Naquela noite, no hotel, Julia não conseguiu dormir. Ela repassou sua coreografia mil vezes na mente, mas as imagens de Ilia continuavam se infiltrando. Ela se lembrava de Tallinn não com arrependimento, mas com uma confusão que a assombrava. Naquela noite, ele não tinha sido o "Quad God". Ele tinha sido apenas um garoto que, por um momento, pareceu entender a solidão de estar no topo.
Ela se levantou e foi até a janela, observando as luzes da cidade. O hotel dos atletas era o mesmo, o que significava que Ilia estava apenas alguns andares acima ou abaixo dela.
— Por que você tem que ser assim? — perguntou ela para o escuro.
No dia seguinte, a atmosfera na arena estava elétrica. Era a final masculina e feminina combinada para o evento principal. Ilia se apresentou primeiro. Julia assistiu de um monitor nos bastidores, o coração na boca.
Ele foi impecável. O Quadruplo Axel foi tão alto e tão perfeito que parecia que ele tinha asas. Quando ele terminou, a multidão explodiu. A pontuação foi histórica. Ele saiu do gelo com o peito estufado, o rei absoluto.
Ao passar por Julia no caminho para o "Kiss and Cry", ele não disse nada. Apenas deu aquele sorriso torto e apontou para o relógio no pulso. *O jantar está marcado*, o gesto dizia.
Julia sentiu uma onda de fúria e determinação. Ela entrou no gelo sob os aplausos para o americano. O gelo ainda tinha as marcas das lâminas dele. Sergei deu um aceno seco da borda.
A música começou. Uma peça dramática de Rachmaninoff. Julia patinou como se sua vida dependesse daquilo. Ela não era apenas técnica; ela era pura emoção reprimida. Cada salto era uma resposta a Ilia. Cada giro era uma forma de expulsá-lo de seus pensamentos.
No último salto, um triplo Lutz-triplo Toe loop, ela aterrissou com uma perfeição cristalina. Ao terminar, ela estava ofegante, as lágrimas ameaçando cair. Ela sabia que tinha feito a melhor apresentação de sua vida.
A pontuação saiu. Ela venceu a categoria feminina por uma margem enorme. No ranking geral de "performance técnica" do evento, ela estava apenas alguns décimos atrás de Ilia. Tecnicamente, ele venceu o ouro masculino e ela o feminino, mas a aposta era sobre quem teria a melhor execução.
Julia saiu do gelo e encontrou Ilia parado perto da saída, longe dos fotógrafos. Ele não parecia tão convencido agora. Ele olhava para o painel de resultados com uma expressão séria.
— E então? — perguntou ela, aproximando-se, o protetor de lâmina estalando no chão. — Quem ganhou a aposta?
Ilia olhou para ela. Havia algo diferente em seus olhos — um respeito relutante que ele raramente mostrava.
— Você foi incrível, Julia. De verdade.
— Não mude de assunto, Malinin. Os números.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo bagunçado.
— Tecnicamente, minha pontuação total é maior por causa da base dos quádruplos. Mas... sua nota de componentes artísticos destruiu a minha. Se formos olhar pelo critério de execução pura... você me venceu por 0.12.
Julia sentiu um triunfo doce percorrer suas veias.
— Então, você vai cumprir a promessa? Silêncio total? Vai me deixar em paz?
Ilia deu um passo à frente, a confiança voltando gradualmente ao seu rosto.
— Eu sou um homem de palavra, Cenci. Se é isso que você realmente quer... se você quer que eu finja que aquela noite nunca aconteceu e que eu não sinto o que sinto toda vez que te vejo... então eu farei.
Ele começou a se afastar, os ombros tensos.
Julia sentiu um aperto súbito no peito. O silêncio que ela tanto buscou agora parecia insuportável. A ideia de Ilia Malinin passando por ela como se ela fosse uma estranha era pior do que qualquer provocação maldosa.
— Ilia, espere — chamou ela.
Ele parou e se virou, uma sobrancelha arqueada.
— O que foi? Veio comemorar sua liberdade?
Julia mordeu o lábio inferior, sua fachada de gelo derretendo sob o calor daquele olhar.
— A aposta era sobre quem vencia. Mas... eu ainda estou com fome.
Um sorriso lento e vitorioso começou a se espalhar pelo rosto de Ilia. Não era o sorriso irritante de antes, mas algo mais genuíno, mais perigoso.
— O jantar ainda está de pé? — perguntou ele, a voz suave.
— Só se você prometer não falar de técnica de patinação — disse ela, caminhando até ele. — E se você pagar a conta.
Ilia riu, estendendo o braço para ela de uma forma surpreendentemente cavalheiresca.
— Fechado. Mas não prometo não falar de Tallinn. Afinal, foi lá que eu descobri que a Dama de Gelo tem um coração que bate muito rápido quando eu estou por perto.
Julia revirou os olhos, mas aceitou o braço dele.
— Você é insuportável.
— E você me ama por isso — ele sussurrou no ouvido dela enquanto caminhavam para fora da arena, deixando para trás o gelo, as medalhas e a rivalidade, pelo menos por uma noite.
A guerra entre o Brasil e os EUA estava longe de terminar, mas, naquele momento, as fronteiras pareciam muito menos importantes do que o calor de estarem um ao lado do outro. E enquanto caminhavam pela neve em direção ao restaurante, Julia sabia que, por mais que tentasse lutar, Ilia Malinin sempre seria o único capaz de fazê-la quebrar todas as suas próprias regras.